Resenha do Proslogion, de Santo Anselmo

Proslogion

 

O argumento de Santo Anselmo
Segundo Santo Anselmo, Deus é algo maior do que o qual nada pode ser pensado. Ora, o insensato diz em seu coração: não há Deus, mas ao ouvir que algo maior do que o qual nada pode ser pensado, entende o que ouve e o que entende está no seu intelecto, ainda que não entenda que isso exista.

Santo Anselmo diz que uma coisa é algo estar no intelecto, outra é entender que esse algo existe. Ele nos oferece o exemplo do pintor que concebe o que vai fazer no seu intelecto, mas ainda não entende que exista o que não fez. Ora, aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado não pode existir apenas no intelecto. Anselmo completa: se está apenas no intelecto pode pensar-se que existe na realidade, sendo assim maior. Portanto existe algo maior do que o qual não é possível pensar-se não apenas no intelecto ,mas também na realidade. Não podemos pensar que Deus não exista, pois não é possível pensar em um ser acima do criador
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Tudo o que existe além de Deus, segundo Santo Anselmo, pode ser pensado como não existente, pois tem menos ser. Esse pensamento de Santo Anselmo iria encontrar um adversário em Gaunilo, que argumenta que toda uma série de proposições e entidades poderiam no nosso intelecto serem considerados como maior do que o qual não pode ser pensado. Gaunilo diz que o argumento do pintor não se adapta a este pensamento, pois aquela pintura antes de ser executada encontra-se na própria capacidade artística do pintor.

Ele conta a história a respeito de uma ilha que existiria em algum lugar do oceano, que ele até admitiria a sua existência, mas nega que a partir disso possamos dizer que todas as outras ilhas lhes sejam inferiores, e que aquela ilha existente não apenas em seu intelecto como também na realidade seja a mais valiosa, a qual nenhuma outra possa se comparar.

Outro argumento de Gaunilo: não podemos pensar que não existimos, quando temos certeza de que nossa existência é certa; mas se posso pensar que minha própria existência é incerta, por que não imaginar que o próprio Deus não exista?

A resposta de Santo Anselmo viria rapidamente. Anselmo refuta o argumento da ilha, pois dela poderá se dizer que teve início e terá um fim. O Santo também afirma que se algo maior do que o qual não pode pensar-se não se segue que tal esteja no intelecto, nem que se está no intelecto haja de existir na realidade. Para ele podemos afirmar sem hesitação: se isso ao menos pode ser pensado como existente, é necessário que exista.

Santo Anselmo argumenta que tudo aquilo que pensamos e não existe, se existisse, poderia não existir nem na realidade nem no intelecto; mas algo maior do que o qual não pode pensar-se não pode deixar de existir, se ao menos possa ser pensado.Não é possível ser pensado como não existente algo maior do que o qual não possa pensar-se.

Santo Anselmo diz que podemos sim pensar que não existimos enquanto sabemos que existimos. Explicando melhor: nada pode ser pensado não existir enquanto se sabe que existe e tudo aquilo que existe, exceto Deus, pode pensar-se que não existe mesmo quando se sabe que existe.

A argumentação de Santo Anselmo é sofisticada e difícil de se refutar. Santo Tomás e Kant tentaram descontruí-la, e Descartes e Hegel defenderam-na.É algo que ainda hoje nos faz pensar.

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Sistema Nacional de Economia Política, de Friedrich List

List

 

List estava certo
O grande economista alemão Friedrich List era um apaixonado defensor do protecionismo e do nacionalismo econômico. Ele demonstra através do exemplo de diversas nações como a Inglaterra, os Estados Unidos, a França e a Alemanha como se deu a industrialização nesses países, e a razão do fracasso da indústria manufatureira em outros, como a Espanha e Portugal.

A Inglaterra e os Estados Unidos são o exemplo de como o protecionismo comercial no início da industrialização leva ao sucesso de todo o processo, e de como a abertura em estágios iniciais feita por Portugal e Espanha levam ao desastre e a miséria.

