Resumo da Filosofia de Platão: Teoria das Ideias, Mundo Sensível e Psicologia

Platão

Platão foi o maior filósofo de todos os tempos. Na minha opinião, sua filosofia é a mais completa, metafísica e humana que a de Aristóteles. Seus escritos em forma de diálogo são de uma beleza incomparável em relação a qualquer outro filósofo que já tenha existido. Vou analisar a filosofia platônica em seus principais aspectos, como o mundo das Ideias, a psicologia, a existência de Deus, o domínio da opinião, a moral e a política.

A Ideia

No começo, podemos definir a  teoria das Ideias dizendo que o mundo sensível é apenas uma cópia do mundo ideal, e que o objeto da ciência é o mundo real das Ideias. O mundo inteligível é estudado na dialética, e o mundo sensível é o domínio da opinião ( DOXA).

A existência do mundo Ideal é baseada em duas provas, segundo Thonnard: uma de ordem lógica, e outra de ordem ontológica.

A prova lógica: Platão em nenhum momento põe em dúvida a existência da ciência, que para ele é um fato indiscutível; então, é necessário um objeto estável e permanente, que possa permanecer no espírito. Ora, para Platão, esse objeto não se encontra no mundo sensível, pois ele acredita, como Heráclito, que o mundo é “um infinito e perpétuo tecido de movimentos”, onde “tudo passa como as águas das torrentes”, sendo que nada permanece estável. Surge, então, a necessidade da ciência encontrar seu objeto: o mundo inteligível das Ideias.

Prova Ontológica: Thonnard diz que o mundo sensível prova a existência do mundo ideal como sombra da realidade. Sabemos disso pois os objetos desse mundo são mais ou menos perfeitos, e estas participações supõem a existência de uma fonte que possui a perfeição em estado pleno. Esse é o mundo inteligível, que é o objeto da ciência.

A pluralidade das Ideias podem ser provadas de duas maneiras: uma prova direta e outra indireta.

Thonnard assim define essas provas: a prova direta é resultado da experiência racional, e o objetivo é libertar do mundo sensível as perfeições estáveis. O mundo sensível não pode apresentar um objeto real que possa ser fonte de um conhecimento científico, por isso é necessário pedir auxílio ao mundo das Ideias.

Prova indireta: Sabemos que negar a pluralidade das Ideias destruiria toda a ciência, pois ela é um sistema coordenado de juízos. Para a ciência existir são necessários objetos estáveis para um ser inteligível, e também uma pluralidade de Ideias para construir um conjunto de juízos. Sendo assim, Thonnard conclui que deve-se conceder a Heráclito que os objetos sensíveis estão em perpétua variação e misturados com seus contrários; que devemos rejeitar Parmênides, pois o Ser que tem estabilidade desejada, mas destrói todo o juízo pela sua absoluta unidade; por último, Sócrates liberta do sensível perfeições múltiplas, mas estáveis, que podem definir-se. O objeto da ciência não é o mundo sensível, mas os gêneros que Sócrates definiu, tantos os substanciais, como as qualidades, pois esse é o mundo das Ideias.

A natureza das Ideias

Platão definiu quatro propriedades:

A espiritualidade, que são de ordem inteligível, portanto, invisíveis aos olhos humanos e apreendidas pela inteligência

A realidade, pois para Platão as Ideias não são conceitos abstratos do espírito, nem pensamentos do Espírito divino, mas são realidades subsistentes e individuais, sendo objeto da contemplação científica e fonte das realidades da terra. Da realidade, derivam-se duas propriedades:

A imutabilidade, que exclui toda a mudança, pois são eternas;

A pureza, pois realiza a essência plenamente e sem mistura, e cada uma na sua ordem é perfeita.

Método de Platão

No filósofo grego, o método principal é o dialético, com um aspecto lógico, um psicológico e a doutrina metafísica da participação das Ideias.

O aspecto lógico é a continuação do método Socrático, em que Platão insiste no papel da purificação; propõe que a razão incite à investigação das essências graças à Dialética do amor, e conduz o espírito por degraus sucessivos até à intuição do mundo ideal.

O método da purificação é àquele que procura liberar a alma intelectual do peso da matéria através do domínio do eu. Controlando às paixões desordenadas, submetendo as tendências inferiores à razão, o homem está a caminho das realidades eternas, porque as coisas do mundo sensível não são mais do que a sombra. Libertando à alma do corpo, ela eleva-se até o mundo das Ideias, pois o objetivo do filósofo, segundo Platão, é aprender a morrer( Fedon).

O mundo Sensível e o domínio da opinião 

Platão diz no Timeu: ” O que é fixo e imutável supõe razões fixas e imutáveis. Quanto à imitação do que é imutável, convém falar dela em forma verossímil e analógica… Posto que as minhas palavras não tenham mais inverossimilhança que as dos outros, há que nos contentarmos com elas…convém em semelhante matéria limitarmo-nos a discursos verossímeis.” Thonnard explica que isso sugere explicações de ordem mítica.

O mundo sensível possui em primeiro grau as percepções efêmeras das coisas sensíveis. Thonnard explica que a atenção para ouvir ou recordar-se de belas músicas, procurando a mais harmoniosa, só dá origem à conjectura.

No segundo grau temos o esforço de estabilização em que se esboçam as definições científicas; porém, fica incompleto e provisório porque se baseia em opiniões aceitas pelo povo ou transmitidas por poetas e tradições religiosas( mitos como o narrado em Fedro, em que o cavalo branco representa o coração, e o cavalo negro a concupiscência).

A existência de Deus

Platão recorre ao mito para provar a existência de Deus. Temos duas provas:

Prova baseada na existência do mundo: Deus é o Demiurgo. Platão reconheceu que para uma obra ter origem, é necessário que haja um artífice, e expõe o seu Demiurgo em linguagem mítica. Ele, depois de ter contemplado o mundo Ideal, decidiu fazer o universo à sua imagem.

Prova baseada no movimento: Deus é a alma real. Platão verifica que o mundo está sujeito a um movimento ordenado, como o movimento circular das esferas celestes, que é pela sua estabilidade, a própria imagem da inteligência. Para que exista o movimento, é necessário um motor. Platão sugere dois motores: um corpóreo e a alma. O corpo é inerte e é sempre movido por um outro antes de se mover, e a alma é o motor que tem em si o princípio de seu movimento, e pode comunicá-lo sem receber antes( As Leis). a alma domina o corpo que morre.

A psicologia

Para Platão, a alma está acidentalmente unida ao corpo, e é uma substância espiritual completa. Existem três teorias para estabelecer essa doutrina:

A preexistência da alma que é definida pela teoria da reminiscência, porque Platão desconhecia a criação ex nihilo do judaísmo e cristianismo, de forma que explicar a existência de ideias presentes em nós desde o nascimento ficava impossível a não ser por uma vida anterior. Platão explica essa vida anterior por um mito em que as almas cometem certas faltas e são punidas com a união com o corpo humano.

A união acidental da alma com o corpo difere a teoria de Aristóteles, porque Platão acreditava que o corpo impedia a alma de alcançar à sabedoria por imposição de necessidades tirânicas, e que a alma prejudicava o corpo porque investigações filosóficas profundas levavam à exaustão corporal.

A imortalidade da alma que pode ser demonstrada pela participação no mundo ideal, na Ideia da vida e na necessidade moral.

A moral

Platão quer que a Ideia do bem seja derramada na natureza humana. A felicidade para ele não está identificada com o prazer, pois era isso que os sofistas pregavam. Falta ao prazer estabilidade e plenitude, pois novos desejos levam a novos sofrimentos em um movimento que parece não ter fim. Ele identifica a sabedoria com a felicidade, mas acredita na desigualdade das inclinações dos homens para a prática da virtude; uns se contentariam com a coragem, outros com a temperança; poucos, no entanto, buscariam à virtude perfeita. Esses possuiriam o germe divino da sabedoria.

O Estado para Platão

A existência do Estado é necessária para a prática da virtude, mas Platão o concebia como pequenas cidades autônomas. Dividia o povo em classes sociais como os trabalhadores, os guerreiros, os arcontes e os escravos. Nesse ponto ,Platão tem uma vantagem monumental sobre Aristóteles, que Thonnard, fiel ao seu aristotelismo dogmático, não menciona: ele considera a escravidão um mal e que deveria ser evitado. Nas penas da vida após à morte do Hades platônico está a de ter possuído escravos. Platão também sugeriu a igualdade de homens e mulheres, concedendo uma grande dignidade a essas últimas. A educação deveria ser igual para ambos os sexos. A forma de governo mais adequada para os cidadãos é a aristocracia ou a monarquia, de preferência governada por um rei-filósofo. A democracia é condenada.

Agora Platão nos narra o seu mito da caverna. Voegelin diz que o mito prepara o conhecimento da PAIDEIA. A educação de um homem é incompleta se ele não experimentou a verdade da alma, a PERIAGOGE. Depois do homem ser solto da caverna e ter experimentado a contemplação divina, ele quer ficar lá para sempre(517). Esse homem( filósofo) que experimentou a eudaimonia irá sentir-se inclinado a permanecer na contemplação e não irá querer voltar para os seus companheiros prisioneiros. Haveria então a tentação de esse filósofo tornar-se apolítico. Mas ele deve descer e sacrificar-se à polis.

Ele então desce( KATABATEON). Sócrates desceu para ajudar os prisioneiros da caverna e consegue discernir as sombras(EIDOLA) das coisas reais. Como o filósofo viu o AGATHON, a polis sob seu comando será governada com uma mente desperta( HYPAR) em vez de ser conduzida como as outras Pólis como num sonho(ONAR)

***

A filosofia platônica foi adotada pela igreja católica até o século XIII, herdada pelos padres da igreja, especialmente Santo Agostinho. A partir de São Tomás de Aquino, e pelas influências de Aristóteles, a posição da igreja em relação à mulher muda: a igreja que antes concedia grande liberdade para as mulheres no cristianismo, permitindo até o divórcio, torna-se hostil a essas liberdades, pregando a clausura para as freiras e impedindo algo completamente natural e humano que é o divórcio. A mesma filosofia aristotélica que criou dificuldades para São Tomás de Aquino em relação à escravidão, impediu a igreja católica de oferecer respostas ao gigantesco tráfico de seres humanos vindos da África para as Américas. Os protestantes ingleses, hostis a Aristóteles, e mais abertos a Platão, foram aqueles que iniciaram o movimento abolicionista mundial.

Bibliografia: F.J.Thonnard, Compêndio de História da Filosofia

Eric Voegelin, Ordem e História, Platão e Aristóteles

Abaixo seguem alguns resumos das principais obras de Platão

Filebo

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Filebo é um diálogo que trata do prazer. Sou da opinião que antes de ler esse diálogo o leitor já deve ter lido o Parmênides e o Político para uma melhor compreensão. Participam do diálogo três personagens: Sócrates, Protarco e Filebo. No início, Filebo faz a afirmação de que a vida de prazeres é mais desejável do que a vida do saber. Sócrates então sugere que se for demonstrado que o prazer é superior e não precisa de nenhum outro bem, então o prazer será o vencedor; caso seja o saber, o mesmo acontecerá. Uma pequena discussão entre Sócrates e Protarco acontece pelo fato desse último não fazer uma diferenciação entre os graus dos prazeres. Depois de algumas perguntas e respostas, Sócrates vence o debate.

