A Análise do Quadro O Casamento dos Arnolfini, de Van Eyck

Um dos quadros mais interessantes, complexos e Belos que a arte ocidental produziu, O Casamento dos Arnolfini é a primeira representação íntima da vida burguesa na arte cristã. Van Eyck representa o papel de testemunha junto com um amigo, de um casamento realizado no ano de 1434 na região da Bélgica por um casal Italiano, apesar de que, como percebeu Huizinga, os Arnolfini possuem expressões bem pouco italianas.

Van Eyck era um mestre em reproduzir cenas íntimas da vida na Europa do fim da Idade Média. Ele também fez uma pintura que retratava o nu em uma cena de banho que hoje está perdida.

Vamos à análise da pintura:

O casal era muito rico, pelas roupas usadas que pertenciam à burguesia do norte da Europa. Arnolfini olha confiante para as testemunhas, enquanto sua esposa olha delicadamente ( outros poderiam dizer de maneira submissa) para o marido.

O cão, de uma raça hoje extinta, representa a fidelidade para os medievais, que adoravam símbolos e alegorias.

O vermelho é o símbolo da união sexual do casal.

As laranjas podem simbolizar o paraíso perdido, ou seja, o pecado original.

O verde do vestido da mulher representa a fertilidade desejada ao casal.

A única vela acesa representa o olho de Deus, que tudo vê.

O espelho reflete o casal, Van Eyck e outra pessoa não identificada. Em volta do espelho podemos ver pequenas cenas da vida de Cristo.

O imenso rosário é um símbolo de fé da esposa que deveria ser devota.

O fato de Arnolfini estar do lado da janela aberta representa a obrigação do homem de ir trabalhar fora para sustentar a casa.

A mulher não está grávida como pode parecer, mas é um efeito do vestido comum na época. Essa cerimônia privada era comum na Idade Média, não sendo exigida como depois no concílio de Trento que fosse na presença de um padre e na Igreja.

O quadro transborda de realismo como era comum na pintura flamenga da época, da qual Van Eyck era um dos maiores representantes. Toda a graça do sacramento católico do matrimônio está reproduzida nesse quadro. A técnica do reflexo do espelho seria uma inovação que seria muito imitada na arte ocidental posterior, é só ver o caso de Velázquez.

Essa cena representa o início da família burguesa, em que a vida de casal entre o marido e mulher passa a ser valorizada. A privacidade e a vida íntima passam a ser vistas como uma conquista do casal, e a civilização ocidental passará a declarar esses valores como uma das bases do núcleo familiar e da psicologia do homem e da mulher.

Se você reparar nos quadros anteriores de cenas íntimas de casamento na Idade Média, o contraste é óbvio. Geralmente, nessas cenas dos séculos anteriores, o casal tinha que ser visto em seu leito pelo padre e pelos membros da família em sua vida íntima. Já no século XV, é dado início ao processo de aburguesamento da vida privada. Foi a burguesia que valorizou o casamento e o núcleo da família como sendo formado pelo  pai, mãe e filhos somente. O método antigo da família da Alta Idade Média, em que a família tinha incontáveis filhos, que depois eram distribuídos aos familiares mais distantes para serem criados foi o modelo até o século XIII. Se nós repararmos, esse modelo de família existia até pouco tempo no interior do Brasil. A família burguesa demorou a se impor entre as camadas mais pobres.

O que fez com que as  famílias mais pobres formassem uma família igual à da burguesia foi simplesmente a invenção da pílula anticoncepcional. A burguesia foi quem impulsionou a educação e a infância ( ver Neil Postman). Como a burguesia teve um desenvolvimento notável nos países protestantes, especialmente na Inglaterra, foi nesses países em que a vida privada, a riqueza pessoal, a proteção da criança até o início da idade adulta e a alfabetização das massas teve um fantástico florescimento. Nos países católicos, por causa da manutenção da população no analfabetismo e em uma vida solta ( ver Max Weber), em que o casal não tinha a escolha de poder dar educação e proteger uma família que fosse unida, o resultado acabou sendo, por incrível que pareça, a diminuição da natalidade na França, e na ploriferação dos bastardos na Itália e nos países da América Latina.

