Os erros que os teólogos cometeram para provar que Deus existe.

Etienne Gilson dá uma explicação bem clara de o porquê São Tomás de Aquino ter rejeitado as provas anteriores da existência de Deus, formuladas por São João Damasceno, Santo Agostinho e, a mais famosa delas, a de Santo Anselmo.

Gilson esclarece o problema da essência de Deus, que ao que parece, estava muito mais em jogo do que sua existência. A definição ” a essencialidade da substância divina”, é o que é mais importante para alguns teólogos cristãos. A dificuldade não é provar a existência de Deus, para São Tomás, mas sim, em formular corretamente os argumentos.

Qual foi o erro que São Tomás viu em todos esses teólogos cristãos? Simples: eles confundiram Deus, com os efeitos que Ele produz. O erro de São João Damasceno foi o de ter dito que todo homem nasce com o conhecimento de Deus em sua mente, mas para o Aquinate, isso é apenas um efeito de Sua Glória, e demanda uma explicação.

Se como para os Agostinianos, como diz Gilson, o conhecimento de Deus é mais profundo no homem que a própria alma, São Tomás diz que apenas seres acessíveis ao nosso conhecimento são coisas sensíveis. Uma demonstração é necessária, diz Gilson, porque a razão quer ascender das realidades nos dadas pela experiência para a realidade divina, que não nos é oferecida.

Agora o famoso argumento de Santo Anselmo: Se aceitarmos o  fato de que existe um Ser o qual nenhum outro pode ser pensado maior, caímos no problema de que esse Ser é apenas uma suposição. Esse argumento cai na armadilha de dizer que Deus não pode ser entendido pelo homem, ao mesmo tempo que diz que tal Ser pode não existir. Podemos muito bem imaginar que Deus não exista. Como diz Gilson, a existência é sempre estabelecida ou demonstrada, nunca deduzida.

São Tomás irá seguir o caminho da existência para a essência, pois usando as provas de Sua existência, poderemos conhecer pelo menos noções da essência de Deus.

Do livro Le Thomisme ou The Christian philosophy of Saint Thomas Aquinas, de Etienne Gilson.

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O Ente e a Essência em São Tomás e Al-Farabi

Do livro Le Thomism, de Etienne Gilson

A filosofia árabe já tinha conhecimento desse problema filosófico do ser e do ato-de-ser. Al-Farabi expressou, assim, a sua opinião: ” Se a essência do homem implicasse sua existência, o conceito de sua essência também seria o conceito de sua existência, e seria suficiente para saber o que um homem é, de forma a sabermos que ele existe. Portanto, toda representação de uma coisa seria acompanhada de uma afirmação…Mas isso não é assim. Nós duvidamos da existência das coisas até recebermos uma percepção direta delas através dos sentidos diretamente, ou imediatamente por uma prova” Daí, explica Gilson, vem a fórmula definindo a exterioridade da existência e da essência: o que não pertence à essência em si, e mesmo assim está relacionado à ela, é um acidente pertencendo à ela. Então, Al-Farabi conclui: ” existência não é um caráter constituinte, e sim, um acidente acessório”

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The Christian Philosophy of Saint Thomas Aquinas, de Etienne Gilson

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Essa é a versão inglesa para uma obra que é referência sobre a filosofia de São Tomás de Aquino, que é Le Thomisme, de 1948, do filósofo francês Etienne Gilson.

Logo na introdução, Gilson, que escreve com uma erudição ímpar, apresenta o que a filosofia de São Tomás é: Uma tentativa bem sucedida de conciliar a fé com a razão, sem nunca misturar os dois; a diferenciação que São Tomás estabelece  entre a Revelação e o que é revelável; o estabelecimento da Teologia como a grande ciência que o homem contemplativo pode aspirar, sem fazer concessões às ciências puras da natureza, que certamente entre seus defensores existem aqueles que olham com desconfiança para o saber teórico e não-prático da teologia; e, também como um aspecto importante em sua filosofia, a tarefa quase sagrada ( ou diríamos que é realmente sagrada?) de comunicar aos outros a verdade ( doctrina), previamente meditada. São Tomás aceita com naturalidade o título de Mestre e Doutor, sabendo da grande responsabilidade que terá em propagar as verdades teológicas aos seus alunos e outras pessoas menos versadas em Teologia. São Tomás combina as duas grandes atividades que estão ao dispor do homem: a vida ativa e a vida contemplativa.