Começa então um debate sobre as relações do Uno e do Múltiplo. Nesse ponto, Giovanni Reale( Para uma nova interpretação de Platão) afirma que “depois de ter destacado que a conexão do Uno e dos Múltiplos estabelecida pelo raciocínio encontra-se em toda parte e sempre, em todas as coisas de que se fala, Platão explica que, para superar as dificuldades que isso comporta, é necessário proceder pela via pela qual foram feitas todas as descobertas no âmbito das artes”. Platão fala sobre o mito do deus Thoth e como ele criou a arte da gramática, pois o homem com as vogais e consoantes isoladas não podia, por si só, compreendê-las. A voz, diz Reale,” é uma espécie de Ideia e também é uma multiplicidade ilimitada em cada um e em todos”. Com isso “obtém-se uma trama lógico-ontológica traduzível em número, que permite passar, depois, aos sons sensíveis individuais.”(Reale)

O diálogo fala sobre questões metafísicas na sequência. Sócrates que definir o que é ilimitado, o limitado e a mistura para saber a natureza do Uno e do bem, pois uma vida apenas de saber ou de prazer é impossível.Ora, lendo o diálogo entendemos que Sócrates fala  sobre o que é ilimitado, como o são o frio e o quente, e o limitado, que são o dobro e a classe dos números que tudo torna harmonioso, com isso o que é lento e rápido formam a harmonia da música, e o quente e o frio geram as estações. Sócrates então afirma: “Essa deusa, belo Filebo, observando como o excesso e a perversidade universal conquistavam a predominância, devido à ausência de limite para os prazeres e o seu gozo, instaurou a lei e a ordem, que impõem limite. Dirias que ela, com isso, causou dano; eu, ao contrário, diria que ela promoveu a salvação.”

Com isso temos quatro categorias: o limitado, o ilimitado, a mescla entre esses dois e a quarta que é a causa dessa mescla e geração que é o Demiurgo. Com isso estabelecido, Sócrates reafirma  que a inteligência ( Nous) é  o nosso rei no céu e na Terra  e define o homem como uma mistura de prazer e saber. O livro é um pouco parecido com a Ética a Nicômaco de Aristóteles. O meio-termo é buscado durante o diálogo, e o Uno é considerado a causa da mistura, a coisa de supremo valor, e que por ser o bem, o Uno transforma a mistura em algo bom também( Reale).

Max Pohlenz define de maneira admirável o que Platão entendia como Medida: ” Para Platão, a eudaimonia consiste em um prazer puro: a alegria refere-se ao belo sensível, no qual entram em primeiro lugar as formas geométricas e o gozo que traz a atividade espiritual(…) Pode nos parecer estranha a importância atribuída à medida, posta no vértice da escala de valores: mas na realidade Platão entende por medida o absoluto, e escolhe essa denominação porque o absoluto inclui em si não só o bem entendido em sentido finalístico, mas também o belo e um princípio de ordem e de proporção e constitui a causa primeira do seu existir concreto e a norma da sua exata mistura.” ( citado em Reale)

Político

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Político é um diálogo desafiador de Platão pois envolve mitos e diversas metáforas. Trata-se da continuação de O Sofista, mas é possível compreender essa obra ( Político) mesmo sem ter lido O Sofista. Participam desse diálogo Sócrates, Teodoro, o estrangeiro e o jovem Sócrates. Esses dois últimos dominam o diálogo. Podemos dizer que o tema principal é determinar como seria o governante ideal da Pólis. O Estrangeiro determina que o Rei será mais teórico ( gnostikes) do que prático, e que durante o diálogo serão unificados o conhecimento político e o homem político, ou seja, o conhecimento régio e o Rei. Farei uma exposição do mito dos ciclos cósmicos com a ajuda do filósofo Eric Voegelin, que escreveu sobre o Político em seu livro Ordem e História-Platão e Aristóteles.

O mito apresentado pelo Estrangeiro fala de Cronos e seu reinado. Durante um período, diz Platão, o próprio Deus acompanha o universo, e depois de um certo período em que os círculos completam a medida do tempo, o deus deixa o universo por iniciativa própria. Isso faz com que  o movimento seja feito no sentido contrário. Platão faz uma observação que a imutabilidade absoluta faz parte das coisas divinas, por isso o corpo não faz parte dessa classe de coisas. Em um determinado momento o universo é movido circularmente pelo deus. Em uma parte  a causa divina é extrínseca, quando lhe é retransmitida a vida e a imortalidade a partir do Demiurgo. Em outro momento o universo é deixado por conta de si mesmo.Diz Eric Voegelin:” a alternância de movimento afeta não só o domínio da natureza, mas também o domínio do homem na sociedade. No primeiro ciclo, o próprio deus supervisiona o Cosmos, enquanto as várias partes do Cosmos eram colocadas sob a supervisão de divindades exteriores.” Nesse período, diz ainda Voegelin, “o próprio Deus era o pastor dos homens; nessa época não havia governo ( poiliteia).” Os homens tudo possuíam nessa era de Cronos.

O Estrangeiro fala sobre as mudanças que ocorrem no universo. Em algumas épocas grandes destruições ocorrem aos seres vivos e apenas uma parte dos homens sobrevive. Isso foi causado, segundo Voegelin, pela introdução do elemento corporal na ordem cósmica.  Isso produziu uma mudança na natureza pois os homens pararam de envelhecer e inverteram o processo, ficando cada vez mais jovens com o passar do tempo. Os homens nessa época não se reproduziam pelo sexo, mas nasciam da terra. O Estrangeiro lamenta que o relato dos velhos não sejam mais levados a sério. Os mortos voltam à vida, pois o processo de nascimento é invertido da mesma forma que o movimento circular do universo. Só haveria uma exceção que o deus reservou para um outro destino: essa exceção seriam os filósofos. Nesse período do reinado de Cronos, o governo foi dividido entre os deuses e os seres vivos eram governados pelos daimons, de maneira que não eram selvagens e nem se devoravam uns aos outros.

O Estrangeiro pergunta ao jovem Sócrates qual era a melhor época para se viver: a de Cronos ou a atual de Zeus? O jovem Sócrates pede uma explicação pois não sabe responder. O Estrangeiro diz que supostamente os homens nesse tempo aproveitavam todas as oportunidades para se ocuparem da filosofia e aprenderem com os animais, uma vez que nessa época essa conversação era possível. Ora, chegou o momento em que o ciclo de renascimentos chegou ao fim e que o Timoneiro  largou o timão e se retirou para o posto de vigia. A era dos homens nascidos da terra chegou ao fim. O universo passou a se mover inversamente. Houve então uma grande colisão no universo que produziu um aniquilamento dos seres vivos. Depois de um certo tempo o universo se estabilizou e pôde recordar os ensinamentos do artífice e pai, no começo de maneira mais exata, mas depois de uma maneira negligente pela introdução do elemento corpóreo em sua composição.

Então nesse momento, o homem foi abandonado à própria sorte, e ficou exposto às feras selvagens e teve que aprender a cuidar de si. Como escreve Voegelin, Platão rejeita como mito as fábulas dos deuses como Prometeu que teriam ajudado os homens em invenções que fariam avançar a civilização.Enquanto o timoneiro governava, ele produziu  poucos males e grandes bens, diz o Estrangeiro. Nesse momento o mito é encerrado pelo fato do Estrangeiro dizer que é suficiente a apresentação do governante régio. O mito da Idade do Ouro é rejeitado porque implica uma renúncia à consciência filosófica, diz Voegelin.

Platão sugere que a ordem será restaurada pelo restaurador Régio, o que se assemelha muito com a concepção de Joaquim de Fiore do dux. No entanto, como observou Voegelin, “o dux surge de uma tensão entre uma civilização em crescimento e uma ideia de declínio, enquanto o governante platônico surge da tensão entre um declínio político real e uma nova substância espiritual.” A ideia de Joaquim de Fiore de uma realização plena com representantes do orgulho civilizacional foi realizada pelos progressistas do século XVIII, por Comte, Marx, Mill, Lenin e Hitler, escreve Voegelin, enquanto a realização platônica é feita com uma crescente ordenação espiritual de um mundo em desordem por meio da figura de Alexandre, da ordem imperial romana e de Cristo ( Eric Voegelin, Ordem e História, Volume III).

Político pretende explicar qual será a personalidade e as qualidades que o governante régio deverá possuir. No final do capítulo que trata do Político, Voegelin escreveu essas palavras:” O governante régio é o mediador enter a realidade divina da Ideia e as pessoas; ele é o Zeus que rejuvenesce a ordem que envelheceu; é o médico que cura as almas fazendo-as renascer no meio celestial ( en daimonio genei); e, ao promover esse renascimento das almas, ele proporciona à pólis uma nova substância comunitária ( homonoia) espiritual. É supérfluo destacar de forma detalhada o paralelo entre essa evocação platônica e a concepção paulina da comunidade cristã, unida num só corpo místico por meio do renascimento no Espírito de Cristo, que deriva a sua coerência da harmonia (homonoia) de seus membros e supera a diferença de talentos e caracteres pelo agape. Em vez disso, é necessário enfatizar a diferença fundamental de que o renascimento platônico da comunidade não é a salvação da humanidade, mas um retorno à juventude do cosmos que será seguido, de acordo com a lei inescrutável de Heimarmene, por um novo declínio”. ( Eric Voegelin, Ordem e História, Volume III)

Parmênides

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Não há filósofo na história que escreva melhor do que Platão; pode-se dizer que desde então a qualidade literária dos filósofos vem em uma longa decadência. Como foi possível que um tema tão complexo e que poucas pessoas realmente demonstraram interesse em ler e aprender o que Platão queria ensinar, pudesse ser colocado em palavras e diálogos tão belos e profundos? Nesse caso, poucos são aqueles que podem dizer que entenderam esse que é o mais desafiador dos diálogos de Platão. Se eu dissesse que entendi em profundidade estaria mentindo, por isso, pretendo mais fazer um resumo do que expor a minha opinião.

Participam do diálogo três personagens principais: Parmênides, filósofo que viveu no século V antes de Cristo; Zenão de Eleia, que era contemporâneo de Sócrates, e o próprio Sócrates, aqui em sua juventude. Em um encontro imaginário entre esses três filósofos, uma questão se impõe: existe uma forma de semelhança por ela mesma e que exista outra que seja oposta à primeira forma que todos nós classificamos como múltiplas e participamos dessas duas? Essa é a pergunta de Sócrates. O jovem filósofo questiona a Zenão se as coisas não são unas na sua unidade e múltiplas na sua multiplicidade. O exemplo de Sócrates é o seguinte: não podemos dizer que somos múltiplos pelo fato de termos um lado esquerdo e outro direito, da mesma forma que temos nossa frente e nossa traseira?  da mesma forma podemos afirmar que somos unos pois no meio de um grupo de pessoas podemos dizer que representamos uma unidade nesse grupo.

Vamos ver quais eram as opiniões de Parmênides e de Zenão em termos históricos.

Parmênides acreditava na unidade e imobilidade do Ser, e que esse Ser é uno, eterno e imutável.

Zenão definia Deus como eterno e tendo também como atributo a Unidade. Ele não teria atributos da multiplicidade como ser limitado e móvel, nem imóvel e ilimitado, pois essas são características do não-ser.

Voltando ao diálogo, Parmênides questiona Sócrates sobre a doutrina desse último sobre as formas. Sócrates responde que não está certo de que exista uma forma ideal do ser humano, assim como do fogo e da água; ele não crê que existam formas ideais de coisas ridículas. Parmênides pergunta a respeito se essas formas seriam unas, e Sócrates responde que sim, pois elas manteriam sua unidade mesmo estando em lugares diferentes. Parmênides dá o exemplo de uma vela que ilumina várias pessoas ao mesmo tempo e assim mesmo mantém sua unidade. Sócrates concorda. Mas Parmênides questiona sobre a teoria das formas de Sócrates a respeito de como outras coisas participariam dessas Formas se delas não podem participar enquanto partes ou enquanto todos. Sócrates reconhece que isso não é fácil de ser resolvido.

Parmênides acredita que Sócrates confunda o Uno com o que é grande, com isso o jovem filósofo estaria multiplicando as Formas ao infinito. Sócrates responde que cada uma dessas formas seria apenas um pensamento. Elas seriam uma coisa singular pensadas por esse pensamento como sendo algo pertinente a tudo, e como sendo uma forma, diz Parmênides. Sócrates afirma que essas Formas existem na natureza como modelo ( paradeigmata), e as outras coisas se assemelham a elas e nada mais.

