O Alegorismo Medieval e a Análise de uma Escultura Românica

Essa é uma escultura românica  muito famosa que faz parte da igreja de Kilpeck, no Reino Unido. Ela representa a escultura de um cachorro e um coelho em uma forma muito moderna de Cartoon, mas ela foi esculpida no século XII.

O que essa escultura tão bonita e singela, que atrai muito a imaginação das crianças, nos fala sobre a estética e mentalidade do homem medieval?

Como nos lembra o historiador holandês Huizinga, nenhuma verdade do espírito medieval era tão convincente como as palavras de São Paulo: ” Agora vemos obscuramente, como através de um espelho; depois veremos face a face”.

A Idade Média, diz Huizinga, nunca se esqueceu de que qualquer coisa seria absurda se seu significado se limitasse a sua função imediata e a sua forma fenomênica, e que todas as coisas se difundem largamente no além.

Umberto Eco, na sua obra Arte e Beleza na Estética Medieval, diz que o homem da época medieval vivia em um mundo povoado de significados, de referências e das manifestações de Deus nas coisas, e que elas eram signos de uma verdade superior.

Com o abade Suger, e antes com a arte românica, surge um grande movimento para educar a população através das imagens , da alegoria e da pintura , que é a literatura dos laicos, como cita Eco.

Dionísio, O Aeropagita, diz em sua obra Da Hierarquia Celeste, que há uma incongruidade entre o símbolo e a coisa simbolizada; se não houvesse essa incongruidade, mas só identidade, não existiria a relação proporcional. Além disso, como Eco escreve, é exatamente de incongruidade que nasce o esforço deleitoso da interpretação. É bom que as coisas divinas sejam indicadas por símbolos muito diferentes, como o cão e o coelho, porque é justamente essa estranheza do símbolo que o torna palpável e estimulante para o intérprete.  aliud dicitur, aliud demonstratur (uma coisa é o que se diz, outra o que se demonstra). Como explica Beda, as alegorias aguçam o espírito ,reavivam a expressão e adornam o estilo(Eco).

A presença de Deus no mundo pode estar nos lugares mais distantes, como no céu, ou em um carneiro ou outro animal. Diz Huizinga:” Como em um caleidoscópio, todo ato de pensamento faz com que a massa desordenada de partículas una-se em uma bela e simétrica figura”.

A representação do coelho e do cachorro em uma escultura localizada em uma igreja não deve surpreender quem está acostumado com esse universo alegórico medieval. Nessa escultura estão refletidas toda a graça e beleza típicas da arquitetura Românica, e ela prende a atenção da gente, no nosso tempo, justamente por esse estranho aspecto moderno, como se fosse em um desenho animado. Como diz Dionísio, a beleza manifesta-se na harmonia das figuras.

Henri Focillon escreveu isso sobre o estilo de algumas igrejas românicas:” o gosto da anedota, do pormenor, da verossimilhança pitoresca, da fidelidade ao objeto,  a nota espirituosa, divertida na representação do objeto, passam à frente da ordem das hierarquias…”

Toda a criação, para o homem medieval, reflete a glória de Deus, mais nas criaturas racionais, e menos nas irracionais, mas que Deus não deixa de amá-las porque são obras de sua criação.

Bibliografia: Eco, Umberto- Arte e Beleza na Estética Medieval, Record, 2010

Focillon, Henri, Arte do Ocidente, A Idade Românica e Gótica.

Dionísio, o Aeropagita, da Hierarquia Celeste.

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