Resenha de O Mundo como Vontade e Representação, de Arthur Schopenhauer

Schopenhauer O mundo como vontade

Arthur Schopenhauer é um dos maiores -e mais injustiçados- filósofos de todos os tempos. Todas as suas obras foram escritas com uma linguagem transparente e que permitem ao leitor compreendê-las sem maiores dificuldades em seu núcleo principal. O Mundo como Vontade e Representação foi publicado quando o filósofo tinha apenas 30 anos, o que é muito raro em filosofia. Schopenhauer viveu ainda muitos anos após sua obra principal, mas seu pensamento manteve-se fiel às suas ideias de juventude.

O livro começa com a seguinte afirmação: “Nenhum objeto sem sujeito.” Esta sentença define o idealismo de Schopenhauer e vai ser ampliada no restante da obra. Ele tem duas grandes influências para sua filosofia idealista, que são Platão e, principalmente, Kant. De Platão, Schopenhauer irá reter as Ideias, e de Kant, ele irá além de seu mestre, que dizia que a coisa-em-si é incognoscível, e a definirá como sendo Vontade. Schopenhauer rejeita o idealismo dogmático do filósofo britânico George Berkeley, apesar de reconhecer sua importância para a rejeição de uma filosofia em que o objeto seja mais importante do que o sujeito. Da mesma maneira, o materialismo, que é algo bastante frágil e deve ser descartado sem maiores problemas, Schopenhauer afirma ser injustificável. A maior parte do seu esforço é para combater o realismo tanto em filosofia como em religião.

O realismo filosófico já foi bem definido como sendo uma filosofia de objetos, que possuem uma existência independentemente de um sujeito que os perceba. Isto, porém, não nos deve cair em um argumento ingênuo do tipo que se eu não vejo uma coisa é porque ela não existe. Não é isso que Schopenhauer quer que acreditemos. O que ele afirma é que o universo, o mundo e tudo que faz parte dele necessita de um olho que os perceba, seja o ser humano ou outras formas de vida. Sem essa condição, não haveria razão para a existência para o universo. É inútil um Sol ou uma Lua se não há quem os veja e os compreenda. Schopenhauer não nega a existência da matéria; ao contrário, ele afirma que ela sempre existiu.

Precisamos ter em mente que Schopenhauer nega qualquer tipo de Criação de um Deus a partir do nada. Nele, ao contrário de Nietzsche, por exemplo, inexiste o problema de Deus. Como os Hindus e os budistas, Schopenhauer possui um pensamento no qual a teologia ocidental é superada. É uma metafísica muito mais ampla e que abrange a eternidade. Se nós seres humanos não existíamos em um determinado momento, não quer dizer que outros seres não possam ter existido. A matéria sempre existiu porque as Ideias platônicas são eternas e imutáveis, mas nelas existem. No realismo, todos os seres são jogados em um mundo que possui existência independente deles. Se nós deixássemos de existir o mundo continuaria tendo uma realidade, assim como o espaço e o tempo também teriam uma existência própria. Tudo isso é tomado como absurdo por Schopenhauer.

As Ideias de Platão são relacionadas por Schopenhauer como o grau máximo de objetivação da Vontade. A Vontade é a coisa-em-si kantiana, no entanto é preciso que a filosofia de Schopenhauer não seja entendida como uma nova teologia. A Vontade não possui pluralidade, e os diversos graus são os protótipos ou arquétipos, que serão retomados mais tarde por Carl Gustav Jung, são totalmente a priori. Todas estas Formas a priori, por causa da Vontade, precisam descer até a matéria ou “encarnarem-se” de diversas maneiras no mundo, no nosso ou em qualquer outro. Estas Formas surgem desde o grau mais baixo, como nos minérios, daí ascendem para as plantas, os animais, e atingem seu ápice no homem. Apesar de que possamos entender que somos apenas mais um dos seres lançados neste mundo, tão importantes quanto uma planta, Schopenhauer afirma que esta cadeia de seres depende do Homem para que continue a existir. Ele diz que se deixássemos de existir, todos os outros seres teriam a mesma sorte. Jung viu a necessidade que a Divindade possuía em descer a este mundo, e ela vai descer novamente pelo que ele entendeu, e podemos ver no pensamento de Schopenhauer um eco daquela afirmação evangélica: “quando eu for levantado da terra, atrairei todas as coisas a mim.”