O diálogo segue com Parmênides fazendo algumas objeções à teoria das Formas de Sócrates e, por fim, diz a ele que os conceitos que ele possui sobre essas Formas e o que é belo são ainda precipitados pelo fato dele ser jovem. Parmênides, Sócrates , Zenão e um jovem chamado Aristóteles ( que não é o famoso estagirita) iniciam um novo diálogo com esse último respondendo perguntas desafiadoras de Parmênides.Ele pergunta o seguinte, entre uma multidão de  outras questões: se o uno existe, não é possível que seja múltiplos, não é mesmo? e o que se segue é um resumo da doutrina de Parmênides  sobre o uno em forma de perguntas e respostas.

Em determinado momento desse jogo entre Parmênides e Aristóteles, o primeiro define alguns dos atributos do uno que o último é obrigado a reconhecer. Parmênides afirma que o uno participa da existência e do ser. Como comenta Mário Ferreira dos Santos a respeito desse diálogo, o Um não está no tempo, pois tudo o que está no tempo é sempre da mesma idade; mais velho que si mesmo; mais jovem que si mesmo; por causa disso, o Um é atemporal. Explica o filósofo brasileiro: ” quando ele( Parmênides) diz: Então o Um não participa do ser de nenhuma maneira ( Oudamos ara to en ousias metexei) refere-se à Ousia, que corresponde à substantiados Latinos, o que constitui o ser ôntico da coisa e também a sua essência, como substância segunda, como forma. O Um não tem realidade fáctica ( de factum, feito), não é um ser feito, pois tais seres participam do ser ( ousia). Mas tanto em Platão como em Aristóteles, a ousia é o que se opõe, to me enai, ao não-ser. Se o ser não é a substância ( ousia) seria um não-ser.”

É um livro fascinante e muito desafiador. Conhecer um pouco da filosofia de Parmênides é essencial antes de começar a ler esse diálogo. Nele o jovem Sócrates desempenha o papel de aprendiz diante de um imponente Parmênides. Recomendo para entender melhor esse livro, a obra de Mário Ferreira dos Santos- O Um e o Múltiplo em Platão.

Fedro

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Fedro é a continuação do tema discutido em O Banquete, ou seja, o tema é o amor. O diálogo inicia-se com Fedro se encontrando pelo caminho com Sócrates. Fedro voltava da casa de Lísias, que era um mestre da retórica e redigia para ambos os lados nos tribunais. Fedro conversa com Sócrates sobre a bela impressão que um discurso que Lísias proferiu em sua casa causou em sua mente. Sócrates fica curioso e pede que Fedro o reproduza para que ele possa analisá-lo.

O discurso de Lísias versa sobre o amor entre homens como era comum naquele tempo da Grécia clássica. Lísias acredita que a paixão entre dois amantes é prejudicial porque nunca é satisfeita, e está sujeita a muitas aflições, como o medo da separação e o favorecimento após a separação ao novo amado, em prejuízo do antigo amante. Ele acredita que quem está apaixonado não consegue manter os seus negócios e nem está em seu juízo normal. Pela conversa entre os amantes, diz Lísias, podemos até saber se já se uniram ou vão se unir sexualmente. O homem que vive pela paixão não só por outras pessoas, mas também pelo dinheiro e pelo conhecimento, vivem em constante angústia pela existência de outros homens que os suplantem em termos financeiros e de conhecimento. Lísias acredita que é melhor viver sem se apaixonar, e preferir à amizade do que a paixão. ” Liberto do amor, sou capaz de me dominar”, proclama Lísias. Então começa uma série de recomendações de Lísias sobre a vantagem da amizade que não espera o amor em troca, do que a paixão. Dar comida aos mendigos e preferir os amigos que vão estar ao seu lado na velhice e não apenas na juventude, são alguns dos conselhos dados pelo orador.

Sócrates ouve tudo isso e, ironicamente, diz a Fedro que adorou o discurso. Este último então pede que ele faça um de seus famosos discursos para que possa compará-lo com o de Lísias. Sócrates aceita o desafio.Ele então explica que o que Lísias definiu não é o amor verdadeiro, guiado pela temperança, mas sim a paixão, que é uma forma de amor dominada pela intemperança. Esta última é dominada pela busca do prazer; o primeiro pela busca do que é melhor. Sócrates define o homem apaixonado como sendo aquele que deseja que o seu amado seja inferior a ele, pois quem é movido pela paixão não suporta a ideia da existência de um homem que lhe seja superior. Mais grave, diz Sócrates: o homem apaixonado acaba por fazer o pior ato em relação ao amado, que é afastá-lo da filosofia. Outro ato que o apaixonado pratica é não desejar ou permitir que o amado se case e tenha filhos ( lembremos que o diálogo é sobre o amor entre homens). Sócrates interrompe seu discurso e Fedro fica decepcionado por esse ter sido tão curto.

É aí que o diálogo muda de tom, pois Sócrates é possuído nesse momento por um daimonion, o qual faz o filósofo grego se arrepender pelo seu discurso anterior. A partir desse momento, Sócrates pretende fazer um elogio a Eros e apresentar sua definição da natureza da alma e o seu destino. Sócrates define a alma como imortal porque tudo aquilo que move a si mesmo e não é movido por outro é imortal. Nesse ponto Sócrates conta o mito do cocheiro ( ou carro alado): a alma pode ser comparada a um carro puxado por uma parelha conduzida na sua frente por cavalos e atrás por um cocheiro. A alma divina é conduzida por cocheiros e cavalos de boa raça; a dos outros é conduzida por cavalos mestiços. O que Sócrates quer dizer com esse mito? Ele explica o destino das almas e como elas perdem suas asas. A alma quer contemplar o que é belo e eterno, pois isso as fazem crescer; do mesmo modo tudo aquilo que é mau e feio faz com que as asas diminuam. Lá no céu, os deuses preparam um banquete. Os carros alados então começam a subir por um caminho tortuoso. Nesse momento o carro puxado pelos cavalos de boa raça segue seu caminho sem dificuldade, enquanto a de raça mestiça puxa para a Terra. Aqueles conduzidos pelos cavalos de boa raça então chegam e contemplam o universo. Esses serão aqueles que contemplam a realidade da Ideia, que é a ciência perfeita, após terem passado pela vida e contemplado a ciência e a justiça, dessa forma quando seus carros chegam ao céu, o condutor dos cavalos dá-lhes néctar como recompensa. Isso é o que Sócrates define como a vida dos deuses.

Quanto ao destino das almas conduzidas por cavalos mestiços, o seu destino é no momento da subida, quando os cavalos começam a tropeçar, elas passam a olhar somente para baixo, ou seja, para a realidade, perdem parte das penas de suas asas e não contemplam o Ser Absoluto, de modo que elas caem e ficam presas a simples opinião( DOXA). Mais adiante, Sócrates fala sobre o conceito da reminiscência ( ANAMNESE). A única alma que recebe asas é a do filósofo, pois esta com a evolução da alma sempre relembra das verdades eternas que contemplou. É pelo fato desse homem praticar essas recordações que sua vida se assemelha à de um deus. Sócrates considera o filósofo que ama o que é belo como o verdadeiro amante, pois este quer sempre voar para o alto ainda aqui na Terra, sendo tomado nesse instante por uma espécie de loucura. Esse homem que foi iniciado nos mistérios não mais se entregará aos vicíos como a pederastia e nem à realidade desse mundo. Todo aquele que não foi iniciado ou se corrompeu entregar-se-á aos prazeres da carne.

Depois de terminar o seu discurso, Sócrates volta à realidade, e diz para Fedro que o discurso que fez quando estava sob a influência do daimonion corrigiu o primeiro, quando ele concordou com o caráter negativo do amor da mesma forma que Lísias. O Sócrates do segundo discurso fala sobre o amor divino e aos bens espirituais, que são aqueles que ele crê que os homens devam buscar; o primeiro discurso reflete sua certeza de que o amor ao prazer carnal ( pederastia) e às opiniões desse mundo são nocivos.

Fedro é um livro muito belo e poético, que define de maneira breve algumas das concepções da psicologia de Platão. A teoria da reminiscência ( ANAMNESE) será discutida novamente no seu diálogo A República. Platão acredita que o verdadeiro amante da sabedoria e amigo dos deuses é aquele que relembra o que viu no mundo das Ideias, quando contemplou a verdade e a justiça. Quando está nesse mundo, esse homem que vive a vida de filósofo e que pensa e ensina tudo aquilo que um dia viu e aprendeu, tem a obrigação de ensinar aos que ainda estão presos na caverna e só observam as sombras na caverna a respeito das verdades eternas, para que possa libertar àqueles que ainda vivem a vida da DOXA e do amor intemperante, fazendo dessa forma que o verdadeiro amor possa ser dirigido às questões do espírito, liberando o homem da prisão da carne.

Timeu

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Timeu é o diálogo mais difícil de Platão pelo fato de ser uma espécie de Gênesis dos gregos. O livro apresenta em uma forma resumida pelas palavras do pitagórico Timeu, os conhecimentos de medicina, matemática, cosmologia e psicologia do tempo de Platão. De fato há uma semelhança com a narrativa bíblica porque o Demiurgo platônico cria o mundo e vê que ele é bom. No Timeu o mundo criado, o homem e os animais são obra de uma inteligência que tudo criou com bondade e racionalidade. No começo tudo estava em desordem e ao acaso na natureza, até que ela se deixou persuadir pela Inteligência. Então Deus criou tudo de maneira boa e eliminou toda forma de imperfeição. Tudo o que o Demiurgo cria é sempre o mais belo segundo o mito da criação platônico.

Em sua cosmologia não existem uma multiplicidade de universos que teriam servido de modelo para a criação Divina. Existe na verdade apenas um céu que foi o modelo do qual Deus fez do nosso uma cópia. Deus criou também a alma antes do corpo e a tornou imortal. O céu e o tempo também foram criados em semelhança com a eternidade. Antes do nascimento do céu, o tempo e os dias não existiam. O céu, segundo Platão, foi, é e será, seguindo sempre a lei dos números. Os planetas foram criados em forma de esfera  e são a divindade visível.

O Demiurgo cria a alma do ser humano de uma mistura e as dividiu em um número igual ao dos astros, ensinando-lhes a natureza do Todo. Nessa parte é importante já ter lido o Fedro. Criando as almas, Deus deu a todas o mesmo nascimento e as mesmas paixões, de maneira que se os homens dominassem essas paixões viveriam na justiça; se deixassem elas o dominarem, viveriam na injustiça. Se vivessem bem, voltariam para o céu onde teriam a vida de um deus; se vivessem na injustiça, reencarnariam com forma feminina, e se persistissem, assumiriam um corpo de animal.

Mais adiante, Platão diferencia os homens que vivem da opinião e dos que vivem pelo intelecto. A intelecção ocorre em nós pela ação do pensamento científico e da opinão somos persuadidos. A intelecção vem acompanhada de uma demonstração verossímil; a opinião não aceita demonstração. Todos os homens participam da opinião; da intelecção participam os deuses e apenas uma parte dos homens. Daí nasce a realidade que tem forma imutável e não é perceptível pela vista e que só é dado ao intelecto contemplar. A outra realidade está submetida aos sentidos e é acessível à opinião unida à sensação.

A harmonia necessária entre a alma e o corpo também é enfatizada no discurso de Timeu. De nada vale se ocupar somente com questões intelectuais se o corpo é esquecido; ocupar-se também somente do corpo produz uma revolução nos elementos e produz o que é pior em um homem: a ignorância. Platão fala sobre isso no diálogo Filebo, ou seja, que o homem são é uma mistura de saber e prazer. Para tratar da alma, a filosofia é recomendada.

As Leis

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No livro III de As Leis, o personagem O Ateniense( Platão) pergunta a Clínias qual é a origem das constituições. Esse pede ao Ateniense a explicação e esse conta um mito: no princípio, já existiam cidades e constituições, mas o grande dilúvio que destruiu o mundo ( que é narrado em seu diálogo Crítias) fez desaparecerem as cidades e as constituições. O Ateniense diz que é fácil de se presumir que apenas aqueles que viviam nas montanhas, isso é, os pastores conseguiram sobreviver.

