Resenha de A Metafísica do Belo, de Schopenhauer

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Um verdadeiro curso de estética
A metafísica do belo compreende as aulas que Schopenhauer deu na universidade de Berlim em 1820, na mesma época em que Hegel dava aulas nessa universidade. As aulas ministradas por Schopenhauer ficavam com as salas de aula vazias, por causa disso ele desistiu de seguir carreira universitária desde então.

Schopenhauer parte do idealismo de Platão e Kant, considerados por Schopenhauer os dois maiores filósofos do ocidente. No idealismo de Platão, um cavalo que estivesse diante de nós não possuiria uma existência verdadeira, mas apenas um constante vir-a-ser. Somente a ideia daquele animal, que nunca veio-a-ser ,é o que importa. Portanto, é indiferente se o cavalo que temos diante de nós é esse cavalo ou seu ancestral que viveu séculos atrás. Unicamente a ideia do cavalo é objeto do conhecimento real. Para Kant, esse cavalo é apenas um fenômeno em relação ao nosso conhecimento e nunca a coisa-em-si.
Uma grande diferença entre Schopenhauer e Hegel é que Hegel é o filósofo da história, e Schopenhauer é a-histórico, pois para Schopenhauer a história é somente a forma casual do fenômeno da ideia. A história nada cria de novo e os papéis que os seres humanos exercem são sempre os mesmos. Não haveria assim um objeto final da história.

A satisfação estética para Schopenhauer é o estado do puro conhecimento destituído de vontade, que é o único que pode nos fornecer um exemplo da possibilidade de uma existência que não consiste no querer. É através da supressão do querer que o mundo pode ser redimido. A impressão do sublime pode ser despertada em locais onde a paisagem não fornece à vontade nenhum meio de se manifestar. É nessa ocasião que o sujeito pode contemplar a ideia. O homem nessa ocasião poderá sentir-se angustiado pelo pensamento de que um dia irá desaparecer. Mas Schopenhauer nos diz que essa é uma aparência enganosa, pois o mundo existe apenas na nossa representação. A grandeza do mundo e sua existência repousa na nossa consciência.

É tarefa da filosofia tornar claro que somos uma única e mesma coisa com o mundo: “ todas essas criações em sua totalidade são eu, e fora de mim não existe ser algum” ( Upanixade). Depois de dizer que todas as coisas são belas e demonstrar um otimismo prático, que muito recusam-se a reconhecer em sua filosofia, Schopenhauer reabilita a poesia e demonstra sua importância para a filosofia, criticando a famosa intolerância de Platão nesse assunto.

Schopenhauer discute o valor e a beleza de diversas artes como a arquitetura, no qual ele defende a arquitetura grega e critica a gótica, opinião essa na qual eu discordo pois considero a arquitetura gótica como a mais bela que existe; depois ele analisa a jardinagem, a pintura, que ele vê como a mais bela e correta a arte flamenga, criticando somente essa arte quando alguns pintores reproduzem imagens de comidas e bebidas diversas, pois isso produziria um desejo ou vontade no espectador.

Por fim, existe a música, considerada por Schopenhauer a melhor de todas as artes, pois assim como a filosofia, a música permite a alma penetrar na essência do mundo. Para quem gosta de estética e quer conhecer outras visões sobre a arte, recomendo o curso de estética: o belo na arte ,de Hegel, assim como a introdução às artes do belo, de Etienne Gilson.

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Resenha de Lenin- A Biografia Definitiva, de Robert Service

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A vida do Revolucionário
Vladimir Ulyanov nasceu e cresceu sob uma família burguesa e estável, e recebeu excelente educação. A morte prematura do pai não o abalou, no entanto a execução de seu irmão parece ter tido algum impacto, apesar de não ter sido decisiva para transformá-lo em um revolucionário.

Lenin desde cedo concluíra que o socialismo na Rússia precisava se basear em outra classe social que não a camponesa. A noção de que Lenin devia suas idéias à proximidade com os camponeses de Samara é falsa, pois nessa época ele só se preocupava com os estudos.

Lenin havia decidido que a classe operária teria a primazia na formação da sociedade socialista e acreditava que o futuro da Rússia estava na indústria, na urbanização e na organização social em larga escala.