O princípio de individuação acontece quando adentramos em uma determinada forma em um espaço-tempo. Este é a fonte do mal em Schopenhauer, porque ali, através do intelecto, percebemos as formas a priori do espaço-tempo. Somos apenas um fenômeno passageiro, e fora do princípio de individuação o intelecto não sobrevive. A Ideia está desde toda a eternidade descendo ao mundo, e para isso a matéria existe. É nela que a Forma é impressa. Não pode haver uma Criação do nada porque as Ideias são eternas e a Vontade Todo-poderosa. Não houve nenhum tempo em que elas não estivessem se manifestando em uma pluralidade de vidas em todos os lugares. Nós, lançados em um princípio de individuação, não somos a Ideia-em-si, mas apenas sua existência temporária na matéria. Como a Forma em Platão não é totalmente absorvida pela matéria, mas está temporariamente nela, a Vontade é manifestada como quer em diversos seres, mas ela não é absorvida integralmente neles.

Na filosofia de Schopenhauer, portanto, não há espaço para considerar a História como ciência e nem para teorias realistas-otimistas-históricas como o marxismo e o darwinismo. Não houve tempo em que a criação e os seres não tivessem existido. Nenhuma história, sociedade ou seres que estão caminhando para um estágio superior podem ser concebidos como pertencendo à Ideia-em-si.

Schopenhauer foi também um filósofo muito preocupado com a ciência. Existe nele uma filosofia da ciência que influenciará bastante Karl Popper. De início há sempre a necessidade do verdadeiro filósofo admirar-se com o mundo. Há de espantar-se com os fenômenos do mundo. Em seguida, para ser verdadeiramente honesto, não pode partir de livros ou de autoridades. Em outras palavras: quem se coloca sob a autoridade do Estado, da Igreja ou do dogma, não pode ser filósofo. Algo ensinado de forma excelente por Schopenhauer é que o mundo é realmente um vir-a-ser como viu Platão. Os seres existentes não são a coisa-em-si, a as Ideias só podem ser conhecidas de modo intuitivo. Como o mundo está em constante mudança, toda a ciência só pode ser uma conjectura. O método a ser seguido é sempre o dedutivo, partindo do universal ao particular. Se alguma ciência quisesse atingir a verdade pelo estudo isolado de todo fenômeno, seria impossível reunir tamanha quantidade de dados, diz o filósofo. Pretender ter uma teoria científica definitiva para qualquer área da experiência é não entender o que é ciência. Não é verdade, diz ele, que toda a verdade seja demonstrável. O conceito no qual a ciência está baseada precisa ser indemonstrável. Seria melhor, diz ele, que a ciência fosse fundamentada numa intuição a priori.

Schopenhauer dá outra excelente contribuição à filosofia da ciência quando ensina que as demonstrações são mais destinadas aos que disputam do que àqueles que estudam. Essas disputas são típicas do método erístico dos jesuítas. O método intuitivo sempre foi criticado por todos os que são apaixonados por demonstrações e disputas, afirma o filósofo. Ele também está certo quando afirma que o método lógico de Euclides é nocivo ao pensamento científico. Este método nos fornece apenas as razões do que alguma coisa é, mas jamais o porquê de as coisas serem como são. O método tão acertadamente denunciado por Schopenhauer de Euclides e Aristóteles de construir raciocínios por silogismos foi desacreditado por Platão em seu Parmênides. Pode apenas favorecer a memória, mas não a ciência ou a criatividade.

Um equívoco muito comum que os historiadores da filosofia exibem em relação a Schopenhauer é de destacarem exageradamente sua doutrina da arte. Ela não é a principal na filosofia dele de maneira alguma. Claro que é importante, mas é inferior à sua filosofia da ciência e sua moral. A arte, no entanto, funciona como uma válvula de escape temporária do sofrimento do mundo. Não que ele a valorize por si só, mas a arte é boa porque reflete a Ideia e faz cessar temporariamente a Vontade. Schopenhauer valoriza a escultura grega, arte pagã por excelência, e a pintura, arte cristã. Elogia os mestres da arte neerlandesa, mas não deixa de criticar obras que estimulem a vontade de alguma maneira, como a reprodução de comidas, bebidas, etc. Ele lamenta que os motivos da Antiguidade Clássica tenham sido colocados de lado em benefício das imagens bíblicas, porque ele considera os temas pobres como um todo. A música é para ele a arte suprema, pois independe da experiência e é parecida com a matemática neste sentido. Nem todos os povos criaram esculturas ou pinturas, mas todos fizeram e fazem músicas. A música, segundo ele, existiria mesmo que não houvesse o mundo.