Como Marx sabia, a burguesia tinha um papel revolucionário na história. Foi o que ela fez com a família, de forma que promoveu a infância, a educação e a restrição de uma vida dominada pelos instintos.

Poucas pinturas são tão burguesas como essa, e representam tão bem o ideal de vida do casal na parte final da  Idade Média. Tornou-se uma das pinturas mais famosas do mundo e é o símbolo de uma civilização.

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A História do Ocidente Medieval

Esse livro antigo do medievalista francês Jacques Le Goff ainda é uma referência para sabermos de diversos aspectos do mundo medieval. Le Goff nesse livro estudou toda a idade média, ao contrário do que faria depois em sua carreira, de se concentrar mais na Baixa Idade Média.

O começo do livro fala um pouco sobre como era a civilização romana, que era extremamente fechada em seu próprio mundo, e de como após sua queda, a Europa teve que suportar não só a invasão de diversos povos, mas também as influências culturais deles, especialmente dos celtas e germânicos.

Na alta Idade Média houve um declínio de população, e os centros de ensino foram destruídos, restando apenas os mosteiros como escolas e bibliotecas. A filosofia grega foi toda transferida para Bizâncio e a Síria, e o Ocidente teve que se contentar com as sobras que Boécio conseguiu juntar.

O dinheiro sumiu de circulação e a escravidão desapareceu, sendo substituída pela servidão. Se isso foi uma influência da igreja, ou apenas uma consequência econômica do feudalismo é algo que ainda pode ser debatido. A Europa então passou a viver momentos dramáticos, como estar sujeita a governos bárbaros que mal tinham se convertido ao cristianismo, ao analfabetismo e a uma baixíssima expectativa de vida.

Para piorar, surgiram nas fronteiras da Europa duas grandes ameaças: os Vikings e, principalmente, os árabes. No norte a Europa viu-se arrasada pelos saques dos Vikings, que tiveram seu auge no século IX. Ao sul, na Espanha, no sul da França e da Itália, estava uma ameaça muito maior: a religião muçulmana. Vários desses locais foram arrasados; populações inteiras nesses locais sofreram durante séculos com os ataques piratas dos árabes em busca de escravos para seus haréns. Parecia que a Europa estava perdida.

Mas nessa época surgiram dois personagens que livraram a Europa de seus piores dias: Carlos Martel e Carlos Magno. O primeiro derrotou as tropas árabes em Tours, permitindo a sobrevivência da civilização cristã; o segundo reconstruiu a Europa politicamente e economicamente, também dando início a um processo de alfabetização e reconstrução das escolas, no que ficou conhecido como o renascimento carolíngio.

A obra de Carlos Magno, porém, durou pouco, por causa dos ataques dos vikings. O surgimento da Europa como potência teria que esperar mais um pouco.

O renascimento da Europa

No século XI, graças aos avanços na agricultura e no crescimento do comércio, a civilização europeia surge como uma nova força no mundo medieval. A população passa a crescer como nunca, gerando uma nova força de trabalho. Com o início das cruzadas em 1096, a europa dá seu aviso ao mundo islâmico e a Bizâncio, como diz Chesterton em A Nova Jerusalém: ” Roma está acordada; Roma ressurgiu dos mortos”. Uma nova e confiante civilização está pronta para dominar o mundo.

A técnica e as invenções

Le Goff demonstra que a técnica do ocidente medieval não era inferior à bizantina e à islâmica. No início sofrendo pela destruição das invenções e tecnologias romanas, a Europa medieval soube se reinventar, e sua mentalidade era como uma esponja, absorvendo tudo que podia aprender com os outros, e sabendo ser criativa criando suas próprias invenções. O colar para cavalo, as ferraduras, a cavalaria, a bússola( que é uma invenção independente dos europeus e muito superior à chinesa), os óculos e os relógios mecânicos, sendo essas três últimas invenções exclusivas dos europeus durante séculos, transformariam a civilização medieval para sempre.

