Resenha de A Religião Gnóstica ( The Gnostic Religion), de Hans Jonas

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Hans Jonas e a religião gnóstica
Décadas após ser publicado, The Gnostic Religion mantém-se como a principal fonte para o conhecimento do fenômeno gnóstico. Jonas inicia seu livro situando o leitor na história da Grécia e do oriente próximo. Os impérios do oriente como a Pérsia e a Babilônia eram instáveis, e na época a conquista de Alexandre, estavam enfrentando uma decadência cultural. O que havia de novo no oriente era o sincretismo religioso, o monoteísmo judaico, a astrologia Babilônia e o dualismo iraniano. Nessa mesma época na Grécia, o mundo da Pólis desaparecia aos poucos.

A grande contribuição dos orientais era o sincretismo religioso, ou a mistura de deuses, enquanto o espírito grego havia criado o Logos, o método teórico de exposição, sendo que os orientais tinham o seu pensamento marcado por imagens e símbolos exemplificados nos mitos e rituais, sem expô-los de uma maneira lógica. Jonas explica que muito da cultura oriental foi assimilado pelo pensamento grego, mas que existia uma outra parte que foi rejeitada e circulava nos subterrâneos e que estava por explodir.

Era uma mistura de mitologia oriental e elementos da filosofia grega, especialmente do platonismo. No início da era cristã, a onda oriental manifesta-se com maior força: o judaísmo helenístico, principalmente a filosofia judaico-alexandrina, a expansão da astrologia babilônica, coincidindo com a manifestação do pensamento fatalista no ocidente, com cultos orientais misteriosos, o início do neo-pitagorianismo e a ascensão da escola neo-platônica.

Depois de situar o leitor nesse mundo do sincretismo helênico, Jonas define essa onda oriental e o termo gnose. O movimento tinha uma característica religiosa, estavam preocupados com a salvação, exibem uma concepção transcendente de Deus e possuem um acentuado dualismo como Deus e o mundo, espírito e matéria, bem e mal, vida e morte, fazendo que esse movimento seja caracterizado como uma religião dualística e transcendente de salvação.

O termo gnose é grego e significa conhecimento. Santo Irineu irá identificar a gnose como uma heresia cristã, mas Hans Jonas também falará sobre um gnosticismo judaico pré-cristão, um gnosticismo helênico-pagão e a religião de Mani. A gnose é o conhecimento de Deus e também a tentativa do possuidor do conhecimento de fazer parte da essência de Deus. Adolf Von Harnack, em uma frase famosa, definiu a gnose como a “aguda helenização do cristianismo”. Jonas estabelece alguns dos principais dogmas do pensamento gnóstico:

Teologia: exibe um dualismo radical, sendo a divindade estranha ao universo o qual não criou e não governa. O mundo foi criado pelos poderes mais baixos( arcontes),e o Deus transcendente está oculto de todas as criaturas, e não é compreensível por conceitos naturais.
Cosmologia: o universo é o domínio dos Arcontes ,sendo considerado uma vasta prisão, cujo calabouço é a Terra, a cena da vida do homem. Os arcontes dominam o mundo e utilizam, por exemplo, a lei mosaica para escravizar o homem. Os arcontes têm como líder o Demiurgo, o deus-criador do Timeu de Platão.

Antropologia: existe o mundano e o extra-mundano. Tanto o corpo como a alma são produtos de poderes cósmicos que o formaram na imagem do primeiro homem( arquétipo). Preso na alma está o espírito, ou pneuma, a parte divina que caiu na prisão do mundo. Preso na carne, o pneuma está adormecido e intoxicado pelo veneno do mundo. Está na ignorância. Seu despertar e libertação se dará com o conhecimento.

Escatologia: o mais importante é o conhecimento do Deus transcendente, como diz uma famosa fórmula dos valentinianos( seita gnóstica). “ o que liberta é o conhecimento do que nós éramos e do que nos tornamos; de onde estávamos e onde nós fomos lançados; o que é nascimento e o que é renascimento”.

