O Nascimento de Vênus, de Bouguereau

William Adolphe Bouguereau é certamente um dos grandes pintores da história e o que melhor reproduziu a imagem humana em suas pinturas. Na sua época, no entanto, ele não foi valorizado pois era o tempo do impressionismo, e suas pinturas de grande realismo não chamaram a atenção que mereciam. Anjos, ninfas e centauros observam a cena do nascimento. Vênus é pura sensualidade. Bouguereau era um mestre em reproduzir os seios e o órgão sexual feminino. Vênus tem um aspecto virginal e muito atraente. As ninfas também são muito bonitas e sensuais.

Aqui está talvez o quadro mais famoso de Bouguereau, chamado de O Nascimento de Vênus, de 1879. O quadro é de uma beleza impressionante, principalmente Vênus, que domina o centro do quadro. O centro da pintura é a vagina ( ou vulva) de Vênus. No entanto, Vênus não simboliza a volúpia sexual, mas sim a virgindade.

A beleza das mulheres e de Vênus são muito bem reproduzidas nesse quadro.O quadro é de uma perfeição técnica que realmente impressiona. É isso o que mais gosto em Bouguereau. O conservadorismo na pintura foi levado a um nível máximo de perfeição. Talvez seja por isso que não gostem muito dele. Ele foi um grande conservador e pintor clássico. Sua escola realista atingiu o auge com sua obra.

A pintura faz parte do acervo do museu d’Orsay, em Paris.

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A Análise do Quadro O Casamento dos Arnolfini, de Van Eyck

Um dos quadros mais interessantes, complexos e Belos que a arte ocidental produziu, O Casamento dos Arnolfini é a primeira representação íntima da vida burguesa na arte cristã. Van Eyck representa o papel de testemunha junto com um amigo, de um casamento realizado no ano de 1434 na região da Bélgica por um casal Italiano, apesar de que, como percebeu Huizinga, os Arnolfini possuem expressões bem pouco italianas.

Van Eyck era um mestre em reproduzir cenas íntimas da vida na Europa do fim da Idade Média. Ele também fez uma pintura que retratava o nu em uma cena de banho que hoje está perdida.

Vamos à análise da pintura:

O casal era muito rico, pelas roupas usadas que pertenciam à burguesia do norte da Europa. Arnolfini olha confiante para as testemunhas, enquanto sua esposa olha delicadamente ( outros poderiam dizer de maneira submissa) para o marido.

O cão, de uma raça hoje extinta, representa a fidelidade para os medievais, que adoravam símbolos e alegorias.

O vermelho é o símbolo da união sexual do casal.

As laranjas podem simbolizar o paraíso perdido, ou seja, o pecado original.

O verde do vestido da mulher representa a fertilidade desejada ao casal.

A única vela acesa representa o olho de Deus, que tudo vê.

O espelho reflete o casal, Van Eyck e outra pessoa não identificada. Em volta do espelho podemos ver pequenas cenas da vida de Cristo.

O imenso rosário é um símbolo de fé da esposa que deveria ser devota.

O fato de Arnolfini estar do lado da janela aberta representa a obrigação do homem de ir trabalhar fora para sustentar a casa.

A mulher não está grávida como pode parecer, mas é um efeito do vestido comum na época. Essa cerimônia privada era comum na Idade Média, não sendo exigida como depois no concílio de Trento que fosse na presença de um padre e na Igreja.

O quadro transborda de realismo como era comum na pintura flamenga da época, da qual Van Eyck era um dos maiores representantes. Toda a graça do sacramento católico do matrimônio está reproduzida nesse quadro. A técnica do reflexo do espelho seria uma inovação que seria muito imitada na arte ocidental posterior, é só ver o caso de Velázquez.

Essa cena representa o início da família burguesa, em que a vida de casal entre o marido e mulher passa a ser valorizada. A privacidade e a vida íntima passam a ser vistas como uma conquista do casal, e a civilização ocidental passará a declarar esses valores como uma das bases do núcleo familiar e da psicologia do homem e da mulher.

Se você reparar nos quadros anteriores de cenas íntimas de casamento na Idade Média, o contraste é óbvio. Geralmente, nessas cenas dos séculos anteriores, o casal tinha que ser visto em seu leito pelo padre e pelos membros da família em sua vida íntima. Já no século XV, é dado início ao processo de aburguesamento da vida privada. Foi a burguesia que valorizou o casamento e o núcleo da família como sendo formado pelo  pai, mãe e filhos somente. O método antigo da família da Alta Idade Média, em que a família tinha incontáveis filhos, que depois eram distribuídos aos familiares mais distantes para serem criados foi o modelo até o século XIII. Se nós repararmos, esse modelo de família existia até pouco tempo no interior do Brasil. A família burguesa demorou a se impor entre as camadas mais pobres.

O que fez com que as  famílias mais pobres formassem uma família igual à da burguesia foi simplesmente a invenção da pílula anticoncepcional. A burguesia foi quem impulsionou a educação e a infância ( ver Neil Postman). Como a burguesia teve um desenvolvimento notável nos países protestantes, especialmente na Inglaterra, foi nesses países em que a vida privada, a riqueza pessoal, a proteção da criança até o início da idade adulta e a alfabetização das massas teve um fantástico florescimento. Nos países católicos, por causa da manutenção da população no analfabetismo e em uma vida solta ( ver Max Weber), em que o casal não tinha a escolha de poder dar educação e proteger uma família que fosse unida, o resultado acabou sendo, por incrível que pareça, a diminuição da natalidade na França, e na ploriferação dos bastardos na Itália e nos países da América Latina.