As fomes e a fragilidade econômica

Talvez o aspecto que cause mais resistência às pessoas modernas para aceitarem a Idade Média, é o fato do feudalismo ter provocado situações inusitadas e fatais em determinados momentos. Na alta idade Média, o dinheiro praticamente deixou de circular, e os banqueiros dos reis eram os judeus, muito tolerados nessa época. Na baixa Idade Média o dinheiro volta a circular por causa das cruzadas e do surgimento dos bancos. Sim, o sistema bancário é uma invenção da Idade Média.

Uma situação absurda citada por Le Goff é a existência das alfândegas interiores, que cobravam pedágio dos alimentos de uma cidade vizinha para a outra. Isso revelou ser uma armadilha, pois quando havia um baixo estoque de alimentos em uma cidade, a que estava mais próxima não conseguia enviar ajuda imediata, e o resultado disso eram as fomes frequentes, principalmente nps séculos X e XI, e doenças sinistras como o fogo de Santo Antão, conhecida hoje como ergotismo.

Mentalidade

O mito diz que os europeus eram atrasados e que viviam com medo do diabo e do inferno, com uma igreja que controlava todo o saber. Le Goff diz que apesar de certas ideias dos medievais serem para nós hoje uma coisa distante, a igreja daquele tempo soube conciliar a fé com a razão, graças à filosofia escolástica, e que a mentalidade cristã favoreceu sempre a ideia de progresso. Os medievais, apesar das dificuldades, sempre acreditaram que a história progredia, e que o homem tinha um fim, que seria com Deus no paraíso. A ideia de que Deus agia na História, e que as invenções e o progresso eram algo desejado por Deus.

O grande legado da Europa para a civilização: as universidades e o nascimento da ciência.

A Europa não era uma civilização fechada como Bizâncio ou o islã a partir do século XI. Os europeus souberam absorver os conhecimentos das civilizações vizinhas como os algarismos hindus e a ciência médica árabe, mas no entanto, a grande contribuição à medicina veio da europa medieval: as dissecações de cadáveres, que tiveram início no século XIII. Proibida na antiguidade e no mundo islâmico, as dissecações foram uma grande contribuição da ciência medieval para o nosso mundo.

Para quem acha que o conhecimento na Idade Média era dogmático e fechado, a invenção mais genial desse tempo, as universidades, são a prova de que os medievais discutiam ideias contrárias às suas, e que o livre debate e a autonomia dessas instituições estavam garantidos desde o princípio. As universidades também permaneceram uma instituição cristã exclusiva durante séculos.

Esse livro de Le Goff foi escrito em uma época em que ele parecia ser mais pessimista a respeito dessa época do que viria ser depois. Nos livros mais recentes, Le Goff é mais otimista e menos preocupado com a luta de classes daquela época, na década de 1960. É um ótimo livro para quem deseja conhecer toda a Idade Média.

 

 

Morrer…Dormir!…Talvez Sonhar! Uma Crítica de Hamlet

 

Um dos grandes mistérios da vida se Shakespeare era sua religião. Tendo nascido em um país que se tornou protestante de forma mais lenta do que em outros casos na europa, o poeta e dramaturgo inglês parecia estranhamente próximo ao catolicismo, por seus personagens simpáticos ao catolicismo, e seus dramas e comédias muitas vezes ambientados em um país católico como a Itália.

De maneira muito diferente de seus compatriotas, como o filósofo Thomas Hobbes e o poeta John Milton, que eram abertamente hostis ao catolicismo, Shakespeare apresentava padres, freiras e dogmas católicos de uma maneira muito realista e simpática.

O ambiente de Hamlet, no entanto, parece, de início, ser um drama protestante, pois a história se passa na Dinamarca, e Hamlet volta de Wittenberg, onde estudava, no coração da reforma protestante.Mas isso, na minha opinião, não impede que Hamlet seja uma obra profundamente católica.

A cena inicial mostra alguns soldados que estavam de sentinelas que avistam a alma do falecido rei, pai de Hamlet. Eles então avisam a Hamlet sobre o acontecimento. A alma então fala com Hamlet, e diz que foi assassinada, para a surpresa do personagem principal.

