Compêndio de História da Filosofia, de F. J. Thonnard

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Excelente para o estudante de filosofia
Santo Tomás disse que o fim da filosofia não é saber o que os homens pensaram, mas sim qual é a verdade das coisas. Essa presente obra de Thonnard nos ajudará nesse caminho. Os primeiros filósofos gregos procuravam a explicação das coisas na causa material, o sujeito permanente das mudanças. O capítulo sobre os filósofos pré-socráticos é excelente, destaque para Zenão de Eleia e Anaxágoras.
Sócrates dizia que o homem é feliz nessa vida na medida em que é virtuoso; mas esse era o ideal pagão, que apesar de bonito, não pode ser realizado em virtude da natureza decaída, sem o auxílio da Graça.
Platão e sua doutrina das Idéias vai cair em dois erros: o realismo exagerado, que será resolvido por Aristóteles e São Tomás com o realismo moderado, e o Inatismo, ou o problema das origens das idéias, já que Platão parece fascinado pela nobreza do espírito que é da família de Deus, e esquece que pela sua união com o corpo pertence também à família dos viventes sensíveis. Aristóteles irá corrigi-lo com sua doutrina do ato e potência ou intelecto agente.
Platão irá ignorar a causalidade criadora de Santo Agostinho e São Tomás porque para ele a matéria preexiste à ação de Deus. O pensamento platônico será marcado pelo dualismo entre o mundo sensível e o ideal; entre corpo e alma; e entre os direitos do indivíduo e os do Estado.

***

Aristóteles irá estabelecer o realismo moderado seguindo o princípio de que “o objeto formal proporcionado da inteligência é a essência das coisas sensíveis, ainda que seu objeto seja o ser”. A doutrina de Aristóteles sobre ato e potência pode ser definida assim: Um princípio que se chama ato, ou seja, os objetos são o que são; potência: é um princípio de imperfeição. Ele nos dá o exemplo do mármore e sua realidade evidente: a capacidade de ser esculpido: é a potência. Esse conceito de ato e potência é muito importante hoje em dia no debate sobre o aborto. Aristóteles é mais realista, mas menos metafísico do que Platão. Aristóteles defenderá a eternidade do mundo, que são Tomás reconhece que sem o auxílio da revelação, é uma hipótese até que provável. Ele nega a existência de idéias inatas e nem a reminiscência platônica. Todas as idéias são recebidas ao contato com a experiência.
Aristóteles proclama a virtude como o caminho para a felicidade, mas lhe faltava a noção de dever, que São Tomás iria colocar na vontade de Deus como seu único fundamento sólido.

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Agora Thonnard nos fala sobre o período de transição moral que começa com Epicuro, filósofo que considerava o prazer o soberano bem. Para Epicuro é no equilíbrio calmo do corpo que está o verdadeiro prazer. No pensamento de Epicuro o bem soberano do prazer não é um estado negativo, mas um bem estar positivo que obstáculo algum consegue deter. Sua fórmula é: “ a felicidade do sábio está na vida de equilíbrio e moderação”. Epicuro tentou libertar o homem de três temores: o temor do destino, o da morte e o da superstição. Sobre o temor da morte as palavras de Epicuro são bonitas: “a morte não tem império nem sobre os vivos nem sobre os mortos: uns não sentem ainda os seus golpes e os outros que já não existem, estão ao abrigo de seus danos”. A moral de Epicuro pode ser vista em nossos dias pelos nossos burgueses com seus gostos moderados, sem grande ambição moral, preocupado com a saúde do corpo e sem se preocupar de forma alguma com os problemas metafísicos. É assim que a historiadora Régine Pernoud irá definir o burguês.