Depois de algum tempo, a humanidade foi se reunindo novamente, e com a ajuda dos deuses conseguiu recuperar algumas das antigas invenções do homem. Esses homens passaram a se organizar através da autoridade do pai, que é o primeiro governo que se estabelece com a autoridade pessoal; o segundo é a reunião de clãs de famílias que se organizaram, e esses formam a aristocracia; o terceiro é o Estado misto, que Platão classifica como democracia, e por fim, o quarto que é a confederação desses três Estados associados que formam a nação.

Platão faz algumas observações sobre os Estados que existiam em sua época. Aos persas ela reprova o fato de que a educação dos reis  desde o reinado de Ciro ter sido confiada a mulheres e eunucos. Com isso o filósofo acredita que os persas desde então foram dominados pela escravidão e pelo despotismo.

O legislador, segundo o discurso do Ateniense, deve procurar a liberdade, a unidade e a racionalidade para o Estado que governa. A liberdade no império persa foi perdida pela escravidão. Mas e quanto a Atenas? Será que Platão considerava essa cidade-estado como aquela que alcançou as leis mais justas? Não, porque Atenas caiu no erro oposto ao do império persa e introduziu a liberdade sem limites, isto é, a democracia. Mais uma vez, assim como em A República, Platão conclui que uma excessiva liberdade e revolução na música seja a característica de um Estado em que a liberdade destrói os costumes e as leis.

Existe nesse diálogo As Leis toda uma série de recomendações que o legislador deve impor aos cidadãos do Estado socialista imaginado por Platão. É claro que algumas dessas leis são claramente impraticáveis, como a comunhão de mulheres e filhos. Isso vai ser descartado por Aristóteles em sua Política. Platão no entanto estava muito preocupado com a harmonia e a beleza dos pais, dos filhos e da sociedade como um todo. É por isso que ele vai escrever longamente sobre a educação.

Repetindo algumas das ideias já expostas em A República, Platão concede à música e ao movimento um grande destaque em sua Paidéia; inclusive é de se espantar que ele considerasse a educação da criança pela forma que sua mãe agisse durante a gravidez. É durante a gravidez e quando o bebê ainda está no colo que começa o processo de educação. A criança nesse estágio seria educada pelo movimento da mãe ao embalá-la e com canções de ninar apropriadas para que já nesse estágio adquirisse uma personalidade estável e corajosa, visto que Platão queria evitar ao máximo que o medo penetrasse na alma de uma criança.

A educação seria igual para meninos e meninas, com ambos aprendendo ginástica, equitação e arco e flecha. Depois de exibir uma misoginia que estava quase que ausente em suas outras obras, Platão se retrata e defende a igualdade de homens e mulheres, pelo menos nesse ponto. As mulheres devem aprender ginástica e a arte da guerra para que quando a cidade fosse atacada elas pudessem se defender e à cidade. A educação dessas crianças também deveria incluir a matemática, a poesia e a astronomia. Platão quer que o homem se prepare para a guerra para poder viver em paz. Ele acredita que o homem deva se ocupar de coisas sérias, e nada existe de mais sério do que a divindade( Demiurgo). Ora, o homem foi criado como um brinquedo da divindade, e isso é a melhor parte; portanto o ser humano deve se preocupar com a melhor parte e divertir-se com os jogos mais excelentes. Devemos, segundo o filósofo, viver sacrificando, cantando e dançando, vivendo assim em paz e contemplando alguns lampejos da verdade.

O Estado proposto por Platão em As Leis é socialista como em A República, mas em As Leis a religião possui uma importância muito maior do que na República, e ao contrário da sociedade imaginada por Sócrates nesse diálogo anterior, em As Leis a escravidão é introduzida e seu funcionamento é descrito em detalhes.

As Leis não é um livro agradável de se ler, o que pode parecer estranho para quem está acostumado a ler os diálogos de Platão como o Banquete, Fedro e Político. Não gostei muito, a não ser quando Platão discute o problema da educação. Nesse momento o diálogo ganha força.

A República

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A política e o mito em Platão
O filósofo Eric Voegelin analisou a obra a República, de Platão, na sua obra Ordem e História. Primeiramente Sócrates busca definir o que é um filósofo de verdade. Para ele, o verdadeiro( ALETHINOS) filósofo é o homem que ama olhar com admiração(PHILO THEAMONES) para a verdade. Aqueles que conseguem ver o “um” nas “muitas” coisas são os verdadeiros filósofos. Voegelin prossegue: apenas o conhecimento do “ser em si mesmo” pode realmente pretender o título de conhecimento(EPISTEME); o conhecimento do ser na multiplicidade das coisas é opinião(DOXA).

A humanidade requer uma teoria verdadeira, pois um homem com uma teologia falsa é um homem não verdadeiro. Estar enganado na alma sobre o ser (PERI TA ONTA) verdadeiro significa que a própria mentira (HOS ALETHOS PSEUDOS) tomou posse da parte mais elevada da pessoa (382). Para a teologia ser verdadeira, Platão destaca duas regras:

1-Deus não é o autor de todas as coisas, mas apenas das coisas boas.

2- Os deuses não enganam os homens em palavras ou atos.

A filosofia para Platão é acima de tudo um ato de salvação para si mesmo e para os outros, e também um ato de julgamento. Para Voegelin, a filosofia de Platão não é uma filosofia, mas a forma simbólica que uma alma Dionisíaca expressa sua ascensão para Deus.

Em seus primeiros anos, Platão ainda estava próximo da concepção Socrática de virtude que é o conhecimento. Agora encontramos uma Sophia que é nutrida pela parte racional da alma, o LOGISTIKON, presente em todos os homens, que só é despertado quando a sabedoria prevalece sobre as paixões.

Ao todo são quatro as faculdades do conhecimento: EIKASIA, PISTIS, DIANOIA e NOESIS ou EPISTEME. A constituição transcendental da alma pode ser alcançada quando um homem percorre as formas de conhecimento, quando ele ascende do domínio das sombras(EIKASIA) para o domínio das ideias(EPISTEME), e por fim, para a visão do próprio AGATHON( aquilo que dá aos objetos do conhecimento a sua verdade a ao conhecedor o poder de conhecer).

A oposição do filósofo aos poetas deve-se ao caráter mimético da sua obras. A mimesis é repreensível por duas razões, segundo Platão: a imitação não é o original e o filósofo está em busca do original, da ideia; em segundo lugar o imitador e sua obra é o terceiro grau de afastamento( 596-597). A Paideia do filósofo luta contra a Paideia do mito. Em Sócrates, a alma do homem encontrou a si mesma. Depois de Sócrates, nenhum mito é possível.

Agora Platão nos narra o seu mito da caverna. Voegelin diz que o mito prepara o conhecimento da PAIDEIA. A educação de um homem é incompleta se ele não experimentou a verdade da alma, a PERIAGOGE. Depois do homem ser solto da caverna e ter experimentado a contemplação divina, ele quer ficar lá para sempre(517). Esse homem( filósofo) que experimentou a eudaimonia irá sentir-se inclinado a permanecer na contemplação e não irá querer voltar para os seus companheiros prisioneiros. Haveria então a tentação de esse filósofo tornar-se apolítico. Mas ele deve descer e sacrificar-se à polis.

Ele então desce( KATABATEON). Sócrates desceu para ajudar os prisioneiros da caverna e consegue discernir as sombras(EIDOLA) das coisas reais. Como o filósofo viu o AGATHON, a polis sob seu comando será governada com uma mente desperta( HYPAR) em vez de ser conduzida como as outras Pólis como num sonho(ONAR) (520).

A Pólis é boa quando o LOGISTIKON predomina na alma. Ela é uma timocracia quando o PHILOMIKON predomina; e é uma oligarquia quando as paixões do EPITHIMETIKON e do PHILOCHREMATON predominam.Platão analisa também a transformação da alma democrática para a despótica.Em sonhos, a parte ruim da personalidade lança-se em assassinatos, incesto e perversões. O homem sábio conhece essa possibilidade, e então não dormirá antes de ter despertado o LOGISTIKON em sua alma. Ele não permitirá a oscilação de seus desejos para que a contemplação não seja perturbada. O seu sono não será perturbado por sonhos ruins( 571). Já o homem despótico irá deixar-se dominar pelos seus apetites e a volúpia de seus sonhos irá dominá-lo em sua vida desperta.

Por fim, há o destino da alma. Ela não pode ser destruída por seus próprios males, sendo duradoura e imortal(609), e como é imortal sua natureza é semelhante ao divino.

A Nova Paidéia de Platão em A República

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A minha apresentação sobre a nova Paidéia de Platão, como o filósofo grego a apresentou em sua obra A República.

O debate sobre as artes imitativas aparece no livro III da República. Platão acredita que os poetas desvirtuam o povo por sua imitação daquilo que o filósofo considera censurável, como, por exemplo, a imitação dos gemidos, os lamentos, os risos e os sons dos animais e do tempo. Do ponto de vista de Sócrates, as narrativas dos poetas só deveriam mostrar a coragem, a firmeza, ao invés de mostrar a ambição e a ganância. A poesia também deveria se preocupar com os atributos dos justos em oposição aos dos injustos. Para Platão, as narrativas de poetas como Homero são verdadeiramente poéticas, e, por causa disso, menos deveriam ser escutadas pela população que pretende ser livre e não escrava(387 a-e). Certas palavras usadas pelos poetas são uma influência negativa para a educação dos guardiões. Platão considera lamentável que os poetas façam homens respeitáveis e deuses serem atacados por acessos de risos(388 a-e). O mal que essas poesias podem causar nos jovens e nos governantes é o de fazer crer que os heróis não são em nada melhores que os homens. O mal nunca vem dos deuses, lembra-nos Platão. Por causa do costume do jovem ou governante ouvir relatos de maldade dos deuses e heróis como os descrevem os poetas, eles( jovens ou governantes) acreditarão  em desculpas por suas maldades pois os deuses os precederam(391 a-e). O governante jamais deve ser imitador de algo que os poetas propõe, mas sim, da coragem, sensatez, pureza, liberdade e todas as qualidades dessa espécie, que aprenderiam desde a infância. A humanidade( e a Pólis) precisam de uma teologia verdadeira, pois um homem com uma teologia falsa é um homem não verdadeiro. Estar enganado na alma sobre o ser verdadeiro( PERI TA ONTA) significa que a própria mentira (HOS ALETHOS PSEUDOS) tomou posse da parte mais elevada da pessoa( 382 a-e). Para a teologia ser verdadeira, Platão destaca duas regras:

Primeira: Deus não é o autor de todas as coisas, mas apenas das coisas boas.

Segunda: os deuses não enganam os homens em palavras ou atos.

A nova Paideia que Platão propõe- além da imitação das virtudes citadas acima-, possui alguns elementos que constituem a sua concepção de educação e de que modo ela deve ser procedida. Na República, a sua Paideia se divide entre classes: agricultores, que devem ser educados para o serviço prático; soldados, que devem ser educados pela ginástica e pela música, para que tenham agilidade e sensibilidade para a defesa da polis; por fim, tem-se a classe dos governantes, que devem ser educados pela filosofia, pois é esta classe que vai determinar os rumos da cidade.

Platão estabelece regras para as letras que terão espaço em sua cidade, que terá, por exemplo, de ter a obrigação de ser em primeira pessoa, pois esta forma não oculta o narrador. Depois vem a questão da música, muito importante na República. A música deverá inspirar sentimentos belos, e combater o vício, a licença, a baixeza e o indecoro(401 a-e). Com isso, desde a infância a criança seria educada a amar o belo e a odiar as coisas feias e que não possuem harmonia. A ginástica é outra atividade recomendada por Platão, pois depois de haver tratado do espírito é necessário tratar do corpo. Essa ginástica seria simples, e com dois aspectos complementares: a alimentação, que deve ser sem exageros; a medicina, que só deve ser ministrada aos homens sadios. A música e a ginástica devem ser combinadas para estarem em harmonia, pois quem se dedica somente à ginástica fica rude e grosseiro, assim como quem só se dedica à música fica mole e doce em excesso. Por fim, existe a questão de quem governará a Pólis? Segundo o livro didático, entre aqueles educados na proposta apresentada, serão os melhores os mais velhos, com inteligência autoridade e sentimento patriótico. Desde pequenos deverão ser postos às provações, e os que resistirem serão guardiões. Existe também a polêmica questão da eugenia, com sua eliminação dos mais fracos. Sócrates também propõe a questão da mentira necessária: o mito do nascimento humano a partir da terra, que seria contada na infância do governante. Essa foi minha apresentação da proposta de Platão de uma nova Paideia.

