Minha resenha sobre o livro de George R.R.Martin, A Guerra dos Tronos

Uma nova fantasia medieval
A guerra dos tronos, primeiro voluma de As Crônicas de Gelo e Fogo, destaca-se pela riqueza e variedade dos personagens, pela ausência de magia, já que a presença de magia é comum em outros livros do gênero que eu já li; um grande destaque é dado às personagens femininas, ao desejo do sexo e as prostitutas, fazendo desses temas uma grande novidade do livro.

Martin inova em sua história por utilizar o realismo na medida certa, ao mesmo tempo que mantém as histórias da mitologia e dos antepassados, que dão uma característica de uma fantasia muito rica e variada. O que achei impressionante é a facilidade do autor em construir diálogos inteligentes e muito bem articulados, que é um dos fatores que mais dão força ao livro.

São dezenas de personagens que são mencionados durante a história, cada um com uma personalidade mais marcante do que o outro. As paixões humanas e os vícios estão muito bem reproduzidos nos diversos personagens que fazem parte da obra. Contrariamente a algumas das obras mais famosas de fantasia, a guerra dos tronos cria um mundo imaginário sim, com mapas, cidades e povos fictícios, mas não abusa das descrições desses lugares, apesar de que eu goste desse tipo de narrativa.

As diversas famílias mencionadas durante o livro possuem uma rica história e diferentes personalidades. Martin cria personagens muito realistas, com características que o leitor pode se identificar facilmente, ou desprezar com repulsa. Ambiguidade moral, crueldade, violência, o desejo por sexo, a inocência e a bravura estão retratadas com muita habilidade.

O que torna a história ainda mais interessante é que ela está baseada na guerra dos cem anos entre a França e a Inglaterra, e na guerra das duas rosas, que aconteceu na Inglaterra do século XV. O leitor pode ter a sua curiosidade histórica despertada para conhecer melhor esses conflitos.Uma outra influência na obra de Martin é a do dramaturgo e poeta William Shakespeare, que é refletida na forma como os personagens são movidos pela paixão, amor e ódio, muito mais do que pela razão.

Essa influência também pode ser percebida nos pensamentos secretos que os personagens exibem, recurso esse que também era muito utilizado por Shakespeare. Martin também aborda com muita habilidade a questão sexual, demonstrando como vários personagens são movidos pelo impulso da satisfação sexual e a necessidade de prazer, o que dá ao livro um grande toque de realismo.

Os diálogos são excelentes, e não param em nenhum momento. O que poderia ter sido uma dificuldade para Martin ao escrever o livro, teria sido o fato de existirem vários personagens que ainda são crianças e adolescentes, mas o autor soube recriar muito bem um aspecto do mundo medieval, que era o fato de nesse época ainda não haver o conceito de adolescência. Meninos e meninas casavam-se muito precocemente, e tinham o futuro companheiro escolhido muito cedo.

A psicologia dos personagens Jon, Arya, Sansa e Bran é muito sofisticada e reproduz muito bem o conflito entre o mundo da criança e as responsabilidades e obrigações do mundo adulto. Quem ler esse livro esperando encontrar diversas narrativas de batalhas irá se decepcionar. O que é mais importante em a Guerra dos Tronos é o lado psicológico dos personagens e o jogo de xadrez que eles precisam jogar em suas alianças, relações e casamentos para manterem-se vivos.

O jogo dos tronos é mencionado várias vezes durante o livro, e teria sido um título mais apropriado para essa obra. A utilização de um mundo inventado, a história dos antepassados, animais fantásticos e a reprodução de uma religião pagã, fazem o livro ser parecido nesse aspecto com outras obras de fantasia. No entanto, Martin não se apega tanto a descrever esse mundo em detalhes, nem recorre à magia e aspectos sobre-humanos para prender a atenção do leitor.

Como Shakespeare, Martin está mais interessado no que se passa no interior da alma dos personagens, muitos deles discriminados por serem bastardos, anões e crianças, justamente os excluídos da sociedade medieval. Os conflitos, ambiguidades, remorsos, desejos de vingança e de afirmação em um mundo hostil, e como Shakespeare, a utilização das paixões , os vícios e a maldade são vitoriosos nesse drama.

Como Schopenhauer já havia afirmado em seu livro O Mundo como Vontade e Representação, é tarefa do autor reproduzir nas linhas de seu livro a condição do homem após a queda, em um mundo em que as lágrimas e a injustiça prosperam.

Esse é um livro para ser lido com calma, porque existem muitos personagens e situações que se alternam. Na minha opinião, George R.R. Martin criou em as Crônicas de Gelo e Fogo a melhor história de fantasia medieval que o leitor pode ter acesso. Recomendo muito esse livro, ainda mais se você gosta de Shakespeare, porque a força do livro está nos diálogos, nos pensamentos secretos, nas paixões, nas traições e na ideia de que,no fim, o mal triunfa.

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