Morrer…Dormir!…Talvez Sonhar! Uma Crítica de Hamlet

 

Um dos grandes mistérios da vida se Shakespeare era sua religião. Tendo nascido em um país que se tornou protestante de forma mais lenta do que em outros casos na europa, o poeta e dramaturgo inglês parecia estranhamente próximo ao catolicismo, por seus personagens simpáticos ao catolicismo, e seus dramas e comédias muitas vezes ambientados em um país católico como a Itália.

De maneira muito diferente de seus compatriotas, como o filósofo Thomas Hobbes e o poeta John Milton, que eram abertamente hostis ao catolicismo, Shakespeare apresentava padres, freiras e dogmas católicos de uma maneira muito realista e simpática.

O ambiente de Hamlet, no entanto, parece, de início, ser um drama protestante, pois a história se passa na Dinamarca, e Hamlet volta de Wittenberg, onde estudava, no coração da reforma protestante.Mas isso, na minha opinião, não impede que Hamlet seja uma obra profundamente católica.

A cena inicial mostra alguns soldados que estavam de sentinelas que avistam a alma do falecido rei, pai de Hamlet. Eles então avisam a Hamlet sobre o acontecimento. A alma então fala com Hamlet, e diz que foi assassinada, para a surpresa do personagem principal.

Ela continua sua história: diz que está condenada a vagar pela noite e durante o dia a jejuar nas chamas, até que estejam extintos os pecados de sua vida terrena. Aqui está uma clara representação do dogma católico do purgatório. Não acredito que se Shakespeare fosse hostil ao catolicismo, ou seja, se fosse protestante, jamais criaria uma cena como essa sem condená-la explicitamente.

A alma do pai de Hamlet quer vingança pelo seu assassinato, e ele conta ao filho como foi que tudo aconteceu, tendo sido morto por seu próprio irmão, tio de Hamlet, que torna-se então, amante da rainha.

O espírito lamenta, como católico que era, que tenha morrido sem a extrema-unção, sem confissão e os sacramentos. Hamlet então acredita no relato da alma de seu pai e jura vingança.

O drama da peça começa aí: como o espírito de Hamlet reage ao saber de tamanha traição ao seu pai e a perfídia de sua mãe e de seu tio. Hamlet então diz que há mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor nossa filosofia. Isso tanto pode referir-se à alma de seu pai ter aparecido aos vivos, como a traição que reinava na sua família, que era mais do que todos podiam imaginar.

A forma como Hamlet reage ao saber da verdade de tamanha tragédia é a questão central nesse drama. Hamlet, que era uma pessoa justa, não parece conseguir suportar tamanha história de horror e começa a agir como se estivesse perturbado. Passa a falar com palavras estranhas com sua mãe,seu tio, e sua provável futura esposa, Ofélia.

Então, no meio da peça, Hamlet faz o seu famoso monólogo do ser ou não ser. O que Hamlet queria dizer com isso?

Poderia ser uma reflexão sobre a possibilidade do suicídio em quem está sofrendo com tamanha dor. Hamlet questiona se vale a pena suportar todas as misérias dessa vida, e se o suicídio seria um meio de escapar a tudo isso de maneira válida.

Será que existe alguma coisa depois da morte? Isso é o que Hamlet questiona. A resposta ele mesmo encontra em sua consciência cristã quando pensa na existência de uma outra vida, e na possibilidade que o inferno realmente exista, porque ele tem medo de que evitando os males de nosso mundo, possamos cair um tormentos ainda maiores no inferno, que é o local que ele imagina que exista de verdade.

Hamlet então rejeita o amor de Ofélia por causa da sua obsessão com a vingança; Ofélia vê-se rejeitada por Hamlet e termina se suicidando. Hamlet contempla a possibilidade de se tornar um assassino para fazer justiça. Essa é também a questão de saber se ele deve ser ou não ser um assassino. Em Hamlet, existe a possibilidade de que o filho ame a própria mãe, e seu desejo era o de matar seu tio justamente para viver esse caso proibido. Teria também desejado a morte de seu pai secretamente, mas foi surpreendido pela notícia de que sua própria mãe era responsável pela tragédia. Essa é uma interpretação psicológica do drama.

Eu prefiro a interpretação cristã. Hamlet é a própria existência do pecado original, em que o homem deseja o mal em sua alma. Lembra a advertência de Deus ao próprio Caim dizendo para que ele se controlasse, pois se isso não acontecesse, o pecado estava à porta, e isso seria o desejo de Caim, mas que sobre o pecado, ele deveria dominar e triunfar.