A Inglaterra é tida por List como o grande exemplo de sucesso do governo que protege a indústria manufatureira. Os ingleses eram mestres do protecionismo e da arte de fraudar as alfândegas de diversos países.

Os ingleses deram um grande salto na sua industrialização através do tratado de Methuen que, ao contrário do que acreditava Adam Smith, foi um desastre para Portugal, pois inundou o país de bens manufaturados na Inglaterra, ao mesmo tempo em que os ingleses ficavam com todo o ouro e prata do Brasil, sendo que eles utilizavam esses metais para comprar bens manufaturados na Índia, os quais eram vendidos com um preço baixo para o continente europeu, destruindo assim as indústrias da Alemanha e França, por exemplo.

Esse tratado destruiu a indústria portuguesa e deu um grande impulso à indústria e riqueza da Inglaterra. List também considera que a liberdade religiosa e de pensamento são fundamentais para a industrialização. Essas virtudes a Inglaterra possuía, mas era desconhecida em Portugal e na Espanha por causa da Inquisição.

Se olharmos para a história recente, veremos que países como a China, o Japão, a Coréia e mesmo a Alemanha, no início de sua industrialização, fizeram o que List pregava: a importação de matérias -primas e a exportação de manufaturados, isso aliado a um câmbio desvalorizado e competitivo.

Resenha: A Cidade de Deus, de Santo Agostinho

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Santo Agostinho sempre foi considerado um teólogo de inspiração platônica mas, quando lemos sua obra principal, A Cidade de Deus, e a comparamos com a sobriedade das metafísicas de Plotino, Proclo, Jâmblico e Damáscio, vemos que o seu platonismo fica já obscurecido pela teologia bíblica. Agostinho dá um tom excessivamente bombástico e emocional ao seu texto, talvez porque misture a uma tentativa de filosofar teologia e história. Este caráter histórico de seu texto é um dos grandes pontos fracos do Cristianismo, e mesmo filósofos muçulmanos criticam este aspecto da religião cristã. Quando a filosofia é diminuída para dar espaço a uma religião que pretende ser histórica, e que vê seus antecessores como meros pretextos para seu aparecimento, a razão cede lugar para o emocional. [Read more…]

Resenha de Quando Nietzsche Chorou, de Irvin Yalom

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Nietzsche e a psicanálise
Nesse livro, Yalom narra o nascimento fictício da psicanálise. O Doutor Josef Breuer é chamado por Lou Salomé para tratar de seu amigo atormentado Friedrich Nietzsche. Conseguindo se aproximar do filósofo, que já tentara vários médicos, Breuer vai aos poucos tentando ganhar sua confiança; mas não é bem sucedido.

Então em uma atitude desesperada, propõe a Nietzsche que os papéis sejam invertidos; ele será o paciente e Nietzsche o médico. O resultado é surpreendente.

Breuer tentará encontrar na filosofia de Nietzsche a solução para conseguir se livrar da fixação sexual por uma paciente. O Doutor Breuer é um paciente desesperado que busca a solução para sua falta de crenças e, aflito, diz a Nietzsche que não sabe como e por que viver.

O filósofo não dará a resposta que Breuer precisa, e ele terá que em um processo de introspecção que Yalom narra com maestria, buscar seu processo de cura.

Esse seria o futuro da psicanálise: o próprio paciente expressando seus sentimentos através da fala encontra a salvação- pois o filósofo existencialista Kierkegaard já havia dito que a palavra é o que salva. Assim se livrando da angústia que mantinha em silêncio, o paciente encontra ele mesmo a solução para os seus problemas.

Nietzsche confronta Breuer com sua doutrina do eterno retorno. Cada ação não realizada volta à sua consciência por toda a eternidade. Essa é uma questão que atormenta muitos pacientes. Será que minha vida poderia ter sido melhor ou diferente? Nietzsche já havia dado a resposta em “Assim falou Zaratustra”: ” O que importa que você não tenha sido feliz? Quantas coisas são possíveis ainda!”