Como Marx sabia, a burguesia tinha um papel revolucionário na história. Foi o que ela fez com a família, de forma que promoveu a infância, a educação e a restrição de uma vida dominada pelos instintos.

Poucas pinturas são tão burguesas como essa, e representam tão bem o ideal de vida do casal na parte final da  Idade Média. Tornou-se uma das pinturas mais famosas do mundo e é o símbolo de uma civilização.

A História do Ocidente Medieval

Esse livro antigo do medievalista francês Jacques Le Goff ainda é uma referência para sabermos de diversos aspectos do mundo medieval. Le Goff nesse livro estudou toda a idade média, ao contrário do que faria depois em sua carreira, de se concentrar mais na Baixa Idade Média.

O começo do livro fala um pouco sobre como era a civilização romana, que era extremamente fechada em seu próprio mundo, e de como após sua queda, a Europa teve que suportar não só a invasão de diversos povos, mas também as influências culturais deles, especialmente dos celtas e germânicos.

Na alta Idade Média houve um declínio de população, e os centros de ensino foram destruídos, restando apenas os mosteiros como escolas e bibliotecas. A filosofia grega foi toda transferida para Bizâncio e a Síria, e o Ocidente teve que se contentar com as sobras que Boécio conseguiu juntar.

O dinheiro sumiu de circulação e a escravidão desapareceu, sendo substituída pela servidão. Se isso foi uma influência da igreja, ou apenas uma consequência econômica do feudalismo é algo que ainda pode ser debatido. A Europa então passou a viver momentos dramáticos, como estar sujeita a governos bárbaros que mal tinham se convertido ao cristianismo, ao analfabetismo e a uma baixíssima expectativa de vida.

Para piorar, surgiram nas fronteiras da Europa duas grandes ameaças: os Vikings e, principalmente, os árabes. No norte a Europa viu-se arrasada pelos saques dos Vikings, que tiveram seu auge no século IX. Ao sul, na Espanha, no sul da França e da Itália, estava uma ameaça muito maior: a religião muçulmana. Vários desses locais foram arrasados; populações inteiras nesses locais sofreram durante séculos com os ataques piratas dos árabes em busca de escravos para seus haréns. Parecia que a Europa estava perdida.

Mas nessa época surgiram dois personagens que livraram a Europa de seus piores dias: Carlos Martel e Carlos Magno. O primeiro derrotou as tropas árabes em Tours, permitindo a sobrevivência da civilização cristã; o segundo reconstruiu a Europa politicamente e economicamente, também dando início a um processo de alfabetização e reconstrução das escolas, no que ficou conhecido como o renascimento carolíngio.

A obra de Carlos Magno, porém, durou pouco, por causa dos ataques dos vikings. O surgimento da Europa como potência teria que esperar mais um pouco.

O renascimento da Europa

No século XI, graças aos avanços na agricultura e no crescimento do comércio, a civilização europeia surge como uma nova força no mundo medieval. A população passa a crescer como nunca, gerando uma nova força de trabalho. Com o início das cruzadas em 1096, a europa dá seu aviso ao mundo islâmico e a Bizâncio, como diz Chesterton em A Nova Jerusalém: ” Roma está acordada; Roma ressurgiu dos mortos”. Uma nova e confiante civilização está pronta para dominar o mundo.

A técnica e as invenções

Le Goff demonstra que a técnica do ocidente medieval não era inferior à bizantina e à islâmica. No início sofrendo pela destruição das invenções e tecnologias romanas, a Europa medieval soube se reinventar, e sua mentalidade era como uma esponja, absorvendo tudo que podia aprender com os outros, e sabendo ser criativa criando suas próprias invenções. O colar para cavalo, as ferraduras, a cavalaria, a bússola( que é uma invenção independente dos europeus e muito superior à chinesa), os óculos e os relógios mecânicos, sendo essas três últimas invenções exclusivas dos europeus durante séculos, transformariam a civilização medieval para sempre.

As fomes e a fragilidade econômica

Talvez o aspecto que cause mais resistência às pessoas modernas para aceitarem a Idade Média, é o fato do feudalismo ter provocado situações inusitadas e fatais em determinados momentos. Na alta idade Média, o dinheiro praticamente deixou de circular, e os banqueiros dos reis eram os judeus, muito tolerados nessa época. Na baixa Idade Média o dinheiro volta a circular por causa das cruzadas e do surgimento dos bancos. Sim, o sistema bancário é uma invenção da Idade Média.

Uma situação absurda citada por Le Goff é a existência das alfândegas interiores, que cobravam pedágio dos alimentos de uma cidade vizinha para a outra. Isso revelou ser uma armadilha, pois quando havia um baixo estoque de alimentos em uma cidade, a que estava mais próxima não conseguia enviar ajuda imediata, e o resultado disso eram as fomes frequentes, principalmente nps séculos X e XI, e doenças sinistras como o fogo de Santo Antão, conhecida hoje como ergotismo.