A Ideia do Bem e da Paideia no Pensamento de Platão

Felipe Pimenta

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Resumo

A filosofia de Platão é a mais bela e completa que existe. O presente trabalho demonstrará que desde a criação de um universo como cópia da Ideia, passando por um mundo material que foi criado por um ato de bondade do Bem, até chegarmos ao filósofo que fará o papel de intermediário na comunicação desta obra de perfeição do universo aos homens que ainda estão presos na caverna, a filosofia platônica une a ideia do Bem à educação. O Bem está no centro do ensinamento da Paideia de Platão. Sua filosofia é uma inversão do princípio dos Sofistas para quem o homem era a medida de todas as coisas. Platão fará sua filosofia criar uma teologia verdadeira para o homem. Nela Deus é a medida de todas as coisas. O desejo de criar um homem que contemple a ordem da criação e através da educação passe a ter domínio de si mesmo representa todo o esforço e a beleza da filosofia platônica.

Palavras-chave: Platão.  Sócrates.  Werner Jaeger.  Eric Voegelin.  Giovanni Reale.Proclo.Paideia. Timeu.

Abstract

The philosophy of Plato is the most complete and beautiful that exists. This present work will demonstrate that since the Creation of the Universe as an image of the Idea, passing through a material world that was created as an act of indulgence by The Good, until we come to the philosopher that will make the role as the intermediate in the communication of this work of perfection of the universe to the men that are tied at the cave, Plato’s philosophy unite the idea of the Good with the education of men . The Good is in the core of the teaching of Plato’s Paideia. His philosophy is an inversion of the principles of the Sophists for who the man was the measure of all things. Plato will make his philosophy create a true theology for man. On his theology, God is the measure of all things. The desire to create a man that contemplates the order of the universe and trough education pass to have control of oneself represents all the effort and the beauty of Plato’s philosophy.

Keywords: Plato. Socrates. Werner Jaeger. Giovanni Reale. Eric Voegelin. Proclus. Paideia. Timaeus.

 

 

Introdução

A filosofia de Platão possui dois temas que estão unidos: a noção de Bem e a Paideia. No pensamento platônico, conforme narrado em A República no mito da caverna, o filósofo é como o prisioneiro da caverna que conseguiu libertar-se e contemplou o mundo das Ideias. O Bem contemplado pelo filósofo também é visível no universo criado pelo deus-artífice- o Demiurgo-, que no diálogo Timeu fez um cosmos como cópia da Ideia, tendo com intermediários os Entes matemáticos e, por último, a realidade sensível. A criação é um Bem que o filósofo reconhece, só que esse mundo é um reflexo sem a perfeição do mundo das Ideias. A bondade da criação e a visão do noumenon é o que Platão pretende comunicar aos governantes e à população. Como foi dito acima, o Bem deve ser transmitido aos homens através de uma educação( Paideia) que tenha como objetivo formar uma alma bem ordenada. O tema está contido em alguns dos principais diálogos de Platão, porque esse filósofo sempre teve como missão estudar o mundo do phenomenon e do noumenon, ainda que ele pretenda que tenhamos mais atenção ao último, ele também vê no mundo físico uma ordenação criada por um ato de bondade do Demiurgo.

O filósofo é aquele vai ensinar aos homens o Bem visto no mundo das Ideias, e irá fazer com aqueles que ainda não contemplaram essa realidade passem a fixar, segundo Voegelin (Ordem e História, 2009, pág. 172),

“o olhar de sua alma no bem em si, e devem usá-lo como um paradigma para a ordenação reta da Pólis, dos cidadãos e de si mesmos para o resto de suas vidas.” A escolha deste tema é importante para um melhor entendimento de como a filosofia platônica pretendia fazer a alma e o corpo do homem serem bons como o universo é bom.  O Bem e a Paideia precisam ser estudados juntos para que a doutrina de Platão possa ser compreendida com maior profundidade. Como esse é um tema rico em possibilidades, um trabalho desse tipo pode ser de grande ajuda.

 

“ O pensar é para o Homem o passeio da alma”

Autor desconhecido

 

 

O Bem

1.O Bem como o modelo do Demiurgo: O Timeu

 

Platão criou uma narrativa da criação que explica as causas da natureza, a alma e a forma material. O Bem é anterior a todas as coisas do Universo. Depois vem o Paradigma Inteligível. Junto a ele está o Artífice, chamado por Platão de Demiurgo. Segundo Proclo (1997, pág13),

“Platão antes dessas coisas  investiga  as causas principais, ou seja, a causa produtora, o paradigma e a causa final.Ele também põe um intelecto demiúrgico sobre o universo, e uma causa inteligível na qual o universo subsiste primariamente, e o Bem, que é estabelecido de maneira anterior à causa produtora na ordem do desejável.”

No diálogo Timeu, Platão elabora um mito a respeito da criação do Universo. Narrado pelo Pitagórico Timeu, o diálogo descreve como o Demiurgo criou o cosmos como uma imagem da Ideia. Timeu abre o seu discurso com estas palavras: “ tudo o que se gera necessariamente é gerado por algo: de fato, é impossível que algo se gere sem ter uma causa.”¹ O texto do Timeu diz assim mais adiante : Na minha opinião, em primeiro lugar é preciso distinguir as seguintes coisas: o que é aquilo que é sempre e não devém e o que é aquilo que devém, sem nunca ser? Um pode ser apreendido pelo pensamento com o auxílio da razão, pois é imutável. Ao invés, o segundo é objeto da opinião acompanhada da irracionalidade dos sentidos e, porque devém e se corrompe, não pode ser nunca. Ora , tudo aquilo que devém é inevitável que devenha por alguma causa, pois é impossível que alguma coisa devenha sem o contributo duma causa. Deste modo, o Demiurgo põe os olhos no que é imutável e que utiliza como arquétipo, quando dá a forma e as propriedades ao que cria. É inevitável que tudo aquilo que perfaz deste modo seja belo. Se, pelo contrário, pusesse os olhos naquilo que devém e tomasse como arquétipo algo deveniente, a sua obra não seria bela.”²  É sobre esta estrutura de cópia que se funda a possibilidade de saber algo realmente sobre esse mundo em devir.³  Proclo (1997,pág 283) fala do Demiurgo como um paradigma com essas palavras:

“ Platão, portanto, indicando essas coisas, e através delas afirmando que a posição do paradigma do Universo não está posicionado entre uma multiplicidade de naturezas eternas, mas é a mais eterna de todas elas e primeiramente eterna, chama o mundo o mais belo de fato, mas o Demiurgo o mais excelente.”

Mais adiante, Proclo (1997, pág 286) fala sobre o Paradigma:

“Platão, de fato, demonstrou que o Demiurgo olhou para um Paradigma, e esse sendo o mais excelente, o fez olhar para o mais divino deles, o qual ele disse que o Universo foi fabricado conforme o Inteligível. Mas que o universo é também vencido pela forma e verdadeiramente imita seu Paradigma é manifesto pelo que é dito agora. Porque se o mundo é uma imagem, o universo é assimilado ao Inteligível. Pois o que não é diferente mas similar, é uma imagem. Você tem então o universo sensível, a mais bela das imagens; o universo intelectual, a melhor das causas, e o universo Inteligível, o mais divino dos paradigmas.”

A ordem cósmica que revela-se aos sentidos, só pode ser reproduzida por uma História narrada. Um saber que vá além dessa história estaria em contraste com a nossa natureza humana.4 Passar do não-ser para o ser já é o primeiro ato de bondade de Deus. Esse mesmo Deus não é de forma alguma invejoso, pois quis que todas as coisas se tornassem ao máximo semelhantes a ele.5 O universo é belo, desprovido de toda imperfeição e semelhante ao Artífice. O Demiurgo então criou o corpo do Cosmos juntando elementos como a água, o ar, a terra e o fogo, e unindo estes elementos em uma proporção certa, tornou-o imune à velhice e às doenças. A figura que melhor se adequou a esse corpo foi a esférica, com uma revolução em torno de si mesmo e com rotação circular. Este mundo criado não tinha necessidade de nenhum outro órgão. Na sequência do diálogo, o Demiurgo cria a alma antes do corpo, pois o elemento mais velho não pode estar submetido ao mais novo. O Artífice viu que a sua criação era boa, uma vez que a alma era eterna, tentou adaptá-la ao mundo, porém, viu que era impossível. Fez, então, uma eternidade una e imóvel que é o tempo que progride segundo a lei dos números. Criando os planetas e um Sol que nos ilumina, Deus fez os seres humanos participarem do Número.6

1.2.A criação do mundo sensível.

 

Platão diz que no início havia elementos de água, ar, fogo e terra, porém sem qualquer equilíbrio. Elas se encontravam sem razão e sem medida. Quando o Demiurgo começou a organizar o universo, esses elementos já tinham forma própria, mas se achavam em uma condição em que era natural que estivessem porque Deus estava ausente. A tarefa do Demiurgo era, portanto, levar tal massa informe da desordem à ordem. Segundo Reale7 “ Deus os produz e os constitui, de modo belo e bom, operando por meio de formas números.” O mundo corporal nasce de uma combinação entre necessidade e de inteligência.8 De acordo com o texto de Reale, Platão criou as seguintes analogias para descrever a matéria:

Necessidade, causa errante, receptáculo que tudo gera, aquilo em que se gera o que se gera, potência que não se esgota ao receber várias coisas que recebe; natureza sempre idêntica a si mesma no seu fundamento; realidade amorfa; realidade participante de modo complexo do inteligível; realidade difícil de compreender, obscura e incompreensível; realidade em si invisível, mas visível nas suas várias manifestações; realidade comparável a uma nutriz, a uma mãe, ao material de impressão, ao ouro plasmável, ao material mole modelável de várias maneiras e a líquido inodoro que recebe os vários odores.9

Segundo Proclo (1997, pág 14), a natureza corpórea é produzida com Formas, e dividida por números divinos; a alma  é também produzida pelo Demiurgo e é preenchida com raciocínios harmônicos, e com símbolos divinos e demiúrgicos.”

O corpo também possui dignidade por causa da iluminação da alma. De acordo com Proclo (1997, pág 617),

“a alma subsiste com proporções harmônicas e o Todo da natureza corporal formada está em amizade com ela através da analogia, que é harmoniosamente composta. Nenhum laço pode ser mais belo, divino e perpétuo, pois apesar da alma ter sido gerada antes do corpo, Platão concedeu a este a essência, a harmonia, a figura, a potência e o movimento. O Demiurgo quando colocou o Intelecto na alma e a alma no corpo, criou o Universo.”

1.3.A Terra e seus elementos geométricos

O Demiurgo criou o mundo inspirado pelo modelo ideal eterno. Conforme foi estabelecido por Platão acima, aos elementos que formam o universo, como a água, o fogo, o ar e a terra, ele os associou a elementos geométricos como o tetraedro (fogo), o hexaedro (terra), o octaedro( ar), o dodecaedro ( modelo dos cosmos) e o icosaedro(água).10

Na República, Platão vai fazer o filósofo ensinar ao povo que deve-se estudar primeiro àquelas coisas que estão no alto. A geometria fará parte da Paideia que será ensinada na Pólis. Esta disciplina será ensinada junto com a astronomia e a estereometria. A ciência deve começar estudando o que está no céu. Sócrates diz que a geometria nos faz estudar as coisas celestes. Ela promove a contemplação e faz parte de um programa de estudos que têm como objetivo fazer a alma mirar o Ser e o invisível, sem o qual a educação não faz sentido.

