Uma definição de Adolf Hitler

Sem dúvida o personagem mais cruel, sinistro e misterioso do século XX, e talvez da história, Adolf Hitler continua em grande parte sendo um mistério para os estudiosos de sua vida. O porquê de todo o sofrimento que Hitler causou ainda parece não ter explicação. Muitas teorias, a maioria sem base histórica, procuraram oferecer respostas ao mundo das causas que levaram esse austríaco estranho a iniciar o maior conflito militar da história. Mesmo com alguns questionamentos ainda causando polêmica, com a ajuda de um maior conhecimento histórico das raízes austríacas de Hitler, da história política e filosófica alemã, já podemos ter uma imagem melhor definida de quem foi esse homem chamado Hitler.

A infância.

Hitler nasceu em uma família relativamente estável, com um pai que era funcionário público e com uma mãe carinhosa e dedicada à família. Algumas teorias que não foram confirmadas pelos historiadores, dizem que Hitler teria um antepassado judeu, e que esse era seu grande segredo. Mas isso não foi confirmado e pode ser descartado. O que sabemos é que Hitler apanhava do pai, e era um aluno medíocre na escola. O pai queria que o filho fosse um funcionário público como ele, e chegou até a levar Hitler para conhecer seu trabalho pessoalmente; isso, no entanto, só aumentou a repulsa do jovem Hitler pelo trabalho do pai. Desde cedo, o jovem Hitler tinha uma certeza: queria ser artista( pintor). Nos livros que li, a reação do pai a essa ideia foi mais de indiferença do que de raiva. O único apoio parece ter sido da mãe. Depois da morte do pai de maneira inesperada, parece que seu sonho ficaria mais próximo, pois o pai já não estaria ali para atrapalhá-lo. Hitler parece ter sentido a morte do pai. Mais tarde em seu livro, o descreveria com respeito.

O abandono da escola.

Após a morte do pai, Hitler até tentou continuar os estudos secundários, mas foi reprovado e, com o tempo, foi perdendo o interesse pelos estudos.Sua obsessão era pela arte. Sua mãe até tentou estimulá-lo a continuar estudando, mas depois percebeu que isso era um caso perdido. Hitler abandona a escola.

A doença da mãe e sua morte.

Hitler era muito apegado à sua mãe, e tinha um genuíno sentimento de amor por ela. Klara Hitler adoeceu com um câncer de mama. Seu filho cuidou dela com muito carinho e atenção. O médico que cuidava de sua mãe era judeu, o que mais tarde iria gerar teorias de que a origem do ódio de Hitler aos judeus era pelo fato dele ter considerado esse médico o responsável pela morte da mãe. Mas sabemos que isso é falso, pois esse médico cuidou muito bem da mãe de Hitler, sendo que ele o agradeceu pelo tratamento dispensado à sua mãe e, mais tarde, em 1938, ajudou esse médico a emigrar do país e salvou a sua vida.

A  ida para Viena.

Hitler decidiu partir para Viena para tentar a carreira de pintor. Lá conheceu seu único amigo durante esse período, August Kubizek. Vivia uma vida de solitário e gastava seu tempo indo aos museus e óperas da cidade, tornado-se um fã ardoroso de Richard Wagner. A cidade de Viena iria lhe causar repulsa, como explica muito bem Brigitte Hamann em seu livro sobre a juventude de Hitler. A cidade era multiétnica, com pessoas de diversas nacionalidades convivendo lado a lado, como alemães, Tchecos, judeus, italianos, pessoas de vários países do leste europeu e os ciganos. Nessa cidade ainda existiam diversas organizações racistas que disputavam entre si adeptos para suas estranhas ideias. O racismo científico tinha suas origens na Inglaterra, mas foi no mundo germânico que ele alcançou uma força assustadora. Uma das mais famosas revistas de racismo científico que circulavam em Viena naquela época, era a Ostara, que era escrita pelo ex-monge católico Lanz Von Liebenfels. Suas ideias eram bizarras, e refletiam um profundo antissemitismo e ódio contra a igreja de Roma. Pretendia defender as mulheres louras do assédio dos “inferiores” negros e judeus. É possível que Hitler tenha lido uma dessas revistas nesse período, mas não ficou estabelecida a influência de Von Liebenfels sobre o jovem Hitler.

O fracasso como pintor.

Hitler parecia estar ansioso no dia de seu exame na escola de Belas-Artes de Viena. O teste consistia em fazer desenhos e pinturas sobre temas já determinados. O resultado foi que as pinturas de Hitler foram consideradas insatisfatórias, e foi-lhe recomendado que tentasse arquitetura. Para conseguir ser arquiteto era necessário o diploma de nível médio, coisa que Hitler não possuía, sendo que ele jamais cogitou em voltar para a escola. Passou a viver como um vagabundo, mas ele possuía algum dinheiro da pensão de órfão que ele recebia da mãe. Tentava ocupar o seu tempo assistindo à ópera Tristão e Isolda, de Wagner e visitando museus. Um fato que chamou a atenção de Fest, era que Hitler passava o dia concebendo projetos de teatro e arquitetura, e depois alugava o ouvido de seu amigo Kubizek com o relato de projetos mirabolantes, concebidos por sua mente confusa.

