A Análise do Quadro O Casamento dos Arnolfini, de Van Eyck

Um dos quadros mais interessantes, complexos e Belos que a arte ocidental produziu, O Casamento dos Arnolfini é a primeira representação íntima da vida burguesa na arte cristã. Van Eyck representa o papel de testemunha junto com um amigo, de um casamento realizado no ano de 1434 na região da Bélgica por um casal Italiano, apesar de que, como percebeu Huizinga, os Arnolfini possuem expressões bem pouco italianas.

Van Eyck era um mestre em reproduzir cenas íntimas da vida na Europa do fim da Idade Média. Ele também fez uma pintura que retratava o nu em uma cena de banho que hoje está perdida.

Vamos à análise da pintura:

O casal era muito rico, pelas roupas usadas que pertenciam à burguesia do norte da Europa. Arnolfini olha confiante para as testemunhas, enquanto sua esposa olha delicadamente ( outros poderiam dizer de maneira submissa) para o marido.

O cão, de uma raça hoje extinta, representa a fidelidade para os medievais, que adoravam símbolos e alegorias.

O vermelho é o símbolo da união sexual do casal.

As laranjas podem simbolizar o paraíso perdido, ou seja, o pecado original.

O verde do vestido da mulher representa a fertilidade desejada ao casal.

A única vela acesa representa o olho de Deus, que tudo vê.

O espelho reflete o casal, Van Eyck e outra pessoa não identificada. Em volta do espelho podemos ver pequenas cenas da vida de Cristo.

O imenso rosário é um símbolo de fé da esposa que deveria ser devota.

O fato de Arnolfini estar do lado da janela aberta representa a obrigação do homem de ir trabalhar fora para sustentar a casa.

A mulher não está grávida como pode parecer, mas é um efeito do vestido comum na época. Essa cerimônia privada era comum na Idade Média, não sendo exigida como depois no concílio de Trento que fosse na presença de um padre e na Igreja.

O quadro transborda de realismo como era comum na pintura flamenga da época, da qual Van Eyck era um dos maiores representantes. Toda a graça do sacramento católico do matrimônio está reproduzida nesse quadro. A técnica do reflexo do espelho seria uma inovação que seria muito imitada na arte ocidental posterior, é só ver o caso de Velázquez.

Essa cena representa o início da família burguesa, em que a vida de casal entre o marido e mulher passa a ser valorizada. A privacidade e a vida íntima passam a ser vistas como uma conquista do casal, e a civilização ocidental passará a declarar esses valores como uma das bases do núcleo familiar e da psicologia do homem e da mulher.

Se você reparar nos quadros anteriores de cenas íntimas de casamento na Idade Média, o contraste é óbvio. Geralmente, nessas cenas dos séculos anteriores, o casal tinha que ser visto em seu leito pelo padre e pelos membros da família em sua vida íntima. Já no século XV, é dado início ao processo de aburguesamento da vida privada. Foi a burguesia que valorizou o casamento e o núcleo da família como sendo formado pelo  pai, mãe e filhos somente. O método antigo da família da Alta Idade Média, em que a família tinha incontáveis filhos, que depois eram distribuídos aos familiares mais distantes para serem criados foi o modelo até o século XIII. Se nós repararmos, esse modelo de família existia até pouco tempo no interior do Brasil. A família burguesa demorou a se impor entre as camadas mais pobres.

O que fez com que as  famílias mais pobres formassem uma família igual à da burguesia foi simplesmente a invenção da pílula anticoncepcional. A burguesia foi quem impulsionou a educação e a infância ( ver Neil Postman). Como a burguesia teve um desenvolvimento notável nos países protestantes, especialmente na Inglaterra, foi nesses países em que a vida privada, a riqueza pessoal, a proteção da criança até o início da idade adulta e a alfabetização das massas teve um fantástico florescimento. Nos países católicos, por causa da manutenção da população no analfabetismo e em uma vida solta ( ver Max Weber), em que o casal não tinha a escolha de poder dar educação e proteger uma família que fosse unida, o resultado acabou sendo, por incrível que pareça, a diminuição da natalidade na França, e na ploriferação dos bastardos na Itália e nos países da América Latina.

Como Marx sabia, a burguesia tinha um papel revolucionário na história. Foi o que ela fez com a família, de forma que promoveu a infância, a educação e a restrição de uma vida dominada pelos instintos.

Poucas pinturas são tão burguesas como essa, e representam tão bem o ideal de vida do casal na parte final da  Idade Média. Tornou-se uma das pinturas mais famosas do mundo e é o símbolo de uma civilização.

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