Aristóteles no Monte Saint-Michel

http://www.brusselsjournal.com/node/3732

Esse artigo é muito bom porque faz uma crítica a respeito de um livro publicado em francês chamado Aristóteles no Monte Saint-Michel. Depois de algumas das cabeças mais estúpidas da Europa renascentista e iluminista terem criado o nome de idade das trevas para a idade média, a civilização árabe transformou-se em sinônimo de refinamento e sofisticação( os turcos tomaram esse posto mais tarde na mente dos europeus).

Um dos mitos desse suposto atraso europeu, e uma suposta superioridade islâmica, era justamente a posse dos clássicos da filosofia greco-romana, como Platão, Aristóteles e Galeno. Esse mito da superioridade islâmica ganhou força principalmente entre a esquerda, não talvez por que a esquerda tenha alguma coisa a admirar na civilização islâmica, mas é mais pelo anti-cristianismo que sempre foi moda entre alguns dos intelectuais mais famosos do socialismo.

Esse livro de uma autora francesa demonstra que os laços com o mundo grego nunca foram interrompidos. Primeiro porque havia as relações entre os francos e os bizantinos. Depois, havia o contato com os cristãos sírios, que foram os que traduziram Aristóteles para o árabe. Havia ainda as comunidades gregas em território ocidental.

É preciso dizer que os árabes se interessaram muito pouco pela filosofia platônica, nesse caso, Aristóteles se transformou no filósofo por excelência do mundo islâmico.  O mito da transmissão das obras completas de Aristóteles para o ocidente já havia sido rejeitado, e esse livro apenas esclarece mais alguns pontos. É certo que uma pequena parte das obras de Aristóteles foi traduzida do árabe para o latim na Espanha do século XII. Mas os europeus não gostaram muito do resultado, pois os árabes haviam alterado diversas passagens da filosofia aristotélica.

Surge então uma nova rota e um novo personagem: Constantinopla e Jacques de Venise, que possibilitaram aos europeus o acesso às obras de Aristóteles no idioma original grego. Essas traduções logo superaram as traduções do árabe, que foram rejeitadas.

A autora ainda percebe uma coisa importante para explicar a decadência do islã a partir do século XI: A falta de curiosidade pelo conhecimento de outras civilizações. Os árabes jamais traduziram a Ilíada e a Odisséia, assim como o poeta romano Virgílio, e se interessaram muito pouco pela República de Platão, pois o modelo de governo muçulmano já está contido no livro sagrado do islã, e os gregos nada tinham a ensiná-los.

Agora, é curioso notar como os historiadores esquerdistas geralmente fazem grande alarde para o fato de algumas poucas obras de Aristóteles terem sido traduzidas do árabe, e apontam como o islã era supostamente superior ao mundo cristão justamente por conhecerem Aristóteles e suas obras, entretanto, quando esses mesmos historiadores pulam para o renascimento, eles zombam da filosofia aristotélica e sua ciência( que já havia sido rejeitada pelos medievais), dizendo que que essa filosofia lembrava da odiada escolástica. Ou seja, eles culpam o mesmo Aristóteles que havia sido o responsável pela glória do islã, pelo atraso do mundo europeu em termos científicos e filosóficos nos séculos XV e XVI.

É bom lembrar que esse mesmo Aristóteles que esses historiadores elogiam por sua influência no pensamento islâmico, era odiado pelos renascentistas e por Lutero. Os primeiros rejeitaram Aristóteles por Platão e Hermes Trismegisto, porque esses eram mais esotéricos e idealistas; já Lutero abominava a razão, e via Aristóteles como o próprio diabo.

Com isso, vemos que para a esquerda, Aristóteles só vale quando está relacionado ao islã; quando se trata da escolástica e de São Tomás de Aquino, esse mesmo Aristóteles é ridicularizado.

Vamos esperar para que esse livro Aristote au Mont Saint-Michel seja pelo menos traduzido para o inglês, já que para a nossa língua isso não seja muito provável.

Comments

  1. Pior que esse livro foi traduzido pela Unifesp, mas não chegou a ser lançado. Tenho um professor que participou dos debates sobre a publicação.

    Como foi bem no contexto do onze de setembro o lançamento desse livro e, querendo ou não, ele questiona a participação árabe na cultura ocidental, o lançamento suscitou muita discussão pela Europa à época por conta do antissemitismo. Fizeram um debate (fechado) dentro da Unifesp e o veredicto foi que ele não seria lançado.

    Meu professor foi a favor da publicação, aliás, e eu acho uma pena uma boa discussão ser desperdiçada assim.

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