Um Filósofo deve ser de Direita ou de Esquerda?

A direita, a esquerda e o filósofo

29/05/2012

Retirado do site http://ghiraldelli.pro.br/2012/05/29/a-direita-a-esquerda-e-o-filosofo/

Ghegou ao fim o “fim da direita e esquerda” na política. Já há algum tempo todos os jornais do mundo voltaram a utilizar os temos tradicionais da política moderna, e mesmo a universidade, sempre mais lenta, também já se readaptou ao retorno do vocabulário que veio lá da Revolução Francesa. O Brasil tem acompanhado bem tudo isso, e tem mostrado que nossa esquerda e nossa direita é bem menos camaleônica que os críticos dos partidos afirmam. Nossos intelectuais que fazem questão de se declarar “de esquerda” e “de direita”, pensam de modo muito semelhante ao que se pensava antes da “Queda do Muro” e o “Fim do Comunismo”. Em termos de bandeiras mais visíveis, a direita diz se preocupar antes de tudo com a liberdade, enquanto que a esquerda faz questão de levantar a bandeira da igualdade.

Ora, da minha parte, eu poderia dizer que gosto das duas bandeiras. A liberdade individual é alguma coisa importantíssima para mim. A igualdade econômica é alguma coisa que eu ficaria triste se não pudéssemos caminhar em sua busca. Assim, não vejo nenhum problema em compartilhar ideais caros à direita e à esquerda. Desse modo, eu deveria ser bem visto por ambos os lados. Mas, não é o que ocorre. A direita e a esquerda são como religiosos, adoram falar em ecumenismo enquanto ninguém quer colocar isso em prática. O ecumenismo, uma vez posto em prática, é temido como que o pode colocar não fim à religião, mas às igrejas. A direita e a esquerda não querem saber de ninguém que, na prática, queira conciliar liberdade e igualdade. Só em teoria. Quando se quer, na prática, uma situação de menos desigualdade social sem que isso signifique qualquer arranhão nas liberdades individuais, a esquerda e a direita se ressentem. É nesse momento que eu recebo flechada dos dois lados e acabo eqüidistante de ambos.

Ficar eqüidistante da esquerda e da direita não é ser “de centro”. Antes de tudo, é recusar o alinhamento partidário imediato que faz com que a filosofia não possa se exercer. Aquele que, antes do caso analisado, já tem uma solução “de esquerda” ou “de direita”, não pode ser de modo algum filósofo. Assim, quando ouço professores universitários dizendo, antes de qualquer aprofundamento em um caso concreto, que eles são “de direita” e “de esquerda” temo que eles não possam passar de professores universitários para filósofos autênticos. O filósofo ou entra no problema de cabeça aberta, tendo claro que a solução que irá propor deverá vir antes da sua análise concreta do caso que de qualquer predisposição doutrinária política, ou ele não pode ser filósofo.

Não estou dizendo que o filósofo entra neutro. Ninguém entra neutro em algum lugar. Todavia, nosso posicionamento doutrinário pode ser suficientemente genérico de modo a dar margem para um número muito maior de soluções que aquelas de quem entra para análise de um problema segundo uma doutrina detalhista. Dou um exemplo. Posso entrar em uma reunião sobre um problema de greve com a seguinte idéia bem posicionada, nada neutra: “tudo farei para evitar o maior sofrimento do maior número de pessoas” (exatamente uma regra semelhante à doutrina hedonista do utilitarismo moderno, uma posição que alimentou o socialismo e o liberalismo de esquerda entre ingleses). Mas posso entrar no mesmo problema com uma idéia mais fechada: “quem vai perder aqui são os ricos, necessariamente, e quem deverá lucrar são os pobres, necessariamente – e a vitória desses últimos deve ficar marcada politicamente” (uma regra que pode estar na mão do marxista ou do populista de esquerda). No primeiro caso, minhas chances de pensar em mais soluções parecem aumentar, no segundo, parece claro que terei um leque de propostas de soluções menores.  Isso condiciona meu modo de pensar e não me faz mais ou menos honesto, me faz menos criativo, se adoto a segunda postura, necessariamente.

É isso que fazem os intelectuais antes preocupados em serem “de direita” e “de esquerda” que decididos em assumir a filosofia. Ora, é esse o engajamento que os torna pessoas sempre aquém da filosofia. Mesmo se são formados em filosofia, não conseguem efetivamente filosofar.  A filosofia passou toda a sua existência tentando encontrar uma chave mestra para todo tipo de problema e, ao mesmo tempo, ela só se fez filosofia nos momentos em que admitiu mais uma vez sua falha no encontro dessa chave. Compreender isso, que a filosofia se afirma no seu erro, é o que o professor universitário candidato a filósofo não consegue compreender. Mesmo quando ele não mais se atém ao trabalho de gabinete e quer ir para os meios de comunicação, para exercer seu papel de filósofo na sociedade de um modo mais amplo, como consciência da cidade, ainda assim ele não consegue. Ele precisa admitir que vai ser no pequeno espaço entre sua descoberta da chave para os problemas e o reconhecimento de que falhou mais uma vez nessa busca, que ele estará filosofando. O filósofo “de direita” ou “esquerda” não sabe que ele não é filósofo. Ele imagina que ser filósofo é acertar, mas ser filósofo é tentar acertar e saber que só se realizará filósofo no buraco de mais um erro. Ser filósofo é ser como Tales: olhando para o céu caiu num buraco. Talvez esse episódio sobre o “primeiro filósofo” nunca tenha passado de uma metáfora sobre o que é ser filósofo.

Assim, é interessante que voltemos a falar em direita e esquerda e que existam intelectuais que, politicamente, digam estar nessa ou naquela posição. Mas, para nós filósofos, esses dizeres são só referentes às nossas posições política tomadas aqui e acolá, não podem dar condições para o fazer filosofia. Caso acreditemos que é o nosso fazer filosofia a assunção antecipada de ser de direita ou de esquerda, então, estamos há muitos anos luz distantes ainda de efetivamente fazer filosofia, filosofar.

© 2012 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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