Service diz que Lenin era excessivamente paparicado por sua irmã e sua mãe, e isso lhe teria dado a consciência de que era um líder natural.

Marx acreditava que a Rússia poderia passar do feudalismo para o socialismo sem passar pela transformação capitalista. Lenin exagerava o quanto o capitalismo estava avançado na Rússia e recomendava que suas idéias fossem adotadas também no ocidente.

Lenin sentia orgulho de seu passado judeu e sempre combateu o antissemitismo. Durante seu exílio em Munique escreveu a sua obra mais famosa “Que Fazer”, inspirada no livro de mesmo nome de Chernyshevski. Nesse livro utilizou pela primeira vez o nome de Lenin, inspirado por Lena, um rio siberiano. No livro ele discute a questão organizacional e a prioridade por disciplina e unidade.

Ele adorava congressos, tinha um enorme poder de convencimento e rejeitava todo o sentimento na política.

Quando aconteceu a revolução de 1905, Lenin se animou. Falava em insurreição armada e expropriação da terra dos fidalgos. Nessa época foram criados os Soviets, e Lenin foi obrigado a voltar para São Petersburgo, onde disputava com Trotski a liderança em discursos. Durante os acontecimentos, Lenin entrou em conflito com os mencheviques, porque estes defendiam uma revolução democrático-burguesa que deveria ser liderada pela classe média, enquanto Lenin defendia uma ditadura do proletariado e repúdio pela classe média.

O início da guerra em 1914 surpreendeu Lenin, mas ele, assim como os bolcheviques, mantiveram uma posição contrária à guerra, que Lenin classificou como burguesa e imperialista.Ele sustentava que a guerra imperialista deveria se tornar a “guerra civil européia”.

Lenin acreditava na ciência e no progresso. Estudou Aristóteles, conhecia muitas obras de Hegel e achava que era o único que havia compreendido a Karl Marx.

A descrição de Robert Service da chegada de Lenin à estação Finlândia na capital São Petersburgo me fez lembrar a maravilhosa cena do genial filme Outubro, de Sergei Eisenstein.

Os capítulos sobre o Tratado de Brest-Litovsk e a luta de Lenin para assiná-lo e sobre a Nova Política Econômica são ótimos, mas a narrativa sobre a guerra civil é inferior à de “A Tragédia de um Povo” de Orlando Figes, que é muito mais completa e tem maior força.

Uma coisa me impressionou depois de ler as biografias de Lenin, Stalin e Marx. Há uma profunda diferença entre a moralidade familiar desses revolucionários e a moral que alguns militantes de esquerda pregam.

Por exemplo: Marx e Lenin eram burgueses que se mantiveram casados com suas esposas apesar de tudo. Stalin era um tanto pudico, e os três jamais pregaram o aborto, o amor livre e o controle da natalidade. Lenin era contrário a relações sexuais casuais; Marx odiava a Malthus; Stalin dificultou o aborto na União soviética nos anos 30 depois que percebeu os resultados catastróficos da liberação do aborto nos anos 20( Ver Moshe Lewin, O Século Soviético). Marx considerava o amor livre como bestial. Todos eles adoravam crianças( Lenin era frustrado por não ter filhos). Marx e Stalin jamais pregaram às suas filhas uma moral sexual liberal. Os três eram extremamente apegados às suas famílias e filhos.

Gostaria de saber o porquê dessa diferença entre a moral dos grandes revolucionários e o militante de esquerda comum. É curioso notar como os grandes líderes de esquerda de ontem de de hoje são muito apegados à família, não evitam filhos e seus negócios são sempre dinásticos, ou seja, são herdados pelos seus filhos e netos, enquanto o militante de esquerda comum prega o aborto e o amor livre-claro, sempre para a família dos outros, nunca para a própria. É algo para se refletir.

Tudo isso pode ser lido nas biografias de Marx( Francis Wheen) e Stalin( Simon Montefiore).