Mentalidade

O mito diz que os europeus eram atrasados e que viviam com medo do diabo e do inferno, com uma igreja que controlava todo o saber. Le Goff diz que apesar de certas ideias dos medievais serem para nós hoje uma coisa distante, a igreja daquele tempo soube conciliar a fé com a razão, graças à filosofia escolástica, e que a mentalidade cristã favoreceu sempre a ideia de progresso. Os medievais, apesar das dificuldades, sempre acreditaram que a história progredia, e que o homem tinha um fim, que seria com Deus no paraíso. A ideia de que Deus agia na História, e que as invenções e o progresso eram algo desejado por Deus.

O grande legado da Europa para a civilização: as universidades e o nascimento da ciência.

A Europa não era uma civilização fechada como Bizâncio ou o islã a partir do século XI. Os europeus souberam absorver os conhecimentos das civilizações vizinhas como os algarismos hindus e a ciência médica árabe, mas no entanto, a grande contribuição à medicina veio da europa medieval: as dissecações de cadáveres, que tiveram início no século XIII. Proibida na antiguidade e no mundo islâmico, as dissecações foram uma grande contribuição da ciência medieval para o nosso mundo.

Para quem acha que o conhecimento na Idade Média era dogmático e fechado, a invenção mais genial desse tempo, as universidades, são a prova de que os medievais discutiam ideias contrárias às suas, e que o livre debate e a autonomia dessas instituições estavam garantidos desde o princípio. As universidades também permaneceram uma instituição cristã exclusiva durante séculos.

Esse livro de Le Goff foi escrito em uma época em que ele parecia ser mais pessimista a respeito dessa época do que viria ser depois. Nos livros mais recentes, Le Goff é mais otimista e menos preocupado com a luta de classes daquela época, na década de 1960. É um ótimo livro para quem deseja conhecer toda a Idade Média.

 

 

Morrer…Dormir!…Talvez Sonhar! Uma Crítica de Hamlet

 

Um dos grandes mistérios da vida se Shakespeare era sua religião. Tendo nascido em um país que se tornou protestante de forma mais lenta do que em outros casos na europa, o poeta e dramaturgo inglês parecia estranhamente próximo ao catolicismo, por seus personagens simpáticos ao catolicismo, e seus dramas e comédias muitas vezes ambientados em um país católico como a Itália.

De maneira muito diferente de seus compatriotas, como o filósofo Thomas Hobbes e o poeta John Milton, que eram abertamente hostis ao catolicismo, Shakespeare apresentava padres, freiras e dogmas católicos de uma maneira muito realista e simpática.

O ambiente de Hamlet, no entanto, parece, de início, ser um drama protestante, pois a história se passa na Dinamarca, e Hamlet volta de Wittenberg, onde estudava, no coração da reforma protestante.Mas isso, na minha opinião, não impede que Hamlet seja uma obra profundamente católica.

A cena inicial mostra alguns soldados que estavam de sentinelas que avistam a alma do falecido rei, pai de Hamlet. Eles então avisam a Hamlet sobre o acontecimento. A alma então fala com Hamlet, e diz que foi assassinada, para a surpresa do personagem principal.

Ela continua sua história: diz que está condenada a vagar pela noite e durante o dia a jejuar nas chamas, até que estejam extintos os pecados de sua vida terrena. Aqui está uma clara representação do dogma católico do purgatório. Não acredito que se Shakespeare fosse hostil ao catolicismo, ou seja, se fosse protestante, jamais criaria uma cena como essa sem condená-la explicitamente.

A alma do pai de Hamlet quer vingança pelo seu assassinato, e ele conta ao filho como foi que tudo aconteceu, tendo sido morto por seu próprio irmão, tio de Hamlet, que torna-se então, amante da rainha.

O espírito lamenta, como católico que era, que tenha morrido sem a extrema-unção, sem confissão e os sacramentos. Hamlet então acredita no relato da alma de seu pai e jura vingança.

O drama da peça começa aí: como o espírito de Hamlet reage ao saber de tamanha traição ao seu pai e a perfídia de sua mãe e de seu tio. Hamlet então diz que há mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor nossa filosofia. Isso tanto pode referir-se à alma de seu pai ter aparecido aos vivos, como a traição que reinava na sua família, que era mais do que todos podiam imaginar.

A forma como Hamlet reage ao saber da verdade de tamanha tragédia é a questão central nesse drama. Hamlet, que era uma pessoa justa, não parece conseguir suportar tamanha história de horror e começa a agir como se estivesse perturbado. Passa a falar com palavras estranhas com sua mãe,seu tio, e sua provável futura esposa, Ofélia.

Então, no meio da peça, Hamlet faz o seu famoso monólogo do ser ou não ser. O que Hamlet queria dizer com isso?

Poderia ser uma reflexão sobre a possibilidade do suicídio em quem está sofrendo com tamanha dor. Hamlet questiona se vale a pena suportar todas as misérias dessa vida, e se o suicídio seria um meio de escapar a tudo isso de maneira válida.

