Resenha de O Mundo como Vontade e Representação, de Arthur Schopenhauer

Schopenhauer O mundo como vontade
” Nenhum objeto sem sujeito”, diz Schopenhauer, na frase que resume seu idealismo e que para ele torna todo o materialismo impossível. Schopenhauer é o melhor escritor entre os filósofos( com a exceção de Platão), e suas idéias são claras e relativamente fáceis de se entender.

Em o mundo como vontade e representação temos a origem do nosso sofrimento: a desproporção entre o que por nós é exigido e aquilo que nos é dado. Schopenhauer mostra um otimismo prático nos dizendo que podemos evitar muita dor empregando nossos talentos e dons naturais onde eles são mais necessários.

Para o filósofo, a História nos mostra a Idéia do Homem, mas não o Homem em e por si mesmo. Ele nega que o tempo crie algo realmente novo e que o fim da História seria o aperfeiçoamento supremo do ser humano. Com isso Schopenhauer descarta todas as utopias como o nazismo, que tanto sangue derramaram em busca de um suposto aperfeiçoamento do Homem.

Para Schopenhauer,a visão que temos do universo, do mundo, dos séculos passados e vindouros, faz o homem se sentir reduzido a nada,mas quando nós tomamos consciência de que todos esses mundos existem apenas na nossa representação, passamos a perceber que a grandeza do mundo repousa em nós, pois a nossa dependência do mundo é suprimida por sua dependência de nós.

O tratamento que ele dá ao suicídio é o mais humano entre os filósofos. Schopenhauer condena o ato, pois para ele o sofrimento é um meio para a supressão da vontade de vida e o conhecimento despertado para a verdadeira essência do mundo- que é o sofrimento- redime a pessoa para sempre.

A importância que Schopenhauer dá à sexualidade e ao tratamento dos animais são enormes avanços.Recomendo que se leia também a obra “sobre o fundamento da moral”.

***

Já fiz uma pequena resenha sobre o livro de Schopenhauer, mas gostaria de acrescentar mais algumas observações sobre sua filosofia.

Schopenhauer é um idealista, por isso, em sua opinião, os objetos do mundo exterior só existem em nossa mente, pois fora dela eles simplesmente desapareceriam. Essa filosofia idealista de Schopenhauer já havia sido refutada muitos séculos atrás por Santo Agostinho em seu Solilóquios. O argumento de Santo Agostinho é simples: o fundo do mar não pode ser visto, logo ele não existe?

Na verdade, Schopenahuer era uma pessoa extremamente pessimista sobre a existência da matéria, a criação do mundo e a política. Ele era adepto da gnose hindu, que é irracional, e tentou introduzir elementos orientais na filosofia ocidental. Eu falo sobre a metafísica de Schopenhauer, mas ela não é transcendente como a de São Tomás de Aquino ou Santo Agostinho, ou seja, não parte de Deus, mas é imanente, partindo do homem. Sua Metafísica propõe que o que vemos é apenas uma aparência das coisas que estão obscurecidas pelo véu de maia ( filosofia Hindu). O que é importante é o homem ver e valorizar a Ideia, o que pode ser feito a partir da contemplação artística, seja em uma pintura ou ouvindo música.

O filósofo alemão era contra o socialismo e defendia uma monarquia baseada na República de Platão, com a diferença que Schopenhauer valorizava muito a poesia, ao contrário de Platão. Nada mais abominável para Schopenhauer do que uma filosofia como a de Hegel, que era feita a favor do Estado e paga por esse mesmo Estado.

A questão do suicídio para Schopenhauer é muito menos cercada de tabus do que para o Cristianismo. O suicida, para ele, quer viver, apenas se desesperando porque o mundo não é a mesma coisa que imaginada na mente dessa pessoa. O que o filósofo propõe? Simples: que o suicídio é uma tentativa inválida de nos livrarmos do sofrimento nesse mundo, porque o próprio mundo é sofrimento, e o que devemos fazer é anular a nossa vontade de viver, a única forma de podermos suportar as infelicidades que vivemos aqui. Ele sugere uma vida em que a vontade seja anulada, sugerindo que imitemos a vida dos santos católicos e sábios Hindus.