Resenha do livro Arte e Beleza na Estética Medieval, de Umberto Eco

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A Beleza da Idade Média
Para começar, eu recomendo que se leia esse livro junto com o Outono da Idade Média, de Huizinga. Eco cita Huizinga que demonstra que os medievais convertiam rapidamente o sentimento do Belo com a pura e simples alegria de viver. O Belo deveria coincidir com o bom e o verdadeiro. Uma das crenças mais fortes da Idade Média era a da beleza e bondade do mundo e de todos os seres. A imagem do universo é cheia de luz. Os medievais baseavam-se no livro do Gênesis e o da Sabedoria.

Eco diz que a metafísica medieval irá refutar o gnosticismo demonstrando que a unidade, verdade e bondade não são valores acidentais, mas são inerentes ao ser em nível metafísico. Disso resultará que toda a coisa que existe é verdadeira e boa.

A escola de Chartres dirá que a natureza e não o número é que rege este mundo. Alain de Lille cantará:

Ó filha de Deus e mãe das coisas,
que manténs unidos e tornas estável o mundo,
gema para os homens, espelho para os mortais,
luz do mundo.
Paz, amor, virtude, governo, poder,
ordem, lei, fim, caminho, guia, origem,
vida, luz, esplendor, forma, figura,
regra do mundo.

O livro destaca uma das características mais notáveis da arte medieval: o gosto pela luz. Isso fará nascer a catedral gótica e seus magníficos vitrais e irá gerar uma das mais espetaculares invenções medievais: os óculos. Dirá Suger sobre a sua obra: ” e o que uma luz nova inunda, brilha como nobre obra”.

As grandes maravilhas da idade média, como suas catedrais românicas e góticas, suas cidades e pequenas vilas, sua arte e sua escultura, nos maravilham até hoje. A idade média produziu uma beleza e uma estética que eu considero a mais bela de todos os tempos. Tudo nos fala de fé, esperança, amor a Deus e combate ao mal, nos lembrando sempre que quem não combater irá se perder. A poesia medieval nos deixa o Lauda Sion, o Stabat Mater e o Dies Irae, e sua arquitetura criará cidades como York e Carcassone.

O alegorismo artístico de Van Eyck, os vitrais e das esculturas como o belo Deus de Amiens podem ser representadas novamente pela poesia de Alain de Lille:

Toda a criatura do mundo,
como se fosse livro ou pintura,
é para nós como um espelho.
Da nossa vida, da nossa morte,
da nossa condição, da nossa sorte,
fiel signo.

Essa beleza da idade média que nos atrai atá hoje é devido à sua proporção, como nos diz São Tomás: ” o belo consiste na devida proporção, pois nosso sentidos deleitam-se nas coisas bem proporcionadas”. O sentido como qualquer outra faculdade cognoscitiva é uma espécie de proporção. Três coisas são requeridas para serem consideradas belas segundo São Tomás: integridade, harmonia e clareza ou esplendor.

Resenha de O Jovem Stálin, de Simon Sebag Montefiore

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A vida do jovem Stálin é muito interessante
Jovem Stálin é um livro surpreendente e muito bem escrito. Começa com a história dos pais de Stalin e abre a possibilidade de que ele possa ter tido um outro pai. Graças à sua mãe-que era uma personalidade notável-, e contra a vontade de seu pai, Stalin conseguiu entrar para o seminário e receber uma ótima educação. Conta como ele perdeu a fé e o seu talento para a poesia- na verdade seus poemas eram muito bons, especialmente o poema para Rafael Eristavi.

Stalin foi um homem muito inteligente e talentoso, ainda mais quando comparado a Hitler, que não teve educação e era um artista fracassado.

A carreira como terrorista começou cedo, depois de trabalhar como meteorologista e em uma refinaria, onde provocou um incêndio criminoso.

Há o relato do encontro com Lenin, e mostra a importância que os roubos e ataques piratas que Stalin promovia eram importantes para financiar a revolução de Lenin. O caráter vingativo e traiçoeiro de Stalin são muito bem descritos.

Ainda existem os relatos das inúmeras escapadas de Stalin do exílio e de seus casos amorosos, que são muito interessantes, assim como a discussão se ele foi um agente czarista, o que o autor acaba negando.