Será que existe alguma coisa depois da morte? Isso é o que Hamlet questiona. A resposta ele mesmo encontra em sua consciência cristã quando pensa na existência de uma outra vida, e na possibilidade que o inferno realmente exista, porque ele tem medo de que evitando os males de nosso mundo, possamos cair um tormentos ainda maiores no inferno, que é o local que ele imagina que exista de verdade.

Hamlet então rejeita o amor de Ofélia por causa da sua obsessão com a vingança; Ofélia vê-se rejeitada por Hamlet e termina se suicidando. Hamlet contempla a possibilidade de se tornar um assassino para fazer justiça. Essa é também a questão de saber se ele deve ser ou não ser um assassino. Em Hamlet, existe a possibilidade de que o filho ame a própria mãe, e seu desejo era o de matar seu tio justamente para viver esse caso proibido. Teria também desejado a morte de seu pai secretamente, mas foi surpreendido pela notícia de que sua própria mãe era responsável pela tragédia. Essa é uma interpretação psicológica do drama.

Eu prefiro a interpretação cristã. Hamlet é a própria existência do pecado original, em que o homem deseja o mal em sua alma. Lembra a advertência de Deus ao próprio Caim dizendo para que ele se controlasse, pois se isso não acontecesse, o pecado estava à porta, e isso seria o desejo de Caim, mas que sobre o pecado, ele deveria dominar e triunfar.

Shakespeare conhecia essa passagem da Bíblia, e a reproduz em Hamlet. Primeiro ele se sente triste e abandonado; não sabe o que fazer. Com isso segue que o desejo de vingança domine a sua vontade, e que o pecado do assassinato torne-se o seu desejo dominante. Com isso, como no livro do Gênesis, Hamlet estava com o pecado na porta de sua imaginação, no entanto, como Caim, Hamlet não foi forte o suficiente para suportar a provação e deixou-se dominar pela tristeza, que era conhecida pelos medievais como um dos sete pecados capitais.

Não irei contar o final, mas como em outras peças de Shakespeare, o mal triunfa, pois o dramaturgo inglês, como percebeu o filósofo alemão Schopenhauer, queria mostrar ao homem o próprio pecado de termos nascido. É o própria queda do homem e a maldade que reina em seu coração e mente, que Shakespeare pretende reproduzir em seus personagens.

A peça é dramática e tem momentos tensos e profundos, como quando Hamlet questiona se o suicídio é uma saída para os sofrimentos desse mundo. Nunca vi essa peça, que deve ser ainda melhor assistida do que lida. Uma obra fundamental para entendermos o próprio sentido do sofrimento e da vida.

 

 

O Alegorismo Medieval e a Análise de uma Escultura Românica

Essa é uma escultura românica  muito famosa que faz parte da igreja de Kilpeck, no Reino Unido. Ela representa a escultura de um cachorro e um coelho em uma forma muito moderna de Cartoon, mas ela foi esculpida no século XII.

O que essa escultura tão bonita e singela, que atrai muito a imaginação das crianças, nos fala sobre a estética e mentalidade do homem medieval?

Como nos lembra o historiador holandês Huizinga, nenhuma verdade do espírito medieval era tão convincente como as palavras de São Paulo: ” Agora vemos obscuramente, como através de um espelho; depois veremos face a face”.

A Idade Média, diz Huizinga, nunca se esqueceu de que qualquer coisa seria absurda se seu significado se limitasse a sua função imediata e a sua forma fenomênica, e que todas as coisas se difundem largamente no além.

Umberto Eco, na sua obra Arte e Beleza na Estética Medieval, diz que o homem da época medieval vivia em um mundo povoado de significados, de referências e das manifestações de Deus nas coisas, e que elas eram signos de uma verdade superior.

Com o abade Suger, e antes com a arte românica, surge um grande movimento para educar a população através das imagens , da alegoria e da pintura , que é a literatura dos laicos, como cita Eco.

Dionísio, O Aeropagita, diz em sua obra Da Hierarquia Celeste, que há uma incongruidade entre o símbolo e a coisa simbolizada; se não houvesse essa incongruidade, mas só identidade, não existiria a relação proporcional. Além disso, como Eco escreve, é exatamente de incongruidade que nasce o esforço deleitoso da interpretação. É bom que as coisas divinas sejam indicadas por símbolos muito diferentes, como o cão e o coelho, porque é justamente essa estranheza do símbolo que o torna palpável e estimulante para o intérprete.  aliud dicitur, aliud demonstratur (uma coisa é o que se diz, outra o que se demonstra). Como explica Beda, as alegorias aguçam o espírito ,reavivam a expressão e adornam o estilo(Eco).

A presença de Deus no mundo pode estar nos lugares mais distantes, como no céu, ou em um carneiro ou outro animal. Diz Huizinga:” Como em um caleidoscópio, todo ato de pensamento faz com que a massa desordenada de partículas una-se em uma bela e simétrica figura”.

A representação do coelho e do cachorro em uma escultura localizada em uma igreja não deve surpreender quem está acostumado com esse universo alegórico medieval. Nessa escultura estão refletidas toda a graça e beleza típicas da arquitetura Românica, e ela prende a atenção da gente, no nosso tempo, justamente por esse estranho aspecto moderno, como se fosse em um desenho animado. Como diz Dionísio, a beleza manifesta-se na harmonia das figuras.

