Resenha de O Capital- Volume I Livro 2

O Capital livro 1 volume 2A mentalidade Burguesa e a Mais-Valia
Em um capítulo interessante nessa continuação de O Capital, Marx fala sobre a acumulação ou a conversão da mais-valia em capital. Ele nos diz que as mercadorias que o capitalista compra para seu consumo com uma parte de mais-valia não lhe servem de meio de produção, e também não é trabalho produtivo o que ele compra para satisfazer suas necessidades.

O capitalista ao comprar essas mercadorias consome a mais-valia como renda, em vez de transformá-la em capital. A concepção de velha nobreza “consistia em consumir o que existe”, segundo Hegel.Para a mentalidade burguesa, especialmente nos séculos XVII, XVIII e XIX, é muito importante proclamar a acumulação de capital como o primeiro mandamento, e aplicá-los em bens imóveis e em trabalhadores adicionais.

A burguesia fará triunfar o livre-comércio e o liberalismo econômico. Surgirá a prática dos monopólios e do açambarcamento. Marx então diz que os economistas modernos tinham de combater a idéia de associar a produção capitlaista ao entesouramento, idéia que era odiada na Idade Média.

Marx rejeita a idéia de John Stuart Mill de que a longo prazo o capital se transforma em salários. O capitalista burguês, proprietário da mais-valia, pratica um ato de vontade e economiza porque não consome e exerce sua função de capitalista, a função de enriquecer. Partilha com o entesourador o prazer da riqueza pela riqueza. O credo capitalista é acumular e poupar.

O capitalista clássico condena o consumo individual como pecado contra a acumulação.É curioso notar esses economistas modernos pregando a poupança aos pobres na televisão e no jornal. Se o pobre pensa em consumir um bem necessário ao seu conforto, logo vem o economista e sua mentalidade burguesa proclamando a poupança e alertando para o endividamento. Ou seja, o pobre, além de ser pobre por supostamente não trabalhar, é também pobre porque não poupa. Querem no fundo impor ao trabalhador uma renúncia à fruição da vida.

Marx ironicamente diz que o capitalista grita Poupai, Poupai! e transforma a maior quantidade possível de mais-valia em capital. A mais-valia para Marx nunca pode ser derivada da circulação. Marx condena a Malthus porque ao mesmo tempo em que condena o capitalista por sua acumulação, lhe parece necessário limitar ao mínimo possível o salário do trabalhador a fim de mantê-lo ativo.

Quantos neo-malthusianos não vemos por aí pregando de forma descarada contra o aumento do salário mínimo, e até sugerindo sua diminuição!

Um burguês citado por Marx reclama que ” Sempre que há uma procura extraordinária de produtos e a quantidade de trabalho se torna insuficiente, sentem os trabalhadores sua própria importância e procuram impô-la aos patrões”. Essa é a mesma reclamação que as pessoas com mentalidade capitalista fazem hoje em dia. O salário das empregadas domésticas está muito alto, faltam pedreiros e mão-de-obra, e eles estão pedindo muito alto e etc.

Marx percebeu como é “belo” o ciclo do capitalismo. Os salários sobem e incentivam a natalidade, até que o mercado fique abarrotado, ficando o capital insuficiente em relação à oferta de trabalhadores. Então caem os salários e a natalidade também e a acumulação de capital cresce. Com a queda da natalidade, as vagas de trabalho ficam ociosas, e aí o salário volta a subir. E assim segue. Não passa pela cabeça do capitalista aumentar os salários para que a população apta ao trabalho cresça de maneira positiva.

A teoria da abstinência do capitalista é rejeitada por Marx que cita John Cazenove que dizia que ” não é a abstinência, mas o emprego produtivo do capital que constitui a fonte de lucro”.

David Ricardo já havia dito que na forma de dinheiro, o capital não produz nenhum lucro. O burguês sabe bem disso, e o emprega em bens imóveis e o que resta, acaba por não ceder à tentação de consumí-lo.

As observações de Marx muitas vezes se aproximam da ética Cristã em sua condenação da usura. Ele, a igreja católica e até o maior pensador da antiguidade, Aristóteles, irão se opor à visão dos capitalistas e de Calvino a respeito dos juros. Aristóteles dizia que o juro é dinheiro que nasce do dinheiro,e , de todos os modos de adquirir, este é o mais contrário à natureza.

Não é preciso ter medo de ler e conhecer Marx. Para mim, que gosto muito de economia e política, é sempre um prazer lê-lo.

Resenha de O Capital, de Karl Marx- Volume 1

Um dos livros mais influentes da História
Karl Marx é um excelente escritor, e o livro, apesar do tema difícil, é agradável de se ler. Logo no início temos o capítulo sobre a mercadoria, que é o mais complicado do livro e não é fácil de se entender. Depois há a explicação sobre a teoria da mais-valia que é muito interessante.

A parte sobre a jornada de trabalho é a mais forte e sombria da obra, pela denúncia das jornadas de trabalho que beiravam à escravidão e da utilização do trabalho infantil. Pelos exemplos citados, vemos a situação terrível da classe trabalhadora na Inglaterra do século XIX.

Marx saber usar a ironia e ser sarcástico no momento certo. O livro contém inúmeras citações da David Ricardo, Shakespeare, Dante, Aristóteles e, principalmente, dos livros azuis ingleses(blue books), que ele cita frequentemente.