Então quais são as opções para Breuer? Viver a paixão com sua paciente violando assim a ética médica, ou permanecer com o amor de sua mulher e filhos? Com a ajuda da psicanálise, Breuer encontrará a resposta.

Yalom escreveu um livro convincente e que faz o leitor refletir.

Resenha de A Ditadura Envergonhada, de Elio Gaspari

Ditadura envergonhada

 

Os militares e o golpe de 1964
“Ignorar aquilo que aconteceu antes de você nascer, é permanecer para sempre uma criança” (Marco Túlio Cícero)

Para pessoas como eu, que só viveu um pequeno período da ditadura, esse pensamento de Cícero serve de alerta para que não voltemos a cometer o mesmo erro, e que valorizemos o valor da liberdade e da democracia.

Gaspari fez uma ampla pesquisa no Brasil e nos EUA para publicar um livro que, inicialmente, resumiria-se a história de Geisel e Golbery; no entanto, quando ele se deu conta, o livro já contava histórias de personagens diversos que participaram do golpe de 64 e dos governos militares que se seguiram. Em a ditadura envergonhada, Gaspari relata os últimos momentos do governo João Goulart e os bastidores do exército preparando-se para o golpe. O objetivo do autor é escrever um livro sobre como Geisel e Golbery ajudaram a derrubar Jango, ao mesmo tempo que iniciaram o processo de abertura do governo militar entre os anos de 1974 e 1979. Agora tentarei fazer uma análise dos acontecimentos do primeiro livro da série.

O primeiro capítulo, “o exército dormiu janguista”, narra os últimos acontecimentos do governo João Goulart na presidência. Goulart governava com um frágil equilíbrio de forças e com poder de ação limitado. Gaspari considera-o como uma personalidade fraca. O grande motivo de sua queda foi a reação de alguns setores mais conservadores da sociedade, como o exército e a igreja , às suas propostas de reformas de base. Esse capítulo, porém, exibe uma maior preocupação com os líderes militares e suas ações e reações ao discurso da central do Brasil, assim como as primeiras manobras que viriam resultar na revolução.

O capítulo seguinte ,“ o exército acordou revolucionário” ,é concentrado em algumas figuras como Castello Branco e Costa e Silva, assim como em alguns outros comandantes do exército de algumas regiões do país. Gaspari aproveita o acesso que teve aos arquivos norte americanos para contar a participação do governo Kennedy no golpe militar de 1964. Um personagem que surge com força é o embaixador americano Lincoln Gordon, que deu todo apoio ao golpe e ainda ofereceu ajuda militar, em uma operação conhecida como Brother Sam.

Gaspari dedica dois capítulos para contar a história de como Golbery criou o SNI, inspirado na CIA, e de como Fidel Castro ajudou diversos revolucionários de esquerda, principalmente a Brizola. Uma parte muito boa do livro é aquela em que o autor nos narra os diversos acontecimentos políticos e culturais que estavam acontecendo no Brasil e no mundo nos anos 1960. Tirando o fato de que vivíamos uma ditadura, essa época parece ter sido muito boa para se viver.

O livro também nos faz rir em alguns momentos quando, por exemplo, lemos os ridiculamente reacionários editoriais do jornal O Estado de São Paulo.

A questão da tortura e da espionagem parecem ser uma herança que o governo militar herdou do governo Vargas. Gaspari atribui à direita o início do processo de radicalização da política brasileira no início dos anos 1960. A corrida armamentista produzida pelos revolucionários de esquerda foi consequência da reação da direita.

O livro em alguns momentos é um pouco confuso, faltando a Gaspari a sobriedade e beleza da tradição dos historiadores ingleses aos quais estou acostumado a ler. Em vários momentos o leitor precisa absorver uma enxurrada de nomes e acontecimentos, o que dificulta um pouco a leitura, mas esse período da história do Brasil é muito importante, por isso eu creio que o leitor pode deixar passar essas pequenas falhas do autor.