Henri Focillon escreveu isso sobre o estilo de algumas igrejas românicas:” o gosto da anedota, do pormenor, da verossimilhança pitoresca, da fidelidade ao objeto,  a nota espirituosa, divertida na representação do objeto, passam à frente da ordem das hierarquias…”

Toda a criação, para o homem medieval, reflete a glória de Deus, mais nas criaturas racionais, e menos nas irracionais, mas que Deus não deixa de amá-las porque são obras de sua criação.

Bibliografia: Eco, Umberto- Arte e Beleza na Estética Medieval, Record, 2010

Focillon, Henri, Arte do Ocidente, A Idade Românica e Gótica.

Dionísio, o Aeropagita, da Hierarquia Celeste.

Sobre a Vida do Jovem Stálin e sua Personalidade

A excelente biografia de Montefiore sobre a vida do joven Stálin foi uma revelação ao ocidente do início da carreira de um dos maiores ditadores do século XX. Stalin nasceu em uma famíla pobre; seus pais tinham uma relação conturbada pelo alcoolismo de seu pai, que queria que seu filho fosse sapateiro igual a ele, e não queria que fosse para a escola. Sua mãe, ao contrário, tinha uma personalidade estável, e fez de tudo para que seu filho estudasse em uma escola para padres. Como ela fez seu filho entrar para um seminário é contado no livro, e a explicação possível para isso é que Stalin fosse provavelmente filho de um padre local. Mas isso não pôde ser confirmado.

Stalin era um excelente aluno, e tinha uma voz muito bonita para o canto da igreja. Montefiore narra como o joven Stalin perdeu sua fé cristã e passou a se ocupar lendo literatura marxista. O ambiente do seminário era promíscuo e opressivo, e isso também contribuiu para que esse seminário gerasse toda uma geração de revolucionários ateus.

Stalin também era um poeta talentoso, e alguns de seus poemas são reproduzidos no livro. Ele poderia ter seguido a carreira de poeta se quisesse, pois levava jeito para a poesia. Stalin, nesse momento, porém, lutava contra um padre que o perseguia no seminário em busca de literatura “subversiva” que o jovem seminarista lia clandestinamente. Por causa de ter sido pego com esses livros, Stalin acabou expulso do seminário.

Depois desses acontecimentos, Stalin precisou conseguir um emprego para sobreviver. Teve um emprego inusitado: meteorologista. Esse emprego, no entanto durou pouco, e Stalin caiu na clandestinidade. Seu mundo era viver nas sombras, sem que ninguém soubesse de sua identidade.

Conseguiu um emprego em uma refinaria dos Rothschild, e lá, em pouco tempo, conseguiu provocar um incêndio criminoso para que esses famosos capitalistas do petróleo aceitassem às demandas dos trabalhadores.

As prisões

Stalin foi preso diversas vezes ao longo de sua juventude, mas conseguiu escapar na maioria das vezes com a ajuda de cúmplices dentro do sistema corrupto do czarismo. As prisões nessa época, ao contrário do tempo do comunismo, eram muitos frouxas em seu sistema de vigilância.

O encontro com Lenin

Em 1905, Stalin finalmente conseguiu encontrar-se com seu ídolo e chefe Vladimir Lenin na Finlândia. Stalin vinha há muito tempo se destacando como o principal responsável por conseguir fundos( dinheiro) para o partido. Vivia como um bandoleiro na Geórgia praticando o terrorismo e assaltos que conseguiram juntar uma quantidade impressionante de capital para o partido de Lenin.

Seria Stalin um agente czarista?

Montefiore escreve um capítulo sobre a possível ligação de Stalin com a Okhrana-a polícia secreta czarista. Esse capítulo é importante porque mais tarde historiadores da direita acusaram Stalin de promover o grande terror para encobrir o seu passado como agente do czar. O autor, porém, não conseguiu estabelecer essa ligação.

A prisão e o exílio siberiano

Stalin foi traído por um agente do czar infiltrado no partido bolchevique em um baile no qual tentou escapar usando roupas femininas. Não deu certo. Foi enviado para Turukhansk, no meio de uma região completamente desolada da Sibéria. Esse é o ponto mais interessante do livro. Stalin adaptou-se muito bem ao clima inóspito da Sibéria, e logo aprendeu a se virar para conseguir comida e sexo. Virou um caçador e tornou-se amante de uma mulher( na verdade uma adolescente) local. Dessa vez não conseguiu fugir e teve que cumprir a pena até o final em 1917, às portas da revolução.

A participação de Stalin na revolução de outubro.

Em março de 1917, Lenin voltou para São Petersburgo e para a Rússia após anos longe de casa. Essa cena da chegada de Lenin na estação ferroviária foi imortalizada na cena do filme Outubro, de Eisenstein. Lenin aproveitou o momento em que o czarismo estava agonizante após a humilhação e o esgotamento moral e financeiro provocados pela primeira guerra. Agora Lenin e Stalin poderiam trabalhar juntos. Lenin com seu carisma e liderança burgueses, e Stalin com seu profundo conhecimento da Rússia.