***

Marx discute uma questão que poucos filósofos prestaram atenção durante a história da filosofia: como é formado o valor da mercadoria e do dinheiro. O filósofo alemão escreve com mão firme sobre um tema difícil, mas apaixonante. A base do pensamento de Marx é a dialética de Hegel, e a filosofia proposta por Marx é o materialismo histórico, que, na minha opinião, é uma filosofia com muito pouco apelo intelectual.

Os diversos capítulos desse primeiro volume tentam estabelecer o valor do capital e a “metafísica” das mercadorias, que como Marx percebeu, possuem características e medidas de valores que não podem ser explicadas apenas racionalmente. O valor do uso e de troca das mercadorias são explicados por Marx com grande erudição. O filósofo foi muito influenciado por antigos pensadores da Grécia e por economistas ingleses. Aristóteles é a grande referência quando se trata de filosofia. Marx não respeitava o idealismo platônico por ele achar que ele se adequava mais à especulação burguesa.

Em economia, Marx gostava muito de David Ricardo, e o cita frequentemente. Mas a maior referência mesmo para os estudos de Marx são mesmo os livros azuis ingleses( Blue Books), que são a base para o filósofo criticar a situação do capitalismo inglês e as condições do proletariado desse país no século XIX.

Será que Marx foi convincente em sua tentativa de compreender e explicar como funciona o mundo do capital? Essa é uma questão que sempre provocou polêmica. Muitos acusaram Marx de ter adulterado os dados dos livros azuis para legitimar a sua tese de que o capitalismo levava a maioria à miséria.

O capitalismo e algumas de suas maiores falhas foram expostos como em nehuma outra obra como O Capital. Tudo parece muito sinistro nas fábricas inglesas do século XIX. Homens, mulheres e crianças eram explorados até à exaustão. Não há dúvida de que a denúncia de Marx ajudou ao capitalismo a se reformar e a abandonar certas práticas.

Não esperem do livro o capital a discussão sobre questões metafísicas e de ontologia. O Capital está mais para um livro de sociologia. Para quem realmente quer ter conhecimento de filosofia, sociologia, economia e história, O Capital é um dos livros mais completos e apaixonantes da história. A influência do livro foi imensa, de forma destacada na Rússia, mas também nos partidos socialistas e de esquerda nos países do ocidente.

A pergunta principal de quem lê esse livro é saber se Marx acreditava verdadeiramente que o capitalismo estava já em decadência, e o socialismo pronto para ser estabelecido nos países avançados. Marx acreditava, sim, que o capitalismo foi revolucionário por ter destruído o feudalismo e criado uma sociedade em que o dinheiro e o trabalho se tornaram fundamentais para definir os valores das pessoas. Sobre a questão do socialismo, quem espera alguma definição de Marx sobre isso, ou sobre a revolução, irá se decepcionar, pois essas coisas não são abordadas no livro.

O estilo de Marx é agradável e seguro. O tema é realmente complexo, mas o livro é fundamental para quem é estudante de filosofia. Realmente é um livro excelente, que mistura filosofia, política e economia.

 

Resenha de O Capital- Volume I Livro 2

https://felipepimenta.com/2012/12/31/resenha-de-o-capital-volume-i-livro-2/

O Capital livro 1 volume 2

A mentalidade Burguesa e a Mais-Valia
Em um capítulo interessante nessa continuação de O Capital, Marx fala sobre a acumulação ou a conversão da mais-valia em capital. Ele nos diz que as mercadorias que o capitalista compra para seu consumo com uma parte de mais-valia não lhe servem de meio de produção, e também não é trabalho produtivo o que ele compra para satisfazer suas necessidades.

O capitalista ao comprar essas mercadorias consome a mais-valia como renda, em vez de transformá-la em capital. A concepção de velha nobreza “consistia em consumir o que existe”, segundo Hegel.Para a mentalidade burguesa, especialmente nos séculos XVII, XVIII e XIX, é muito importante proclamar a acumulação de capital como o primeiro mandamento, e aplicá-los em bens imóveis e em trabalhadores adicionais.

A burguesia fará triunfar o livre-comércio e o liberalismo econômico. Surgirá a prática dos monopólios e do açambarcamento. Marx então diz que os economistas modernos tinham de combater a idéia de associar a produção capitlaista ao entesouramento, idéia que era odiada na Idade Média.

Marx rejeita a idéia de John Stuart Mill de que a longo prazo o capital se transforma em salários. O capitalista burguês, proprietário da mais-valia, pratica um ato de vontade e economiza porque não consome e exerce sua função de capitalista, a função de enriquecer. Partilha com o entesourador o prazer da riqueza pela riqueza. O credo capitalista é acumular e poupar.

O capitalista clássico condena o consumo individual como pecado contra a acumulação.É curioso notar esses economistas modernos pregando a poupança aos pobres na televisão e no jornal. Se o pobre pensa em consumir um bem necessário ao seu conforto, logo vem o economista e sua mentalidade burguesa proclamando a poupança e alertando para o endividamento. Ou seja, o pobre, além de ser pobre por supostamente não trabalhar, é também pobre porque não poupa. Querem no fundo impor ao trabalhador uma renúncia à fruição da vida.