Moralidade: os pneumáticos, ou seja, os possuidores da gnose estão separados do resto dos homens. Daí seguem dois tipos de caráter: o ascético e o libertino. O primeiro possuidor da gnose evita todo o contato com o mundo; o segundo está livre da tirania da lei de Moisés. Tu deves ou tu não deves está abolido. O gnóstico já está salvo, portanto a lei não se aplica a ele. Com essa moral antinomista, o pneumático viola as leis do Demiurgo e confunde o domínio dos Arcontes, permitindo assim de forma paradoxal o caminho para a salvação.

Segue um capítulo destinado à exposição do imaginário gnóstico e sua liguagem simbólica como a luz e a escuridão, vida e morte, a queda e a saudade da verdadeira morada, a intoxicação do mundo, a noção do chamado e o mito gnóstico da queda de Adão e Eva.

Na segunda parte do livro, Jonas apresenta os sistemas de pensamentos gnósticos, começando com Simão, O mago, na sequência o conhecido hino da pérola que é um dos mitos mais famosos do gnosticismo. O gnóstico Marcião de Sinope merece um capítulo à parte, pois sua heresia foi uma das maiores ameaças à fé cristã e suas ideias voltaram a aparecer ao longo da história. Jonas diz que o pensamento de Marcião estava livre de toda a fantasmagoria dos gnósticos comuns e que o mais importante em seu pensamento é que o Deus criador é estranho ao mundo.

Na teologia de Marcião existe a antítese entre o deus-criador( Demiurgo) e o Deus escondido e desconhecido. A mais importante antítese é entre o Deus justo e o bom Deus. O Deus justo é o Deus da lei do antigo testamento e o bom Deus é o do evangelho. O bom Deus é estranho ao mundo, desconhecido do homem, o qual não é seu criador. A sua conclusão a respeito da existência de dois deuses resultará em um ascetismo que condena o casamento e a reprodução, sendo que seu ascetismo, ao contrário do cristão, não buscará a santificação da existência, mas é resultado de uma revolta contra o cosmos.

O livro ainda possui dois capítulos relativos à gnose Valentiniana e a de Mani. Jonas demonstra que o pensamento gnóstico era não só hostil à religião cristã, mas também ao pensamento clássico. A gnose destruía a noção de cosmos da filosofia grega. A visão de encanto e beleza que o céu produzia para os antigos filósofos foi completamente desvirtuada pelos gnósticos. A música das esferas não era mais ouvida e o céu passa a ser visto com terror. A visão gnóstica não é nem pessimista nem otimista, mas é escatológica. O mundo é uma prisão e mau, mas existe a salvação no Deus extra-mundano.

Outra coisa que faltava aos gnósticos e o filósofo Plotino percebeu isso, era a falta da ideia de virtude. Para os gnósticos nada de bom poderia vir deste mundo. Santo Irineu conta que os gnósticos achavam que não precisavam de obras para a salvação porque ela viria pelo simples fato do fiel ser espiritual, sendo o pecado permitido. Algumas seitas gnósticas pregavam que através de sucessivas reencarnações o homem teria que experimentar todo o tipo de vida e pecados para ser libertado do poder dos anjos criadores, assim podendo ascender até Deus.

A gnose voltaria a surgir em diversos períodos da história como no caso do catarismo, nas diversas seitas do protestantismo, basta ver o lema de Lutero “crê firmemente e peca muitas vezes”, claramente de origem gnóstica, assim como sua crença e a de Calvino na existência de um duplo deus ( ver Max Weber). Eric Voegelin também identificará a gnose no comunismo e no nazismo. A religião gnóstica é um tema complexo e fascinante e essa obra de Hans Jonas é a melhor introdução que possuímos sobre esse tema.