Para quem pensa em ler um livro que conte como foi o governo João Goulart e um estudo sobre sua personalidade e ideias, esse livro não é recomendado. Trata-se de uma obra que esclarece os bastidores do exército e suas hierarquias, com ótimas passagens que esclarecem a participação americana no golpe, assim como a introdução da tortura e a promulgação do AI-5.

As Limitações da Escolástica

duns Scot

 

As Limitações da Escolástica
Faço a resenha da coleção os pensadores em que só possui a obra de Duns Scot e Guilherme de Ockham. Como me interesso muito pela história e filosofia da idade média, adquiri esse livro. Já estou acostumado com alguns métodos da escolástica pela leitura de Santo Tomás de Aquino e de Santo Anselmo. Portanto tento entender a maneira como esses dois teólogos escrevem. A linguagem que os dois utilizam pode irritar um pouco com as frequentes citações de Aristóteles ( a idade média desconhecia Platão, somente sua obra Timeu), que Santo Tomás cita ainda mais, mas isso está desculpado porque a idade média jamais buscou o rompimento com a filosofia antiga, veja o exemplo de Bernardo de Chartres e seus anões em ombros de gigantes. Foi o gigante Aristóteles quem permitiu que os Filósofos da idade média enxergassem mais longe. Foi Descartes quem primeiro propôs a Tabula rasa em filosofia. Na obra há frequentes repetições das palavras Sócrates, brancura, calor, fogo, etc. Isso me incomodou um pouco.

A idade média cristã acabou por ficar muito dependente dos filósofos árabes e das obras de Aristóteles, mas pelo menos souberam reconhecer os erros do filósofo grego e de Averróis. Na obra de Duns Scot ele tenta provar a unicidade de Deus e o conhecimento natural do homem. É um filósofo um pouco difícil, mas não provocou tanto o rompimento com o pensamento de São Tomás quanto foi com Ockham . Esse último fica mais preocupado em negar os universais e ressaltar a importância do particular. Esse filósofo iria por fim a escolástica medieval, por isso ele é mais bem visto pelos olhos modernos, dado a sua influência para a separação entre fé e razão e filosofia e teologia.

Vamos ao exemplo de Ockham: para ele a afirmação que Deus é uno e trino não pode ser provada por nenhuma ciência, mas apenas pela teologia e a fé. A bondade de Deus também só pode ser provada pela fé. Ockham diz que em vida não conhecemos a Deus nem intuitivamente nem abstrativamente. Esse filósofo e sua negação de que através da razão e da observação de todas as criaturas, da natureza e do universo possamos chegar à conclusão de que existe um criador faz a pessoa cair no extremo do fideísmo. Creio porque creio e nada mais. Isso vai obviamente influenciar Lutero e Kant, mas o desenvolvimento posterior do protestantismo, por exemplo, entre os calvinistas e puritanos, a observação da obra da natureza e seu estudo pela ciência foram vistas como um meio de se glorificar a Deus. Isso pode ser lido na obra de Max Weber- A ética protestante e o espírito da capitalismo

Resenha de Hamlet, de William Shakespeare

Hamlet

Morrer…Dormir!…Talvez Sonhar! Uma Crítica de Hamlet
Um dos grandes mistérios da vida se Shakespeare era sua religião. Tendo nascido em um país que se tornou protestante de forma mais lenta do que em outros casos na europa, o poeta e dramaturgo inglês parecia estranhamente próximo ao catolicismo, por seus personagens simpáticos ao catolicismo, e seus dramas e comédias muitas vezes ambientados em um país católico como a Itália.

De maneira muito diferente de seus compatriotas, como o filósofo Thomas Hobbes e o poeta John Milton, que eram abertamente hostis ao catolicismo, Shakespeare apresentava padres, freiras e dogmas católicos de uma maneira muito realista e simpática.

O ambiente de Hamlet, no entanto, parece, de início, ser um drama protestante, pois a história se passa na Dinamarca, e Hamlet volta de Wittenberg, onde estudava, no coração da reforma protestante.Mas isso, na minha opinião, não impede que Hamlet seja uma obra profundamente católica.