Marx ironicamente diz que o capitalista grita Poupai, Poupai! e transforma a maior quantidade possível de mais-valia em capital. A mais-valia para Marx nunca pode ser derivada da circulação. Marx condena a Malthus porque ao mesmo tempo em que condena o capitalista por sua acumulação, lhe parece necessário limitar ao mínimo possível o salário do trabalhador a fim de mantê-lo ativo.

Quantos neo-malthusianos não vemos por aí pregando de forma descarada contra o aumento do salário mínimo, e até sugerindo sua diminuição!

Um burguês citado por Marx reclama que ” Sempre que há uma procura extraordinária de produtos e a quantidade de trabalho se torna insuficiente, sentem os trabalhadores sua própria importância e procuram impô-la aos patrões”. Essa é a mesma reclamação que as pessoas com mentalidade capitalista fazem hoje em dia. O salário das empregadas domésticas está muito alto, faltam pedreiros e mão-de-obra, e eles estão pedindo muito alto e etc.

Marx percebeu como é “belo” o ciclo do capitalismo. Os salários sobem e incentivam a natalidade, até que o mercado fique abarrotado, ficando o capital insuficiente em relação à oferta de trabalhadores. Então caem os salários e a natalidade também e a acumulação de capital cresce. Com a queda da natalidade, as vagas de trabalho ficam ociosas, e aí o salário volta a subir. E assim segue. Não passa pela cabeça do capitalista aumentar os salários para que a população apta ao trabalho cresça de maneira positiva.

A teoria da abstinência do capitalista é rejeitada por Marx que cita John Cazenove que dizia que ” não é a abstinência, mas o emprego produtivo do capital que constitui a fonte de lucro”.

David Ricardo já havia dito que na forma de dinheiro, o capital não produz nenhum lucro. O burguês sabe bem disso, e o emprega em bens imóveis e o que resta, acaba por não ceder à tentação de consumí-lo.

As observações de Marx muitas vezes se aproximam da ética Cristã em sua condenação da usura. Ele, a igreja católica e até o maior pensador da antiguidade, Aristóteles, irão se opor à visão dos capitalistas e de Calvino a respeito dos juros. Aristóteles dizia que o juro é dinheiro que nasce do dinheiro,e , de todos os modos de adquirir, este é o mais contrário à natureza.

Não é preciso ter medo de ler e conhecer Marx. Para mim, que gosto muito de economia e política, é sempre um prazer lê-lo.

Resenha de O Mundo como Vontade e Representação, de Arthur Schopenhauer

Schopenhauer O mundo como vontade

Arthur Schopenhauer é um dos maiores -e mais injustiçados- filósofos de todos os tempos. Todas as suas obras foram escritas com uma linguagem transparente e que permitem ao leitor compreendê-las sem maiores dificuldades em seu núcleo principal. O Mundo como Vontade e Representação foi publicado quando o filósofo tinha apenas 30 anos, o que é muito raro em filosofia. Schopenhauer viveu ainda muitos anos após sua obra principal, mas seu pensamento manteve-se fiel às suas ideias de juventude. [Read more…]

Duns Scot e o Dogma da Imaculada Conceição

 

 

 

Duns Scot imagemDuns Scot estabelece para sempre o dogma da Imaculada Conceição nesse texto abaixo da sua Ordinatio:

http://www.marymediatrix-resourceonline.com/library/files/franciscan/scotus_ic.htm

Was the Blessed Virgin conceived in sin? The answer is no, for as Augustine writes: “When sin is treated, there can be no inclusion of Mary in the discussion.” And Anselm says: “It was fitting that the Virgin should be resplendent with a purity greater than which none under God can be conceived.” Purity here is to be taken in the sense of pure innocence under God, such as was in Christ.

The contrary, however, is commonly asserted on two grounds. First, the dignity of Her Son, who, as universal Redeemer, opened the gates of heaven. But if blessed Mary had not contracted original sin, She would not have needed the Redeemer, nor would He have opened the door for Her because it was never closed. For it is only closed because of sin, above all original sin.

In respect to this first ground, one can argue from the dignity of Her Sonqua Redeemer, Reconciler, and Mediator, that She did not contract original sin.

For a most perfect mediator exercises the most perfect mediation possible in regard to some person for whom he mediates. Thus Christ exercised a most perfect act of mediation in regard to some person for whom He was Mediator. In regard to no person did He have a more exalted relationship than to Mary. Such, however, would not have been true had He not preserved Her from original sin.

The proof is threefold: in terms of God to whom He reconciles; in terms of the evil from which He frees; and in terms of the indebtedness of the person whom He reconciles.

First, no one absolutely and perfectly placates anyone about to be offended in any way unless he can avert the offense. For to placate only in view of remitting the offense once committed is not to placate most perfectly. But God does not undergo offense because of some experience in Himself, but only because of sin in the soul of a creature. Hence, Christ does not placate the Trinity most perfectly for the sin to be contracted by the sons of Adam if He does not prevent the Trinity from being offended in someone, and if the soul of some child of Adam does not contract such a sin; and thus it is possible that a child of Adam not have such a sin.

Secondly, a most perfect mediator merits the removal of all punishment from the one whom he reconciles. Original sin, however, is a greater privation than the lack of the vision of God. Hence, if Christ most perfectly reconciles us to God, He merited that this most heavy of punishments be removed from some one person. This would have been His Mother.