Nesse momento, Trotsky aproveitou para entrar para o partido bolchevique, e tornou-se a estrela do partido ao lado de Lenin. Mas isso era momentâneo. Stalin tinha uma rede de apoio na Rússia e na Geórgia que Trotsky não podia imaginar. Montefiore narra muito bem os acontecimentos da revolução, e como Stalin saiu das sombras para transformar-se no principal aliado de Lenin no poder. Fica muito claro a participação decisiva de Stalin para que Lenin pudesse sobreviver em momentos difíceis e como sua atuação nos bastidores revelavam sua personalidade e habilidade política.

A personalidade de Stalin

Graças à sua mãe, Stalin conseguiu ter uma ótima educação clássica, e desde cedo possuía um caráter de líder e uma autoconfiança que impressionava. Líder terrorista e eficaz para realizar assaltos que finaciaram Lenin por muitos anos, Stalin só teve um único emprego durante sua juventude até a revolução. Sua atuação era nos bastidores e no mundo da ação, possibilitando a ele conseguir obter um profundo conhecimento da Rússia e da Geórgia, enquanto Lenin e Trostsky viviam sentados atrás de escrivaninhas longe da Rússia.

Sua personalidade e modo de agir lembram as recomendações de Maquiavel, entre elas de nunca possibilitar aos outros acumular poder acima do seu. Maquiavel diz que quem cria poder para os outros causa a própria ruína. Foi isso que Stalin fez, não em relação a Lenin, mas contra Trotsky. Stalin possuía um caráter forte, maquiavélico, cruel e ambíguo, o que leva em alguns momentos o leitor se identificar e até gostar dele, como o próprio Montefiore parece gostar, às vezes.

Não podemos nos esquecer que apesar de Stalin ter sido um vencedor, pois foi ele quem derrotou os nazistas e Hitler, foi esse mesmo Stalin o responsável por uma matança impressionante de seu próprio povo e da população da Ucrânia. Stalin não era um seguidor de Maquiavel em um ponto: a de que a crueldade deveria ser feita de uma vez só, sem perseverar nela durante muito tempo. Essa era uma lição que Stalin não aprendeu.

Resenha de O Nome da Rosa

Uma discussão sobre o problema dos Universais

O romance O Nome da Rosa fez um enorme sucesso nos anos 1980 e 1990, vendendo milhões de exemplares. Mas, de fato, quantas pessoas puderam compreender o livro? No começo, o livro é contado com o personagem de Adso se lembrando dos acontecimentos do ano de 1327, quando ainda era noviço, tornando-se logo depois, um discípulo do franciscano inglês Guilherme de Baskerville.

Frei Guilherme era discípulo do teólogo inglês William de Ockham( ou Guilherme de Ockham) e admirava as ideias do sábio inglês Roger Bacon. Os dois, Adso e Frei Guilherme, são convidados a um mosteiro no norte da Itália para resolverem o mistério de algumas mortes que aconteceram recentemente lá. Não se trata nessa resenha de revelar ao leitor os mistérios e surpresas da narrativa de Eco. O objetivo é tentar entender a filosofia que está por trás de alguns dos personagens criados pelo autor. Eco é um medievalista com muito conhecimento da filosofia e estética da idade média.

Ele usa o esquema do livro do apocalipse para desviar o leitor da luta que acontece durante o romance. A verdadeira batalha é entre o monge nominalista inglês Frei Guilherme( que representa o próprio Eco) e o monge cego espanhol Jorge de Burgos. Não é coincidência o fato do monge espanhol ser o fanático do livro, pois o autor quer recordar ao leitor a Espanha como terra da inquisição.

Burgos é combatente do riso, que é uma característica do ser racional. Os dois monges se odeiam e se admiram, e o aprendiz Adso percebe isso. O debate sobre o ser está colocado no livro. Aqui cito a opinião do professor Orlando Fedeli sobre as três possibilidades do ser. Vamos a eles:

Considerar o ser como unívoco é o caminho do panteísmo, que é a posição de Parmênides na antiguidade. Na filosofia moderna, essa visão igualitária do ser conduz à adoração do homem e da razão. Ela identifica Deus com a matéria. A ciência moderna tem suas raízes no nominalismo de Ockham.

Considerar o ser como equívoco leva ao homem a negar a possibilidade de compreender algo sobre Deus. Quando se aprofunda nessa tendência de se afirmar que os seres criados são tão diferentes da divindade, poderia-se dizer que são contrários a ela, então cai-se na gnose, que é antimetafísica. Orlando Fedeli atribui essa corrente desse rio ao Mestre Eckhart .

Considerar o ser como análogo é o caminho da igreja católica, sendo que esse pensamento tem um dos seus maiores representantes em São Boaventura. As criaturas do universo são seres, mas não do mesmo modo como Deus é ser. Nas coisas materiais e irracionais, há apenas vestígios de Deus; nos seres racionais, há a imagem de Deus, porque como o criador, esses seres possuem inteligência e vontade.

Conhecendo esses três possíveis caminhos, a humanidade tem oscilado entre os seguidores do Mestre Eckhart e de Guilherme de Ockham. O caminho do ser como análogo, que é o de São Tomás, tem sido combatido desde a idade media até a filosofia moderna.

Ockham fez surgir Lutero, e Eckhart, Leonardo da Vinci. Nominalismo e gnosticismo lutam nas páginas de o nome da Rosa.