A cena inicial mostra alguns soldados que estavam de sentinelas que avistam a alma do falecido rei, pai de Hamlet. Eles então avisam a Hamlet sobre o acontecimento. A alma então fala com Hamlet, e diz que foi assassinada, para a surpresa do personagem principal.

Ela continua sua história: diz que está condenada a vagar pela noite e durante o dia a jejuar nas chamas, até que estejam extintos os pecados de sua vida terrena. Aqui está uma clara representação do dogma católico do purgatório. Não acredito que se Shakespeare fosse hostil ao catolicismo, ou seja, se fosse protestante, jamais criaria uma cena como essa sem condená-la explicitamente.

A alma do pai de Hamlet quer vingança pelo seu assassinato, e ele conta ao filho como foi que tudo aconteceu, tendo sido morto por seu próprio irmão, tio de Hamlet, que torna-se então, amante da rainha.

O espírito lamenta, como católico que era, que tenha morrido sem a extrema-unção, sem confissão e os sacramentos. Hamlet então acredita no relato da alma de seu pai e jura vingança.

O drama da peça começa aí: como o espírito de Hamlet reage ao saber de tamanha traição ao seu pai e a perfídia de sua mãe e de seu tio. Hamlet então diz que há mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor nossa filosofia. Isso tanto pode referir-se à alma de seu pai ter aparecido aos vivos, como a traição que reinava na sua família, que era mais do que todos podiam imaginar.

A forma como Hamlet reage ao saber da verdade de tamanha tragédia é a questão central nesse drama. Hamlet, que era uma pessoa justa, não parece conseguir suportar tamanha história de horror e começa a agir como se estivesse perturbado. Passa a falar com palavras estranhas com sua mãe,seu tio, e sua provável futura esposa, Ofélia.

Então, no meio da peça, Hamlet faz o seu famoso monólogo do ser ou não ser. O que Hamlet queria dizer com isso?

Poderia ser uma reflexão sobre a possibilidade do suicídio em quem está sofrendo com tamanha dor. Hamlet questiona se vale a pena suportar todas as misérias dessa vida, e se o suicídio seria um meio de escapar a tudo isso de maneira válida.

Será que existe alguma coisa depois da morte? Isso é o que Hamlet questiona. A resposta ele mesmo encontra em sua consciência cristã quando pensa na existência de uma outra vida, e na possibilidade que o inferno realmente exista, porque ele tem medo de que evitando os males de nosso mundo, possamos cair um tormentos ainda maiores no inferno, que é o local que ele imagina que exista de verdade.

Hamlet então rejeita o amor de Ofélia por causa da sua obsessão com a vingança; Ofélia vê-se rejeitada por Hamlet e termina se suicidando. Hamlet contempla a possibilidade de se tornar um assassino para fazer justiça. Essa é também a questão de saber se ele deve ser ou não ser um assassino. Em Hamlet, existe a possibilidade de que o filho ame a própria mãe, e seu desejo era o de matar seu tio justamente para viver esse caso proibido. Teria também desejado a morte de seu pai secretamente, mas foi surpreendido pela notícia de que sua própria mãe era responsável pela tragédia. Essa é uma interpretação psicológica do drama.

Eu prefiro a interpretação cristã. Hamlet é a própria existência do pecado original, em que o homem deseja o mal em sua alma. Lembra a advertência de Deus ao próprio Caim dizendo para que ele se controlasse, pois se isso não acontecesse, o pecado estava à porta, e isso seria o desejo de Caim, mas que sobre o pecado, ele deveria dominar e triunfar.

Shakespeare conhecia essa passagem da Bíblia, e a reproduz em Hamlet. Primeiro ele se sente triste e abandonado; não sabe o que fazer. Com isso segue que o desejo de vingança domine a sua vontade, e que o pecado do assassinato torne-se o seu desejo dominante. Com isso, como no livro do Gênesis, Hamlet estava com o pecado na porta de sua imaginação, no entanto, como Caim, Hamlet não foi forte o suficiente para suportar a provação e deixou-se dominar pela tristeza, que era conhecida pelos medievais como um dos sete pecados capitais.

