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Minha resenha sobre o livro negro do comunismo

Uma Tragédia em Escala Global

Prometeu: só tenho uma palavra: odeio a todos os deuses, que depois de receber meus benefícios, me ferem injustamente.

Mercúrio: tens a razão conturbada, bem se vê; o mal é violento.

Prometeu: pois que ele se agrave ainda,se é um mal detestar seus inimigos!

Mercúrio: COMO SERIAS INSUPORTÁVEL SE GOVERNASSES UM DIA!…

Ésquilo- Prometeu Acorrentado

Essa presente obra lançada no final dos anos 1990 pretendeu mostrar ao mundo os segredos da tragédia do comunismo em vários cantos do planeta. Escrito por comunistas que tinham a intenção de adiantarem-se à direita na denúncia dos crimes da extrema-esquerda. Os autores no início do livro demonstram, não sem denunciar uma suposta hipocrisia, que a igreja católica já havia denunciado o comunismo em algumas ocasiões, como na encíclica Divini Redemptoris. A pergunta inicial é o porquê do projeto ter se desviado uma suposta retidão ao longo dos anos. Faço essa resenha anos depois de haver lido ao menos duas vezes esse livro.

A pátria mãe do socialismo foi a Rússia, onde a obra O Capital de Marx havia feito mais sucesso no continente europeu. Lá o casamento do otimismo marxista com a retórica explosiva de Lenin gerou a revolução comunista. Existiram, claro, outros fatores mais complexos, como narrados com maestria por Orlando Figes em A Tragédia de um Povo.

Lenin sempre havia achado que a Rússia estava madura para uma revolução socialista, que de fato aconteceu, mas depois que a revolução veio, o que fazer? Como no título da obra famosa de Lenin, essa era a questão principal. Como governar um país ainda feudal, com uma imensa população analfabeta, semi-industrializado e devastado economicamente pela primeira guerra? O resultado era que Lenin, Trotsky e os outros camaradas não sabiam o que fazer, pois achavam que a revolução deveria ter começado por um país mais avançado, principalmente a Alemanha.

Tentar fazer com que os camponeses aderissem ao sistema socialista e impor um sistema de requerimento de grãos fora da realidade, deu início ao desastre da fome. Os autores não enfatizam isso, mas quando as potências internacionais intervieram na União Soviética, o que gerou o comunismo de guerra de Lenin, certamente favoreceu a fome de 1921.

Os autores certamente denunciaram a insensibilidade de Lenin durante a campanha de ajuda às vítimas da fome, da mesma forma como ele havia ignorado a campanha de ajuda às vítimas da fome de 1891. O caráter irascível de Lenin é exposto no livro, assim como sua tática sinistra de comparar seus inimigos políticos a insetos e aranhas.
A desconfiança comunista em relação ao povo, especialmente aos camponeses e à oposição, gerou a terrível Tcheka, dirigida pelo polonês Dzerjinsky. A tcheka é a antepassada da KGB.

Depois da morte de Lenin, aconteceu a luta entre Trotsky, um fanático da militarização da indústria e da expansão do socialismo através de guerra, e Stalin, um homem sinistro, mas extremamente inteligente, defensor do socialismo em um único país. Stalin vence, e dá início a um gigantesco projeto de industrialização, da mesma forma que criou um novo método de punição dos inimigos do socialismo: o Gulag. Esses horripilantes campos de trabalho forçado era uma verdadeira máquina de matar por exaustão e doença os inimigos da extrema-esquerda. Stalin também deu início a uma guerra sem tréguas contra os Kulaks, que junto com as diversas minorias que habitavam o território soviético, foram fuzilados ou enviados para lugares desolados do território russo, especialmente o Casaquistão.

Existe um capítulo dedicado ao grande terror, também conhecido na Rússia como tempo de Iejov. É impressionante a quantidade de supostos inimigos do povo que foram fuzilados. Centenas de milhares perderam a vida por causa da paranoia de Stalin.

Algumas afirmações falsas da extrema-direita que ficaram populares entre alguns círculos nos últimos anos, de que Stalin foi o responsável pelo início da Segunda Guerra por ter traído Hitler, não são endossadas pelos autores.

Assim como Lenin teve a ajuda de capitalistas para estabelecer e revolução e teve que restabelecer o capitalismo com a NEP, Stalin contou com a ajuda de engenheiros especializados norte-americanos para fazer sua campanha de industrialização. Esse fato não é mencionado no livro, se não me engano. Mas é surpreendente como a Rússia soviética muitas vezes foi financiada por grandes capitalistas ocidentais.

Estou fazendo essa resenha buscando mais analisar o projeto comunista, do que em fazer as contas de quantos milhões teriam sido mortos, porque esses números muitas vezes são discutíveis. Da mesma forma, seria injusto atribuir a Karl Marx o números da tragédia soviética.
Lenin, Stalin, Khrushchov e outros contribuíram para que o território soviético se tornasse um grande cemitério, de forma que suas glórias esportivas e espaciais não podem apagar essa história de horror.