Ela continua sua história: diz que está condenada a vagar pela noite e durante o dia a jejuar nas chamas, até que estejam extintos os pecados de sua vida terrena. Aqui está uma clara representação do dogma católico do purgatório. Não acredito que se Shakespeare fosse hostil ao catolicismo, ou seja, se fosse protestante, jamais criaria uma cena como essa sem condená-la explicitamente.

A alma do pai de Hamlet quer vingança pelo seu assassinato, e ele conta ao filho como foi que tudo aconteceu, tendo sido morto por seu próprio irmão, tio de Hamlet, que torna-se então, amante da rainha.

O espírito lamenta, como católico que era, que tenha morrido sem a extrema-unção, sem confissão e os sacramentos. Hamlet então acredita no relato da alma de seu pai e jura vingança.

O drama da peça começa aí: como o espírito de Hamlet reage ao saber de tamanha traição ao seu pai e a perfídia de sua mãe e de seu tio. Hamlet então diz que há mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor nossa filosofia. Isso tanto pode referir-se à alma de seu pai ter aparecido aos vivos, como a traição que reinava na sua família, que era mais do que todos podiam imaginar.

A forma como Hamlet reage ao saber da verdade de tamanha tragédia é a questão central nesse drama. Hamlet, que era uma pessoa justa, não parece conseguir suportar tamanha história de horror e começa a agir como se estivesse perturbado. Passa a falar com palavras estranhas com sua mãe,seu tio, e sua provável futura esposa, Ofélia.

Então, no meio da peça, Hamlet faz o seu famoso monólogo do ser ou não ser. O que Hamlet queria dizer com isso?

Poderia ser uma reflexão sobre a possibilidade do suicídio em quem está sofrendo com tamanha dor. Hamlet questiona se vale a pena suportar todas as misérias dessa vida, e se o suicídio seria um meio de escapar a tudo isso de maneira válida.

Será que existe alguma coisa depois da morte? Isso é o que Hamlet questiona. A resposta ele mesmo encontra em sua consciência cristã quando pensa na existência de uma outra vida, e na possibilidade que o inferno realmente exista, porque ele tem medo de que evitando os males de nosso mundo, possamos cair um tormentos ainda maiores no inferno, que é o local que ele imagina que exista de verdade.

Hamlet então rejeita o amor de Ofélia por causa da sua obsessão com a vingança; Ofélia vê-se rejeitada por Hamlet e termina se suicidando. Hamlet contempla a possibilidade de se tornar um assassino para fazer justiça. Essa é também a questão de saber se ele deve ser ou não ser um assassino. Em Hamlet, existe a possibilidade de que o filho ame a própria mãe, e seu desejo era o de matar seu tio justamente para viver esse caso proibido. Teria também desejado a morte de seu pai secretamente, mas foi surpreendido pela notícia de que sua própria mãe era responsável pela tragédia. Essa é uma interpretação psicológica do drama.

Eu prefiro a interpretação cristã. Hamlet é a própria existência do pecado original, em que o homem deseja o mal em sua alma. Lembra a advertência de Deus ao próprio Caim dizendo para que ele se controlasse, pois se isso não acontecesse, o pecado estava à porta, e isso seria o desejo de Caim, mas que sobre o pecado, ele deveria dominar e triunfar.

Shakespeare conhecia essa passagem da Bíblia, e a reproduz em Hamlet. Primeiro ele se sente triste e abandonado; não sabe o que fazer. Com isso segue que o desejo de vingança domine a sua vontade, e que o pecado do assassinato torne-se o seu desejo dominante. Com isso, como no livro do Gênesis, Hamlet estava com o pecado na porta de sua imaginação, no entanto, como Caim, Hamlet não foi forte o suficiente para suportar a provação e deixou-se dominar pela tristeza, que era conhecida pelos medievais como um dos sete pecados capitais.