Further, Christ is primarily our Redeemer and Reconciler from original sin rather than actual sin, for the need of the Incarnation and suffering of Christ is commonly ascribed to original sin. But He is also commonly assumed to be the perfect Mediator of at least one person, namely, Mary, whom He preserved from actual sin. Logically one should assume that He preserved Her from original sin as well.

Thirdly, a person reconciled is not absolutely indebted to his mediator, unless he receives from that mediator the greatest possible good. But this innocence, namely, preservation from the contracted sin or from the sin to be contracted, is available from the Mediator. Thus, no one would be absolutely indebted to Christ as Mediator unless preserved from original sin. It is a greater good to be preserved from evil than to fall into it and afterwards be freed from it. If Christ merited grace and glory for so many souls, who, for these gifts, are indebted to Christ as Mediator, why should no soul be His debtor for the gift of its innocence? And why, since the blessed Angels are innocent, should there be no human soul in heaven (except the human soul of Christ) who is innocent, that is, never in the state of original sin?

 Tradução do Texto de Duns Scot

Foi a Bem-Aventurada Virgem Maria concebida em pecado? A resposta é não, pois Agostinho escreve: ” Quando o pecado é tratado, não pode haver a inclusão da Virgem Maria na discussão”. E Santo Anselmo escreve:” Foi correspondendo que a Virgem deve ser resplandescente com uma pureza que ninguém mais debaixo de Deus pode ser concebido”.

O contrário, entretanto, é frequentemente defendido em dois pontos: Primeiro, a dignidade de seu Filho, que, como redentor universal, abriu os portões do céu. Mas se a Bem-Aventurada Virgem Maria não contraiu o pecado original, ela não precisaria de um redentor, nem ele teria aberto os portões do céu para ela, porque o portão nunca estaria fechado. Porque está fechado apenas pelo pecado, acima de todo o pecado original.

Em resposta ao primeiro ponto, alguém pode argumentar que da dignidade de Seu filho qua Redentor, reconciliador e Mediador, que ela não contraiu o pecado original.

Porque o mais perfeito mediador exercita a mais perfeita mediação possível a favor de uma pessoa de quem ele faz a mediação. Por isso Cristo exercitou a mais perfeita mediação a favor de alguma pessoa de quem ele foi mediador. A favor de nenhuma pessoa Ele teve uma relação mais exaltada do que com Maria. Isso, entretanto, não seria verdade se Ele não a tivesse preservado do pecado original.

Existem três provas disso: Em termos de Deus a quem ele reconcilia; em termos do mal que Ele liberta; e em termos da dívida da pessoa a quem Ele reconcilia.

Primeiro, ninguém absoluta e perfeitamente amansa alguém que será ofendido de nenhuma maneira a não ser que ele consiga prevenir a ofensa. Porque aplacar tendo em vista apenas redimir a ofensa já cometida é não aplacar de maneira mais perfeita. Mas Deus não suporta a ofensa  por causa de alguma experiência Nele mesmo, mas por causa somente do pecado da alma de uma criatura. Assim, Cristo não aplaca a Trindade mais perfeitamente pelo pecado a ser contraído pelos filhos de Adão se ele não previne a Trindade de ser ofendida em alguém, e se a alma de algum filho de Adão não contraiu tamanho pecado; e assim é possível que um filho de Adão não tenha esse pecado.

Segundo, os méritos do mais perfeito mediador é remover toda a punição daquele a quem Ele reconcilia. O pecado original, entretanto, é uma maior privação do que a falta da visão de Deus. Por isso, se Cristo mais perfeitamente nos reconcilia com Deus, Seu mérito é mais pesado do que todas as punições removidas da pessoa reconciliada. Esta deve ser a sua mãe.

Além do mais, Cristo é primeiramente nosso redentor e reconciliador do pecado original, mais do que do pecado atual, por isso a necessidade da Encarnação e sofrimento de Cristo é mais comumente atribuída ao pecado original. Mas se Ele é atribuído o fato de ser o perfeito mediador de ao menos uma pessoa, nomeadamente, Maria, quem Ele preservou do pecado atual. Logicamente, deveríamos assumir que Ele preservou-a de todo o pecado original, também.

Em terceiro, a pessoa reconciliada não está absolutamente  endividada com seu mediador, a não ser que receba desse mediador o maior bem possível. Mas esta inocência, nomeadamente, a preservação do pecado contraído, ou do pecado a ser contraído, está disponível pelo mediador. Assim, ninguém está absolutamente livre do débitos  com Cristo como mediador, a não ser que esteja livre do pecado original. É um bem maior ser preservado do mal do que cair nele e depois ser libertado dele. Se Cristo garantiu o mérito da Graça e da Glória para tantas almas, que, por causa desses presentes estão endividadas com Cristo como mediador, por que nenhuma alma seria sua devedora pelo presente de sua inocência? E por que, desde que os abençoados anjos são inocentes, deveria não haver nenhuma alma humana no céu( exceto a alma humana de Cristo), que é inocente, ou seja, que nunca esteve em estado de pecado original?

Por que Laocoonte não grita?

