Resenha de Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes

Dom Quixote

Dom Quixote é o maior romance de todos os tempos. Livro inspirador, extremamente engraçado e esperançoso, a obra do espanhol Miguel de Cervantes jamais perdeu a incrível força que possui.

Já li muitas críticas e opiniões sobre o livro que demonstram que, ou a pessoa não o leu, ou com compreendeu bem pouco Dom Quixote. O livro é muito mais do que simplesmente um lunático lutando contra moinhos de vento. Toda a mentalidade da Espanha do século XVI está dentro do romance. A paixão, o idealismo e os preconceitos de um povo que Cervantes soube tão bem captar.

Algo que considero da maior importância para quem vai ler Dom Quixote é compreender o contexto social e religioso do final do século XVI. Digo isso porque Cervantes fez de sua obra um grande instrumento da Contrarreforma católica. O personagem principal Alonso Quijano (Dom Quixote) é um fidalgo de uma classe menor, e a Espanha, como outros países católicos, mal haviam saído do feudalismo. Estavam infestados de uma nobreza ociosa e improdutiva.

Nosso fidalgo vivia a maior parte do tempo lendo romances de cavalaria, um gênero literário de qualidade duvidosa, mas que representava muito bem o homem da Baixa Idade Média, ou seja, com suas obsessões por grandes feitos, por servir e morrer por sua dama e com seu sentimento de honra. De tanto ler romances de cavalaria, Alonso Quijano enlouquece e passa a querer viver como um, e adota o nome de Dom Quixote.

Sancho Pança representa melhor o típico camponês inculto, mas realista que, apesar de seguir Dom Quixote, não vê o mundo de maneira fantasiosa como ele. Ele pode ser bastante engraçado, mas também reflete o católico fanático e antissemita (em determinado momento afirma que um de seus credos é o ódio mortal aos judeus) que dominava boa parte da população espanhola.

O livro é imenso e é uma grande viagem pela Espanha daquele tempo. Existe uma paródia da Inquisição logo no início do livro, com o padre local queimado livros dos quais não gosta em uma fogueira. Os mouriscos, que eram muçulmanos convertidos à força ao catolicismo, mas que retiveram alguns de seus costumes. Na vida real, Cervantes foi cativo no norte da África durante alguns anos, e pôde ver alguns dos costumes do Islã. No romance, há claramente uma recordação sobre esse fato de sua vida. Ele viu na religião muçulmana alguns traços positivos. Os mouriscos, que foram perseguidos pela Inquisição de maneira implacável, veem na possibilidade de imigração para a Alemanha uma forma de sobreviverem.

A Alemanha havia sido a pátria da Reforma Protestante. Como escrevi acima, as ideias da Contrarreforma estão muito presentes no livro. Dom Quixote a todo momento faz observações sobre a fé católica, dando ênfase à necessidade das boas obras como complemento da fé. Ora, um dos grandes pontos de divergência entre o catolicismo e o protestantismo foi e é exatamente o papel das obras na salvação do fiel. É incrível que poucos consigam notar que Dom Quixote é, em grande parte, centrado numa questão teológica.

Cervantes, apesar da defesa que faz da fé do Concílio de Trento, não deixa de criticar o clero católico, especialmente os padres das cortes dos reis e príncipes da Espanha. Cervantes é mais simpático aos padres humildes das paróquias, e não tanto aos que estão no topo da hierarquia.

A primeira parte da obra foi publicada em 1605. A segunda parte em 1615. Algumas críticas que li afirmam que a primeira parte é mais engraçada do que a segunda, mas eu não notei diferença entre as duas. Existem algumas pequenas novelas, que não estão diretamente ligadas ao romance, presentes no livro. Cervantes sofreu críticas por causa disso, e algumas edições as omitem. De minha parte as considero divertidas e não atrapalham o desenvolvimento do livro.

Cervantes também percebeu alguns dos problemas sociais da Espanha de seu tempo que ainda hoje são muito comuns nos países católicos, principalmente. Boa parte da população não trabalha, os jovens não aprendem um ofício, fazendo com que boa parte das cidades sejam território de ociosos e vagabundos. Cervantes, em uma parte da obra, alerta para este problema social de seu tempo.

A Espanha do início do século XVII já entrava em seu período de decadência. Os resquícios feudais estavam entranhados na alma da população. O racismo, com a sinistra noção de “limpeza de sangue”, ou de ser cristão-velho, é-nos bastante atual. O povo ainda vivia das glórias do passado, e a cavalaria medieval, mais do que caduca naquela época, ainda tinha sua influência.

A nova era pós-renascentista não chegou à Espanha. Cervantes até tentou alertar, mas sua nação permaneceu presa ao passado, a indústria não floresceu, a liberdade religiosa nunca existiu, o pensamento ficou preso ao da Igreja, mas esse último problema não foi visto pelo autor.

Dom Quixote até consegue recuperar sua lucidez, abandonando as loucuras da cavalaria medieval; porém, a Idade Média nunca saiu do espírito espanhol. O livro é absolutamente maravilhoso, e não deve ser visto apenas como algo “engraçado”. Cervantes assimilou em sua obra-prima a psique de uma época da mesma maneira que Dante havia feito com o período medieval.


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