Sabendo da sentença de Santo Agostinho de que o objeto da fé é precisamente o que a razão não pode compreender. O que São Tomás vai fazer é ensinar ao homem o que está além da filosofia, tendo como base as escrituras, e descendo de uma hierarquia que começa em Deus, passa pelos anjos, os profetas, os santos, até chegar ao homem comum. Tendo como base a fé, que segundo Gilson, tende a suprimir a presunção, a mãe de todos os erros, São Tomás é um filósofo cristão, apoiado nas escrituras, mas sabendo colher o que há de melhor nas filosofias grega, árabe e judaica. São Tomás foi um filósofo original, que soube avançar diante das barreiras que Aristóteles e os Averroístas haviam colocado. O que é aparentemente imcompreensível à razão humana, que é a essência de Deus, passa a ser compreensível com a ajuda da revelação e da fé, e é tarefa do teólogo cristão ser claro e objetivo na tarefa de tornar a teologia acessível ao estudioso e ao fiel comum.

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Max Weber

Max Weber A Etica

A origem da riqueza do Ocidente
Max Weber propõe a tese de que a religião protestante deu impulso ao capitalismo no ocidente. Weber sabe que o capitalismo não surgiu com o protestantismo no século XVI, mas sim nas cidades italianas dos séculos XIII e XIV. O capitalismo tem origem na mentalidade cristã e sua ideia de pregresso. O surgimento das nações e a concorrência que estabeleceu-se entre as manufaturas desses países , importantes avanços no transporte marítimo e o aperfeiçoamento das bússolas feitas pelos europeus levaram ao surgimento da mentalidade capitalista.Quando o protestantismo surgiu, essa ideia já estava amadurecida, e grande parte da burguesia e dos mercadores converteu-se ao protestantismo.

A tese de Weber é que o espírito ascético foi o que deu ao capitalismo a sua força. Weber percebeu que esse espírito existia na idade média nos mosteiros, mas que entre a população comum dos fiéis católicos essa crença não penetrava. A vida do fiel católico não era estável, vamos assim dizer, mas era uma sucessão de atos de caridade e de pecados. No caso do fiel pecar, sempre haveria o sacramento da confissão para redimi-lo. No protestantismo, especialmente no calvinismo, isso não existia. Só havia a opção da salvação ou da danação eterna. Calvino exigia que o fiel deveria viver uma vida coerente e estável do começo ao fim de sua vida. Não havia o padre para perdoá-lo.

Weber notou que Lutero tirou a sua noção de vocação não da Bíblia, mas de um místico da idade média. Tanto Lutero quanto Calvino evitaram escrever sobre questões metafísicas, mantendo a herança católica nessa questão. O que Calvino fez foi transformar todo o fiel em monge. O ascetismo saiu dos mosteiros e passou a fazer parte da vida do fiel comum. Calvino e os puritanos transformaram o trabalho diário em um meio de se glorificar a Deus.

Os puritanos, por exemplo, davam grande importância à poupança e abominavam toda a noção feudal de propriedade e ostentação. Para eles o dinheiro e o trabalho eram um meio de expandir a obra de Deus e rejeitavam a tese de um capitalismo de expansão da guerra e da burocracia do governo. Calvino iria libertar as consciências a respeito da legitimidade de se cobrar juros.

A diferença com a mentalidade católica ficaria evidente daí por diante. As nações protestantes prosperaram e atingiram grande riqueza, enquanto as nações católicas ficaram para trás. Ao meu ver, isso tem outras causas também. Por exemplo, a Inglaterra adotou suas ideias sobre liberdades civis não do direito romano, como aconteceu com as nações católicas, mas sim da Carta magna medieval. As universidades inglesas rejeitaram Aristóteles e sua ciência, e foram herdeiras do platonismo que reinava lá desde Roger Bacon.

Outra questão importante foi que as nações protestantes impulsionadas pelo capital deram mais importância às matemáticas e à técnica.É claro que existe também o fator da educação, e aí aparece a ideia protestante de que todo o fiel deve ler a Bíblia. No catolicismo isso não existe, e até hoje o analfabetismo inexiste nos países protestantes, mas é alto nos países católicos.

O que foi importante também é que o protestantismo liberou às consciências e garantiu a liberdade de religião. Como demonstrou o economista alemão Friedrich List, a indústria só pode surgir em um país em que haja liberdade de religião e de pensamento. Foi por isso que a revolução industrial surgiu primeiro na Inglaterra. Espanha e Portugal expulsaram os judeus e mouros de seu território, assim como a França revogou o édito de Nantes. Por isso as nações católicas perderam muito em capital e mão de obra especializada, que acabaram por se abrigar na Inglaterra e na Holanda.

Max Weber demonstrou em seu livro que foi o protestantismo e seu espírito de trabalho, de poupança e seu caráter ascético, que impulsionou o capitalismo e a consequente industrialização do mundo ocidental.