Não irei contar o final, mas como em outras peças de Shakespeare, o mal triunfa, pois o dramaturgo inglês, como percebeu o filósofo alemão Schopenhauer, queria mostrar ao homem o próprio pecado de termos nascido. É o própria queda do homem e a maldade que reina em seu coração e mente, que Shakespeare pretende reproduzir em seus personagens.

A peça é dramática e tem momentos tensos e profundos, como quando Hamlet questiona se o suicídio é uma saída para os sofrimentos desse mundo. Nunca vi essa peça, que deve ser ainda melhor assistida do que lida. Uma obra fundamental para entendermos o próprio sentido do sofrimento e da vida.

Resenha de Hitler, Volume 2, de Joachim Fest

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Hitler e a Alemanha
Joachim Fest diz que a Alemanha do início do século XX, apesar de seu progresso econômico, convivia com uma atmosfera romântica, onde sobressaíam figuras míticas de deuses antigos. Havia um espírito pessimista romântico e um culto do folclore germanístico. Os sentimentos de hostilidade à civilização foram associados ao nacionalismo, ao darwinismo social e ao racismo. Nietzsche havia declarado que ” a índole dos alemães era hostil à idade das luzes e subsistia uma adoração pelo passado, não dando lugar aos objetivos renovadores futuros. Substituiu-se o culto da razão pelo instinto”.

Fest culpa Richard Wagner por mobilizar a arte para condenar o mundo moderno. O resultado era o pessimismo a respeito do futuro, a angústia relativa à raça, o ideal antimaterialista, o temor diante de uma era de liberdade e igualitarismo, com o pressentimento de um declínio próximo.
Uma característica do fascismo é o culto dos sonhos mortos dos seus antepassados e o gosto pelo folclore. Na Alemanha os resultados foram o culto das danças populares, a festa do solstício de verão e a exaltação das mães de família de prole numerosa. Fest cita Thomas Mann que referiu-se a isso como “uma explosão arcaica”.Ao contrário do que pensavam os reacionários, Hitler não pensava de forma alguma ressuscitar os velhos tempos. O que ele pretendia era um reavivamento do instinto. Será que podemos ver aí uma influência de Nietzsche? O que o fascismo tinha de superior ao comunismo era que ele compartilhava as angústias da civilização e conferia um certo encantamento à vida cotidiana. O fascismo era uma rebelião a favor da ordem. Mussolini falava com desprezo da “deusa liberdade”. Podemos perceber essa mentalidade hoje em dia em que muitos no Brasil desejam sacrificar a liberdade a favor de um governo forte e autoritário, que promova uma suposta “ordem”.

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Hitler colocou no Mein Kampf o seu nacionalismo, seu anticapitalismo, seu culto à tradição, seu desejo de expansão, seu antimarxismo e seu antissemitismo. Hugh Trevor-Roper em uma descrição impressionante fala sobre Hitler:” faz lembrar uma antiga estátua bárbara erguida em meio a detritos de todos os dejetos intelectuais dos séculos passados”.

Hitler compartilhava com a direita católica o pavor da revolução de esquerda latente desde 1789 e soube compartilhar essa angústia com o povo. Sua mentalidade tendia a ter predileção pelas eras glaciais. Seu amigo Kubizek já havia notado a tendência de Hitler de “passar por cima de milênios com a maior calma”.Sua obsessão em combater os judeus era porque se considerava “a outra força” escolhida para salvar o universo ” e repelir o mal para os domínios de Lúcifer”. Ele disse de maneira blasfema: ” defendendo-me contra o judeu, luto pela obra do senhor”. Acreditava que a mistura racial e a contaminação do sangue eram os responsáveis pela decadência dos povos. Podemos ver o ódio de Hitler à União Soviética que ele associava ao judaísmo, e assim entendemos a simpatia despertadas entre tantos do clero católico e do protestante.

