Nietzsche e o Triunfo da Vontade

Triumph of the will- crowds

A vida é vontade de poder
Nietzsche faz nesse livro, A Vontade de Poder, um poderoso ataque contra a moral, que ele define como instrumento de dominação dos mais fracos e medíocres contra os homens de exceção. Ele diz que o grito de protesto do homem comum é dizer que o não aristocrático é o mais elevado, e o dos medíocres que o mediano é o que é superior.

A história demonstra que a moral exprime-se como uma vontade de poder, em que os fracassados e medíocres tentam impor juízos que lhes são mais favoráveis. Para Nietzsche, a moral é um contramovimento em relação aos esforços da natureza para conduzir a um tipo mais elevado.

A falta de coragem para si mesmo foi ensinada como a coisa mais desejável, e esse é um dos grandes crimes da psicologia para o filósofo.Nietzsche considera que o ódio contra os privilegiados da alma, contra os homens orgulhosos e confiantes, e a desconfiança em relação à beleza, ao orgulho e a alegria é o que move a história.

Ele reconhece a validade da ambição ao poder, os privilégios e o egoísmo como crenças e objetivos válidos, e também é contra toda a crença de que somos todos iguais ( como no Cristianismo e Socialismo).

Pode-se questionar a ideia de Nietzsche de desprezo aos fracos,humildes e doentes como algo perigoso. Ele acredita que o Cristianismo é uma aliança dos fracos que impede a seleção dos melhores pela natureza, Nietzsche usa palavras fortes para questionar o Cristianismo por evitar que ninguém seja sacrificado, pois para ele o autêntico amor humano exige o sacrifício para o máximo bem da espécie. Toda essa ideia se aproxima perigosamente da crença nazista de seleção dos “melhores” e do domínio de uma raça aristocrática.

Nietzsche produz uma curiosidade sobre sua filosofia. No entanto, algumas de suas ideias são um tanto perigosas, como vimos no caso do nazismo. Hitler e seus seguidores certamente herdaram de Nietzsche algumas crenças, por exemplo, o culto do instinto e a afirmação da vontade de poder. Hitler era um fanático por esse pensamento de que a vontade seria o suficiente para conseguir vitórias. O filme de Leni Riefenstahl ” O Triunfo da Vontade”, apesar de ter uma bela técnica, mas uma péssima mensagem, demonstra bem como o culto da vontade estava enraizado na mentalidade nazista.

***

Uma análise mais detalhada de sua filosofia demonstra que o filósofo alemão realmente é atraente para adolescentes e jovens que nada entendem de filosofia. Nietzsche tenta destruir todo o edifício da civilização ocidental, pregando a revolta contra a metafísica de Platão, a moral cristã e os valores da compaixão com os mais fracos. Sua filosofia é irracional, revelando a influência de Schopenhauer, que colocava a vontade na frente da inteligência. Para quem não lê as obras da filosofia grega e cristã, Nietzsche parece um grande pensador, porque atira para todos os lados, dando a entender que entende de vários assuntos.

O nazismo foi uma mistura de falhas do catolicismo, de nacionalismo alemão, de aversão à política com a tentativa de redenção da sociedade pela arte, por influências de Schopenhauer e Wagner, mas também da afirmação de Nietzsche de que a vida é a vontade de poder. Não há mais a moral cristã, nem ética Kantiana; Deus está morto, pois esse mesmo péssimo Kant foi quem destruiu a metafísica. O que Nietzsche propõe em seu lugar? o cada um agir por instinto, fazendo o que quer, pois a razão é uma quimera. A lei do mais forte, dos mais inteligentes e belos passa a ser a regra.