Eco irá acusar a igreja nas páginas de seu livro de ter controlado a biblioteca e de não permitir ao homem comum ter acesso aos livros. O autor irá adotar a mesma tese dos cátaros, dos valdenses e dos irmãos do livre espírito, de que a igreja se corrompeu. Todos eles são defensores de uma igreja pobre, sem dogmas, sem imagens e igualitária.
Eco sustenta que a história conduz o homem para o nada, como Sartre também afirmou; mas o católico- como diz Fedeli em seu ensaio para o romance de Eco- crê que o caminho que existe do início no Éden ,até o fim no paraíso celestial, pode ser iluminado com o auxílio da revelação e da filosofia cristã.

Para quem ignora a história, os diversos labirintos criados por Eco irão parecer confusos, com uma quantidade enorme de temas com diversos sentidos históricos, como discussões econômicas, políticas e eclesiásticas. Mais importante, existe a discussão sobre o saber, o conhecimento e o destino da alma.

Questões como saber se a verdade existe, e a luta entre místicos e racionalistas estão colocadas no livro. A posição tomista que Eco conhece muito bem é ignorada no livro, ou pior, Eco faz ela se confundir com a posição racionalista.

O leitor tem sua atenção voltada para a disputa da posse do II livro da poética e Aristóteles que falaria sobre a comédia e o riso. Jorge de Burgos, em seu misticismo fanático, está disposto a destruir o livro e a incendiar a biblioteca( ou o mundo) para evitar o triunfo do racionalismo de Ockham.

Um, debate em que Eco não esconde a sua opinião é sobre a questão da verdade. Frei Guilherme( Eco) defende o relativismo. Quando Adso pergunta onde está a verdade, Frei Guilherme responde:” em nenhum lugar, às vezes”. Umberto Eco conhece muito bem o argumento da escolástica Tomista sobre a verdade, e busca safar-se com respostas escorregadias. Frei Guilherme diz: “ Sinto-me incerto da verdade, mesmo se nela acredito”.

A defesa do relativismo de Frei Guilherme faz o leitor identificar nele a posição moderna, e com isso, faz ele parecer tolerante e simpático. Eco acusa a igreja de controlar o saber e a ciência, mas ele faz seu personagem Frei Guilherme contradizer-se ao defender que a ciência não seja mais controlada pela igreja, mas sim por uma estranhíssima comunidade dos doutos que controlaria a partir de então o conhecimento. Quem faria parte dessa comunidade dos doutos no futuro? Eco não responde.

No final, a igreja é destruída pelo incêndio que demorou muito, mas acabou por consumi-la. É assim que Eco sugere que a igreja na vida real pode estar sendo destruída há séculos, desde que Ockham separou a fé da razão e abriu espaço para diversas heresias e a um empirismo radical do mundo moderno, que nega todo conhecimento teórico.

O fim do livro demonstra a admiração mútua entre o monge nominalista e o gnóstico fanático. Eles se admiravam e se odiavam ao mesmo tempo, mas tinham um só objetivo: destruir a igreja católica e a filosofia Tomista. Adso, que perde a fé durante o romance e se torna um nominalista, irá dizer no fim do livro: stat rosa prístina nomine, nomina nuda tenemus- permanece a rosa antiga pelo nome: temos apenas o vazio dos nomes. É o nominalismo que só acreditava no particular que triunfa.

Bibliografia: Eco, Umberto- O Nome da Rosa

Fedeli, Orlando- Nos labirintos de Eco

Abaixo fiz uma pequena explicação do problema dos universais para quem for ler o livro entender melhor essa questão.

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Existiria a rosa universal e imutável ou a rosa seria apenas um nome, pois só existiria a rosa individual, que seria diferente de todas as outras? A doutrina de Santo Tomás seria que o homem tem a idéia de rosa em sua mente, e ao ver uma rosa real, ele pode conhecer que o conceito de rosa existe também na rosa individual.Frei Guilherme representa a filosofia de Ockham, que nega que existam os universais, já que só a rosa particular seria real. Isso marca o nascimento da ciência moderna, com seu empirismo radical. Frei Guilherme é um personagem moderno, com seu probabilismo em teologia natural, ceticismo em metafísica e orientação para pesquisas de caráter científico. Ele diz:” a verdadeira ciência não deve contentar-se com idéias, que são justamente signos, mas deve buscar as coisas em sua verdade singular”. Umberto Eco não faz muito bem a distinção entre a posição nominalista(frei Guilherme) e a da Igreja Católica.

Uma pergunta prendia a atenção dos escoláticos: os universais são reais ou não? algumas soluções se apresentam:

O realismo: os universais têm um valor absoluto de realidade; mas onde se encontram essas realidades? num mundo à parte ou em Deus, ou é imanente nas coisas materiais? Essa era a posição de Platão.

O nominalismo: nega-se, não já o concreto, mas a ideia espiritual e substitui-se por um nome comum, simples representante dum grupo de indivíduos concretos. Para os nominalistas só os indivíduos são reais. “universale est vox, flatus vocis”. O universal é voz, sopro de voz. Seus defensores são Roscelin, Guilherme de Ockham e, no livro, Frei Guilherme.