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Fest reconhece que houve no nacional socialismo traços propriamente alemães, mas eles são de uma natureza mais distinta e complexa do que se possa imaginar. A consciência alemã não conseguia aliar-se às tendências democráticas. Mas o antissemistismo não era um fenômeno tipicamente alemão. Enquanto Maurras e a direita católica na França invocavam “a glória da deusa França”, Hitler imaginava um império que iria até os Urais e que ele aniquilaria as raças que se opusessem a ele.

A Alemanha sentia pavor de uma revolução e havia um culto da ordem e do estado como um “para-raios” do mal, daí surgirá a fé no Fuhrer. Os alemães sentiam necessidade de proteção. Fest acredita que a falta de cultura política e as ideologias de tendência mitológica de Wagner são a chave para se compreender a chegada de Hitler ao poder.Wagner escreveu:” um político é repugnante”. Thomas Mann tinha ele mesmo um caráter romântico, afastado da realidade e sentia uma nostalgia por uma política apolítica.

Surge então uma das características do nazismo: a ideia de redenção pela arte. Apesar de eu gostar de Schopenhauer, seu caráter apolítico me incomoda. Fest o critica por tentar fazer da música uma solução para as tragédias da vida. Richard Wagner tentou fazer do teatro ” o fim da política e o começo da humanidade”. Para ele a política deve se tornar um grande espetáculo, o estado uma obra de arte e o artista deve tomar lugar do homem de estado. Walter Benjamin chamou o fascismo de “estetização da política”. Para Hitler nada havia fora da arte.

Fest conseguiu nesse livro explicar como o fenômeno do nazismo pôde acontecer na Alemanha. Angústia pela revolução, culto da arte e da mitologia, desprezo pela política e racismo diferenciavam a Alemanha de outros países.

Resenha de Hitler, de Joachim Fest

hitler

A ascensão de Hitler ao poder
Essa é a melhor biografia de Hitler disponível. Joachim Fest mostra como um jovem obscuro, que levava uma vida sem objetivos, conseguiu chegar ao poder.Fest atribui ao caráter apolítico do povo alemão influenciado principalmente por Richard Wagner,a angústia do presente e negação estetizante de realidade, os fatores decisivos para que Hitler pudesse conseguir seus objetivos.Os alemães acreditavam na salvação pela arte e estavam mergulhados em mitologia, desprezando a política.O livro se concentra mais na chegada de Hitler ao poder do que no período da guerra. O autor não explica a origem do ódio de Hitler aos judeus, e isso acaba sendo uma parte que não fica bem esclarecida. Segundo o historiador Friedrich Heer, a origem do ódio de Hitler aos judeus está na cultura austríaca e nas deficiências do catolicismo. Mas Fest não fala sobre isso. Também não concordo com a tentativa de Fest de incriminar Schopenhauer pelo nazismo. A filosofia de Schopenhauer nada tinha em comum com as obsessões de Hitler.O ditador alemão via a si próprio mais como artista e arquiteto do que como político, e o aspecto teatral do regime nazista, com a influência de Wagner, a quem Hitler idolatrava, é bem destacado no livro.O capítulo “a visão” é o melhor do livro. Mostra a visão da história que Hitler tinha e suas imagens apocalípticas de “eras glaciais” e “milhões de anos”.O que fica claro é que Hitler era muito mais revolucionário e moderno do que seus adversários conservadores.

Joachim Fest fez uma afirmação polêmica no início do livro: a de que Hitler teria sido um dos maiores alemães se tivesse morrido em 1938. Na obra de John Lukacs, ” o Hitler da História”, podemos ver por que isso poderia ser verdade: Hitler dimimuiu drasticamente o desemprego, aumentou a taxa de natalidade alemã e fez com que o número de suicídios entre os jovens diminuísse muito.

Fest escreve muito bem e considero esse livro muito superior à biografia de Ian Kershaw.

Análise das Pinturas de Bruegel

Bruegel

A beleza das paisagens e da vida camponesa
Sabe-se pouco sobre a vida de Pieter Bruegel, mas a genialidade e beleza de seus quadros é indiscutível.

Vamos analisar alguns de seus principais quadros. [Read more…]