Resenha de O Nome da Rosa

Uma discussão sobre o problema dos Universais

O romance O Nome da Rosa fez um enorme sucesso nos anos 1980 e 1990, vendendo milhões de exemplares. Mas, de fato, quantas pessoas puderam compreender o livro? No começo, o livro é contado com o personagem de Adso se lembrando dos acontecimentos do ano de 1327, quando ainda era noviço, tornando-se logo depois, um discípulo do franciscano inglês Guilherme de Baskerville.

Frei Guilherme era discípulo do teólogo inglês William de Ockham( ou Guilherme de Ockham) e admirava as ideias do sábio inglês Roger Bacon. Os dois, Adso e Frei Guilherme, são convidados a um mosteiro no norte da Itália para resolverem o mistério de algumas mortes que aconteceram recentemente lá. Não se trata nessa resenha de revelar ao leitor os mistérios e surpresas da narrativa de Eco. O objetivo é tentar entender a filosofia que está por trás de alguns dos personagens criados pelo autor. Eco é um medievalista com muito conhecimento da filosofia e estética da idade média.

Ele usa o esquema do livro do apocalipse para desviar o leitor da luta que acontece durante o romance. A verdadeira batalha é entre o monge nominalista inglês Frei Guilherme( que representa o próprio Eco) e o monge cego espanhol Jorge de Burgos. Não é coincidência o fato do monge espanhol ser o fanático do livro, pois o autor quer recordar ao leitor a Espanha como terra da inquisição.

Burgos é combatente do riso, que é uma característica do ser racional. Os dois monges se odeiam e se admiram, e o aprendiz Adso percebe isso. O debate sobre o ser está colocado no livro. Aqui cito a opinião do professor Orlando Fedeli sobre as três possibilidades do ser. Vamos a eles:

Considerar o ser como unívoco é o caminho do panteísmo, que é a posição de Parmênides na antiguidade. Na filosofia moderna, essa visão igualitária do ser conduz à adoração do homem e da razão. Ela identifica Deus com a matéria. A ciência moderna tem suas raízes no nominalismo de Ockham.

Considerar o ser como equívoco leva ao homem a negar a possibilidade de compreender algo sobre Deus. Quando se aprofunda nessa tendência de se afirmar que os seres criados são tão diferentes da divindade, poderia-se dizer que são contrários a ela, então cai-se na gnose, que é antimetafísica. Orlando Fedeli atribui essa corrente desse rio ao Mestre Eckhart .

Considerar o ser como análogo é o caminho da igreja católica, sendo que esse pensamento tem um dos seus maiores representantes em São Boaventura. As criaturas do universo são seres, mas não do mesmo modo como Deus é ser. Nas coisas materiais e irracionais, há apenas vestígios de Deus; nos seres racionais, há a imagem de Deus, porque como o criador, esses seres possuem inteligência e vontade.

Conhecendo esses três possíveis caminhos, a humanidade tem oscilado entre os seguidores do Mestre Eckhart e de Guilherme de Ockham. O caminho do ser como análogo, que é o de São Tomás, tem sido combatido desde a idade media até a filosofia moderna.

Ockham fez surgir Lutero, e Eckhart, Leonardo da Vinci. Nominalismo e gnosticismo lutam nas páginas de o nome da Rosa.

Eco irá acusar a igreja nas páginas de seu livro de ter controlado a biblioteca e de não permitir ao homem comum ter acesso aos livros. O autor irá adotar a mesma tese dos cátaros, dos valdenses e dos irmãos do livre espírito, de que a igreja se corrompeu. Todos eles são defensores de uma igreja pobre, sem dogmas, sem imagens e igualitária.
Eco sustenta que a história conduz o homem para o nada, como Sartre também afirmou; mas o católico- como diz Fedeli em seu ensaio para o romance de Eco- crê que o caminho que existe do início no Éden ,até o fim no paraíso celestial, pode ser iluminado com o auxílio da revelação e da filosofia cristã.

Para quem ignora a história, os diversos labirintos criados por Eco irão parecer confusos, com uma quantidade enorme de temas com diversos sentidos históricos, como discussões econômicas, políticas e eclesiásticas. Mais importante, existe a discussão sobre o saber, o conhecimento e o destino da alma.

Questões como saber se a verdade existe, e a luta entre místicos e racionalistas estão colocadas no livro. A posição tomista que Eco conhece muito bem é ignorada no livro, ou pior, Eco faz ela se confundir com a posição racionalista.