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Na transição mística o maior nome é o filósofo neoplatônico Plotino, que de Platão irá herdar a doutrina da distinção entre o mundo real, que é a idéia, e o mundo sensível, que é a sua imagem.Em um pensamento impressionante, Plotino dirá:” todo o ser perfeito produz sem nada perder, uma imagem dotada em relação ao seu modelo ao mesmo tempo de semelhança e de degradação; de imanência e de distinção real.” Assim o ser supremo não pode ser nem cioso de sua perfeição, nem impotente para comunicar. Deus há de comunicar a sua perfeição. “ bonum est diffusivum sui”. O bom se difunde por si mesmo.

Sua teologia negativa diz que Deus é “ o Uno que não faz número com qualquer outra coisa; é medida e não medido: apenas se pode dizer que é o além. Dizemos o que não é, não dizemos o que é”. Thonnard diz que essas concepções de Plotino não se afastam da teoria tomista segundo a qual não conhecemos Deus naturalmente senão mediante coisas análogas que se exprimem em perfeições puras. Plotino é muito profundo. Falando sobre Deus ele diz:” Beleza primeira,beleza integral, não há Nele coisa alguma onde sua beleza seja deficiente”. Ele continua: “ para que tentar mudar, se possui toda a bondade? Para que tentar engrandecer-se se é perfeitíssimo?” Possui assim “ a verdadeira eternidade da qual o tempo, que envolve a alma …é imitação.”

A psicologia de Plotino define o homem como corpo, feito de um material sensível e corruptível, e de um elemento espiritual e eterno, a alma racional e a inteligência intuitiva.Pelo elemento espiritual que nos constitui na dignidade de homem, cada um de nós realiza uma das múltiplas forças unificadas na alma e uma das múltiplas forças unificadas na inteligência. Dessa definição de homem de Plotino surgirá um tríplice corolário: a imortalidade da alma, as faculdades da alma, que ele classifica em dois grupos: o espírito e a intuição; e o progresso da alma. Plotino diz:” A inteligência é nossa sem ser nossa: é nossa quando nos servimos dela”.

Temos então a lei da aspiração em Plotino. A lei do regresso, porque todo o ser deseja a sua união com o Uno. “todos os seres enquanto não possuem o bem querem mudar; desde que o possuem, querem ser o que são”. A lei do recolhimento, porque quanto mais o homem entra em si, mais se eleva para Deus. “ existe afinidade entre as coisas íntimas e as coisas sublimes… a altura e a profundidade dão-se o beijo da paz”. Por último, a lei da purificação que é a supressão do sensível e do corpo. Thonnard esclarece que na ascese católica o conflito não é entre o corpo e a alma, mas entre duas vontades, e não se trata como em Plotino de abandonar o corpo ao seu caminho, mas de submeter à razão e à fé.

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Para Santo Agostinho a irradiação criadora não é, como pretendia Plotino, natural e necessária, mas Deus produziu o universo em plena independência por um ato de liberdade absoluta, porque a necessiade implicaria em uma carência real naquele que é a plenitude de todo o bem.

Santo Agostinho refuta os gnósticos e demonstra que o mal físico existe porque toda a criação supõe uma degradação, e que esta não pode ser evitada ao menos que não se crie coisa alguma. Deus poderia ter criado apenas os anjos, mas produzindo seres inferiores, estendeu assim até eles a sua bondade, o que é um bem.

Santo Agostinho é um grande defensor da liberdade, e admite o poder de produzirmos os nossos próprios atos. “não se merece, diz ele, nem censura nem suplício quando se não faz o que é impossível fazer-se”. Para ele o nosso livre arbítrio tem necessidade da Graça para gozar a liberdade de maneira perfeita e verdadeira, que o pecado lhe fez perder. O poder de escolha entre o bem e o mal não é essencial à liberdade. A liberdade plena e perfeita é sempre um ato bom que vem inteiramente da Graça, antes de ser nossa própria obra.

Na doutrina de Santo Agostinho, Deus é como um foco cuja irradiação se estende ao longe e perde, com a distância, a sua intensidade e a sua riqueza. Essa doutrina da degradação progressiva foi adaptada dos neoplatônicos. Quanto mais subimos na escala dos seres melhor estes nos apresentam a imagem do seu autor. Podemos citar Dante que expressou em versos sublimes essa doutrina Cristã:

A glória Daquele que tudo move,
pelo universo penetra e resplandece,
em uma parte mais, menos noutra.