O capítulo que narra o exílio de Stalin no ártico é um dos melhores do livro. Ficamos surpresos quando lemos como ele se adaptou bem às condições locais.

A parte final fala sobre a revolução de Outubro, e podemos ver a participação decisiva de Stalin, principalmente quando ele salva a vida de Lenin. O livro nos mostra como Stalin esteve com Lenin e os bolcheviques desde o princípio, ao contrário de Trotsky,que só se juntou a eles no final, e a quem Stalin odiou desde o início.

Montefiore deixa bem claro que Stalin estava muito longe de ser uma “mancha cinzenta” e como sua imensa capacidade de liderança estava presente desde o início de sua vida como revolucionário. Lendo esse livro ninguém mais irá perguntar como e por que Stalin chegou ao poder.

Sem dúvida, uma das melhores biografias que já li. Muito detalhada e o tema da revolução russa é um dos que mais me interessam.

***

A excelente biografia de Montefiore sobre a vida do joven Stálin foi uma revelação ao ocidente do início da carreira de um dos maiores ditadores do século XX. Stalin nasceu em uma famíla pobre; seus pais tinham uma relação conturbada pelo alcoolismo de seu pai, que queria que seu filho fosse sapateiro igual a ele, e não queria que fosse para a escola. Sua mãe, ao contrário, tinha uma personalidade estável, e fez de tudo para que seu filho estudasse em uma escola para padres. Como ela fez seu filho entrar para um seminário é contado no livro, e a explicação possível para isso é que Stalin fosse provavelmente filho de um padre local. Mas isso não pôde ser confirmado.

Stalin era um excelente aluno, e tinha uma voz muito bonita para o canto da igreja. Montefiore narra como o joven Stalin perdeu sua fé cristã e passou a se ocupar lendo literatura marxista. O ambiente do seminário era promíscuo e opressivo, e isso também contribuiu para que esse seminário gerasse toda uma geração de revolucionários ateus.

Stalin também era um poeta talentoso, e alguns de seus poemas são reproduzidos no livro. Ele poderia ter seguido a carreira de poeta se quisesse, pois levava jeito para a poesia. Stalin, nesse momento, porém, lutava contra um padre que o perseguia no seminário em busca de literatura “subversiva” que o jovem seminarista lia clandestinamente. Por causa de ter sido pego com esses livros, Stalin acabou expulso do seminário.

Depois desses acontecimentos, Stalin precisou conseguir um emprego para sobreviver. Teve um emprego inusitado: meteorologista. Esse emprego, no entanto durou pouco, e Stalin caiu na clandestinidade. Seu mundo era viver nas sombras, sem que ninguém soubesse de sua identidade.

Conseguiu um emprego em uma refinaria dos Rothschild, e lá, em pouco tempo, conseguiu provocar um incêndio criminoso para que esses famosos capitalistas do petróleo aceitassem às demandas dos trabalhadores.

As prisões

Stalin foi preso diversas vezes ao longo de sua juventude, mas conseguiu escapar na maioria das vezes com a ajuda de cúmplices dentro do sistema corrupto do czarismo. As prisões nessa época, ao contrário do tempo do comunismo, eram muitos frouxas em seu sistema de vigilância.

O encontro com Lenin

Em 1905, Stalin finalmente conseguiu encontrar-se com seu ídolo e chefe Vladimir Lenin na Finlândia. Stalin vinha há muito tempo se destacando como o principal responsável por conseguir fundos( dinheiro) para o partido. Vivia como um bandoleiro na Geórgia praticando o terrorismo e assaltos que conseguiram juntar uma quantidade impressionante de capital para o partido de Lenin.

Seria Stalin um agente czarista?

Montefiore escreve um capítulo sobre a possível ligação de Stalin com a Okhrana-a polícia secreta czarista. Esse capítulo é importante porque mais tarde historiadores da direita acusaram Stalin de promover o grande terror para encobrir o seu passado como agente do czar. O autor, porém, não conseguiu estabelecer essa ligação.