O leitor tem sua atenção voltada para a disputa da posse do II livro da poética e Aristóteles que falaria sobre a comédia e o riso. Jorge de Burgos, em seu misticismo fanático, está disposto a destruir o livro e a incendiar a biblioteca( ou o mundo) para evitar o triunfo do racionalismo de Ockham.

Um, debate em que Eco não esconde a sua opinião é sobre a questão da verdade. Frei Guilherme( Eco) defende o relativismo. Quando Adso pergunta onde está a verdade, Frei Guilherme responde:” em nenhum lugar, às vezes”. Umberto Eco conhece muito bem o argumento da escolástica Tomista sobre a verdade, e busca safar-se com respostas escorregadias. Frei Guilherme diz: “ Sinto-me incerto da verdade, mesmo se nela acredito”.

A defesa do relativismo de Frei Guilherme faz o leitor identificar nele a posição moderna, e com isso, faz ele parecer tolerante e simpático. Eco acusa a igreja de controlar o saber e a ciência, mas ele faz seu personagem Frei Guilherme contradizer-se ao defender que a ciência não seja mais controlada pela igreja, mas sim por uma estranhíssima comunidade dos doutos que controlaria a partir de então o conhecimento. Quem faria parte dessa comunidade dos doutos no futuro? Eco não responde.

No final, a igreja é destruída pelo incêndio que demorou muito, mas acabou por consumi-la. É assim que Eco sugere que a igreja na vida real pode estar sendo destruída há séculos, desde que Ockham separou a fé da razão e abriu espaço para diversas heresias e a um empirismo radical do mundo moderno, que nega todo conhecimento teórico.

O fim do livro demonstra a admiração mútua entre o monge nominalista e o gnóstico fanático. Eles se admiravam e se odiavam ao mesmo tempo, mas tinham um só objetivo: destruir a igreja católica e a filosofia Tomista. Adso, que perde a fé durante o romance e se torna um nominalista, irá dizer no fim do livro: stat rosa prístina nomine, nomina nuda tenemus- permanece a rosa antiga pelo nome: temos apenas o vazio dos nomes. É o nominalismo que só acreditava no particular que triunfa.

Bibliografia: Eco, Umberto- O Nome da Rosa

Fedeli, Orlando- Nos labirintos de Eco

Abaixo fiz uma pequena explicação do problema dos universais para quem for ler o livro entender melhor essa questão.

***

Existiria a rosa universal e imutável ou a rosa seria apenas um nome, pois só existiria a rosa individual, que seria diferente de todas as outras? A doutrina de Santo Tomás seria que o homem tem a idéia de rosa em sua mente, e ao ver uma rosa real, ele pode conhecer que o conceito de rosa existe também na rosa individual.Frei Guilherme representa a filosofia de Ockham, que nega que existam os universais, já que só a rosa particular seria real. Isso marca o nascimento da ciência moderna, com seu empirismo radical. Frei Guilherme é um personagem moderno, com seu probabilismo em teologia natural, ceticismo em metafísica e orientação para pesquisas de caráter científico. Ele diz:” a verdadeira ciência não deve contentar-se com idéias, que são justamente signos, mas deve buscar as coisas em sua verdade singular”. Umberto Eco não faz muito bem a distinção entre a posição nominalista(frei Guilherme) e a da Igreja Católica.

Uma pergunta prendia a atenção dos escoláticos: os universais são reais ou não? algumas soluções se apresentam:

O realismo: os universais têm um valor absoluto de realidade; mas onde se encontram essas realidades? num mundo à parte ou em Deus, ou é imanente nas coisas materiais? Essa era a posição de Platão.

O nominalismo: nega-se, não já o concreto, mas a ideia espiritual e substitui-se por um nome comum, simples representante dum grupo de indivíduos concretos. Para os nominalistas só os indivíduos são reais. “universale est vox, flatus vocis”. O universal é voz, sopro de voz. Seus defensores são Roscelin, Guilherme de Ockham e, no livro, Frei Guilherme.

Realismo moderado: o universal é a natureza expressa em seus diferentes modos de ser: pode-se achar concretizada na matéria( teoria da individuação), universalizada nos nossos conceitos ( teoria da abstração) ou realizada em Deus ( teoria do exemplarismo). O realismo moderado concebe ao mesmo tempo que só o indivíduo existe, que os universais exprimem o real e que a palavra é sinal de uma ideia espiritual. O concreto e o material existem na coisa e o abstrato e universal no espírito. Essa é a posição de São Tomás de Aquino e da Igreja Católica, que Eco não menciona.

Sobre a questão dos universais, é recomendável a obra Compêndio de história da Filosofia, de Thonnard.


Comments

  1. vitor says:

    Por qual motivo é Eckhart um gnóstico? Discordo.

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