O que esse filme nazista O Triunfo da vontade reflete é o culto da força e da veneração pelo homem superior que aboliu a moral ( Hitler).  A filosofia de Nietzsche é uma grande especulação gnóstica( como definiu Eric Voegelin), em que a moral deixa de existir, mas nada é oferecido em seu lugar. Como no gnosticismo antigo, esse novo homem está além do bem e do mal. Esse além do homem de Nietzsche é aquele que renegou os valores da razão, religião e metafísica, para cair em um vazio moral e espiritual, cujo resultado só pode ser a loucura que afetava o próprio Nietzsche. Quem tiver renegado à razão e for louco para experimentar na prática a filosofia de Nietzsche que o faça. Só que o preço a se pagar é alto.

Comments

  1. Alexandre says:

    Superficial como quase cada texto desse blog.

    Nietzsche não criou um sistema ético, propôs a destruição da sacralização dos sistemas morais então em voga e passou a limpo toda a história e sob que circunstâncias as valorações morais nasceram.

    E a vontade de poder não era a ambição pura e simples, posto que esta seria uma externalização da vontade e o próprio Nietzsche concebia a vontade de poder como a força primária agindo e guiando todo o comportamento humano, e não como algo a ser buscado, alcançado ou seguido. Vontade age sobre vontade e isso geraria múltiplas cadeias de instintos contrários, provenientes dos mesmos impulsos básicos. Assim, todo e qualquer comportamento não deve ser compreendido sob a luz das ações a que induz, mas das inclinações subjacentes dentre as quais floresceu. A partir da análise dos elementos constitutivos por meio do método indutivo que visa partir de situações particulares e então chegar a juízos universais, e em seguida inverter e partir para a dedução, é possível traçar a genealogia da moral – a longa e intermitente cadeia hierárquica que constitui o simples ato de pensar. O altruísmo não se opõe ao egoísmo, mas na verdade, é um desenvolvimento posterior do mesmo proceder, por exemplo.

    Vontade de poder é receber a impressão, assimilá-la, destruí-la, transformá-la, moldá-la imprimindo nossa vontade e então dominá-la; isso é apenas uma analogia sobre cada simples ato que realizamos no nosso dia-a-dia, seja na ética que praticamos com relação aos outros, sejam no auto-domínio com relação a si mesmo, seja no ato da busca pelo conhecimento. Queremos ter tudo no nosso controle, mas isso do ponto de vista psicológico. Vontade de poder é a própria vontade de viver… Não leu A Gaia Ciência e quer falar sobre um conceito tão complexo em termos tão inapropriados?… Nietzsche abominava o nacionalismo, o antissemitismo, a militarização e se louvava a guerra, o fazia do modo que expus: como simples externalização de um processo sadio, mas que necessitava ser direcionado para outros polos, como a arte.

    “fracos,humildes e doentes” não são rótulos sociais ou fisiológicos, mas sim psicológicos e existenciais. Se você lesse a Genealogia da Moral, iria entender. Mas é até mais apropriado lembrarmos que Nietzsche era um sujeito que sofria de sífilis durante todo o processo de seus escritos e que era extremamente pobre. Uma filosofia de darwinismo social só faria sentido se ele fosse rico… Você não o compreendeu.

    A aliança dos humildes que caracterizou o cristianismo em seu início a que ele se referia, não era uma conspiração maldosa e sinistra de sacerdotes furiosos e gananciosos. Na verdade, são os pensamentos que formam o pano de fundo, o subsolo do Sermão da Montanha que ele ataca. A doença do niilismo, do olhar para a vida e culpá-la, exigir uma justificação e etc. estão presentes não apenas no cristianismo, mas em vários sistemas filosóficos e políticos que perpassam a história. O socialismo é basicamente resultado originado da constação da impotência de um ser, a incapacidade de lidar com isso, a inveja dos bem-aventurados, a busca por algozes externos, a condenação e a vingança. Os judeus, como Nietzsche reconhece, era um povo próspero e feliz, e atribuía isso a seu Deus poderoso; mas depois, foi vítima do assalto de vários outros povos e, frente a essas derrotas, alguns setores insatisfeitos criaram as doutrinas apocalípticas onde o Messias viria livrar o mundo dessas injustiças, os pobres, fracos e incapazes seriam abençoados e os ricos, fortes, realizados, receberiam a eterna punição… Ser fraco e pobre passou a ser “virtude”… Ser rico é coisa do mal. Isso é basicamente a mesma agenda das doutrinas de esquerda. O próprio Nazismo seria interpretado por Nietzsche como uma vingança oriunda da fraqueza e do ressentiment.