Schopenhauer Laocoonte

Esse é um tema apaixonante, relacionado a uma das mais famosas esculturas gregas da antiguidade. É sobre a escultura de Laocoonte e seus filhos sendo devorados por serpentes marinhas. A questão filosófica que se coloca é: Por que Laocoonte não está gritando em sua representação na escultura? Johann Joachim Winckelmann escreveu que Laocoonte não podia gritar porque era um estóico, e que o fato dele agir conforme à natureza, era contrário à sua dignidade. Para ele, Laocoonte não grita pois é um mártir.

Gotthold Ephraim Lessing discorda de seu compatriota Winckelmann.Ele atribui o fato do personagem não gritar a um fato puramente estético, ou seja, um princípio artístico impede que o escultor reproduza o grito em sua obra. Outro fator seria que um ato passageiro não ficaria bem reproduzido em uma escultura, que é permanente e imóvel.

Arthur Schopenhauer critica à opinião dos dois outros filósofos, e propõe uma nova explicação. Para o filósofo idealista alemão, uma escultura não suporta a reprodução exata do grito, pois isso estaria fora de seu domínio. Laocoonte, na poesia e no teatro necessariamente deveria gritar, porque essas artes devem estimular à imaginação do leitor/espectador. Como o escultor não pode imitar o som do grito, teve que sugerir a expressão de dor no movimento do corpo e da face.

***

Meu comentário

Na verdade, as três opiniões se complementam. A escultura não poderia mesmo reproduzir o grito, mas o autor sugere a dor pela expressão do rosto de Laocoonte. Pode ser que o personagem realmente tenha como filosofia de vida suportar a dor e o sofrimento, por isso não abre a boca para gritar. A opinião de Schopenhauer também está certa, porque na poesia, que pretende influenciar as emoções do leitor, Laocoonte realmente precisa gritar. No teatro, isso é indispensável, já que no teatro as emoções estão mais estimuladas do que em uma visão de uma escultura. É realmente estimulante pensar que Laocoonte fosse um estóico que suportava a dor por um ideal mais alto, mas essas são apenas especulações.

Essas três opiniões foram tiradas da obra de Schopenhauer O Mundo Como Vontade e Representação.

Escritos Políticos-Volume 1, de Antonio Gramsci ( 4 )

Gramsci, em determindado momento de seu artigo ” partido de governo e classe de governo”, faz apologia da fome aos não-operários. Gramsci escreve: ” Se existe uma disponibilidade média de apenas 200 gramas de pão por dia para cada cidadão, é necessário que exista um governo que assegure 300 gramas para os operários e obrigue os não-produtores a se contentarem com 100 gramas ou mesmo menos(!), ou mesmo nada(!) se não trabalham, se não produzem”. Eis a maravilha que é o governo operário de Gramsci. É notável essa mentalidade de matar de fome os camponeses,  inválidos e os que vivem de renda que Gramsci e seus companheiros de ideologia proclamam. Daí podemos entender as fomes na Rússia, China, Camboja e outros lugares governados por comunistas. O governo operário é místico. Sim, porque acredita na mística da produção industrial de determinados produtos, enquanto os camponeses morrem de fome com requisições de alimentos fora da realidade para sustentar a produção das cidades. É ridículo, se não fosse diabólico, ter que ler essas coisas de um teórico do socialismo.

A História da Revolução Russa

 

 

 

Orlando Figes A tragédia de um povoTerra vasta, parcialmente habitada e com climas extremos e selvagens, a Rússia só pelo seu tamanho já teria sua importância garantida no cenário internacional. Mas não é somente isso: a Rússia tem uma história rica, repleta de invasões, tiranos e derramamento inútil de sangue. Uma parte dessa história é contada por Orlando Figes, em a Tragédia de um Povo.

Os livros sobre a história russa costumam se concentrar na revolução de 1917, pouco oferecendo ao leitor uma visão sobre a história do século XIX e início do século XX desse país. Figes vai aos primórdios do movimento revolucionário, e descreve muito bem as condições em que viviam os camponeses russos daquela época.

A Rússia foi um país que não viveu as transformações do renascimento e do iluminismo. A população camponesa ainda vivia na servidão, e o país não possuía uma filosofia desenvolvida o suficiente para colocar freios nos conspiradores e radicais. O analfabetismo era disseminado por todo o país, e a igreja ortodoxa não educava o povo, mas se preocupava muito em sustentar o poder dos czares corruptos. O cesaropapismo sempre foi a doutrina oficial da igreja oriental.

O imperialismo dos czares resultou em uma enorme quantidade de nações submetidas ao poder russo. Finlãndia, Polônia e Geórgia eram apenas alguns dos países que eram dependentes do governo autocrata russo. Os movimentos nacionalistas nesses países forneceriam alguns dos revolucionários mais perigosos do bolchevismo, mas o czar era surdo e cego em relação a essas nações.

O livro começa demonstrando que o que caracterizava o regime czarista era a ausência de controle. A ignorância e a superstição do camponês eram estimulados pela Igreja Ortodoxa, e o culto do czar era propagado pela direita, que teve dificuldade em perceber o surgimento de sentimentos nacionalistas. Apenas os socialistas abraçaram as idéias de autonomia e independência. A origem da agitação revolucionária estava nos movimentos de libertação nacionais.

O camponês russo era bárbaro, como fica claro no livro, e o burguês russo era ávido por filosofias que viessem do ocidente. Toda a novidade era rapidamente absorvida e consumida. A Rússia sabia do seu próprio atraso, e buscava tornar-se mais ocidental de uma maneira um tanto confusa. Figes descreve os costumes selvagens dos camponeses como denunciado por Tchekhov e Máximo Gorki, em contraste com a visão romântica de Tolstoi e Dostoievski.