A prisão e o exílio siberiano

Stalin foi traído por um agente do czar infiltrado no partido bolchevique em um baile no qual tentou escapar usando roupas femininas. Não deu certo. Foi enviado para Turukhansk, no meio de uma região completamente desolada da Sibéria. Esse é o ponto mais interessante do livro. Stalin adaptou-se muito bem ao clima inóspito da Sibéria, e logo aprendeu a se virar para conseguir comida e sexo. Virou um caçador e tornou-se amante de uma mulher( na verdade uma adolescente) local. Dessa vez não conseguiu fugir e teve que cumprir a pena até o final em 1917, às portas da revolução.

A participação de Stalin na revolução de outubro.

Em março de 1917, Lenin voltou para São Petersburgo e para a Rússia após anos longe de casa. Essa cena da chegada de Lenin na estação ferroviária foi imortalizada na cena do filme Outubro, de Eisenstein. Lenin aproveitou o momento em que o czarismo estava agonizante após a humilhação e o esgotamento moral e financeiro provocados pela primeira guerra. Agora Lenin e Stalin poderiam trabalhar juntos. Lenin com seu carisma e liderança burgueses, e Stalin com seu profundo conhecimento da Rússia.

Nesse momento, Trotsky aproveitou para entrar para o partido bolchevique, e tornou-se a estrela do partido ao lado de Lenin. Mas isso era momentâneo. Stalin tinha uma rede de apoio na Rússia e na Geórgia que Trotsky não podia imaginar. Montefiore narra muito bem os acontecimentos da revolução, e como Stalin saiu das sombras para transformar-se no principal aliado de Lenin no poder. Fica muito claro a participação decisiva de Stalin para que Lenin pudesse sobreviver em momentos difíceis e como sua atuação nos bastidores revelavam sua personalidade e habilidade política.

A personalidade de Stalin

Graças à sua mãe, Stalin conseguiu ter uma ótima educação clássica, e desde cedo possuía um caráter de líder e uma autoconfiança que impressionava. Líder terrorista e eficaz para realizar assaltos que financiaram Lenin por muitos anos, Stalin só teve um único emprego durante sua juventude até a revolução. Sua atuação era nos bastidores e no mundo da ação, possibilitando a ele conseguir obter um profundo conhecimento da Rússia e da Geórgia, enquanto Lenin e Trostsky viviam sentados atrás de escrivaninhas longe da Rússia.

Sua personalidade e modo de agir lembram as recomendações de Maquiavel, entre elas de nunca possibilitar aos outros acumular poder acima do seu. Maquiavel diz que quem cria poder para os outros causa a própria ruína. Foi isso que Stalin fez, não em relação a Lenin, mas contra Trotsky. Stalin possuía um caráter forte, maquiavélico, cruel e ambíguo, o que leva em alguns momentos o leitor se identificar e até gostar dele, como o próprio Montefiore parece gostar, às vezes.

Não podemos nos esquecer que apesar de Stalin ter sido um vencedor, pois foi ele quem derrotou os nazistas e Hitler, foi esse mesmo Stalin o responsável por uma matança impressionante de seu próprio povo e da população da Ucrânia. Stalin não era um seguidor de Maquiavel em um ponto: a de que a crueldade deveria ser feita de uma vez só, sem perseverar nela durante muito tempo. Essa era uma lição que Stalin não aprendeu.

Resenha de Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt

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A máquina burocrática do mal
A filósofa Hannah Arendt pôde acompanhar o julgamento de um dos mais famosos nazistas em Israel e analisa nessa obra o que viu e ouviu. Ela começa fazendo uma pequena biografia de Eichmann, e o descreve como um aluno medíocre em seus tempos de escola e que não conseguiu terminar os seus estudos, e estava destinado em um emprego sem perspectivas de futuro. Por causa disso, quando Eichmann teve a oportunidade de entrar para uma unidade da SS, ficou muito feliz. Primeiramente foi designado para reunir informações a respeito da maçonaria, mas o trabalho não foi adiante. Foi então mandado para a parte que cuidava dos assuntos judaicos. Passou então a estudar o sionismo e a manter contato com autoridades judaicas sionistas. Eichmann passou a admirar os sionistas porque os considerava idealistas, ao contrário dos assimilacionistas e dos judeus ortodoxos, a quem desprezava. Passou a trabalhar então no centro de emigração dos judeus austríacos, onde sentiu-se bem.