    E Nietzsche jamais propôs que o homem seguisse puramente seus instintos. Entendendo que a luta entre Senhor e Escravo se efetuava então na própria psiquê humana e não externamente a ele, Nietzsche postulou a vontade de ilusão e o instinto do rebanho como sempre presentes no homem. Você acha que ele buscava torná-los lei e regra?… Não, é claro. Na verdade, ele apenas dizia que a supressão violenta dos instintos é de todo impossível e em suas tentativas fracassadas o homem se sentiria culpado consigo mesmo e com a vida e ficaria doente… Em seu lugar, Nietzsche propõe a santificação ou espiritualização dos instintos.

    Apolo, representa a forma, a razão e Dionísio os instintos. A barbárie desenfreada deste último não o agradava, como vemos em O Nascimento da Tragédia. O agir objetivo, racional, maquinal de Kant era tirar da vida o prazer dos próprios sentimentos; ao mesmo tempo, a incapacidade de auto-domínio dionisíaca levava o homem a expôr-se a situações indecorosas. Era preciso a amálgama dos dois num único componente harmônico. Isso não é apenas estética, mas também psicologia. A moral que construímos deve ouvir nossos sentimentos e não criar sistemas morais que buscam uma “santificação” impossível.

    Consideramos o Cristianismo em seus dogmas.

    Sendo Deus o bem-em-si, ao mal faltaria de todo o caráter ontológico de sua natureza. Mas se Deus é um agente ativo, dotado de inteligência e vontade, o Bem seria o resultado de seus juízos absolutos e o Mal apenas a ausência desse Bem, isto é, a desobediência a ordem de Deus. Mas se Deus se movimenta, se possui sapiência, estaríamos cedendo caráter absoluto e universalidade às simples veleidades de uma entidade suprema e que, em vários casos poderia se revelar caprichosa. Aquilo que ele declara que deve ser feito, independente do que seja, torna-se o Bem e opor-se a isto, o Mal.

    Assim, quando Deus ordena que mesmo as crianças de peito do povo de Amaleque sejam mortas (1 Samuel 15:2-3), ou que o castigo por um homem simplesmente pegar lenha no sábado seja ser apedrejado até a morte (Números 15:32-36), se você ou eu disséssemos que estes seriam atos imorais, estaríamos contrariando as leis de Deus, pecando e com grande possibilidade de irmos para o inferno…

    De qualquer maneira, se temos uma “alma” que se comunica com o Ser-em-si, isto se efetua apenas como uma atividade cognitiva, uma experiência subjetiva a qual ninguém tem acesso. A autoridade de Deus recairia agora sobre “profetas” como Josué ou Moisés, que julgam ser a “vontade de Deus” o genocídio de povos inteiros. Desse ponto de vista, se um homem hoje fizesse como Abraão e decidisse assassinar seu filho como um holocausto para Deus, o que poderíamos lhe objetar?… Tudo o que faríamos era sentar, orar, e esperar para ver se um anjo chegaria a tempo…

    Nossa moral repudia o Antigo Testamento, mas isso por que criamos a nossa moral hoje e ela é válida. A crença se curva frente à mentalidade moderna. Nietzsche acertara.

    “És muito novo”, diz Parmênides a Sócrates, “a filosofia ainda não se apoderou de ti como espero que o faça…” e eu agora te digo o mesmo.

  2. Alberto says:

    Que maravilha de resposta, Alexandre, sua clareza e conhecimento iluminam aqueles que julgam sem o devido conhecimento, parabéns.- Alberto Castro

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