Surpreendente em um filósofo é a preocupação com o corpo humano. Poucos prestam atenção a algo tão imediato. Schopenhauer antes de estudar filosofia, foi acadêmico de medicina. Não chegou a se formar, porém reteve esta preocupação com o corpo humano. Na sua filosofia, a Vontade é mais importante do que a razão; por esta causa, no corpo humano os focos da Vontade são os genitais masculino e feminino. Os genitais não obedecem ao princípio da razão. São raros os filósofos que escreveram sobre o sexo, e Schopenhauer foi um deles. Nietzsche, apesar do estilo bombástico, foi um donzelão que pouco entendia do assunto. Schopenhauer corajosamente aborda, no Volume II de sua obra principal, a homossexualidade. Lá ele ensina que a homossexualidade é um meio que a natureza encontrou para evitar filhos débeis. A homossexualidade surge no início da adolescência e depois da menopausa na mulher e na andropausa no homem, mesmo que eles tenham tido uma anterior como heterossexuais. Por ser algo que vem do mundo noumênico, o fenômeno da homossexualidade pouco se interessa por religiões e normas locais. Sempre existiram e sempre irão existir homossexuais em todas as épocas e países.

O suicídio é considerado por ele algo inútil, pois quem se suicida apenas mata o corpo fenomênico (alguns suicidas, especialmente homens, afirma ele, reconhecem em seus filhos este fenômeno e buscam matá-los antes de suicidarem-se), mas o núcleo noumênico continua o mesmo. Schopenhauer reconhecia a grande sabedoria da doutrina da metempsicose Hindu e de Pitágoras e Platão. O núcleo, saindo do mundo desordenado e impuro (tese esta de Platão), soprará novamente em outro lugar, e todo ciclo recomeçará. Schopenhauer, apesar de ter sido ateu, reconhecia nas religiões Hindu, Budista e nas ordens monásticas do catolicismo muitas verdades. Dizia que era inútil o aborto também, porque a vida tem que prevalecer para poder redimir-se. A redenção só poderá acontecer com a cessação da vontade de viver, que deve ser alcançada com práticas ascéticas e o estudo da mais alta metafísica. Apesar do mundo ter um significado moral, não é tarefa da ética prometer felicidade aqui e agora, como o fizeram Aristóteles e Epicuro. Nem mesmo é possível uma ética dos deveres como a de Kant. Ela também não consegue mascarar um profundo egoísmo. A salvação tampouco dar-se-á através de obras, pois Schopenhauer, reconhecendo em Lutero um antecessor nesta questão, dizia que a salvação é reino da Graça, e qualquer obra seria muito pouco dentro do princípio de individuação, e se assim não o fosse, a religião tornar-se-ia mero Pelagianismo.

O pecado original, que Schopenhauer vê como a única ideia aproveitável do Antigo Testamento, é a união da Vontade com o conhecimento. Por causa disso, todo o ser humano tem de pagar o preço. Cristo, nascido da Virgem, não poderia ter tido um corpo verdadeiro (que seria Vontade), e nisto Schopenhauer é abertamente Docetista, assim como é adepto de Marcião, pois via o ponto fraco do Cristianismo pelo fato de ser uma religião que possui dentro de si o elemento estranho de uma religião extremamente realista e otimista como é o Judaísmo.

O livro, assim como a filosofia de Schopenhauer, contém poucos elementos e é fácil de entender. A linguagem que ele utiliza o aproxima dos filósofos britânicos. Ainda que ele diga que buscou em Platão a base de sua filosofia, pela pouca importância dada à matemática, a rejeição da dialética, e o aspecto pouco positivo que ele dá ao mundo e ao universo no geral, é difícil ver em Schopenhauer elementos que o tornem um platônico.

 

 

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Comments

  1. Danilo Manfrin says:

    Bom dia
    Estou interessado em adquirir o livro “o mundo como vontade e representação”… Mas percebi que tem uma edição pela Unesp com dois volumes de 690pg… E tem uma edição pela contraponto com apenas um volume de 489pg… Você sabe me dizer o porquê de tamanha diferença?

    • Se você se refere ao volume 1 a diferença é devido ao fato da edição da Unesp de capa cinza ter a crítica de Schopenhauer à filosofia de Kant como apêndice.

      • Danilo Manfrin says:

        Mas por que tem tomo 1 e tomo 2? Dá mais de 1.200 páginas. Enquanto que na edição da contraponto da apenas 420 páginas. Isso que eu não estou entendendo. Será que na edição da contraponto a obra também é completa? Ou será que é resumida?

      • O volume 2 foi traduzido recentemente. É a continuação que Schopenhauer escreveu anos depois. Ela é maior que o volume 1.

      • Danilo Manfrin says:

        Entendi… Então a edição da contraponto corresponde ao tomo 1? Muito obrigado pela ajuda

      • Eu não conheço essa edição. Provavelmente ela contém o volume 1 sem a crítica à filosofia de Kant. O volume 2 que eu saiba só saiu pela Unesp.

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