A História do Ocidente Medieval

Esse livro antigo do medievalista francês Jacques Le Goff ainda é uma referência para sabermos de diversos aspectos do mundo medieval. Le Goff nesse livro estudou toda a idade média, ao contrário do que faria depois em sua carreira, de se concentrar mais na Baixa Idade Média.

O começo do livro fala um pouco sobre como era a civilização romana, que era extremamente fechada em seu próprio mundo, e de como após sua queda, a Europa teve que suportar não só a invasão de diversos povos, mas também as influências culturais deles, especialmente dos celtas e germânicos.

Na alta Idade Média houve um declínio de população, e os centros de ensino foram destruídos, restando apenas os mosteiros como escolas e bibliotecas. A filosofia grega foi toda transferida para Bizâncio e a Síria, e o Ocidente teve que se contentar com as sobras que Boécio conseguiu juntar.

O dinheiro sumiu de circulação e a escravidão desapareceu, sendo substituída pela servidão. Se isso foi uma influência da igreja, ou apenas uma consequência econômica do feudalismo é algo que ainda pode ser debatido. A Europa então passou a viver momentos dramáticos, como estar sujeita a governos bárbaros que mal tinham se convertido ao cristianismo, ao analfabetismo e a uma baixíssima expectativa de vida.

Para piorar, surgiram nas fronteiras da Europa duas grandes ameaças: os Vikings e, principalmente, os árabes. No norte a Europa viu-se arrasada pelos saques dos Vikings, que tiveram seu auge no século IX. Ao sul, na Espanha, no sul da França e da Itália, estava uma ameaça muito maior: a religião muçulmana. Vários desses locais foram arrasados; populações inteiras nesses locais sofreram durante séculos com os ataques piratas dos árabes em busca de escravos para seus haréns. Parecia que a Europa estava perdida.

Mas nessa época surgiram dois personagens que livraram a Europa de seus piores dias: Carlos Martel e Carlos Magno. O primeiro derrotou as tropas árabes em Tours, permitindo a sobrevivência da civilização cristã; o segundo reconstruiu a Europa politicamente e economicamente, também dando início a um processo de alfabetização e reconstrução das escolas, no que ficou conhecido como o renascimento carolíngio.

A obra de Carlos Magno, porém, durou pouco, por causa dos ataques dos vikings. O surgimento da Europa como potência teria que esperar mais um pouco.

O renascimento da Europa

No século XI, graças aos avanços na agricultura e no crescimento do comércio, a civilização europeia surge como uma nova força no mundo medieval. A população passa a crescer como nunca, gerando uma nova força de trabalho. Com o início das cruzadas em 1096, a europa dá seu aviso ao mundo islâmico e a Bizâncio, como diz Chesterton em A Nova Jerusalém: ” Roma está acordada; Roma ressurgiu dos mortos”. Uma nova e confiante civilização está pronta para dominar o mundo.

A técnica e as invenções

Le Goff demonstra que a técnica do ocidente medieval não era inferior à bizantina e à islâmica. No início sofrendo pela destruição das invenções e tecnologias romanas, a Europa medieval soube se reinventar, e sua mentalidade era como uma esponja, absorvendo tudo que podia aprender com os outros, e sabendo ser criativa criando suas próprias invenções. O colar para cavalo, as ferraduras, a cavalaria, a bússola( que é uma invenção independente dos europeus e muito superior à chinesa), os óculos e os relógios mecânicos, sendo essas três últimas invenções exclusivas dos europeus durante séculos, transformariam a civilização medieval para sempre.

As fomes e a fragilidade econômica

Talvez o aspecto que cause mais resistência às pessoas modernas para aceitarem a Idade Média, é o fato do feudalismo ter provocado situações inusitadas e fatais em determinados momentos. Na alta idade Média, o dinheiro praticamente deixou de circular, e os banqueiros dos reis eram os judeus, muito tolerados nessa época. Na baixa Idade Média o dinheiro volta a circular por causa das cruzadas e do surgimento dos bancos. Sim, o sistema bancário é uma invenção da Idade Média.

Uma situação absurda citada por Le Goff é a existência das alfândegas interiores, que cobravam pedágio dos alimentos de uma cidade vizinha para a outra. Isso revelou ser uma armadilha, pois quando havia um baixo estoque de alimentos em uma cidade, a que estava mais próxima não conseguia enviar ajuda imediata, e o resultado disso eram as fomes frequentes, principalmente nps séculos X e XI, e doenças sinistras como o fogo de Santo Antão, conhecida hoje como ergotismo.

Mentalidade

O mito diz que os europeus eram atrasados e que viviam com medo do diabo e do inferno, com uma igreja que controlava todo o saber. Le Goff diz que apesar de certas ideias dos medievais serem para nós hoje uma coisa distante, a igreja daquele tempo soube conciliar a fé com a razão, graças à filosofia escolástica, e que a mentalidade cristã favoreceu sempre a ideia de progresso. Os medievais, apesar das dificuldades, sempre acreditaram que a história progredia, e que o homem tinha um fim, que seria com Deus no paraíso. A ideia de que Deus agia na História, e que as invenções e o progresso eram algo desejado por Deus.

O grande legado da Europa para a civilização: as universidades e o nascimento da ciência.

A Europa não era uma civilização fechada como Bizâncio ou o islã a partir do século XI. Os europeus souberam absorver os conhecimentos das civilizações vizinhas como os algarismos hindus e a ciência médica árabe, mas no entanto, a grande contribuição à medicina veio da europa medieval: as dissecações de cadáveres, que tiveram início no século XIII. Proibida na antiguidade e no mundo islâmico, as dissecações foram uma grande contribuição da ciência medieval para o nosso mundo.

Para quem acha que o conhecimento na Idade Média era dogmático e fechado, a invenção mais genial desse tempo, as universidades, são a prova de que os medievais discutiam ideias contrárias às suas, e que o livre debate e a autonomia dessas instituições estavam garantidos desde o princípio. As universidades também permaneceram uma instituição cristã exclusiva durante séculos.

Esse livro de Le Goff foi escrito em uma época em que ele parecia ser mais pessimista a respeito dessa época do que viria ser depois. Nos livros mais recentes, Le Goff é mais otimista e menos preocupado com a luta de classes daquela época, na década de 1960. É um ótimo livro para quem deseja conhecer toda a Idade Média.

 

 

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