Realismo moderado: o universal é a natureza expressa em seus diferentes modos de ser: pode-se achar concretizada na matéria( teoria da individuação), universalizada nos nossos conceitos ( teoria da abstração) ou realizada em Deus ( teoria do exemplarismo). O realismo moderado concebe ao mesmo tempo que só o indivíduo existe, que os universais exprimem o real e que a palavra é sinal de uma ideia espiritual. O concreto e o material existem na coisa e o abstrato e universal no espírito. Essa é a posição de São Tomás de Aquino e da Igreja Católica, que Eco não menciona.

Sobre a questão dos universais, é recomendável a obra Compêndio de história da Filosofia, de Thonnard.


Uma definição de Adolf Hitler

Sem dúvida o personagem mais cruel, sinistro e misterioso do século XX, e talvez da história, Adolf Hitler continua em grande parte sendo um mistério para os estudiosos de sua vida. O porquê de todo o sofrimento que Hitler causou ainda parece não ter explicação. Muitas teorias, a maioria sem base histórica, procuraram oferecer respostas ao mundo das causas que levaram esse austríaco estranho a iniciar o maior conflito militar da história. Mesmo com alguns questionamentos ainda causando polêmica, com a ajuda de um maior conhecimento histórico das raízes austríacas de Hitler, da história política e filosófica alemã, já podemos ter uma imagem melhor definida de quem foi esse homem chamado Hitler.

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Aristóteles no Monte Saint-Michel

http://www.brusselsjournal.com/node/3732

Esse artigo é muito bom porque faz uma crítica a respeito de um livro publicado em francês chamado Aristóteles no Monte Saint-Michel. Depois de algumas das cabeças mais estúpidas da Europa renascentista e iluminista terem criado o nome de idade das trevas para a idade média, a civilização árabe transformou-se em sinônimo de refinamento e sofisticação( os turcos tomaram esse posto mais tarde na mente dos europeus).

Um dos mitos desse suposto atraso europeu, e uma suposta superioridade islâmica, era justamente a posse dos clássicos da filosofia greco-romana, como Platão, Aristóteles e Galeno. Esse mito da superioridade islâmica ganhou força principalmente entre a esquerda, não talvez por que a esquerda tenha alguma coisa a admirar na civilização islâmica, mas é mais pelo anti-cristianismo que sempre foi moda entre alguns dos intelectuais mais famosos do socialismo.

Esse livro de uma autora francesa demonstra que os laços com o mundo grego nunca foram interrompidos. Primeiro porque havia as relações entre os francos e os bizantinos. Depois, havia o contato com os cristãos sírios, que foram os que traduziram Aristóteles para o árabe. Havia ainda as comunidades gregas em território ocidental.

É preciso dizer que os árabes se interessaram muito pouco pela filosofia platônica, nesse caso, Aristóteles se transformou no filósofo por excelência do mundo islâmico.  O mito da transmissão das obras completas de Aristóteles para o ocidente já havia sido rejeitado, e esse livro apenas esclarece mais alguns pontos. É certo que uma pequena parte das obras de Aristóteles foi traduzida do árabe para o latim na Espanha do século XII. Mas os europeus não gostaram muito do resultado, pois os árabes haviam alterado diversas passagens da filosofia aristotélica.

Surge então uma nova rota e um novo personagem: Constantinopla e Jacques de Venise, que possibilitaram aos europeus o acesso às obras de Aristóteles no idioma original grego. Essas traduções logo superaram as traduções do árabe, que foram rejeitadas.

A autora ainda percebe uma coisa importante para explicar a decadência do islã a partir do século XI: A falta de curiosidade pelo conhecimento de outras civilizações. Os árabes jamais traduziram a Ilíada e a Odisséia, assim como o poeta romano Virgílio, e se interessaram muito pouco pela República de Platão, pois o modelo de governo muçulmano já está contido no livro sagrado do islã, e os gregos nada tinham a ensiná-los.

Agora, é curioso notar como os historiadores esquerdistas geralmente fazem grande alarde para o fato de algumas poucas obras de Aristóteles terem sido traduzidas do árabe, e apontam como o islã era supostamente superior ao mundo cristão justamente por conhecerem Aristóteles e suas obras, entretanto, quando esses mesmos historiadores pulam para o renascimento, eles zombam da filosofia aristotélica e sua ciência( que já havia sido rejeitada pelos medievais), dizendo que que essa filosofia lembrava da odiada escolástica. Ou seja, eles culpam o mesmo Aristóteles que havia sido o responsável pela glória do islã, pelo atraso do mundo europeu em termos científicos e filosóficos nos séculos XV e XVI.

É bom lembrar que esse mesmo Aristóteles que esses historiadores elogiam por sua influência no pensamento islâmico, era odiado pelos renascentistas e por Lutero. Os primeiros rejeitaram Aristóteles por Platão e Hermes Trismegisto, porque esses eram mais esotéricos e idealistas; já Lutero abominava a razão, e via Aristóteles como o próprio diabo.

Com isso, vemos que para a esquerda, Aristóteles só vale quando está relacionado ao islã; quando se trata da escolástica e de São Tomás de Aquino, esse mesmo Aristóteles é ridicularizado.

Vamos esperar para que esse livro Aristote au Mont Saint-Michel seja pelo menos traduzido para o inglês, já que para a nossa língua isso não seja muito provável.

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