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Resenha de O Mundo Como Vontade e Representação, Volume II, de Schopenhauer

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O segundo volume de O Mundo como Vontade e Representação escrito por Arthur Schopenhauer não é uma nova filosofia, antes trata-se de uma ampliação madura dos temas dos 4 livros do volume I. Schopenhauer manteve-se fiel à sua filosofia elaborada enquanto ainda estava na casa dos 20 anos. Apesar do reconhecimento tardio que teve ainda em vida, em geral, o filósofo alemão nunca conseguiu adentrar nas universidades e nem influenciou decisivamente os filósofos posteriores. Seu maior resultado foi na psicologia de Freud e Jung, e nada disso causa surpresa, pois Schopenhauer foi o filósofo do corpo, do inconsciente e com nenhuma preocupação política ou histórica. Ele não fez qualquer esforço para adequar-se ao pensamento universitário alemão de sua época, e nem acenou tentando justificar a religião de seu tempo. Sua valorização do Cristianismo é apenas parcial, ao mesmo tempo em que abomina a Bíblia em sua maior parte. Seu espírito era Oriental, e como ele dizia de Giordano Bruno e de Spinoza, possivelmente ele também teria tido maior sorte se tivesse nascido na Índia e filosofasse às margens do Ganges. [Read more…]

Resenha de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel

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Um mestre da arte da política
Maquiavel oferece ao governante alguns conselhos como evitar grandes vícios, pois isso bastaria para não ser odiado, pelo menos parecer honesto. Na guerra quando conquistar não alterar as velhas leis e os impostos. Não se concentrar apenas nos distúrbios presentes, mas também nos futuros, pois isso é próprio do homem prudente.

Muito interessante e moderna a teoria de Maquiavel de que quem permite que o poder da igreja cresça tanto na esfera temporal não entende de questões do Estado. Ele conclui que quem cria o poder de outros se arruína. Vemos esse exemplo na Alemanha nazista onde Von Papen e o partido católico Zentrum, e a própria igreja católica fazendo a concordata com Hitler abriram o caminho para a ruína moral e espiritual da Alemanha.

Na Rússia os exemplos são Kamenev e Zinoviev, que se aliaram a Stalin contra Trotski, ajudando assim a Stalin a conseguir o poder absoluto, e acabaram fuzilados por ele.

Maquiavel é excelente quando fala como o homem prudente deve ter como exemplo homens ilustres, e que eles se comportem como os arqueiros, quando o alvo é demasiado distante, miram no alto para atingir a meta.

Ele nos lembra que os profetas armados vencem, ao contrário dos desarmados, que se arruínam. Talvez isso possa se aplicar à história da igreja, porque ela dependeu da espada de Constantino, Carlos Martel , Carlos Magno e dos príncipes e reis da Idade Média para se defender do ataque dos pagãos, muçulmanos e heréticos como os cátaros.

Maquiavel fala sobre a crueldade que se faz de uma só vez por segurança; mas que depois não se deve perseverar nela. O problema é a maldade que começa pequena e com o tempo aumenta ao invés de se extinguir. O exemplo da inquisição é válido. No princípio criada para combater a heresia cátara, que sem dúvida era uma ameaça à civilização, a inquisição com o passar do tempo fugiu muitas vezes ao controle da igreja e sua crueldade aumentou, ocorrendo muitos abusos.

Ele diz que o governante deve dar benefícios aos poucos e a maldade deve ser feita de uma vez só. Será que não foi isso que aconteceu na Rússia de Lenin? Primeiro a repressão, e depois os benefícios implantados aos poucos, como a volta do capitalismo, os camponeses podendo comercializar livremente os grãos, etc.

Outro exemplo de Maquiavel: o governante que mantenha seu país ordenado, quando fosse atacado por um inimigo externo, o povo se colocaria ao seu lado, mesmo que vissem seus bens e sua propriedade arderem em chamas, porque seria capaz de dar aos seus governados a esperança de que o mal não seria duradouro. Foi o que aconteceu na União Soviética na segunda guerra. Stalin foi capaz de unir a população a se defender dos odiados nazistas que ameaçavam seu modo de viver.

A importância do governante estar sempre armado para que não seja visto como desprezível é uma lição importante que a França aprendeu na segunda guerra, quando não se preparou de maneira adequada, e seria desprezada e arrasada por Hitler. Outro conselho é que o governante inspire temor, mas que não atraia ódio. O exemplo de Stalin e de alguns comandantes de governos militares que eram temidos, mas não odiados.