Não irei contar o final, mas como em outras peças de Shakespeare, o mal triunfa, pois o dramaturgo inglês, como percebeu o filósofo alemão Schopenhauer, queria mostrar ao homem o próprio pecado de termos nascido. É o própria queda do homem e a maldade que reina em seu coração e mente, que Shakespeare pretende reproduzir em seus personagens.

A peça é dramática e tem momentos tensos e profundos, como quando Hamlet questiona se o suicídio é uma saída para os sofrimentos desse mundo. Nunca vi essa peça, que deve ser ainda melhor assistida do que lida. Uma obra fundamental para entendermos o próprio sentido do sofrimento e da vida.

 

 

Uma definição de Adolf Hitler

Sem dúvida o personagem mais cruel, sinistro e misterioso do século XX, e talvez da história, Adolf Hitler continua em grande parte sendo um mistério para os estudiosos de sua vida. O porquê de todo o sofrimento que Hitler causou ainda parece não ter explicação. Muitas teorias, a maioria sem base histórica, procuraram oferecer respostas ao mundo das causas que levaram esse austríaco estranho a iniciar o maior conflito militar da história. Mesmo com alguns questionamentos ainda causando polêmica, com a ajuda de um maior conhecimento histórico das raízes austríacas de Hitler, da história política e filosófica alemã, já podemos ter uma imagem melhor definida de quem foi esse homem chamado Hitler.

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Minha resenha sobre o livro negro do comunismo

Uma Tragédia em Escala Global

Prometeu: só tenho uma palavra: odeio a todos os deuses, que depois de receber meus benefícios, me ferem injustamente.

Mercúrio: tens a razão conturbada, bem se vê; o mal é violento.

Prometeu: pois que ele se agrave ainda,se é um mal detestar seus inimigos!

Mercúrio: COMO SERIAS INSUPORTÁVEL SE GOVERNASSES UM DIA!…

Ésquilo- Prometeu Acorrentado

Essa presente obra lançada no final dos anos 1990 pretendeu mostrar ao mundo os segredos da tragédia do comunismo em vários cantos do planeta. Escrito por comunistas que tinham a intenção de adiantarem-se à direita na denúncia dos crimes da extrema-esquerda. Os autores no início do livro demonstram, não sem denunciar uma suposta hipocrisia, que a igreja católica já havia denunciado o comunismo em algumas ocasiões, como na encíclica Divini Redemptoris. A pergunta inicial é o porquê do projeto ter se desviado uma suposta retidão ao longo dos anos. Faço essa resenha anos depois de haver lido ao menos duas vezes esse livro.

A pátria mãe do socialismo foi a Rússia, onde a obra O Capital de Marx havia feito mais sucesso no continente europeu. Lá o casamento do otimismo marxista com a retórica explosiva de Lenin gerou a revolução comunista. Existiram, claro, outros fatores mais complexos, como narrados com maestria por Orlando Figes em A Tragédia de um Povo.

Lenin sempre havia achado que a Rússia estava madura para uma revolução socialista, que de fato aconteceu, mas depois que a revolução veio, o que fazer? Como no título da obra famosa de Lenin, essa era a questão principal. Como governar um país ainda feudal, com uma imensa população analfabeta, semi-industrializado e devastado economicamente pela primeira guerra? O resultado era que Lenin, Trotsky e os outros camaradas não sabiam o que fazer, pois achavam que a revolução deveria ter começado por um país mais avançado, principalmente a Alemanha.

Tentar fazer com que os camponeses aderissem ao sistema socialista e impor um sistema de requerimento de grãos fora da realidade, deu início ao desastre da fome. Os autores não enfatizam isso, mas quando as potências internacionais intervieram na União Soviética, o que gerou o comunismo de guerra de Lenin, certamente favoreceu a fome de 1921.

Os autores certamente denunciaram a insensibilidade de Lenin durante a campanha de ajuda às vítimas da fome, da mesma forma como ele havia ignorado a campanha de ajuda às vítimas da fome de 1891. O caráter irascível de Lenin é exposto no livro, assim como sua tática sinistra de comparar seus inimigos políticos a insetos e aranhas.
A desconfiança comunista em relação ao povo, especialmente aos camponeses e à oposição, gerou a terrível Tcheka, dirigida pelo polonês Dzerjinsky. A tcheka é a antepassada da KGB.