Quando Marx chegou à Rússia, não havia uma teologia e ontologia que pudessem lhe fazer frente. A igreja ortodoxa sempre tinha se preocupado muito com o poder, mas havia sempre desconfiado da filosofia e teologia da igreja latina. A igreja católica preocupava-se muito com a razão e a filosofia, dizia a igreja ortodoxa. O resultado é que a burguesia e o povo não tinham em que se apoiar para sustentar uma luta contra o socialismo.

A revolução foi possível graças a uma combinação de desastres naturais( fome), um campesinato ignorante e abandonado pelo czar e uma burguesia que acolheu Marx com mais fanatismo e dogmatismo do que nenhuma outra nação.Podemos conhecer a história da fome de 1891, da revolução de 1905 e as revoluções de fevereiro e outubro de 1917

Enfraquecido primeiramente pela revolução de 1905 e pela guerra contra o Japão, o czar não soube aproveitar as lições desses acontecimentos para reforçar a democracia. A Rússia continuou sendo governada por grupos de interesse. Enquanto isso acontecia, Lenin, Trotsky e Stalin iam crescendo em suas retóricas e atitudes revolucionárias. O czar não sabia lidar com os camponeses, com os operários das fábricas e com os movimentos nacionalistas das nações satélites do governo czarista. No final do século XIX havia uma crescente desigualdade no campo, o que provocou uma migração em massa para as cidades. Essa mão de obra barata ajudou a tardia revolução industrial russa.O governo czarista ignorou a classe dos trabalhadores das fábricas, e isso seria decisivo para a queda do regime.

A revolução foi inevitável? sim, porque os soldados do exército branco nada tinham a oferecer em troca. Somente representavam o feudalismo e o antissemitismo do tempo do czar. Entre os brancos, muitos referiam-se aos revolucionários como agentes do judaísmo. A vitória vermelha foi justa.

A parte do livro que conta como foi o governo de Lenin não é tão boa quanto o livro de Robert Service, de mesmo nome. Há o relato dramático das negociações do tratado de Brest-Litovsk, que por pouco não destruiu a revolução.A parte que narra a guerra civil é muito detalhada.O exército reacionário dos brancos nada tinha a oferecer a não ser uma nostalgia pela velha monarquia, o ódio antissemita e a volta do feudalismo. O exército vermelho ainda teve que lutar contra a intervenção das potências estrangeiras e sua cruzada anticomunista, que tinha em Churchill ( sempre ele!) o seu maior entusiasta.

A importância que os comunistas davam à educação é enfatizada, assim como a revolução que Lenin levou ao campo através da NEP, como a introdução da eletricidade e de novas técnicas agrícolas. Figes não atribui tão claramente assim a fome de 1921 a Lenin e aos comunistas, ao meu ver isso é justo. Houve a intervenção estrangeira e uma guerra de sabotagem contra o governo central.

No geral, achei o livro equilibrado.É dado muito destaque à história do camponês reformista Sergei Semenov e a do escritor Máximo Gorki, que acabou se decepcionando um pouco com a revolução. Para uma narrativa mais simpática da vida de Lenin, recomendo a biografia de Robert Service. O autor também se mostra equivocado em relação a Stalin. Ele tinha muito mais educação do que Orlando Figes imagina.

 

Escritos Políticos-Volume 1, de Antonio Gramsci (3)

Gramsci repete o mantra da utopia socialista: uma sociedade sem classes! Vejamos se isso é possível:

No capitalismo nós temos- O Presidente ( Rei ) ,a  nobreza ( os ricos capitalistas) ,o clero( católico ou protestante) e os camponeses

No socialismo, que Gramsci não previu, nós temos- O ditador ( Lenin, Stalin, Mao, Pol Pot, etc), a nobreza ( o comissariado e os burocratas do comunismo), não temos clero ( foram fuzilados ou internados em hospitais psiquiátricos e em campos de concentração) e os camponeses.

Qual é a diferença entre o capitalismo e o socialismo? Não existem as mesmas classes? Tirando o clero,é claro, pois a fé comunista não admite outros deuses diante de si, é quase tudo igual . Gramsci, pelo menos nesse primeiro volume de seus escritos, não podia ainda perceber que a revolução não acabou com as classes, porque elas continuaram existindo.

O princípio defendido pelo teórico italiano de uma sociedade sem patrões não tem qualquer base histórica. Nos países capitalistas nós temos patrões, mas em um país comunista nós temos um super-patrão ( O Estado). É o mesmo princípio famoso do Non Serviam bíblico. Lutero recusava-se a reconhecer seus superiores nesse mundo por causa de seu orgulho. O mesmo acontece com o homem socialista. Gritam aos seus patrões ( superiores) não servirei!, dessa forma dizendo que somente reconhecerão um outro patrão, muito maior, mais injusto e contra o qual poucos podem se rebelar: O Estado.

Gramsci, assim como os liberais, tinha profunda aversão aos sindicatos, propondo substituí-los por um sinistro conselho de fábrica, onde o indivíduo é aniquilado para a submissão ao chefe do conselho. Tudo no socialismo proposto por Gramsci é a adoração ao Estado e ao coletivo, com uma subsequente desvalorização da personalidade individual.