Shakespeare conhecia essa passagem da Bíblia, e a reproduz em Hamlet. Primeiro ele se sente triste e abandonado; não sabe o que fazer. Com isso segue que o desejo de vingança domine a sua vontade, e que o pecado do assassinato torne-se o seu desejo dominante. Com isso, como no livro do Gênesis, Hamlet estava com o pecado na porta de sua imaginação, no entanto, como Caim, Hamlet não foi forte o suficiente para suportar a provação e deixou-se dominar pela tristeza, que era conhecida pelos medievais como um dos sete pecados capitais.

Não irei contar o final, mas como em outras peças de Shakespeare, o mal triunfa, pois o dramaturgo inglês, como percebeu o filósofo alemão Schopenhauer, queria mostrar ao homem o próprio pecado de termos nascido. É o própria queda do homem e a maldade que reina em seu coração e mente, que Shakespeare pretende reproduzir em seus personagens.

A peça é dramática e tem momentos tensos e profundos, como quando Hamlet questiona se o suicídio é uma saída para os sofrimentos desse mundo. Nunca vi essa peça, que deve ser ainda melhor assistida do que lida. Uma obra fundamental para entendermos o próprio sentido do sofrimento e da vida.

 

 

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O Alegorismo Medieval e a Análise de uma Escultura Românica

Essa é uma escultura românica  muito famosa que faz parte da igreja de Kilpeck, no Reino Unido. Ela representa a escultura de um cachorro e um coelho em uma forma muito moderna de Cartoon, mas ela foi esculpida no século XII.

O que essa escultura tão bonita e singela, que atrai muito a imaginação das crianças, nos fala sobre a estética e mentalidade do homem medieval?

Como nos lembra o historiador holandês Huizinga, nenhuma verdade do espírito medieval era tão convincente como as palavras de São Paulo: ” Agora vemos obscuramente, como através de um espelho; depois veremos face a face”.

A Idade Média, diz Huizinga, nunca se esqueceu de que qualquer coisa seria absurda se seu significado se limitasse a sua função imediata e a sua forma fenomênica, e que todas as coisas se difundem largamente no além.

Umberto Eco, na sua obra Arte e Beleza na Estética Medieval, diz que o homem da época medieval vivia em um mundo povoado de significados, de referências e das manifestações de Deus nas coisas, e que elas eram signos de uma verdade superior.

Com o abade Suger, e antes com a arte românica, surge um grande movimento para educar a população através das imagens , da alegoria e da pintura , que é a literatura dos laicos, como cita Eco.

Dionísio, O Aeropagita, diz em sua obra Da Hierarquia Celeste, que há uma incongruidade entre o símbolo e a coisa simbolizada; se não houvesse essa incongruidade, mas só identidade, não existiria a relação proporcional. Além disso, como Eco escreve, é exatamente de incongruidade que nasce o esforço deleitoso da interpretação. É bom que as coisas divinas sejam indicadas por símbolos muito diferentes, como o cão e o coelho, porque é justamente essa estranheza do símbolo que o torna palpável e estimulante para o intérprete.  aliud dicitur, aliud demonstratur (uma coisa é o que se diz, outra o que se demonstra). Como explica Beda, as alegorias aguçam o espírito ,reavivam a expressão e adornam o estilo(Eco).

A presença de Deus no mundo pode estar nos lugares mais distantes, como no céu, ou em um carneiro ou outro animal. Diz Huizinga:” Como em um caleidoscópio, todo ato de pensamento faz com que a massa desordenada de partículas una-se em uma bela e simétrica figura”.

A representação do coelho e do cachorro em uma escultura localizada em uma igreja não deve surpreender quem está acostumado com esse universo alegórico medieval. Nessa escultura estão refletidas toda a graça e beleza típicas da arquitetura Românica, e ela prende a atenção da gente, no nosso tempo, justamente por esse estranho aspecto moderno, como se fosse em um desenho animado. Como diz Dionísio, a beleza manifesta-se na harmonia das figuras.

Henri Focillon escreveu isso sobre o estilo de algumas igrejas românicas:” o gosto da anedota, do pormenor, da verossimilhança pitoresca, da fidelidade ao objeto,  a nota espirituosa, divertida na representação do objeto, passam à frente da ordem das hierarquias…”

Toda a criação, para o homem medieval, reflete a glória de Deus, mais nas criaturas racionais, e menos nas irracionais, mas que Deus não deixa de amá-las porque são obras de sua criação.

Bibliografia: Eco, Umberto- Arte e Beleza na Estética Medieval, Record, 2010

Focillon, Henri, Arte do Ocidente, A Idade Românica e Gótica.

Dionísio, o Aeropagita, da Hierarquia Celeste.