Depois da morte de Lenin, aconteceu a luta entre Trotsky, um fanático da militarização da indústria e da expansão do socialismo através de guerra, e Stalin, um homem sinistro, mas extremamente inteligente, defensor do socialismo em um único país. Stalin vence, e dá início a um gigantesco projeto de industrialização, da mesma forma que criou um novo método de punição dos inimigos do socialismo: o Gulag. Esses horripilantes campos de trabalho forçado era uma verdadeira máquina de matar por exaustão e doença os inimigos da extrema-esquerda. Stalin também deu início a uma guerra sem tréguas contra os Kulaks, que junto com as diversas minorias que habitavam o território soviético, foram fuzilados ou enviados para lugares desolados do território russo, especialmente o Casaquistão.

Existe um capítulo dedicado ao grande terror, também conhecido na Rússia como tempo de Iejov. É impressionante a quantidade de supostos inimigos do povo que foram fuzilados. Centenas de milhares perderam a vida por causa da paranoia de Stalin.

Algumas afirmações falsas da extrema-direita que ficaram populares entre alguns círculos nos últimos anos, de que Stalin foi o responsável pelo início da Segunda Guerra por ter traído Hitler, não são endossadas pelos autores.

Assim como Lenin teve a ajuda de capitalistas para estabelecer e revolução e teve que restabelecer o capitalismo com a NEP, Stalin contou com a ajuda de engenheiros especializados norte-americanos para fazer sua campanha de industrialização. Esse fato não é mencionado no livro, se não me engano. Mas é surpreendente como a Rússia soviética muitas vezes foi financiada por grandes capitalistas ocidentais.

Estou fazendo essa resenha buscando mais analisar o projeto comunista, do que em fazer as contas de quantos milhões teriam sido mortos, porque esses números muitas vezes são discutíveis. Da mesma forma, seria injusto atribuir a Karl Marx o números da tragédia soviética.
Lenin, Stalin, Khrushchov e outros contribuíram para que o território soviético se tornasse um grande cemitério, de forma que suas glórias esportivas e espaciais não podem apagar essa história de horror.

Existem outros capítulos no livro que mostram a ação da KGB para expandir a ação do comunismo na Europa e a utilização do terrorismo. Os autores demonstram uma curiosa obsessão do comunismo soviético: a mística do aço e seus recordes de produção, em um país em que bens manufaturados básicos eram escassos. Essa mística também existiu no Camboja com o arroz e em Cuba com o açúcar.

Stéphane Courtois notou que a derrota do mal absoluto( o nazismo, que sem dúvida é muito pior do que o comunismo) fez o comunismo ser legitimado internacionalmente como o campeão do antifascismo, e saltou automaticamente para o campo do bem.

A história trágica do comunismo também é contada em capítulos sobre sua atuação nos governos da Ásia e da América central. O livro possui um capítulo dedicado a história do comunismo chinês e seus campos de concentração( laogai). Lá é contada a história de um de seus presos, que era católico, e percebeu a estranha obsessão dos comunistas chineses com o sacramento da confissão, de forma que os seguidores de Mao tentaram reproduzir a confissão católica no sistema prisional chinês.

No Camboja, o terror comunista atingiu o seu auge, e alcançou o status de genocídio, com um governo louco do Khmer vermelho e sua obsessão em transformar o país em um imenso campo de plantação de arroz e sua luta em tentar fazer uma gigantesca lavagem cerebral na população. Os autores perceberam um fato curioso: a destruição da população do Camboja pelo Khmer vermelho foi auxiliada pela crença da população desse país na reencarnação, porque um dos efeitos dessa crença é a desvalorização da vida atual, que passa a valer muito pouco em meio a um turbilhão de futuras reencarnações. Daí vem a apatia do povo do Camboja diante do massacre.