Por último o conselho de que o governante pareça todo humanidade e todo religião. Não são todos os presidentes americanos esforçados por parecerem piedosos e representantes dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que utilizam a bomba atômica, a tortura e sempre parecem ansiosos por iniciarem guerras?

Vimos que o pensamento político de Maquiavel pode ser utilizado tanto pela esquerda quanto pela direita, e é muito atual. O livro é muito bom, apesar de que exige um certo conhecimento de história para ser melhor compreendido.

https://felipepimenta.com/2016/09/21/sobre-o-pensamento-politico-de-nicolau-maquiavel/

Em tempos sombrios como o que estamos vivendo em nosso país, nada melhor que nos voltarmos para o estudo da ciência política para uma melhor compreensão das ações de qualquer governo. Como afirmou São Tomás de Aquino em seu Comentário à Ética a Nicômaco, “a ciência política dá ordem sobre quais ciências devem ser buscadas em um Estado, quais ciências o homem deve aprender e por qual período”. Sem uma ciência política adequada, como as outras ciências ou a educação poderão florescer em um Estado?

Maquiavel não era alguém que afirmasse todas aquelas ideias que ainda chocam (sem motivo) aqueles que o leem ou tentam estudá-lo. Antes de tudo, ele próprio viveu aquilo que prega em sua obra O Príncipe. Em seu livro mais amplo, Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, busca respostas nas ações do Império Romano para a situação política da Itália do século XVI. Claro que tudo isso revela um pensamento indutivo, ou seja, que busca partir do particular para alcançar o universal. É válido? Sim, e no caso de Maquiavel os exemplos são muito convincentes.

Por mais que se possam fazer críticas às suas ideias, julgo que são muito superiores à de seu compatriota Dante Alighieri. Fiz uma resenha sobre o livro de Étienne Gilson, “Dante e a Filosofia”, no qual o filósofo francês afirma que Dante era um averroísta, ou seja, acreditava que, no fundo, não houvesse uma imortalidade pessoal, apenas do intelecto, que era único em todos os homens. Por causa disso ele tinha esperanças em um DUX (tipo um Duce, ou seja, um Benito Mussolini) que guiasse não somente a Itália, mas também a humanidade a uma nova era imaginada por Joachim de Fiore.

O pensamento de Maquiavel é bem mais modesto. Contenta-se com a situação da Itália e com aspectos políticos que possam ser úteis ao governante (príncipe), para que o poder e a ordem sejam mantidos. Repito: nessa questão, Maquiavel é imbatível.

Fica muito evidente em seus escritos que Maquiavel possuía aquilo que os gregos denominavam sabedoria prática (phronesis). Sabe habilmente transportar situações vividas pelos grandes comandantes, especialmente da República Romana (República que ele enaltece continuamente) para o tempo dele. Percebe-se o quanto ele gosta da grande flexibilidade de comando e a coragem de muitos personagens da Roma Republicana.

No Príncipe, Maquiavel se concentra muito em aspectos da moral do governante. Para ele, poucas coisas são tão repulsivas quanto um comando fraco ou erros estratégicos básicos como o de deixar crescer uma força paralela à do Príncipe. Para que a ordem e o poder do Príncipe sejam mantidos, há de se ter alguma coisa que forneça estabilidade: ou a força das armas, ou uma Constituição que perdure. Governantes fracos, desarmados, tímidos e sem noção da estratégia do adversário são esmagados pela História. Há sim um grau de profecia e de esperança que Maquiavel depositava em seu Príncipe, menor que Dante em seu DUX, mas ainda sim importante. Eric Voegelin notou isso em seu estudo sobre o filósofo italiano. Em seu Comentário (capítulo 56) esse parece ser o caso. Maquiavel não quer um imperador absolutista, mas um governo ordenado e sem o caráter anárquico da península italiana do século XVI.