Outros versos:

“Todas as coisas”, começou no instante,
“têm ordem entre si, e esta é a forma
que a Deus faz o universo semelhante.

Vêem altas mentes que ela se conforma
aos signos do Senhor, o qual é o fim
para o qual é voltada aquela norma.

Na ordem de que eu falo é que assim
cada ser mais ou menos se reporta
próximo à fonte sua,da qual,ao fim

movendo-se, a diversa terra aporta,
pelo grão mar do ser, na qual atua
com o instinto que lhe é dado sempre o porta.

esse é o que leva o fogo para a Lua;
dos corações mortais esse é o fautor;
esse é que a Terra molda e perpetua;

nem só os seres carentes do valor
da inteligência esse arco arremessa,
mas os dotados de intelecto e amor.”

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A filosofia de Duns Scotus é caracterizada por uma falta de confiança na razão.Para Duns Scotus, Deus criou o mundo e continua a conservá-lo e a dirigi-lo com liberdade plena. Esse é o voluntarismo de Duns Scotus. Para ele todos os agregados que constituem os seres do universo não obedecem a leis necessárias e dependem apenas da livre vontade de Deus. Para Duns Scotus ” a natureza espiritual da alma não demonstra a necessidade absoluta da sua imortalidade, senão seria necessário negar a Deus, que pode todo o possível, o poder de a deixar cair no nada”. Para ele Deus poderia tornar um ato meritório do céu sem a Graça. Poderia justificar um pecador e dar a graça sem levantar o pecado. Os deveres que regulam as relações dos homens entre eles são de direito à livre vontade de Deus. Assim Deus poderia declarar o ódio ao próximo uma virtude.

***

A filosofia moderna se inicia com Descartes, que propõe a dúvida universal. Thonnard censura a Descartes por sua dúvida universal metódica. Para ser verdadeiramente metódica, deve possuir duas qualidades: Deve ser puramente negativa, fruto de uma simples ausência de razões, e não fundada sobre razões fortíssimas, e a dúvida deve cessar diante de todas as certezas que chamamos de necessárias, porque se impõem pela evidência imediata.

Para Descartes o espírito reflete o mundo real que traz em si; para Kant, o espírito fabrica o mundo real que objetiva fora de si; para Santo Tomás, o espírito assimila o mundo real que vem de fora para ele.

Em sua prova da existência de Deus, Descartes dirá: “nada há em si mais claro e manifesto que pensar que há um Deus, isto é, um ser soberano e perfeito em cuja ideia exclusiva está compreendida a existência necessária ou eterna, e que, por conseguinte, existe”. Descartes ressuscitou o argumento ontológico de Santo Anselmo que Santo Tomás já havia refutado. Ressuscitará também o voluntarismo de Duns Scotus afirmando a livre vontade de Deus. Descartes declaradamente rejeita as filosofias que o precederam e afirma que só consegue se aproxiamr da verdade se afastando do caminho dos antigos.

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O capítulo sobre Plotino é um dos melhores do livro. Não conhecia esse filósofo e acabei ficando impressionado com a sua profundidade.
Esse livro é muito bom para estudantes de filosofia, pois é muito bem escrito e analisa muito bem os diversos filósofos. Há vários capítulos sobre a filosofia medieval, Descartes, Hegel, Marx, até Bergson. Tem a vantagem de ser antigo, pois creio que antigamente os autores exigiam um maior esforço por parte do leitor. O estudante de filosofia precisa de livros como esse, que o estimulem a pensar. Tudo o que é fácil demais em filosofia é para se desconfiar.

Comments

  1. Lucas Finotti says:

    Parabéns pelo artigo. Onde eu posso adquirir esse livro?

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