Escritos Políticos-Volume 1, de Antonio Gramsci (2)

Gramsci desenvolve os seus artigos tentando fazer o socialismo parecer agradável, e realmente, as opiniões socialistas de Gramsci parecem mais humanas e tolerantes do que em outros autores e jornais dessa filosofia política. O autor italiano defenda suas opiniões com grande paixão e um leve otimismo em algumas áreas. Tem defendido algumas ideias que podem ser analisadas separadamente:

A Família- Para Gramsci, o capitalismo torna a existência da família em algo extremamente inseguro por causa da luta do pai em buscar manter a propriedade privada. O homem é transformado em uma peça da burocracia e visão fria capitalista quando não pode ter certeza de que sua família e seus filhos poderão ter a sobrevivência garantida pela frágil questão da propriedade privada.  Gramsci propõe o coletivismo, pois isso permitiria ao homem não mais preocupar-se em manter a propriedade privada, sendo que seus filhos teriam a educação e a vida moral garantidas pelo Estado.

A Liberdade de Pensamento- Nessa questão, o filósofo italiano critica a liberdade de pensamento liberal como sendo um privilégio burguês. Gramsci pretendia que o pensamento socialista não fosse dogmático como o liberal, mas como a história demonstrou, não foi isso que aconteceu. Parece que Gramsci pretendia que a liberdade de pensamento não significava a liberdade de propagar o erro. Liberalismo e socialismo foram e são dogmáticos. Ambos lutam pelo domínio do poder e contra a religião. São só aparentemente inimigos.

Liberdade Política- Aqui Gramsci dá uma bela de uma escorregada: defende a ditadura, para ele, a única forma de evitar-se que as minorias tomem o poder. Mas aí está a contradição! A ditadura é válida, mas não a burguesa, porque é opressiva contra o socialismo; ditadura somente a socialista, porque esta impede que o mal ( capitalismo) domine as massas. Incrível “democracia”, esta!

Como todo socialista, Gramsci é otimista e pessimista ao mesmo tempo: otimista quanto às abstrações do socialismo teórico; pessimista quanto à civilização burguesa e capitalista. Quanto ao capitalismo, Marx acertou em algumas de suas críticas, e não há dúvidas em relação aos aspectos desumanos das fábricas do século XIX.  Creio que Gramsci condena fortemente o capitalismo, enquanto estava cego aos problemas práticos do socialismo. Sua análise da guerra civil russa está correta: os países capitalistas não tinham o direito de terem invadido a Rússia para defender o exército branco. Sua paixão e a falta de informções corretas sobre o andamento da revolução não permitiam, no entanto, que Gramsci observasse a brutalidade com que a revolução estava sendo implantada.

Esse primeiro volume dos pensamentos de Gramsci revela um espírito apaixonado pelo socialismo e a revolução, mas também revela um homem que se contradiz em alguns momentos. Defender a liberdade sob o socialismo, ao mesmo tempo em que apoia a revolução para impor a ditadura e derrubar o governo burguês. Gramsci certamente era muito inteligente e escreve bem, mas o socialismo não produziu, talvez, o tipo de sociedade imaginada por ele.

Escritos Políticos-Volume 1, de Antonio Gramsci

Gramsci Escritos políticos

O Otimismo com o Socialismo que mais tarde viria a se tornar um desastre

O que logo chama a atenção nos escritos políticos da juventude de Gramsci é um otimismo com o socialismo que é um tanto romântico.  Gramsci escreve sobre diversos assuntos, como a educação, a guerra, Mussolini e a religião. Aliás, é bom ler Gramsci declarando que o socialismo é uma fé, de onde ele ingenuamente crê que virá a paz. Gramsci parece ter uma certa inveja dos ritos do catolicismo que ele gostaria de ver reproduzido no credo socialista.

O teórico do socialismo vê com grande entusiasmo a revolução russa que aconteceu em 1917. Ele, de maneira equivocada, acredita que a revolução aconteceu por causa dos proletários, quando a revolução foi uma grande conspiração burguesa organizada por Lenin e Trotsky.

Uma falácia de Gramsci que ele defende no início do livro, quando ele mais uma vez parece sentir inveja dos rituais católicos da semana santa, é a de que os proletários deveriam deixar seus filhos crescerem sem religião ou doutrina para que, mais tarde, eles pudessem livremente escolher suas religiões. É claro que Gramsci e outros socialistas nunca aplicaram esse princípio em suas próprias famílias. Seus filhos são doutrinados desde cedo a amarem o socialismo e odiarem o capitalismo. É assim que a vida é em todos os casos, tanto em famílias religiosas, quanto em famílias socialistas.

Gramsci desenvolve os seus artigos tentando fazer o socialismo parecer agradável, e realmente, as opiniões socialistas de Gramsci parecem mais humanas e tolerantes do que em outros autores e jornais dessa filosofia política. O autor italiano defenda suas opiniões com grande paixão e um leve otimismo em algumas áreas. Tem defendido algumas ideias que podem ser analisadas separadamente:

A Família- Para Gramsci, o capitalismo torna a existência da família em algo extremamente inseguro por causa da luta do pai em buscar manter a propriedade privada. O homem é transformado em uma peça da burocracia e visão fria capitalista quando não pode ter certeza de que sua família e seus filhos poderão ter a sobrevivência garantida pela frágil questão da propriedade privada.  Gramsci propõe o coletivismo, pois isso permitiria ao homem não mais preocupar-se em manter a propriedade privada, sendo que seus filhos teriam a educação e a vida moral garantidas pelo Estado.