Nos Comentários, o estudo de Maquiavel da história romana revela muitos casos que ele julgava serem necessários em seu tempo, mas que também podemos colocar como válidos em nossa era. O que um governante deveria ter em especial para fazer um bom governo? Conhecer bem a alma do povo, pois é importante ser amado, mas também temido, muitas vezes! E possuir a virtude grega que Aristóteles ensina da Synesis, que é o hábito de fazer um bom julgamento em casos práticos individuais (Ética a Nicômaco 1142b34- 1143 a 17). A Synesis nos ensina a agir com a prudência necessária em várias situações.

Provavelmente Maquiavel não poderia em muitos casos adotar a sophrosyne platônica, que é a justa medida que evita o mal, típico do pensamento grego. De outra forma, como a maldade, que ele recomenda ser feita de uma só vez, poderia acontecer? Existe uma justa medida na maldade praticada? Quem a estabelece?

Algumas das recomendações de Maquiavel para a estabilidade da nação são impraticáveis no Brasil, tal como a importância da religião. Isso nunca foi um fator de união em tempos passados e hoje menos ainda.

Faz-se necessário, no entanto, percebermos o quanto Maquiavel coloca a responsabilidade pela grandeza de um país na qualidade de seu povo. Uma população corrompida não pode manter a liberdade durante muito tempo, mesmo que a tenha reconquistado (Comentários, capítulo 17). O que agrava ainda mais a situação é a presença de uma sequência de governantes fracos. Seria fruto da má deliberação do povo ou de leis péssimas? Aristóteles afirma que a virtude é hábito, e que o governante deve preocupar-se em fazer boas leis. Dificilmente podemos dizer que é o caso de nossos políticos.

Leio no capítulo 31 de seus Comentários que os romanos deixavam que seus comandantes agissem com total liberdade e não tentavam criminalizar uma atividade que por si já era difícil. Percebo, com base nisso, que a política em si está criminalizada no Brasil. Já não é fácil fazer leis ou governar. E quando até mesmo atividades inerentes à política estão sujeitas a milhares de regras e fiscalizações feitas por pessoas com motivações políticas que não foram eleitas pelo povo, então o país não possui mais governabilidade.

Se a ciência política fosse estudada por nossos políticos, talvez muitos dos males que enfrentamos agora pudessem ter sido evitados. Mesmo que julgue que a indução não é o melhor método para a ciência, no caso da política o estudo dos exemplos históricos são importantíssimos. Mas é claro, como disse acima, que a sabedoria prática e a deliberação para casos individuais são prioritárias.

Maquiavel foi inteligente ao dar dicas em seus Comentários sobre como perceber conspirações políticas internas, que seria de conhecimento vital para a política nacional, toda cheia de conspirações. Ele também escreve muito sobre guerras e ameaças externas, mas nós não temos inimigos externos. Somos nosso maior inimigo.

Com base na experiência romana, Maquiavel percebeu que qualquer nação precisa ser flexível em ambientes de crise e durante as grandes decisões. Se o governante mostrar-se fraco para agir com  pulso em determinada ocasião, far-se-á necessário que seu partido, ou os que o apoiam, abram seus olhos para que delegue poder, talvez, a alguém possa tomar alguma atitude mais drástica para salvar a situação. Não precisa ser uma guerra, mas pode ser uma conspiração interna.

Por último, gostaria de destacar que, no capítulo 55 de seus Comentários, Maquiavel trata da corrupção e da desigualdade. Ele escreve sobre como é fácil governar um povo que não tenha sido corrompido. Também ensina sobre a importância da igualdade numa República. Talvez nosso problema seja que, como somos um povo corrupto desde a base, estejamos sempre prontos a aplaudir o primeiro anjo vingador da corrupção em nível mais alto. Mas como é gerada na base da sociedade, e como somos uma nação extremamente desigual, ansiamos sempre por um governo mais centralizado, monárquico ou militar, pois a ideia de uma República de iguais é inadmissível para boa parte de nós.