Sexualidade e a possível origem de seu antissemitismo.

Durante o período de Viena, não há uma só testemunha que tenha visto Hitler com uma namorada. Não se sabe exatamente como ele teve sua primeira experiência sexual, apesar dele ter chamado a atenção de algumas mulheres mais velhas, mas que pareciam vê-lo mais como um filho do que um amante. É sabido que Hitler se assustou um dia em que estava com Kubizek na casa de uma prostituta. Quando percebeu do que se tratava aquela mulher, foi embora da casa. Nesse tempo ele ganhava algum dinheiro com aquarelas que pintava e que dava ao seu amigo  Hanisch vender. Apesar de conseguir um relativo sucesso de vendas de suas pinturas, Hitler se desentendeu com Hanisch.

Sobre a origem de seu antissemitismo, Hamann não considera que ele tenha se originado em Viena. Fest também fala pouco sobre esse assunto. Quem chegou mais próximo de identificar essa origem foi o historiador austríaco Friedrich Heer, muito citado por Lukacs, que defendia a tese que a origem do antissemitismo de Hitler foi suas raízes austríacas e populares, junto com as falhas morais do catolicismo. Certamente um certo antissemitismo católico que existia na cultura austríaca e na política desse país contriuiu para o ódio de Hitler, é só ver Karl Lueger, seu ídolo político, com seu sentimento antijudaico, ao mesmo tempo que andava ao lado de padres e procissões com frequência.

Nesse artigo vou pular a ida inicial para Munique e a participação de Hitler na primeira guerra, pois considero essas passagens secundárias.

A influência de Richard Wagner e Schopenhauer.

Schopenhauer.

Hitler possuía dois ídolos filosóficos: Schopenhauer e Wagner. Durante as batalhas da primeira guerra, Hitler carregava com ele um exemplar da principal obra do filósofo alemão O mundo como Vontade e Representação. Eu, na primeira vez que li Fest, não concordei com o destaque que ele dava para a influência de Schopenhauer sobre o pensamento de Hitler; porém, nessa época, eu conhecia muito pouco do pensamento desse filósofo. Schopenhauer foi um filósofo que inovou no pensamento do ocidente por ter tentado infiltrar o pensamento gnóstico hindu na filosofia idealista alemã.

Schopenhauer tinha uma uma profunda aversão ao judaísmo, que ele via como uma religião otimista, mas até aí nenhum problema. A grande questão é que ele tentou substituir a base moral judaica e cristã do ocidente pelo ascetismo indiano. Ele certamente não era um nacionalista, mas tentou de todas as maneiras reabilitar o pensamento gnóstico cristão dos primeiros séculos, assim como valorizou Mestre Eckhart e Jacob Boehme, da mesma forma que o budismo. Schopenhauer considerava os judeus como os mestres da mentira. Outra característica de Schopenhauer que parece ter sido a que mais influenciou Hitler, era sua extrema valorização da arte, que ele via como o caminho para o ser humano libertar-se por alguns instantes do sofrimento da vida, e o fato de que Schopenhauer era extremamente apolítico. Ele mesmo dizia que seu ideal de política era a República de Platão. Não surpreende que Schopenhauer, assim como Platão e Hitler  ,fosse um eugenista.

Richard Wagner.

Nessa parte de denunciar Wagner como um dos mentores de Hitler, Joachim Fest é imbatível. É fato muito conhecido que Wagner era um profundo antissemita. Era também um paganista e megalomaníaco. Wagner colocava em suas músicas toda sua ideologia germânica, e, como diz Fest ,“o barbarismo libertador, o misticismo da depuração do sangue em Parsifal e um dualismo brutal.” A maldição do ouro, a raça inferior destinada a um trabalho subterrâneo de mineiros, e toda uma ideologia de traição, de sexualidade, o paganismo e a consciência elitista faziam parte do teatro de Wagner( Fest). A origem da mania de Hitler e dos nazistas de teatralizarem tudo na sociedade vem de Wagner.

Religião.

Hitler nasceu em uma família católica, mas perdeu a fé na igreja cedo, apesar de na sua vida adulta sua relação com a religião cristã fosse ambígua. Admirava de certa forma Lutero, mais por seu nacionalismo do que por motivos teológicos. Himmler e outros nazistas como Rosenberg eram adeptos do paganismo, mas Hitler nunca aderiu a essas ideias. Também rejeitava a volta à mitologia germânica. Hitler sempre foi um Deísta, que acreditava de maneira blasfema  estar fazendo a vontade de Deus.

Filosofia.

