O Ato de Criação em São Tomás e na Filosofia Árabe

Do livro Le Thomisme, de Etienne Gilson.

Gilson diz que um ato começando com o Esse termina diretamente e imediatamente com o Esse. Em virtude disso, ” criar é propriamente um ato de Deus e Dele somente”. E o justo efeito dessa conveniente atividade divina é também o efeito mais universal de todos, aquele pressuposto por todos os outros efeitos, o ato-de-ser: ” de todos os efeitos, o mais universal é ser em si mesmo…agora, para produzir o ser totalmente, e não meramente este ou aquele ser, pertence à natureza da criação. Portanto, é manifesto que a criação é um ato próprio de Deus somente.” Isto é o porquê, quando São Tomás pergunta o que está em Deus a rota da atividade de criação, ele recusa em colocá-la em uma das pessoas divinas.” Criar, de fato, é propriamente causar ou produzir o ser das coisas. Desde que qualquer coisa que produz, produz um efeito reproduzindo a si mesma, nós podemos ver pela natureza de um efeito aquela ação que a produz. O que produz o fogo é o fogo. Isto é o porquê da ação criativa pertencer a Deus, de acordo com o seu ato-de-ser, que é a sua essência, que é comum às três pessoas.” Uma instrutiva aplicação teológica, desde que traz à luz o supremo, o significado existencial da noção Tomista de criação:” Desde que Deus é o ser por si mesmo por sua própria essência, coisas criadas devem ser Seu próprio efeito”.

Esse é o tipo de produção designado pela palavra ” criação”, que nós vimos o porquê Deus somente pode criar. Os filósofos árabes, e notavelmente Avicena, negam isso. O último, enquanto admitindo que a criação é propriamente uma ação de uma causa universal, considera certas causas inferiores, atuando como instrumentos da causa primeira, como sendo capaz de criar. Avicena ensina particularmente que a primeira substância separada criada por Deus, cria após si mesma, a substância da primeira esfera e sua alma, e que depois disso, a substância dessa esfera cria a matéria dos corpos inferiores.

Similarmente, o Mestre das Sentenças diz que Deus pode comunicar o poder de criação para a criatura, mas somente como Seu ministro, e não por sua própria autoridade. Agora, essa noção de criatura/criador é contraditória. Qualquer criação através da mediação da criatura iria evidentemente pressupor nada anterior, e isto aplica-se tanto para a causa eficiente como para a matéria. Isso causa o ser suceder o não-ser, pura e simplesmente. O poder criativo é, portanto, incompatível com a condição da criatura, pois a criatura não possui o ser em si mesmo, e não pode conferir uma existência que não pertença à sua própria essência. Só pode agir em virtude do ato-de-ser que recebeu previamente. Deus, de outra maneira, é ser per se e pode causar o ser. Ele somente é Ser per se, e Ele somente pode produzir a verdadeira existência de outros seres. Ao seu único modo de Ser corresponde um único método de causalidade. A criação é uma ação de Deus somente.

É interessante olharmos para as razões dadas pelos filósofos árabes para concederem às criaturas o poder de criação. De acordo com eles, uma causa que é única e simples pode produzir somente um único efeito. Somente o um pode proceder do único. Se então nós vamos explicar como um número de coisas podem proceder de uma primeira e simples causa ( Deus), nós devemos conceder uma sucessão de causas únicas produzindo cada uma um único efeito cada. Então, é bem verdadeiro dizer que de um princípio que é único e simples, somente o um pode proceder; mas isso somente se mantém para aquilo que age pela necessidade da natureza. Portanto, é basicamente por que eles consideram a criação ser uma produção necessária, que os filósofos árabes propõem criaturas que são ao mesmo tempo criadoras. Se nós devemos providenciar uma completa refutação dessa doutrina, nós devemos examinar se Deus produz coisas pela necessidade da natureza, ou se a multidão de seres criados vêm de Sua única e simples essência.

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Haec Sublimis Veritas

Quando São Tomás escreveu na Suma Contra os gentios e na Suma Teológica as suas famosas cinco vias da existência de Deus, ele não estava procurando ser original, pois tinha consciência de outros filósofos antes dele, como Avicena, e, principalmente, Maimônides, já haviam pensado nessas teses sobre a existência de Deus. Mas isso não quer dizer que São Tomás não tenha sido profundamente original nas suas próprias teses. É isso o que demonstra Etienne Gilson em alguns capítulos desse livro dedicados a mostrar como São Tomás compreendia a noção de Ente e Essência.

Vejamos a palavra do santo que Gilson nos apresenta: ” O Ser ( esse ) é usado em dois sentidos. Primeiramente denota o ato-de-ser ( actum essendi). Em segundo lugar denota a composição da proposição feita pela mente juntando um predicado ao sujeito. Se tomamos o Ser no primeiro sentido, não podemos saber o que o Ser divino é ( non possumus scire esse Dei), não mais do que nós sabemos sobre sua essência. Mas podemos saber que a proposição que formamos sobre Deus quando dizemos ” Deus é” é verdade; e nós sabemos isso por causa dos Seus efeitos”.