Faço uma pequena passagem pela ilha-prisão de Fidel Castro, para ficar claro que os autores do livro denunciam Che Guevara como um incompetente em matéria de economia, pois sua desastrada administração quase destruiu a economia de Cuba. Outra característica da ditadura cubana era a perseguição aos homossexuais, cujos direitos a esquerda reclama para si no ocidente, mas nega nas ditaduras comunistas.

Existem ainda, voltando ao comunismo soviético, alguns mitos que precisam de esclarecimentos. Trotsky seria uma alternativa melhor do que Stalin no poder? Como o livro possui citações abundantes de Trotsky, fica demonstrado como isso seria difícil, devido ao caráter intolerante e guerreiro( no pior sentido da palavra) da personalidade de Trotsky.

Outro mito: é sabido que o comunismo denunciava ferozmente a natureza hierárquica da idade média, com a sociedade dividida entre a nobreza, o clero e os camponeses, estrutura essa que o comunismo queria destruir para implantar um socialismo igualitário. Mas, estudando melhor o assunto, na União soviética esse quadro também não existia? Vejamos: Stalin era o rei, com um poder infinitamente maior do que qualquer rei feudal jamais sonhou; os comissários eram o clero, com todos os benefícios em assistência médica especializada que a população soviética não tinha acesso; e os camponeses, que continuaram existindo.

Isso demonstra que a situação medieval correspondia sim, a um esquema válido, e que não é fácil de ser substituído. O livro demonstra bem o processo de desumanização presente na mente de alguns comunistas. Existe até uma citação de Jean-Paul Sartre de que “todo anticomunista é um cão”. O livro também possui a denúncia de um pensamento biológico-eugenista para explicar o comportamento dos que não apoiam o regime.

Uma explicação minha sobre a citação de Ésquilo no início da resenha: é fato conhecido que Marx citou a afirmação de Prometeu de que odiava todos os deuses de uma forma isolada em sua tese de doutorado. Como demonstrou Eric Voegelin, essa foi uma desonestidade de Marx, pois fica claro que Ésquilo pretende demonstrar através do personagem de Mercúrio, que Prometeu estava com a mente perturbada por dizer que desprezava os deuses e a religião. Essa passagem foi sempre muito citada entre os comunistas para justificar a sua repulsa à religão cristã, mas a verdade é mesmo profética pela boca de Mercúrio: como uma pessoa com essa mentalidade seria um desastre em um futuro governo. A perseguição dos regimes comunistas contra as diversas religiões comprovam essa profecia.

Por fim, os autores rejeitam a comparação entre o terror comunista e a inquisição católica. Ao contrário do comissário comunista, o padre católico possui a verdade, e sabia que era um ato de caridade advertir ao próximo sobre seu erro. Como disse Miguel Del Castillo, citado pelos autores do livro: “ a finalidade não é torturar ou queimar: consiste apenas em fazer as perguntas certas”. Os autores podem ter exagerado no número de mortes, que nunca saberemos ao certo. O que é verdadeiro é que as vítimas do comunismo, ao contrário do nazismo, não possuem voz, nem memoriais, mas esse é o objetivo do livro: dar voz aos milhões de vítimas de uma utopia.

Para saber mais sobre a natureza gnóstica do comunismo, leiam o livro de Eric Voegelin, Science, Politics and Gnosticism.Imagem

Minha resenha sobre o livro de George R.R.Martin, A Guerra dos Tronos

Uma nova fantasia medieval
A guerra dos tronos, primeiro voluma de As Crônicas de Gelo e Fogo, destaca-se pela riqueza e variedade dos personagens, pela ausência de magia, já que a presença de magia é comum em outros livros do gênero que eu já li; um grande destaque é dado às personagens femininas, ao desejo do sexo e as prostitutas, fazendo desses temas uma grande novidade do livro.

Martin inova em sua história por utilizar o realismo na medida certa, ao mesmo tempo que mantém as histórias da mitologia e dos antepassados, que dão uma característica de uma fantasia muito rica e variada. O que achei impressionante é a facilidade do autor em construir diálogos inteligentes e muito bem articulados, que é um dos fatores que mais dão força ao livro.