A Liberdade de Pensamento- Nessa questão, o filósofo italiano critica a liberdade de pensamento liberal como sendo um privilégio burguês. Gramsci pretendia que o pensamento socialista não fosse dogmático como o liberal, mas como a história demonstrou, não foi isso que aconteceu. Parece que Gramsci pretendia que a liberdade de pensamento não significava a liberdade de propagar o erro. Liberalismo e socialismo foram e são dogmáticos. Ambos lutam pelo domínio do poder e contra a religião. São só aparentemente inimigos.

Liberdade Política- Aqui Gramsci dá uma bela de uma escorregada: defende a ditadura, para ele, a única forma de evitar-se que as minorias tomem o poder. Mas aí está a contradição! A ditadura é válida, mas não a burguesa, porque é opressiva contra o socialismo; ditadura somente a socialista, porque esta impede que o mal ( capitalismo) domine as massas. Incrível “democracia”, esta!

Como todo socialista, Gramsci é otimista e pessimista ao mesmo tempo: otimista quanto às abstrações do socialismo teórico; pessimista quanto à civilização burguesa e capitalista. Quanto ao capitalismo, Marx acertou em algumas de suas críticas, e não há dúvidas em relação aos aspectos desumanos das fábricas do século XIX.  Creio que Gramsci condena fortemente o capitalismo, enquanto estava cego aos problemas práticos do socialismo. Sua análise da guerra civil russa está correta: os países capitalistas não tinham o direito de terem invadido a Rússia para defender o exército branco. Sua paixão e a falta de informções corretas sobre o andamento da revolução não permitiam, no entanto, que Gramsci observasse a brutalidade com que a revolução estava sendo implantada.

Gramsci repete o mantra da utopia socialista: uma sociedade sem classes! Vejamos se isso é possível:

No capitalismo nós temos- O Presidente ( Rei ) ,a  nobreza ( os ricos capitalistas) ,o clero( católico ou protestante) e os camponeses

No socialismo, que Gramsci não previu, nós temos- O ditador ( Lenin, Stalin, Mao, Pol Pot, etc), a nobreza ( o comissariado e os burocratas do comunismo), não temos clero ( foram fuzilados ou internados em hospitais psiquiátricos e em campos de concentração) e os camponeses.

Qual é a diferença entre o capitalismo e o socialismo? Não existem as mesmas classes? Tirando o clero,é claro, pois a fé comunista não admite outros deuses diante de si, é quase tudo igual . Gramsci, pelo menos nesse primeiro volume de seus escritos, não podia ainda perceber que a revolução não acabou com as classes, porque elas continuaram existindo.

O princípio defendido pelo teórico italiano de uma sociedade sem patrões não tem qualquer base histórica. Nos países capitalistas nós temos patrões, mas em um país comunista nós temos um super-patrão ( O Estado). É o mesmo princípio famoso do Non Serviam bíblico. Lutero recusava-se a reconhecer seus superiores nesse mundo por causa de seu orgulho. O mesmo acontece com o homem socialista. Gritam aos seus patrões ( superiores) não servirei!, dessa forma dizendo que somente reconhecerão um outro patrão, muito maior, mais injusto e contra o qual poucos podem se rebelar: O Estado.

Gramsci, assim como os liberais, tinha profunda aversão aos sindicatos, propondo substituí-los por um sinistro conselho de fábrica, onde o indivíduo é aniquilado para a submissão ao chefe do conselho. Tudo no socialismo proposto por Gramsci é a adoração ao Estado e ao coletivo, com uma subsequente desvalorização da personalidade individual.

Gramsci, em determindado momento de seu artigo ” partido de governo e classe de governo”, faz apologia da fome aos não-operários. Gramsci escreve: ” Se existe uma disponibilidade média de apenas 200 gramas de pão por dia para cada cidadão, é necessário que exista um governo que assegure 300 gramas para os operários e obrigue os não-produtores a se contentarem com 100 gramas ou mesmo menos(!), ou mesmo nada(!) se não trabalham, se não produzem”. Eis a maravilha que é o governo operário de Gramsci. É notável essa mentalidade de matar de fome os camponeses,  inválidos e os que vivem de renda que Gramsci e seus companheiros de ideologia proclamam. Daí podemos entender as fomes na Rússia, China, Camboja e outros lugares governados por comunistas. O governo operário é místico. Sim, porque acredita na mística da produção industrial de determinados produtos, enquanto os camponeses morrem de fome com requisições de alimentos fora da realidade para sustentar a produção das cidades. É ridículo, se não fosse diabólico, ter que ler essas coisas de um teórico do socialismo.

Esse primeiro volume dos pensamentos de Gramsci revela um espírito apaixonado pelo socialismo e a revolução, mas também revela um homem que se contradiz em alguns momentos. Defender a liberdade sob o socialismo, ao mesmo tempo em que apoia a revolução para impor a ditadura e derrubar o governo burguês. Gramsci certamente era muito inteligente e escreve bem, mas o socialismo não produziu, talvez, o tipo de sociedade imaginada por ele.