1.4.O Poder do Demiurgo

Segundo esta passagem do Timeu, “o Demiurgo produz o bem ao ordenar o caos dos elementos originais, quando realiza o Bem e o melhor e produz o que é belíssimo.” 11  Platão define isso no diálogo que querer fazer o bem é tornar as coisas ordenadas. Ainda no Timeu, o filósofo grego diz que a ciência e a potência de Deus consiste em misturar  os muitos em um. O Deus-Artífice platônico construiu um universo a partir de uma desordem e de sua ação produziu-se o Bem. Em uma passagem do mesmo diálogo, Platão diz que “Deus possui de maneira adequada a ciência e, ao mesmo tempo, a potência para misturar muitas coisas na unidade e de novo dissolvê-las da unidade em muitas coisas. Mas não há nenhum dos homens que saiba fazer nem uma coisa nem outra, nem haverá no futuro.”11 O homem pode contemplar a Criação e tentar, segundo Reale( 2009, pág 530), “imitar nesse mundo imagens da Ideia através da técnica e da arte” . O homem que primeiro vai fazer essa contemplação do Mundo das Ideias e transmiti-las aos outros homens é o filósofo. Isso se dará no diálogo A República.

2.O Filósofo contempla o Bem: A República

Sócrates torna-se a figura central que vai expor a doutrina platônica da contemplação do Bem e da Ideia. Em um determinado momento do diálogo, Glauco, ansioso, pergunta a Sócrates sobre como ele crê que o homem possa conhecer o Bem12. Sócrates, então, esclarece que existem coisas do mundo visível que são múltiplas, enquanto a cada uma delas corresponde uma ideia que é única, que chamamos a sua essência. As primeiras diremos que são visíveis, mas não inteligíveis, e de outra forma diremos que as Ideias são inteligíveis, porém, não visíveis.13

Sócrates então pergunta por que meio vemos aquilo que é visível, e ouve como resposta que é por meio da visão. Ora, o homem percebe os objetos pela visão por causa da luz, e essa luz tem como causa o fato dela ser gerada por um deus do céu. Esse deus é o Sol. Ele é o filho do Bem na ordem da criação platônica. O homem, segundo Damáscio ( apud Proclo, pág 326), ao  “aproximar-se do imenso princípio deve contemplá-lo em um silêncio místico.”

O diálogo prossegue. Sócrates explica que quando nossos olhos são iluminados pela luz do Sol, nossa alma passa a ser iluminada pela verdade do Ser ela compreende e conhece. Entretanto, se ela se fixa em objetos na qual se misturam as trevas da noite, ela passa a ter meras opiniões sobre aquilo que nasce e morre.14 A visão e a luz não podem ser igualadas ao Sol, da mesma forma que a ciência e a verdade ainda que se assemelhem ao bem, elas não são o Bem em si mesmo. Segundo Eric Voegelin (2009, pág 173),“essas são as proposições referentes ao sol que servem como analogon para tornar inteligível o papel do Agathon no domínio noético (noetos topos).”Prossegue Voegelin dizendo que “ o Agathon não é nem intelecto (nous), nem seu objeto (nooumenon), mas aquilo que dá aos objetos do conhecimento a sua verdade  e ao conhecedor o poder de conhecer.”

No Timeu, Platão já havia falado sobre a visão com essas palavras:

“em  meu entender, a visão foi gerada como causa de maior utilidade para nós, visto que nenhum dos discursos que temos vindo a fazer sobre o universo poderia de algum modo ser proferido sem termos visto os astros, o Sol e o céu. Foi o fato de vermos o dia e a noite, os meses, os circuitos dos anos, os equinócios e os solstícios que deu origem aos números que nos proporcionaram a noção de tempo e a investigação sobre a natureza do universo. A partir deles foi-nos aberto o caminho da filosofia, um bem maior do que qualquer outro que veio ou possa vir alguma vez para a espécie mortal, oferecido pelos deuses. Por que razão havemos de celebrar os outros que são inferiores a estes, pelos quais só um não-filósofo choraria, se ficasse cego, com lamentos em vão?”15

Começa agora o Mito da Caverna. Sócrates quer que imaginemos um grupo de prisioneiros algemados pelas pernas e pescoço.Eles só podem olhar para a parede da caverna e nunca para a sua entrada. Na parede da caverna são refletidas imagens de homens e animais. Essas não passam de sombras de objetos reais de fora da caverna, mas aqueles prisioneiros não sabem disto. Imaginemos então que um dos prisioneiros conseguisse sair da caverna. A primeira coisa que lhe aconteceria é que seus olhos não estariam acostumados à luz do sol. O que ele teria que fazer seria primeiro olhar para as sombras dos objetos, depois para os homens e animais e, por último, para as estrelas e a lua no céu. Depois que ele conseguisse fazer isto, a contemplação do Sol seria possível.16

2.1.O Filósofo desce à caverna

Após ter contemplado o Mundo das Ideias, o prisioneiro que se libertou ( que é a imagem do filósofo), tem vontade de ficar fora da caverna para sempre, já que a realidade da mesma não mais o atrai. Porém, este homem deve descer novamente à caverna e ensinar aos que ainda não contemplaram a verdade o que ele viu. Não é uma tarefa simples, pois envolve o risco dele ser mal interpretado. Mas ele tem que começar a ensinar aos seus companheiros o seu programa da Paideia. A caverna é uma imagem da Pólis, e esta na concepção de Platão “tem o direito de exigir o sacrifício do filósofo porque ela lhe proporcionou educação que deve habilitá-los a unir a Pólis.”17 O filósofo viu o Agathon, e a “Pólis sob seu comando será governada com uma mente desperta (hypar) em vez de ser conduzida, como a maioria das Pólis de hoje, obscuramente como num sonho (onar).”18

3.O Eros como o amor pelo Bem: O Banquete

Este divertido diálogo tem como o tema principal uma discussão sobre o Eros. Vários são os participantes do banquete, mas o que nos interessa é o discurso do Sócrates. Vamos a ele. Sócrates define primeiramente Eros como o desejo indefinido daquilo que nos falta. Sócrates faz o outro participante do diálogo, Agaton, lembrar-se do que havia dito em seu discurso de que Eros é carente do belo.19 Questionado por Sócrates, Agaton confirma que Eros é carente do belo e que o belo é o bem. Neste momento do diálogo, Sócrates interrompe a conversa com Agaton para relembrar-se de um diálogo que teve com a sacerdotisa Diotima. Essa lhe fez perguntas na ocasião sobre Eros, e Sócrates a responde que Eros era belo e que pendia ao bem. Diotima diz, contrariamente a Sócrates, que Eros não é belo nem bom. Ora, o não-belo não quer dizer que Eros é feio, esclarece Diotima.20 Mais adiante, Diotima faz Sócrates reconhecer que Eros deseja o bem e o belo, que são coisas que lhe faltam. Eros está entre o mortal e o imortal. Ele é um daimon, que é um intérprete e mensageiro. Ele leva aos deuses os assuntos humanos e aos humanos ele traz mensagens divinas. Leva preces e sacrifícios e traz respostas aos sacrifícios. Diotima diz que Deus e o homem não se misturam, mas que é através de Eros que este contato é possível. Mais adiante, Diotima conta a mitologia de Eros, que é filho de Penúria e Caminho. Ele é carente de beleza, mas herdou do pai o pendor por coisas belas e boas. Ele ocupa o meio termo entre o saber e a ignorância. Deus não filosofa ,pois já sabe de tudo. Os ignorantes não filosofam nem desejam ser sábios. Os ignorantes não filosofam uma vez que não sentem que lhe falta alguma coisa. Sócrates então questiona Diotima sobre quem filosofa. Ela o responde: quem se encontra no meio entre o saber e a ignorância.21 Eros é um deles. Eros é a posse perpétua do bem. Segundo Jaeger (1995,pág 740), “ o Eros socrático é o anseio de quem se sabe imperfeito por se formar espiritualmente a si próprio, com os olhos sempre fitos na Ideia. É, em rigor, o que Platão entende por filosofia: a aspiração de conseguir modelar dentro do homem o verdadeiro Homem.” Agora surge, por fim, o papel do educador. Para terminar esse capítulo, uma citação de Voegelin faz-se necessária:

“ Apontamos antes que permanece um mistério o modo como o homem, na dimensão temporal do ser (thnetos de Platão), pode experimentar o eterno. Há, então, a necessidade de um mediador que interprete e diga aos deuses o que está acontecendo entre os homens, a aos homens o que está acontecendo entre os deuses. O papel de mediador é atribuído por Platão a um  espírito muito poderoso, pois todo o reino do espiritual ( pan to daimonion) jaz entre (metaxo) Deus e o homem. Este espírito (daimon) deve misturar, pela força de sua posição de intermediário, o que não se mistura, à medida que está em confronto objetivo, e os dois polos ele há de fundir num grande todo. O simbolismo discretamente aponta para o cerne da matéria: é o homem que não é simplesmente thnetos, mas experimenta em si mesmo a tensão para o ser divino e, então, está entre o humano e o divino. Quem quer que tenha esta experiência se eleva acima do mortal e se torna um homem espiritual, o daimonios aner.”22

A Paideia

4.A educação como um ato de anamnese: o Menon e o Fédon

Menon pergunta a Sócrates: e de que modo procurarás, Sócrates, aquilo que não sabes exatamente o que é? Pois procurarás propondo-te que tipo de coisa, entre as coisas que não conheces? Ou ainda que, no melhor dos casos, a encontres, como saberás que isso é aquilo que não conhecias?23 Sócrates responde com o argumento de que a alma já renasceu diversas vezes e que quando passou pelo Hades aprendeu muitas coisas, e que quando a alma renasce é possível que ela se lembre daquilo que já viu. Procurar e aprender, para Sócrates, são a mesma coisa, ou seja, uma rememoração.Sócrates, então, propõe demonstrar a sua tese com o auxílio de um escravo de Menon. Com o auxílio da matemática, que faz parte do programa da Paideia, Sócrates faz o escravo traçar desenhos geométricos no chão, e como no papel de professor, ele vai aos poucos trazendo à mente do escravo conceitos que esse último parecia ignorar. Com a sequência do ensinamento, Sócrates leva o escravo à aporia. O Filósofo lembra a Menon sobre a ironia que este fez a ele dizendo que ele parecia com um peixe-elétrico que entorpecia quem se aproximava. O fato do escravo estar entorpecido por experimentar a aporia como faria o peixe-elétrico não quer dizer que tenhamos causado algum dano a ele.24 Logo após este aparente impasse, o escravo “rememora” a solução do problema matemático que Sócrates o propôs. Possuir ciência, para Sócrates, é relembrar-se do que já sabíamos de vidas passadas.

No Fédon, Sócrates ensina que o saber é uma reminiscência. Ele dá um exemplo: a lira traz à mente das pessoas a imagem do amor, dessa maneira quando o apaixonado vê um destes instrumentos, ele se lembra da pessoa amada.25 E isso é uma forma de anamnese. A alma cada vez que renasce esquece temporariamente o que sabia, e é por isso que a Paideia vai fazer o homem instruir-se pelo método da recordação.

5.Paideia sofística ou Paideia socrática?26: Protágoras

Sócrates é surpreendido um dia com o chamado de seu amigo Hipócrates. Esse o avisa que na cidade encontra-se o famoso sofista Protágoras. Sócrates percebe a excitação de seu amigo com o fato, mas tenta fazê-lo se acalmar com algumas perguntas. Entre elas é saber no quê o ensinamento de Protágoras melhora ou transforma a pessoa? Hipócrates o responde dizendo que Protágoras transforma seus alunos em sofistas. Isso não agrada a Sócrates. Hipócrates acrescenta que os sofistas ensinam a seus alunos como tornarem-se excelentes oradores, mas Sócrates o faz ver que tornar-se orador para defender algo indefinido não será de muita utilidade, e o adverte que a aula de Protágoras pode colocar sua alma em risco27. Os sofistas não são pessoas em que se possa confiar.