Existem outros capítulos no livro que mostram a ação da KGB para expandir a ação do comunismo na Europa e a utilização do terrorismo. Os autores demonstram uma curiosa obsessão do comunismo soviético: a mística do aço e seus recordes de produção, em um país em que bens manufaturados básicos eram escassos. Essa mística também existiu no Camboja com o arroz e em Cuba com o açúcar.

Stéphane Courtois notou que a derrota do mal absoluto( o nazismo, que sem dúvida é muito pior do que o comunismo) fez o comunismo ser legitimado internacionalmente como o campeão do antifascismo, e saltou automaticamente para o campo do bem.

A história trágica do comunismo também é contada em capítulos sobre sua atuação nos governos da Ásia e da América central. O livro possui um capítulo dedicado a história do comunismo chinês e seus campos de concentração( laogai). Lá é contada a história de um de seus presos, que era católico, e percebeu a estranha obsessão dos comunistas chineses com o sacramento da confissão, de forma que os seguidores de Mao tentaram reproduzir a confissão católica no sistema prisional chinês.

No Camboja, o terror comunista atingiu o seu auge, e alcançou o status de genocídio, com um governo louco do Khmer vermelho e sua obsessão em transformar o país em um imenso campo de plantação de arroz e sua luta em tentar fazer uma gigantesca lavagem cerebral na população. Os autores perceberam um fato curioso: a destruição da população do Camboja pelo Khmer vermelho foi auxiliada pela crença da população desse país na reencarnação, porque um dos efeitos dessa crença é a desvalorização da vida atual, que passa a valer muito pouco em meio a um turbilhão de futuras reencarnações. Daí vem a apatia do povo do Camboja diante do massacre.

Faço uma pequena passagem pela ilha-prisão de Fidel Castro, para ficar claro que os autores do livro denunciam Che Guevara como um incompetente em matéria de economia, pois sua desastrada administração quase destruiu a economia de Cuba. Outra característica da ditadura cubana era a perseguição aos homossexuais, cujos direitos a esquerda reclama para si no ocidente, mas nega nas ditaduras comunistas.

Existem ainda, voltando ao comunismo soviético, alguns mitos que precisam de esclarecimentos. Trotsky seria uma alternativa melhor do que Stalin no poder? Como o livro possui citações abundantes de Trotsky, fica demonstrado como isso seria difícil, devido ao caráter intolerante e guerreiro( no pior sentido da palavra) da personalidade de Trotsky.

Outro mito: é sabido que o comunismo denunciava ferozmente a natureza hierárquica da idade média, com a sociedade dividida entre a nobreza, o clero e os camponeses, estrutura essa que o comunismo queria destruir para implantar um socialismo igualitário. Mas, estudando melhor o assunto, na União soviética esse quadro também não existia? Vejamos: Stalin era o rei, com um poder infinitamente maior do que qualquer rei feudal jamais sonhou; os comissários eram o clero, com todos os benefícios em assistência médica especializada que a população soviética não tinha acesso; e os camponeses, que continuaram existindo.

Isso demonstra que a situação medieval correspondia sim, a um esquema válido, e que não é fácil de ser substituído. O livro demonstra bem o processo de desumanização presente na mente de alguns comunistas. Existe até uma citação de Jean-Paul Sartre de que “todo anticomunista é um cão”. O livro também possui a denúncia de um pensamento biológico-eugenista para explicar o comportamento dos que não apoiam o regime.

Uma explicação minha sobre a citação de Ésquilo no início da resenha: é fato conhecido que Marx citou a afirmação de Prometeu de que odiava todos os deuses de uma forma isolada em sua tese de doutorado. Como demonstrou Eric Voegelin, essa foi uma desonestidade de Marx, pois fica claro que Ésquilo pretende demonstrar através do personagem de Mercúrio, que Prometeu estava com a mente perturbada por dizer que desprezava os deuses e a religião. Essa passagem foi sempre muito citada entre os comunistas para justificar a sua repulsa à religão cristã, mas a verdade é mesmo profética pela boca de Mercúrio: como uma pessoa com essa mentalidade seria um desastre em um futuro governo. A perseguição dos regimes comunistas contra as diversas religiões comprovam essa profecia.

Por fim, os autores rejeitam a comparação entre o terror comunista e a inquisição católica. Ao contrário do comissário comunista, o padre católico possui a verdade, e sabia que era um ato de caridade advertir ao próximo sobre seu erro. Como disse Miguel Del Castillo, citado pelos autores do livro: “ a finalidade não é torturar ou queimar: consiste apenas em fazer as perguntas certas”. Os autores podem ter exagerado no número de mortes, que nunca saberemos ao certo. O que é verdadeiro é que as vítimas do comunismo, ao contrário do nazismo, não possuem voz, nem memoriais, mas esse é o objetivo do livro: dar voz aos milhões de vítimas de uma utopia.