Foram pensadas algumas alternativas para a questão judaica, como a expulsão, a concentração e ,por fim, a solução final: assassinato. Eichmann nesse período assistiu à morte de alguns judeus na câmara de gás e por fuzilamento, mas nunca abandonou o seu posto. Arendt nota que o exército nazista nunca ameaçou de morte alguém que tivesse se recusado a participar de tais eventos, por causa disso, Eichmann não tinha como se desculpar. O programa de extermínio dos judeus havia sido inspirado pelo projeto de eutanásia de 1939, no qual cerca de 50 mil doentes mentais e outros inválidos haviam sido executados na câmara de gás. Na época, esse programa havia sido denunciado pelo arcebispo Von Galen. O programa foi então extinto, mas Von Galen infelizmente iria apoiar a invasão da Rússia pelos exércitos alemães, e isso iria custar a vida de 20 milhões de soviéticos.

Arendt escreve então sobre o pastor Heinrich Grüber, que foi convocado pelo tribunal e parecia ser uma grande testemunha para descrever a personalidade de Eichmann. O resultado foi decepcionante. A descrição do pastor Grüber sobre Eichmann foi errônea e mais, quando confrontado pelo tribunal se havia alertado o réu que suas atitudes( do réu) eram criminosas, disse que nunca o fez, porque considerava os atos como mais significativos do que as palavras. O próprio Eichmann negou que alguém em qualquer oportunidade tivesse dito para ele que o que ele fazia estava errado. Algumas páginas adiante, Eichmann disse que agia de acordo com a noção Kantiana de dever. Ou seja, aja como se sua vontade possa se tornar a lei universal. Arendt defende Kant, e o fato eram que Eichmann distorceu o argumento e considerou sempre que a vontade do Führer deveria ser a lei universal.

A história sobre o comportamento das diversas nações europeias e suas reações a ordem nazista de extraditar os judeus para os campos de extermínio revelam a grandeza de duas nações, segundo Arendt: a Dinamarca e a Itália. Nesses países a maioria da população judaica conseguiu sobreviver e seus governos opuseram-se às ordens de Berlim.

***

A tragédia que se abateu sobre os judeus, e o fato de que pela primeira vez desde o tempo dos romanos os judeus poderem julgar eles próprios crimes contra seu povo, e a visão de que aquele julgamento serviria como base para que crimes como esse nunca mais acontecessem, tudo isso esteve presente no julgamento de Eichmann. Arendt percebeu que ele seria condenado à morte desde o princípio. A grande tarefa do tribunal era como mostrar ao réu suas responsabilidades e não permitir que ele se defendesse alegando ser apenas uma peça em uma complicada máquina burocrática, além de ser um cidadão que respeitava as hierarquias e ordens de seu governo. No fim, o mais importante é como definir responsabilidades individuais em crimes cometidos pelo Estado. Foi isso que esteve em julgamento em Jerusalém.

Resenha de A Infelicidade do Século, de Alain Besençon

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As semelhanças entre o nazismo e o comunismo
Essas duas ideologias que tiveram milhões de adeptos no século XX, e que causaram tantas mortes e sofrimento em nome de suas causas, são analisadas por Besançon nesse livro. O nazismo mereceu maior execração pública do que o comunismo porque suas principais vítimas, os judeus, conseguiram documentar quase todas as mortes de seu povo, e até hoje mantém viva a sua memória. No caso do comunismo, com exceção do Camboja, os cadáveres produzidos por Lenin e Stalin na Rússia, assim como na China de Mao, não possuem identidade ou alguma imagem e, como diz Besançon, falta a evidência do corpo. As vítimas do bolchevismo e do grande salto chinês são anônimas; falta um memorial que possa fazer com que nos lembremos delas.

Nazismo e comunismo possuíam métodos parecidos como a expropriação dos bens, a deportação e a prisão em campos de concentração dos acusados. Mas o comunismo possuía dois métodos a mais: o julgamento em que o acusado ouvia todas as acusações de que era supostamente culpado, sem a menor chance de defesa, e a fome, outra marca dos regimes comunistas, pois onde o comunismo reina, a fome se estabelece. Besançon também analisa além da destruição física, a destruição moral. O comunismo considera-se herdeiro de uma tradição que vinha de Heráclito e Demócrito, passando por Hegel, e não podemos nos esquecer, de Darwin, pois Marx e Lenin eram admiradores confessos do naturalista inglês.