São dezenas de personagens que são mencionados durante a história, cada um com uma personalidade mais marcante do que o outro. As paixões humanas e os vícios estão muito bem reproduzidos nos diversos personagens que fazem parte da obra. Contrariamente a algumas das obras mais famosas de fantasia, a guerra dos tronos cria um mundo imaginário sim, com mapas, cidades e povos fictícios, mas não abusa das descrições desses lugares, apesar de que eu goste desse tipo de narrativa.

As diversas famílias mencionadas durante o livro possuem uma rica história e diferentes personalidades. Martin cria personagens muito realistas, com características que o leitor pode se identificar facilmente, ou desprezar com repulsa. Ambiguidade moral, crueldade, violência, o desejo por sexo, a inocência e a bravura estão retratadas com muita habilidade.

O que torna a história ainda mais interessante é que ela está baseada na guerra dos cem anos entre a França e a Inglaterra, e na guerra das duas rosas, que aconteceu na Inglaterra do século XV. O leitor pode ter a sua curiosidade histórica despertada para conhecer melhor esses conflitos.Uma outra influência na obra de Martin é a do dramaturgo e poeta William Shakespeare, que é refletida na forma como os personagens são movidos pela paixão, amor e ódio, muito mais do que pela razão.

Essa influência também pode ser percebida nos pensamentos secretos que os personagens exibem, recurso esse que também era muito utilizado por Shakespeare. Martin também aborda com muita habilidade a questão sexual, demonstrando como vários personagens são movidos pelo impulso da satisfação sexual e a necessidade de prazer, o que dá ao livro um grande toque de realismo.

Os diálogos são excelentes, e não param em nenhum momento. O que poderia ter sido uma dificuldade para Martin ao escrever o livro, teria sido o fato de existirem vários personagens que ainda são crianças e adolescentes, mas o autor soube recriar muito bem um aspecto do mundo medieval, que era o fato de nesse época ainda não haver o conceito de adolescência. Meninos e meninas casavam-se muito precocemente, e tinham o futuro companheiro escolhido muito cedo.

A psicologia dos personagens Jon, Arya, Sansa e Bran é muito sofisticada e reproduz muito bem o conflito entre o mundo da criança e as responsabilidades e obrigações do mundo adulto. Quem ler esse livro esperando encontrar diversas narrativas de batalhas irá se decepcionar. O que é mais importante em a Guerra dos Tronos é o lado psicológico dos personagens e o jogo de xadrez que eles precisam jogar em suas alianças, relações e casamentos para manterem-se vivos.

O jogo dos tronos é mencionado várias vezes durante o livro, e teria sido um título mais apropriado para essa obra. A utilização de um mundo inventado, a história dos antepassados, animais fantásticos e a reprodução de uma religião pagã, fazem o livro ser parecido nesse aspecto com outras obras de fantasia. No entanto, Martin não se apega tanto a descrever esse mundo em detalhes, nem recorre à magia e aspectos sobre-humanos para prender a atenção do leitor.

Como Shakespeare, Martin está mais interessado no que se passa no interior da alma dos personagens, muitos deles discriminados por serem bastardos, anões e crianças, justamente os excluídos da sociedade medieval. Os conflitos, ambiguidades, remorsos, desejos de vingança e de afirmação em um mundo hostil, e como Shakespeare, a utilização das paixões , os vícios e a maldade são vitoriosos nesse drama.

Como Schopenhauer já havia afirmado em seu livro O Mundo como Vontade e Representação, é tarefa do autor reproduzir nas linhas de seu livro a condição do homem após a queda, em um mundo em que as lágrimas e a injustiça prosperam.

Esse é um livro para ser lido com calma, porque existem muitos personagens e situações que se alternam. Na minha opinião, George R.R. Martin criou em as Crônicas de Gelo e Fogo a melhor história de fantasia medieval que o leitor pode ter acesso. Recomendo muito esse livro, ainda mais se você gosta de Shakespeare, porque a força do livro está nos diálogos, nos pensamentos secretos, nas paixões, nas traições e na ideia de que,no fim, o mal triunfa.