Resenha de O Mundo Como Vontade e Representação, Volume II, de Schopenhauer

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A necessidade do Homem pela Metafísica
Schopenhauer é muito diferente de outros filósofos alemães pela clareza de linguagem(ao contrário de Kant e Hegel) e por rejeitar o nacionalismo alemão extremado( como Fichte e Heidegger).

Ele inicia o livro, que é a continuação de sua obra principal O Mundo Como Vontade e Representação, rejeitando novamente o realismo e afirmando o idealismo, porque para ele não há objeto sem sujeito, e não existe universo e planetas sem que haja um olho para observá-los. Nem é preciso dizer que essa definição da verdade idealista de Schopenhauer de que o que não pode ser visto não é real já havia sido refutada por Santo Agostinho nos Solilóquios. Ora, o fundo do mar não se vê, logo ele não existe?

Pela Metafísica, Schopenhauer entende o conhecimento que vai além da possibilidade da experiência e além da natureza e aparência das coisas, e que consegue a informação do que está por trás da natureza e que torna a natureza possível. Para o filósofo, a Metafísica não é só uma experiência externa, mas também íntima.

Schopenhauer rejeita o empirismo radical porque para ele há um abismo entre o que o cientista vê e a coisa-em-si. Para ele, o verdadeiro cientista necessita de Metafísica, pois apenas pela observação jamais conseguirá entender a coisa-em-si. A questão é como a ciência derivada da experiência pode ir mais longe, e é aí que entra a Metafísica. A Metafísica deve permanecer imanente e não se tornar transcendente, porque nunca se separa inteiramente da experiência e permanece como a interpretação e explicação do fenômeno, e nunca fala da coisa-em-si além de sua relação com o fenômeno.

Para Aristóteles, se não houvesse outra entidade exceto aquelas na natureza, a física seria a primeira ciência, mas se existe alguma entidade imutável, então existe uma ciência anterior, e a filosofia se torna a mais universal das ciências.

Então começa o pessimismo de Schopenhauer: segundo ele, quando olhamos o tamanho e a ordem de nosso mundo físico e imaginamos que quem teve o poder de produzir tal mundo, poderia muito bem ter evitado o mal e a perversidade. Essa é a questão mais difícil para o teísmo. Mas são a perversidade, o mal e a morte que qualificam e intensificam a admiração filosófica.

Schopenhauer diz que o que separa a filosofia da religião é que a filosofia tem de ser verdadeira em sentido estrito e próprio, enquanto a religião tem a obrigação de ser verdadeira em sentido alegórico.

Schopenhauer descarta a filosofia otimista de Leibniz porque ela entra em óbvio conflito com a miséria de nossa existência, e também rejeita a doutrina de Spinoza de que o mundo é a única possível e absolutamente necessária substância, porque é incompatível com a nossa admiração de sua existência e natureza essencial. Porque o teísmo mais simples em sua prova cosmológica começa pelo fato de que infere a anterior não-existência do mundo de sua existência, então assume que o mundo é algo contingente.

Para o filósofo, a única diferença entre as religiões está no fato de elas serem otimistas ou pessimistas, ou seja, se justificam o mundo por si próprio e o recomendam, ou se dizem que a existência do mundo só pode ser concebida por nossa falta e que a dor e a morte não podem existir na ordem original e imutável das coisas. O Cristianismo é pessimista, e isso é o que o diferencia das religiões otimistas como o Judaísmo e o paganismo antigo.

Schopenhauer, assim como Niezstche e Kierkegaard, lamenta que Lutero tenha abolido o celibato do clero, pois para ele o ascetismo é a própria essência do Cristianismo.

Sua Metafísica dá grande importância ao fim da existência, seguindo o pensamento de Socrátes, que definiu a filosofia como a preparação para a morte.

O pensamento de Lao-Tsé: “todos os homens desejam somente se libertarem da morte; eles não sabem como se libertarem da vida”, pode resumir o pensamento de Schopenhauer, para quem a vontade de viver é o instinto básico do homem, e que a Vontade em si mesma é sem conhecimento e cega.

Schopenhauer diz: ” a natureza não se importa com o nascimento e a morte dos homens e animais porque sabe que quando morremos voltamos para o seu ventre, onde estaremos salvos e seguros, e que a destruição do fenômeno da vida não perturba sua real e verdadeira natureza íntima”, sendo assim, o homem não deveria se lamentar quando morresse, da mesma forma que ninguém se lamenta pelo fato de que algum dia não existiu.

Schopenhauer discorda da visão cristã de que os homens e animais foram criados do nada, e de que esse mesmo homem criado do nada terá uma existência futura infinita após a morte, enquanto os animais serão aniquilados imediatamente após seu fim. Ele se revolta contra essa idéia defendida por teólogos cristãos e filósofos como Descartes, que deixa de fora do alcance dos animais uma vida futura. Essas pessoas deveriam ter em mente uma frase atribuída a Hermes Trismegisto que diz:” Aquilo que é, deve sempre ser”.

Agora uma crítica: a repulsa que Schopenhauer sente pelo Judaísmo é o maior problema de sua filosofia, porque Schopenhauer acaba por defender o irracionalismo Hindu, e pior, ele acaba por adotar as idéias do herético Marcião, e contrapõe o Antigo ao Novo Testamento. Schopenhauer defende os gnósticos e sua visão pessimista da natureza contra os argumentos de Clemente de Alexandria, que defendia um otimismo moderado a respeito da Criação seguindo a narrativa bíblica. Se o otimismo de Leibniz pode ser contestado, o pessimismo de Schopenhauer também. Esse não é o pior dos mundos possíveis. Lembremos do Livro da Sabedoria:

“Porquanto Ele criou as coisas,
para que todas subsistissem,
e fez saudáveis as criaturas do mundo;
e não há nelas veneno de extermínio,
nem reino dos infernos na Terra”.

Não é um livro acessível a todos, porque a verdade nunca é fácil de ser alcançada, mas o esforço é válido, pois como diz Schopenhauer: ” a verdade sustenta evidência de si mesma e do que é falso”.

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