 

Resenha do Livro Dos Delitos e Das Penas, de Cesare Beccaria

Beccaria dos Delitos

Um avanço em certas áreas e um retrocesso em outras
Lendo esse livro é impossível não concordar com Beccaria em muitos pontos, que certamente representam um avanço enorme em relação ao sistema penal e as leis de seu tempo. Apesar disso eu tenho que discordar dele em alguns pontos importantes.

O Filósofo está certo em condenar a tortura, método bárbaro de se conseguir uma confissão, e sua opinião nessa área está entre as influências que ajudaram a acabar com essa prática.

Outra opinião de Beccaria que representa um ataque às ideias da esquerda, já que todo ditador comunista quando toma o poder logo confisca as armas da população,é a sua defesa do direito do cidadão em portar armas. Beccaria torna legítimo o direito do cidadão de se autodefender.

O autor também demonstra ser tolerante, e isso é a prova de um espírito humanista, quando ele defende a mulher que pratica o aborto contra uma lei opressiva, fazendo, como ele diz, a tirania exagerar os vícios que não podem ser encobertos com o manto da virtude.

Sua análise da questão da honra e do duelo não são tão profundas quanto a que Schopenhauer faria sobre esse tema. A honra e o duelo são uma perversão do ideal medieval de cavalaria, que Beccaria aparentemente não conhecia.

Também é muito humana e justa sua condenação da punição das famílias dos suicidas, o que era uma prática no seu tempo. Beccaria, no entanto, não se aprofunda muito nessa questão de se o suicídio é legítimo ou não.

A igualdade perante à lei de todos os cidadãos também é debatida na hora em que Beccaria defende um sistema justo e igualitário de punição aos nobres. Isso também representa um avanço em relação ao combate aos privilégios da época.

Agora vou fazer uma crítica a certas ideias equivocadas de Beccaria.

Beccaria era contra os juramentos, e nessa ponto tenho que discordar dele porque São Tomás de Aquino já havia definido que o juramento era algo lícito, e nessa questão a sociedade não seguiu o filósofo, pois o juramento continua válido.

Beccaria representa também um retrocesso sobre o direito de asilo. Reconhecido como algo sagrado na Idade Média, quando o assassino ou culpado poderia se refugiar em uma igreja para se defender de uma turba enfurecida, essa opinião infeliz de Beccaria, sendo contrária ao direito de asilo, felizmente não foi seguida pelo direito moderno.

A pena de morte para Beccaria também seria desnecessária porque, para ele, a prisão perpétua seria mais adequada, além disso, a pena de morte seria uma crueldade. São Tomás de Aquino declarou que a pena de morte era necessária para a punição dos assassinos, e ele cita Aristóteles, que definiu que o homem mau é pior do que um animal. Beccaria tinha uma certa visão romântica sobre a pena de morte ser desnecessária. Como definiu Schopenhuaer, o ser humano não pode ser aprimorado e a pena capital é o meio de se completar a lei. Mas a opinião de Beccaria pode ser discutida.

Por último, Beccaria, influenciado por Rousseau, diz que a propriedade é o terrível direito, o que é uma opinião discutível por parte dele, pois o ser humano necessita da propriedade para poder definir sua personalidade e garantir a sua liberdade. No entanto, o direito à propriedade absoluta é um dogma liberal não compartilhado por Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.

O livro de Beccaria realmente é um grande avanço em muitos assuntos sobre a necessidade de se defender a dignidade do réu e da justiça ser rápida e eficiente. O problema é a influência da visão romântica de Rousseau em algumas áreas, o que não chega a comprometer o livro. Realmente é um livro obrigatório para os estudantes de filosofia e de direito.

A nova Paidéia de Platão em A República

Platão busto

A minha apresentação sobre a nova Paidéia de Platão, como o filósofo grego a apresentou em sua obra A República.