Para saber mais sobre a natureza gnóstica do comunismo, leiam o livro de Eric Voegelin, Science, Politics and Gnosticism.Imagem

Minha resenha sobre o livro de George R.R.Martin, A Guerra dos Tronos

Uma nova fantasia medieval
A guerra dos tronos, primeiro voluma de As Crônicas de Gelo e Fogo, destaca-se pela riqueza e variedade dos personagens, pela ausência de magia, já que a presença de magia é comum em outros livros do gênero que eu já li; um grande destaque é dado às personagens femininas, ao desejo do sexo e as prostitutas, fazendo desses temas uma grande novidade do livro.

Martin inova em sua história por utilizar o realismo na medida certa, ao mesmo tempo que mantém as histórias da mitologia e dos antepassados, que dão uma característica de uma fantasia muito rica e variada. O que achei impressionante é a facilidade do autor em construir diálogos inteligentes e muito bem articulados, que é um dos fatores que mais dão força ao livro.

São dezenas de personagens que são mencionados durante a história, cada um com uma personalidade mais marcante do que o outro. As paixões humanas e os vícios estão muito bem reproduzidos nos diversos personagens que fazem parte da obra. Contrariamente a algumas das obras mais famosas de fantasia, a guerra dos tronos cria um mundo imaginário sim, com mapas, cidades e povos fictícios, mas não abusa das descrições desses lugares, apesar de que eu goste desse tipo de narrativa.

As diversas famílias mencionadas durante o livro possuem uma rica história e diferentes personalidades. Martin cria personagens muito realistas, com características que o leitor pode se identificar facilmente, ou desprezar com repulsa. Ambiguidade moral, crueldade, violência, o desejo por sexo, a inocência e a bravura estão retratadas com muita habilidade.

O que torna a história ainda mais interessante é que ela está baseada na guerra dos cem anos entre a França e a Inglaterra, e na guerra das duas rosas, que aconteceu na Inglaterra do século XV. O leitor pode ter a sua curiosidade histórica despertada para conhecer melhor esses conflitos.Uma outra influência na obra de Martin é a do dramaturgo e poeta William Shakespeare, que é refletida na forma como os personagens são movidos pela paixão, amor e ódio, muito mais do que pela razão.

Essa influência também pode ser percebida nos pensamentos secretos que os personagens exibem, recurso esse que também era muito utilizado por Shakespeare. Martin também aborda com muita habilidade a questão sexual, demonstrando como vários personagens são movidos pelo impulso da satisfação sexual e a necessidade de prazer, o que dá ao livro um grande toque de realismo.

Os diálogos são excelentes, e não param em nenhum momento. O que poderia ter sido uma dificuldade para Martin ao escrever o livro, teria sido o fato de existirem vários personagens que ainda são crianças e adolescentes, mas o autor soube recriar muito bem um aspecto do mundo medieval, que era o fato de nesse época ainda não haver o conceito de adolescência. Meninos e meninas casavam-se muito precocemente, e tinham o futuro companheiro escolhido muito cedo.

A psicologia dos personagens Jon, Arya, Sansa e Bran é muito sofisticada e reproduz muito bem o conflito entre o mundo da criança e as responsabilidades e obrigações do mundo adulto. Quem ler esse livro esperando encontrar diversas narrativas de batalhas irá se decepcionar. O que é mais importante em a Guerra dos Tronos é o lado psicológico dos personagens e o jogo de xadrez que eles precisam jogar em suas alianças, relações e casamentos para manterem-se vivos.

O jogo dos tronos é mencionado várias vezes durante o livro, e teria sido um título mais apropriado para essa obra. A utilização de um mundo inventado, a história dos antepassados, animais fantásticos e a reprodução de uma religião pagã, fazem o livro ser parecido nesse aspecto com outras obras de fantasia. No entanto, Martin não se apega tanto a descrever esse mundo em detalhes, nem recorre à magia e aspectos sobre-humanos para prender a atenção do leitor.

Como Shakespeare, Martin está mais interessado no que se passa no interior da alma dos personagens, muitos deles discriminados por serem bastardos, anões e crianças, justamente os excluídos da sociedade medieval. Os conflitos, ambiguidades, remorsos, desejos de vingança e de afirmação em um mundo hostil, e como Shakespeare, a utilização das paixões , os vícios e a maldade são vitoriosos nesse drama.

Como Schopenhauer já havia afirmado em seu livro O Mundo como Vontade e Representação, é tarefa do autor reproduzir nas linhas de seu livro a condição do homem após a queda, em um mundo em que as lágrimas e a injustiça prosperam.

Esse é um livro para ser lido com calma, porque existem muitos personagens e situações que se alternam. Na minha opinião, George R.R. Martin criou em as Crônicas de Gelo e Fogo a melhor história de fantasia medieval que o leitor pode ter acesso. Recomendo muito esse livro, ainda mais se você gosta de Shakespeare, porque a força do livro está nos diálogos, nos pensamentos secretos, nas paixões, nas traições e na ideia de que,no fim, o mal triunfa.