A filosofia de Schopenhauer representa a antítese do realismo moderado de São Tomás e do otimismo a respeito da criação que estão entre os fundamentos do judaísmo e do cristianismo. Para ele, a única parte que interessa no Antigo Testamento é a história da queda. O mundo para Schopenhauer, assim como para os gnósticos, é uma prisão, um lugar mau, daí sua desconfiança e ódio a respeito do judaísmo e do islã, que são religiões otimistas.

Schopenhauer é apolítico, não escrevendo nada sobre esse assunto em seus livros. Sua opinião sobre o poder da arte como libertadora do sofrimento desse mundo e como uma forma de escapar do debate político iriam influenciar o jovem Hitler; mas seria injusto culpar a filosofia de Schopenhauer pelo nazismo. Apesar disso, não gosto desse aspecto apolítico de Schopenhauer.

O filósofo alemão oscila entre admiração e repulsa pelo cristianismo, especialmente sobre o catolicismo. Ele parece ter uma leve admiração pelos escolásticos espanhóis, especialmente Suaréz. Ele utiliza muito a definição escolástica de forma substancial.

Sua Metafísica é realmente profunda em muitos momentos, e eu destaco sua filosofia sobre os animais e o suicídio como sendo de especial interesse. Sua metafísica é de base platônica, mas Schopenhauer não segue Platão a respeito da opinião positiva que o filósofo grego tinha sobre as mulheres. A opinião de Schopenhauer sobre as mulheres é realmente repulsiva.

Ele demonstra sentir atração por filósofos gnósticos e panteístas como Giordano Bruno, Madame Guyon e Spinoza. Na própria continuação do Mundo Como Vontade e Representação ( o Volume 2), Schopenhauer defende abertamente o gnosticismo dos primeiros séculos cristãos e se declara adepto aberto de Marcião. Marcião foi um filósofo antissemita que tentou contrapor o Antigo ao novo testamento. A teologia de marcião voltou dos subterrâneos da heresia muitas vezes ao longo dos séculos. Sua mais radical forma foi no Nazismo, que tentou separar Cristo do povo judeu. Schopenhauer defendia um antissemitismo do tipo marcionita pela sua repulsa ao Antigo Testamento. Ele declara-se adversário da filosofia otimista a respeito da criação de Clemente de Alexandria.

Como Maritain havia definido a filosofia Platônica, em Schopenhauer vemos as mesmas tendências a um dualismo psicológico, ou seja, a vontade de definir o homem como um anjo preso a uma matéria má. Na filosofia de São Tomás, o animismo, dois princípios incompletos cada um, um dos quais uma alma racional é espirtitual, e que formam uma única substância ( composto humano). Na filosofia idealista, o homem é um espírito acidentalmente unido a um corpo ( Espiritualismo exagerado). A alma e o corpo são duas substâncias completas cada uma( Dualismo). Ver Jacques Maritain- Introdução Geral à Filosofia.

O filósofo alemão era contrário à doutrina do livre-arbítrio, um dos principais pontos da filosofia cristã, defendida por Santo Agostinho, pela Escolástica e o Concílio de Trento contra o determinismo desesperador de Lutero. Nesse ponto Schopenhauer é um defensor do pensamento Luterano por sua opinião contrária à liberdade da vontade.

Schopenhauer foi uma tentativa de unir a gnose de Marcião dos primeiros séculos cristãos, ao gnosticismo irracional do hinduísmo. É uma filosofia que é profunda em alguns momentos, mas é pessimista pois é gnóstica, e apolítica, porque nesse ponto Schopenhauer fez questão de desprezar a política como parte de uma filosofia que desconfia das questões desse mundo, buscando somente escapar ao sofrimento e a vontade de viver.

Na minha opinião, Schopenhauer é um dos filósofos mais fáceis de serem compreendidos, mas devemos ficar atentos ao seu gnosticismo e antissemitismo. Ele escreve bem como poucos, e sua filosofia é uma das fontes para o surgimento da psicanálise. Como eu gosto de psicologia, Schopenhauer é um dos meus filósofos favoritos.

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