É a vez de Protágoras apresentar-se e expor sua doutrina. Ele vê os sofistas como pessoas que vestem a roupagem da poesia, da música e do atletismo. Estas atividades faziam parte da Paideia dos sofistas e isso lhes causava grande orgulho. O objetivo do sofista é tornar a pessoa melhor, diz Protágoras. Enquanto outros sofistas ensinam aos seus alunos a arte do quadrivium, Protágoras se preocupa mais com aulas sobre política e assuntos do Estado.

Sócrates por sua vez acha impossível que Protágoras possa ensinar a arte da política a alguém porque os assuntos de Estado podem ser dominados por pessoas de qualquer profissão, e ele prossegue dizendo que é muito difícil que o talento político do pai possa ser transmitido ao filho, e dá como exemplos os filhos de Péricles presentes no diálogo. Protágoras responde à observação de Sócrates com um mito. No início, quando os deuses criaram a raça humana, dois Titãs, Prometeu e Epimeteu ficaram responsáveis por distribuírem habilidades aos humanos. Epimeteu ficou com esta responsabilidade e dotou humanos e animais com algumas características. Porém, o estado do ser humano foi considerado lamentável por parte de Prometeu. Em um gesto desesperado, ele roubou o fogo divino aos deuses e o deu aos seres humanos. No entanto a arte política era desconhecida do homem. Prometeu, então, roubou o fogo de Hefaístos e a arte de Atena e novamente deu aos humanos. Nasceu, assim,  a religião. O homem, mesmo assim, continuou a viver em grupos espalhados sendo destruídos por animais selvagens. Faltava-lhes a arte da política. Zeus então enviou Hermes para distribuir justiça a todos sem exceção. Todo o ser humano compartilha deste quinhão da Justiça, caso contrário não seriam humanos.28

Protágoras insiste no valor da educação e na possibilidade do ensino da virtude dando como exemplo o fato dos pais  preocuparem-se tanto com a educação dos filhos, inclusive pagando a professores para essa tarefa. Ele questiona o porquê de Sócrates se espantar com tudo isto. Sócrates, por sua vez, apenas direciona o diálogo para o problema do saber e do conhecimento. Ele se preocupa com o fato de muitos possuírem o saber mas acabarem sendo arrastados e vencidos pelo prazer. A Paideia socrática acredita que um homem com um conhecimento verdadeiro sobre o mal jamais agirá injustamente. Protágoras concorda com a opinião de Sócrates de que a sabedoria e o conhecimento são as coisas mais poderosas. Sócrates o faz ver que mesmo que isso seja algo que a maioria concorda, isso não faz necessariamente com que vivam desta maneira. A pessoa que recusa o bem é aquela que escolhe o mal maior em detrimento do bem menor.29 Ser vencido pelo prazer é uma ignorância, e só age dessa forma quem não tem o conhecimento. Ninguém busca voluntariamente o mal. A Paideia socrática pretende fazer do conhecimento do verdadeiro e do Bem uma maneira de evitar a ignorância de uma vida vivida pela busca de prazeres.

6.A Paideia como formação do verdadeiro político: Górgias

No Górgias uma batalha é travada entre dois políticos com formações diferentes: Sócrates e Cálicles. O começo do diálogo é um confronto dialético entre Sócrates e dois sofistas, Górgias e Polo. Sócrates consegue vencer os dois com relativa facilidade. Presente na cena está o experiente político Cálicles, que logo pergunta a Querofonte se Sócrates não está brincando.30 Ele percebe que o que Sócrates ensina pode virar o mundo de cabeça para baixo. Sócrates o responde dizendo que ele e Cálicles estão apaixonados por duas coisas diferentes: ele pela filosofia, e Cálicles pelo povo.31 A fúria de Cálicles deve-se ao fato de Sócrates ter dito anteriormente que cometer injustiça é pior do que sofrê-la. Para Cálicles, nenhum homem desejaria sofrer injustiça a não ser um escravo. Como uma espécie de Nietzsche avant la lettre, ele julga que este tipo de convenção foi feita pelos fracos para dominarem os mais fortes. A lei da natureza é implacável e supõe o domínio dos mais fortes sobre os mais fracos. O homem forte rompe com os grilhões da lei e da moral. Cálicles julga que Sócrates está com o espírito amolecido por causa da filosofia, pois essa é tida por ele como sendo adequada apenas à juventude, e nunca ao homem amadurecido.32

Segundo Jaeger(1995, pág 668),

“este esboço de uma doutrina da sociedade baseada na teoria da luta pela sobrevivência deixa à educação um papel inferior. Sócrates opunha a filosofia da educação à filosofia da força. Era a Paideia que era para ele o critério da felicidade humana, contida na kalokagathia do justo”

Cálicles possui uma alma tirânica e faz uma espécie de advertência a Sócrates. Se Sócrates fosse acusado injustamente por causa de seus ensinamentos filosóficos, mesmo que o acusador fosse um patife, Sócrates só conseguiria balbuciar palavras desconexas em sua defesa, e se fosse condenado à morte, teria necessariamente que morrer. Cálicles crê que Sócrates seria um daqueles que poderia levar uma bofetada impunemente.

Sócrates mantém a calma e faz uma pergunta ao político Cálicles: é a mesma pessoa que ele chama de melhor e superior? É o múltiplo superior ao Uno? Cálicles responde que sim. Ele acredita que o superior deve ter a cota maior, mas não de coisas como alimentos, bebidas e sapatos como Sócrates ironicamente disse, mas sim do poder político. Mas e o problema do governo de si mesmo, questiona Sócrates. Os melhores teriam mais do que si mesmos. Cálicles explode. Nas palavras de Voegelin (Ordem e História, 2009,pág 96),”um homem não deve governar a si próprio. Ao contrário, o bem e a justiça consistem na satisfação dos desejos. Luxo, licenciosidade e liberdade ( tryphe, akolasia, eleutheria), se tiverem meios para se manter, são virtude e felicidade.”

Desta Paideia distorcida pelo político Cálicles, Sócrates irá propor a sua antítese, que é a Paideia que tem junto a ela a noção de Bem.  A satisfação de nossos desejos só é permitida quando algo nos falta quando estamos com saúde33. Quando estamos doentes nunca podemos satisfazer nossos desejos das coisas.. A mesma regra, diz Sócrates, aplica-se à alma. Quando ela não possui inteligência, é indisciplinada, injusta e ímpia, torna-se necessário que refreemos seus instintos para que ela melhore.34 Porque o mal que está na ação procede do falso que está no conhecimento, como diz Proclo (1997, pág 926).Cálicles não quer ser disciplinado pela Paideia.O prazeroso e o Bem não andam juntos, conforme Sócrates explica, e Cálicles vê-se obrigado a concordar. O verdadeiro político educado pela Paideia respeitará a Deus e aos homens. Essa educação que o político ensinará ao povo produzirá homens melhores.

7.O Programa da Paideia: A República e As Leis

Em A República, Platão através de Sócrates vai definir a Paideia de seu Estado ideal. Sabemos que a poesia era muito valorizada pelos Sofistas, principalmente Homero. É a partir de uma noção de uma verdadeira teologia que Platão fará sua crítica da poesia de seu tempo. Homero será criticado por suas descrições “caluniosas” do Hades.35 Palavras como as que os poetas usam para descrever este local podem ser bonitas, mas não devem ser ouvidas por homens livres. Nomes terríveis que designam o além-túmulo, além de reproduções de gemidos e lamentos devem ser eliminados.36 Da mesma forma, o riso de homens e deuses não podem ser reproduzidos. Platão, cujo pensamento coincide com os dramaturgos  Ésquilo e Sófocles, quer que seja ensinada através da poesia a bondade dos deuses. Ele reprova Homero por atribuir diversos vícios aos deuses. É impossível que o mal venha deles.37 Uma crítica também será feita à imitação. No Estado ideal de Platão, aqueles que forem os guardiões devem se ocupar de garantir a liberdade do Estado, portanto não devem imitar outra coisa a não ser a coragem, a pureza, a liberdade e etc. Tudo aquilo que é baixo não pode ser imitado. Isto inclui a imitação de escravos, de gemidos, das dores da maternidade, profissões como ferreiros, o relinchar dos cavalos, o murmúrio dos rios, etc.38

As profissões devem ser especializadas, evitando que um profissional exerça mais de uma atividade.39 Platão ensina que a música tem uma importância fundamental na sua Pólis. Todo tipo de música sem harmonia ou que produza uma cidade efeminada são proibidas. A música deve ser harmoniosa para que a criança cresça com uma alma sadia e amando o Bem. O mal seria odiado desde cedo por causa da sua fealdade. 40 A música na Pólis platônica deve reproduzir o som da música das esferas celestes41. A harmonia do céu criado pelo Demiurgo é a inspiração para a criação de sons que unam a música à astronomia. Este é o programa pitagórico. Depois da música, o jovem deve aplicar-se à ginástica, mas a educação musical não deve ser excluída. Alguém que só escutasse música e não exercitasse o corpo ficaria frouxo; aquele que só praticasse exercícios físicos mas não desse atenção à alma ficaria embrutecido. Segundo Jaeger(1995, pág 810)

“ a sinfonia da alma é o resultado de uma combinação acertada de dois elementos: a música e a ginástica. Esta cultura coloca o espírito em tensão e o alimenta de belos pensamentos e conhecimentos afrouxando as rédeas da parte corajosa por meio de exortações contínuas e educando-a pela harmonia e o ritmo.”

A educação das mulheres assemelha-se à dos homens. As mulheres devem estudar música, ginástica e a arte da guerra.42 Platão reconhece que homens e mulheres têm naturezas distintas. A solução que ele oferece para a divisão do trabalho é que cada profissão será destinada a determinado sexo de acordo com as aptidões de cada um dos dois; porém, se ambos os sexos forem competentes naquele ofício, o fato da mulher dar à luz e do homem procriar será indiferente.

Nas Leis, Platão propõe a sua pedagogia para a infância.43 As mães devem desde quando estiverem com seus filhos recém-nascidos, começarem a balançá-los para que se acalmem e adormeçam. Esse balanço produziria na alma da criança um frenesi semelhante ao de Baco. Platão preocupa-se com isto porque ele quer eliminar da alma da criança qualquer noção de medo. Mais tarde, a criança, tanto meninos quanto meninas receberão um treinamento sobre o manejo de armas.44

7.1.A Filosofia supera a Poesia como modelo de educação

No livro X da República, Platão faz um ataque ao modelo de Paideia feita pela poesia, modelo esse que era muito utilizado pela sofística. A principal crítica é feita à arte da mimese dos poetas. Na mente de Platão, o Artífice é aquele que cria as coisas que estão no céu e na terra; aquele que criou os deuses e o Hades e o que existe embaixo da terra. Os objetos criados pelo Artífice foram criados à imagem da Ideia. Ora, o marceneiro em sua profissão também é um Artífice, porque também cria um objeto. Porém, um pintor jamais pode ser chamado de Artífice, porquanto é apenas um imitador da obra do Artífice. O mesmo se dá com o poeta para Platão, que também não passa de um produtor de imitações. Criar é ser paradigmático como o Demiurgo. Imitar é apenas “energizar”. Não é a mesma coisa criar pela existência, e “energizar” pelo conhecimento, diz Proclo (1997,pág 287). Segundo o filósofo de Constantinopla, “a alma produz vida pela existência, mas produz vida artificialmente pelo conhecimento. Criar é obra do Demiurgo, porque a geração é a primavera do Ser.”45

Platão pela boca de Sócrates questiona: qual cidade tornou-se melhor pela poesia de Homero? Era ele um educador de Homens? Não, segundo Platão. Jaeger (1995, pág 982) nos ensina sobre este ponto:

“o repúdio da poesia não significa tanto o seu afastamento violento da vida do homem, como uma delimitação nítida da sua influência espiritual para quantos aderirem às conclusões de Platão. A poesia estraga o espírito dos que a ouvem, se eles não possuírem o remédio do conhecimento da verdade. Isto quer dizer que se deve fazer descer a poesia para um degrau mais baixo. Continuará a ser matéria de gozo artístico, mas não lhe será acessível a dignidade suprema: a de se converter em educadora do homem. O problema de seu valor aborda-se no ponto que necessariamente tinha de ser o decisivo para Platão, o da relação entre a poesia e a realidade, entre a poesia e o verdadeiro Ser.”