Além de Schopenhauer, que influenciou Hitler em sua visão da arte como forma de salvação, Hitler teria sido influenciado por Nietzsche, e sua afirmação da vontade de viver. Sua cineasta favorita,  Leni Riefenstahl, fez um filme famoso e muito bom tecnicamente, apesar da mensagem péssima, chamado de O Triunfo da Vontade, de clara inspiração na filosofia de Nietzsche. Apesar disso, Hitler não era movido em seu ódio e vontade de guerra, nem por Schopenhauer nem por Nietzsche, mas por filósofos obscuros, racistas e gnósticos como Max Riedel, Carl Schleich e Ernst Schertel. Como nos lembra Hugh Trevor-Roper em uma descrição impressionante, ele fala sobre Hitler:” faz lembrar uma antiga estátua bárbara erguida em meio a detritos de todos os dejetos intelectuais dos séculos passados”. Hitler tinha uma memória muito boa, que funcionava como uma esponja, absorvendo tudo o que a filosofia e a pseudo-filosofia criaram desde o século XIX.

Definindo a personalidade de Hitler até sua volta à Alemanha depois da guerra.

Vimos que Hitler nessa época era profundamente apolítico, certamente uma influência de Schopenhauer e de Wagner, duas das personalidades que dominavam o pensamento político e artístico na Alemanha do fim do século XIX e início do século XX. Como relata em seu livro, Fest demonstra que a atmosfera política da Alemanha dessa época era profundamente apolítica e dominada por um pensamento mitológico e pagão, em que divindades antigas pareciam ressuscitar. Racismo, intolerância e antissemitismo dominavam o pensamento austríaco, e o poder de influência da igreja católica parecia muito fraco, mas estava adaptado às circunstâncias, pois desde que ainda tivesse algum poder junto às autoridades, tudo parecia correr muito bem. Portanto ,Hitler estava longe da política nessa época, gostava excessivamente de teatro e da música de Wagner, era adepto de Schopenhauer e de alguns ridículos pequenos filósofos alemães da época ,e era assexual. Alguns dos traços mais marcantes sobre a personalidade de Hitler existiam já nessa época, como seu diletantismo e revolta contra um mundo que ele julgava hostil, assim como seu caráter fracassado. Na próxima parte do meu artigo, demonstrarei que ele só se tornou um radical quando conheceu Dietrich Eckart na Alemanha.

Algumas considerações Bibliográficas

O livro de Brigitte Hamann, Hitler`s Vienna, é certamente a melhor opção para poder se conhecer a juventude de Hitler em Viena. Ela vai muito mais fundo do que eu fui nesse pequeno artigo, demonstrando a influência de Karl Lueger e de Guido Von List sobre o pensamento de Hitler e do nazismo. O desprezo pela democracia por Hitler vem dessa época. Esse livro é realmente muito bom, mas não há tradução para o português. Você pode ler uma pequena resenha que fiz para esse livro aqui https://felipepimenta.com/2013/03/11/resenha-de-a-viena-de-hitler-hitlers-vienna-de-brigitte-hamann/

Para lermos algumas das opiniões dos melhores( e dos piores) biógrafos de Hitler, não há livro melhor que o Hitler da História, de John Lukacs. Todas as opiniões inovadoras de Friedrich Heer estão citadas nesse livro. Infelizmente o livro de Heer é muito difícil de ser encontrado. 

A melhor biografia, de longe, de Hitler, é a de Joachim Fest, publicada nos anos 1970. Toda a influência de Wagner e Schopenhauer são denunciadas nesse livro. A situação política e cultural alemã pré-Hitler está exposta nesse livro. Você pode ler minha resenha aqui. https://felipepimenta.com/2013/03/11/resenha-de-hitler-volume-2-de-joachim-fest/

Essa é apenas a primeira das três partes de um artigo que estou escrevendo sobre a vida de Hitler. A próxima parte será a da influência de Dietrich Eckart e de como Hitler chegou ao poder. Mas ainda vou levar um certo tempo para poder escrevê-la, pois estou lendo outros livros importantes para minha formação.

A origem do antissemitismo de Hitler é definida aqui https://felipepimenta.com/2013/03/12/a-religiao-de-hitler-e-a-origem-de-seu-antissemitismo/

Comments

  1. Giovanna e Beatriz says:

    Olá felipe ! Estamos fazendo a pesquisa de nosso “TCC” do 3° ano do ensino médio, que trata-se da seguinte questão: “O que levou Hitler a iniciar o maior conflito militar da história?”. Dentre nossas pesquisas, li seu artigo “Uma definição de Adolf Hitler” e achamos sua pesquisa bem aprofundada; percebendo que trata-se de um artigo completo sobre o austríaco,você poderia nos auxiliar em nossa pequisa de alguma forma?
    agradecemos desde já a sua colaboração com as resenhas e os artigos.

  2. Mateus says:

    E aí, Felipe.
    Gostaria de saber se concluiu as outras duas sequências sobre Hittler? E se poderia me mandar os links de ambos.
    Muito bom o texto!!

    • Oi, Mateus! Eu realmente não dei sequência a esse artigo. Quem realmente aborda o tema do antissemitismo de Hitler com algumas observações mais profundas e chocantes é o historiador John Lukacs. Para ele, não é possível separarmos Hitler da cultura católica da Áustria e da Baviera. A religião teve umq contribuição decisiva no nazismo. Recomendo também que você leia Hitler e os alemães, de Eric Voegelin, para entender melhor isso.

  3. Stetson Oliver says:

    Artigo muito interessante. Gostei muito. Seguindo!!!

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