Já o nazismo buscava referências na tragédia grega, no paganismo germânico, em um Nietzsche adulterado, e também em Darwin. O nazismo teve a adesão ilustre de Heidegger, e o comunismo de Lukács e Brecht, mas isso á algo secundário ao estudo. Tanto o nazismo quanto o comunismo são gnósticos, e caem em um dualismo e na luta cósmica entre o bem e o mal. Na gnose, assim como no nazismo e no comunismo, o mal é algo substancial: no nazismo, os judeus; no comunismo, o kulak e os capitalistas. Ambas as ideologias usavam de uma linguagem similar para descreverem seus inimigos. Eles eram ratos, baratas, aranhas, bactérias, etc. O inimigo era sempre considerado um bicho, em um amplo processo de desumanização.

Uma diferença entre o nazismo e o comunismo é que na Alemanha nazista as fronteiras permaneceram abertas, enquanto uma das primeiras medidas adotadas pelos regimes comunistas é controlar a informação e fechar as fronteiras, para que o cidadão não se contamine com notícias vindas do exterior capitalista e hostil. Besançon demonstra como o comunismo altera a moral quando ainda hoje vemos que ,apesar do Gulag e do grande terror, muitos ainda consideram ser possível ser comunista com a consciência tranquila, sendo que no caso nazista, não é mais possível adotar essa posição depois de Auschwitz .

Nazismo e comunismo adotam a tática do salame para destruir seus inimigos: no nazismo, primeiro vem a destruição dos judeus, depois dos ciganos e ,por fim, os mestiços; no comunismo vemos a aniquilação da extrema-direita, depois a direita e, no final, da própria esquerda e dos membros do partido. Um capítulo muito bom é dedicado à teologia. Vemos como o nazismo fez ressurgir a heresia de Marcião. O nazista sentia ódio pelo fato dos judeus serem o povo escolhido, pois eles, os nazistas, acreditavam que o povo alemão é que seria o povo escolhido, e ainda acreditavam como Hitler que o Deus do antigo era diferente do Deus do Novo testamento.

A parte final é dedicada à memória dos judeus e dos cristãos a respeito do nazismo. Aí entra um ponto no qual Besançon defende a opinião do papa Pio XII sobre o comunismo, opinião essa a qual eu não concordo. A questão é sobre o silêncio de Pio XII na guerra sobre o extermínio dos judeus. O papa não falava sobre isso supostamente para não enfurecer Hitler e,com isso, acelerar o processo de destruição dos judeus. Pio XII acreditava, e Besançon o defende, que o comunismo era mais perigoso a longo prazo do que o nazismo. Isso não é verdade, e foi essa opinião que levou, creio eu, a igreja católica a errar e vacilar durante a segunda guerra. O nazismo era muito mais perigoso do que o comunismo, mas Pio XII sentia um ódio por essa ideologia que o fez ser no mínimo ambíguo durante a guerra.

Resenha de O Santo Reich, de Richard Steigmann Gall

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Nazismo e Cristianismo positivo
O santo reich é um livro sobre até que ponto o cristianismo era aceito entre os nazistas, e a opinião desses sobre o antigo e o novo testamento, a igreja e Jesus Cristo. O nazismo não pode ser caracterizado como ateu, até porque havia muitos protestantes e católicos entre seus membros. O nazismo foi, na verdade, um movimento de caráter místico e gnóstico, com alguns elementos de socialismo e paganismo germânico. Isso não impediu que alguns cristãos aderissem ao partido, mas como fica evidente no livro, esse cristianismo era alterado para atender às exigências nazistas.

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Resenha de Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes

Dom Quixote

Dom Quixote é o maior romance de todos os tempos. Livro inspirador, extremamente engraçado e esperançoso, a obra do espanhol Miguel de Cervantes jamais perdeu a incrível força que possui. [Read more…]