Resenha de A Infelicidade do Século, de Alain Besençon

infelicidade

As semelhanças entre o nazismo e o comunismo
Essas duas ideologias que tiveram milhões de adeptos no século XX, e que causaram tantas mortes e sofrimento em nome de suas causas, são analisadas por Besançon nesse livro. O nazismo mereceu maior execração pública do que o comunismo porque suas principais vítimas, os judeus, conseguiram documentar quase todas as mortes de seu povo, e até hoje mantém viva a sua memória. No caso do comunismo, com exceção do Camboja, os cadáveres produzidos por Lenin e Stalin na Rússia, assim como na China de Mao, não possuem identidade ou alguma imagem e, como diz Besançon, falta a evidência do corpo. As vítimas do bolchevismo e do grande salto chinês são anônimas; falta um memorial que possa fazer com que nos lembremos delas.

Nazismo e comunismo possuíam métodos parecidos como a expropriação dos bens, a deportação e a prisão em campos de concentração dos acusados. Mas o comunismo possuía dois métodos a mais: o julgamento em que o acusado ouvia todas as acusações de que era supostamente culpado, sem a menor chance de defesa, e a fome, outra marca dos regimes comunistas, pois onde o comunismo reina, a fome se estabelece. Besançon também analisa além da destruição física, a destruição moral. O comunismo considera-se herdeiro de uma tradição que vinha de Heráclito e Demócrito, passando por Hegel, e não podemos nos esquecer, de Darwin, pois Marx e Lenin eram admiradores confessos do naturalista inglês.

Já o nazismo buscava referências na tragédia grega, no paganismo germânico, em um Nietzsche adulterado, e também em Darwin. O nazismo teve a adesão ilustre de Heidegger, e o comunismo de Lukács e Brecht, mas isso á algo secundário ao estudo. Tanto o nazismo quanto o comunismo são gnósticos, e caem em um dualismo e na luta cósmica entre o bem e o mal. Na gnose, assim como no nazismo e no comunismo, o mal é algo substancial: no nazismo, os judeus; no comunismo, o kulak e os capitalistas. Ambas as ideologias usavam de uma linguagem similar para descreverem seus inimigos. Eles eram ratos, baratas, aranhas, bactérias, etc. O inimigo era sempre considerado um bicho, em um amplo processo de desumanização.

Uma diferença entre o nazismo e o comunismo é que na Alemanha nazista as fronteiras permaneceram abertas, enquanto uma das primeiras medidas adotadas pelos regimes comunistas é controlar a informação e fechar as fronteiras, para que o cidadão não se contamine com notícias vindas do exterior capitalista e hostil. Besançon demonstra como o comunismo altera a moral quando ainda hoje vemos que ,apesar do Gulag e do grande terror, muitos ainda consideram ser possível ser comunista com a consciência tranquila, sendo que no caso nazista, não é mais possível adotar essa posição depois de Auschwitz .

Nazismo e comunismo adotam a tática do salame para destruir seus inimigos: no nazismo, primeiro vem a destruição dos judeus, depois dos ciganos e ,por fim, os mestiços; no comunismo vemos a aniquilação da extrema-direita, depois a direita e, no final, da própria esquerda e dos membros do partido. Um capítulo muito bom é dedicado à teologia. Vemos como o nazismo fez ressurgir a heresia de Marcião. O nazista sentia ódio pelo fato dos judeus serem o povo escolhido, pois eles, os nazistas, acreditavam que o povo alemão é que seria o povo escolhido, e ainda acreditavam como Hitler que o Deus do antigo era diferente do Deus do Novo testamento.

A parte final é dedicada à memória dos judeus e dos cristãos a respeito do nazismo. Aí entra um ponto no qual Besançon defende a opinião do papa Pio XII sobre o comunismo, opinião essa a qual eu não concordo. A questão é sobre o silêncio de Pio XII na guerra sobre o extermínio dos judeus. O papa não falava sobre isso supostamente para não enfurecer Hitler e,com isso, acelerar o processo de destruição dos judeus. Pio XII acreditava, e Besançon o defende, que o comunismo era mais perigoso a longo prazo do que o nazismo. Isso não é verdade, e foi essa opinião que levou, creio eu, a igreja católica a errar e vacilar durante a segunda guerra. O nazismo era muito mais perigoso do que o comunismo, mas Pio XII sentia um ódio por essa ideologia que o fez ser no mínimo ambíguo durante a guerra.

Comments

  1. Tom Alvim says:

    Estou querendo adquirir esta obra, mas ela está esgotada no momento, então agradeço-lhe pela resenha que já deu-me uma pequena impressão deste livro. Muito obrigado!

  2. Mateus Ribeiro says:

    muito bom. esclareceu bastante. Parabens.

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