A filosofia tornar-se-á a base da educação. O filósofo é aquele que saber tornar os homens melhores e conhece o tema sobre o qual está falando.

8.Deus como a medida de todas as coisas: As Leis

Fazendo um contraponto a Protágoras para quem “o homem era a medida de todas as coisas”, Platão faz de Deus o centro de sua Paideia. Jaeger escreve: (1995,pág 876)  “ na República, a ideia do Bem é a norma absoluta que serve de base à noção da filosofia como suprema arte da medida, a qual aparece muito cedo no pensamento platônico e nele se mantém até o final.”

No final do diálogo As Leis, Platão conclui que a astronomia, que é a ciência abençoada, é um meio de contemplação da divindade. Segundo suas palavras :

“ supondo que todas essas coisas são como dissemos, qual a finalidade de aprendê-las? Para dar conta desta questão é preciso nos referirmos ao elemento divino presente no mundo gerado, que consiste da espécie mais excelente e mais divina de coisas visíveis que a Divindade permitiu aos seres humanos observar”. Ele prossegue:“precisamos inclusive, deter um conhecimento apurado da exatidão do tempo, captar como ele cumpre com precisão todos os fenômenos celestes. Se o fizermos, então todos os que creem na verdade de nosso raciocínio segundo o qual a alma é a uma vez mais velha e mais divina que o corpo deverão reconhecer que o adágio tudo está repleto de deuses é cabalmente correto e suficiente e, ademais que nunca somos negligenciados devido ao esquecimento ou incúria dos seres que nos são superiores”.46

9. A Filosofia Platônica e o ensino da beleza do universo através da educação

Platão nos ensina que o universo foi criado pelo Bem, que também criou o princípio material. O Demiurgo é um deus que molda a matéria. No cosmos platônico, o mundo é bom, pois foi moldado pelo Demiurgo com base no Paradigma Inteligível. Na criação do homem, a beleza também está presente. Isso foi muito enfatizado por Proclo, que não deixa de nos recordar isto, mas sempre mantendo-se fiel à concepção do seu mestre Platão de que o corpo não tem a mesma dignidade da alma, o que não quer dizer que haja nele algum elemento de maldade como os gnósticos da era cristã pregavam. O platonismo não é um sistema pessimista como o gnosticismo. É curioso como a filosofia de Platão foi acusada por alguns filósofos cristãos de criar uma noção errônea da matéria. O que vimos foi que a união da alma e do corpo é algo desejada na ordem de sua filosofia, semelhante ao hilemorfismo aristotélico. A coleção de citações sobre como o bem está presente na matéria citadas por Reale acima demonstram como Platão a tinha em grande estima. “A realidade da matéria é invisível ao mesmo tempo em que a vemos em suas várias manifestações”, diz o filósofo grego. Platão é muito científico, porque mesmo a ciência moderna ainda busca a essência da matéria. A concepção da matéria em Platão é muito importante de se ter em mente contra aqueles que quiserem fazer da filosofia de Platão uma antecipação do gnosticismo da era cristã. Depois de haver descrito essa ordem de maneira tão bela, Platão enfatiza que o noumenon deve ser a base do conhecimento para o homem. Platão queria uma ciência não do mundo físico, mas sim do mundo eterno das Ideias. O que primeiro deve ser feito é a libertação do mundo das aparências do mundo físico. O homem sem a contemplação da Ideia é semelhante a um prisioneiro da caverna que só enxerga as sombras. Quem fará a descoberta do mundo das Ideias e as comunicará aos homens que ainda estão presos às aparências é o filósofo. No mito de Eric Voegelin, o filósofo é como o daimonios aner, ou seja, o homem espiritual. É esta a função do filósofo em A República, pois ele  é quem faz a intermediação do mundo divino com o mundo dos homens. Este homem espiritual, entretanto, segundo Voegelin, não poderá ser apolítico e viver preso à contemplação da Ideia, pois a cidade precisa dele.

A polis platônica necessita de cidadãos educados, principalmente para o surgimento de governantes com a alma ordenada. Platão, portanto, criou um método de educação que visa a ensinar aos homens o Bem contemplado antes dessa vida, pois seu pensamento exige uma preexistência da alma. Caindo no mundo físico, a alma esquece do que já havia aprendido. Com a Paideia, a alma pode recordar-se do que já sabia através do método da anmenese. Este método é ensinado no diálogo Menon. O método de relembrar-se leva o estudante à aporia, que é um impasse. Cabe ao professor ensinar ao aluno como sair desta situação, e através da resposta, este último encontrará uma solução de que nada mais é do que uma recordação de algo que ele já sabe desde uma vida passada no mito platônico.

A filosofia e a Paideia de Platão são majestosas, pois conseguem unir o espiritual ao mundo físico sem cair nos problemas que Aristóteles enfrentou, pois este tinha muita dificuldade de imaginar uma sobrevivência da alma sem o corpo. Platão quer que os homens através da educação tenham uma alma sadia da mesma forma que o corpo, pois ambos nos recordam da bondade de Deus. O universo é bom, a alma unida ao corpo é algo desejável e a harmonia da ordem divina está presente em tudo o que vemos.

 

 

Conclusão

A criação do universo como cópia da Ideia foi algo bom e belo. Platão apresentou-nos uma teologia em que os deuses são bons.No Timeu, Deus é considerado bom (agathos)47, livre de inveja ( Peri oudenos oudepote phthonos)48, melhor das causas(o d`aristos tôn aitiôn)49 e produz o mais belo( to kalliston)50. O homem foi definido como o mais belo dos Inteligíveis.51 Sua Paideia cria um homem que desde criança aprende a experimentar o Bem. O trabalho concluiu que o papel do filósofo como educador é o de transmitir a beleza da Ideia e do Cosmos àqueles que ainda são prisioneiros do mundo dos sentidos. A Paideia começa pela contemplação através do sentido da visão da Ideia eterna. O papel do educador é o de ensinar aos alunos os objetos do intelecto (nooumena) e começar o ensino através do processo da anamnese. O trabalho atingiu o seu objetivo de explicar esta ligação entre o Bem e a Paideia. O filósofo, tal como lemos no diálogo O Banquete, é aquele que está sempre apaixonado e com os olhos sempre mirando na Ideia. Ele deseja que os membros da Pólis tenham em mente o Bem do mundo eterno. A Paideia atinge seu objetivo quando faz do homem, que é imperfeito, um ser que deseja aprimorar-se espiritualmente. Este trabalho  representou uma grande realização intelectual para mim. A filosofia de Platão é a mais perfeita que existe e ele é a grande inspiração para que eu possa exercer o papel de filósofo.

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¹ Timeu, 28b

² Ibid

³ Reale, pág 445

4 Ibid

5 Timeu, 29e

Timeu, 38d

7 Reale, pág 474

8Timeu, 47e

9 Reale, pág 4

10Timeu, 54a

11 Timeu, 68d

12 República, 506a-e

13República,507a-e

14República,508a-e

15 Timeu, 47b

16 República, 514a-516a-e

17 Ordem e História, pág 176

18 Ibid

19Banquete, 201b

20 Banquete,201e

21Banquete, 204b

22 Anamnese, pág 406

23Menon, 80d

24Menon, 84b

25Fédon, pág 41

26 Jaeger, pág 620

27 Protágoras,313ª

28Protágoras,321b-322d

29Protágoras, 355e

30Górgias, 481b

31 Górgias, 481d

32Górgias, 484d

33Górgias, 505a

34Górgias, 505b

35República, 387a-e

36Ibid

37 República, 391a-e

38República, 395-396a-e

39República, 397a-e

40República, 401a-e

41Timeu, 80a

42República, 452

43 Leis, pág 278

44Leis, pág 283

45Proclo, pág 326

46Leis, pág 537

47 Timeu, pág 38

48Ibid

49Ibid

50Ibid

51 Proclo, pág 654

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Bibliografia

JAEGER, Werner. Paideia: A formação do homem grego. 3. Ed.São Paulo: Martins Fontes,1995.

PLATÃO. O Banquete. Porto Alegre: L&PM, 2011.

Fédon. 3.Ed.São Paulo: Martin Claret,2011.

Górgias. 1.Ed. São Paulo: Edipro,2007.

 As Leis. 1.Ed. São Paulo: Edipro, 1999.

Menon. 1Ed.Rio de Janeiro: Editora Puc Rio, 2001

Protágoras.1.Ed. São Paulo: Edipro, 2013.

A República. São Paulo: Martin Claret, 2003.

Timeu.1Ed. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2011.

PROCLO. The Commentaries of Proclus on the Timaeus of Plato. Kessinger Pub, 1997.

REALE, Giovanni. Para uma nova interpretação de Platão. 2.Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

VOEGELIN, Eric. Anamnese. 1.Ed. São Paulo: É Realizações, 2009.

Ordem e História: Platão e Aristóteles.1.Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

 

 

 

 

 

 

 

 

Comments

  1. Roger says:

    Mto bom.

  2. Assa tomas cossa says:

    artigo bastante interesante

  3. gagriella says:

    Platão foi o maior filósofo de todos os tempos. Sua filosofia é a mais completa, metafísica e humana que a de Aristóteles. Seus escritos em forma de diálogo são de uma beleza incomparável em relação a qualquer outro filósofo que já tenha existido. Vou analisar a filosofia platônica em seus principais aspectos, como o mundo das Ideias, a psicologia, a existência de Deus, o domínio da opinião, a moral e a política.

  4. jucilene oliveira says:

    como Platão definia a filosofia?

    • Para Platão, a filosofia é a ciência das Ideias. O verdadeiro filósofo é aquele que se preocupa com o noumena antes do phenomenon. A ciência platônica valoriza o Nous, ou seja, os objetos da consciência. Fazer filosofia pelo método platônico, é utilizar-se do método da anamnese, isto é, recordar-se daquilo que você já sabe por ter vivido antes no mundo da Ideias.

  5. É um artigo muito completo, muito bom mesmo! Mas eu não consegui entender o q realmente era Deus pra Platão, ou seja, quem era o Demiurgo e oq ele faz?

    • Olá! Platão foi o filósofo que mais aproximou-se da ideia de um Deus único. Esse Deus “único” seria aquele a quem Platão denomina de ” O Bem “. O Bem é quem cria a matéria no universo platônico. Mas é preciso dizer que o Bem ( Deus) não exclui outras divindades. A principal delas é o Demiurgo, que não cria a matéria, mas sim é o Artífice que tem a tarefa de modelá-la. Os outros deuses gregos também são admitidos por Platão.

  6. Manoel de Jesus Monteiro da Silva says:

    Precisamos trazer para nossos dias a riqueza que carrega em si o conhecimento de Platão, usando em sala de aula nos anos/séries iniciais, numa expectativa de reconhecimento do que cada um pode representar na sociedade enquanto vivente.

  7. vasco Antonio Manjate says:

    bem,realmente concordo com platao.pois tudo parte de um conceito.na minha Visao Segundo platao o mundo das ideias.logo nao existiria ciencia sem nenhum conceito.

  8. ana beatriz silva says:

    platão foi um dos filósofos que mais me impressionou ! ele sim sabia viver a vida e aproveitar suas idéias para coisas boas e não para bobagens tipo hoje !

  9. lucas says:

    se tudo o que vemos( aparência) e falso onde estará a verdadeira beleza?

  10. ê um maravilhoso texto saiu hj na prova de filosofia adorei o texto

  11. Texto maravilhoso!Obrigada por colocá-lo no google! Sou psicóloga e amo o conhecimento.
    Maria aparecida do Nascimento-psiaparecida@gmail.com

  12. Perfeito! Mui instrutivo e nada massante!

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