O debate sobre as artes imitativas aparece no livro III da República. Platão acredita que os poetas desvirtuam o povo por sua imitação daquilo que o filósofo considera censurável, como, por exemplo, a imitação dos gemidos, os lamentos, os risos e os sons dos animais e do tempo. Do ponto de vista de Sócrates, as narrativas dos poetas só deveriam mostrar a coragem, a firmeza, ao invés de mostrar a ambição e a ganância. A poesia também deveria se preocupar com os atributos dos justos em oposição aos dos injustos. Para Platão, as narrativas de poetas como Homero são verdadeiramente poéticas, e, por causa disso, menos deveriam ser escutadas pela população que pretende ser livre e não escrava(387 a-e). Certas palavras usadas pelos poetas são uma influência negativa para a educação dos guardiões. Platão considera lamentável que os poetas façam homens respeitáveis e deuses serem atacados por acessos de risos(388 a-e). O mal que essas poesias podem causar nos jovens e nos governantes é o de fazer crer que os heróis não são em nada melhores que os homens. O mal nunca vem dos deuses, lembra-nos Platão. Por causa do costume do jovem ou governante ouvir relatos de maldade dos deuses e heróis como os descrevem os poetas, eles( jovens ou governantes) acreditarão  em desculpas por suas maldades pois os deuses os precederam(391 a-e). O governante jamais deve ser imitador de algo que os poetas propõe, mas sim, da coragem, sensatez, pureza, liberdade e todas as qualidades dessa espécie, que aprenderiam desde a infância. A humanidade( e a Pólis) precisam de uma teologia verdadeira, pois um homem com uma teologia falsa é um homem não verdadeiro. Estar enganado na alma sobre o ser verdadeiro( PERI TA ONTA) significa que a própria mentira (HOS ALETHOS PSEUDOS) tomou posse da parte mais elevada da pessoa( 382 a-e). Para a teologia ser verdadeira, Platão destaca duas regras:

Primeira: Deus não é o autor de todas as coisas, mas apenas das coisas boas.

Segunda: os deuses não enganam os homens em palavras ou atos.

A nova Paideia que Platão propõe- além da imitação das virtudes citadas acima-, possui alguns elementos que constituem a sua concepção de educação e de que modo ela deve ser procedida. Na República, a sua Paideia se divide entre classes: agricultores, que devem ser educados para o serviço prático; soldados, que devem ser educados pela ginástica e pela música, para que tenham agilidade e sensibilidade para a defesa da polis; por fim, tem-se a classe dos governantes, que devem ser educados pela filosofia, pois é esta classe que vai determinar os rumos da cidade.

Platão estabelece regras para as letras que terão espaço em sua cidade, que terá, por exemplo, de ter a obrigação de ser em primeira pessoa, pois esta forma não oculta o narrador. Depois vem a questão da música, muito importante na República. A música deverá inspirar sentimentos belos, e combater o vício, a licença, a baixeza e o indecoro(401 a-e). Com isso, desde a infância a criança seria educada a amar o belo e a odiar as coisas feias e que não possuem harmonia. A ginástica é outra atividade recomendada por Platão, pois depois de haver tratado do espírito é necessário tratar do corpo. Essa ginástica seria simples, e com dois aspectos complementares: a alimentação, que deve ser sem exageros; a medicina, que só deve ser ministrada aos homens sadios. A música e a ginástica devem ser combinadas para estarem em harmonia, pois quem se dedica somente à ginástica fica rude e grosseiro, assim como quem só se dedica à música fica mole e doce em excesso. Por fim, existe a questão de quem governará a Pólis? Segundo o livro didático, entre aqueles educados na proposta apresentada, serão os melhores os mais velhos, com inteligência autoridade e sentimento patriótico. Desde pequenos deverão ser postos às provações, e os que resistirem serão guardiões. Existe também a polêmica questão da eugenia, com sua eliminação dos mais fracos. Sócrates também propõe a questão da mentira necessária: o mito do nascimento humano a partir da terra, que seria contada na infância do governante. Essa foi minha apresentação da proposta de Platão de uma nova Paideia.

Fontes : Platão, A República, Martin Claret – 2003

 

Voegelin, Eric, Ordem e História, Volume III, Platão e Aristóteles, Editora Loyola-2009

http://www.skoob.com.br/livro/resenhas/2949 Minha resenha sobre a República de Platão publicada no Skoob.