Resenha de O Conceito de Angústia ,de Kierkegaard

Kierkegaard

 

A atmosfera da psicologia é a angústia
A inocência é ignorância, e a ignorância é a angústia. Para Kierkegaard, sem o pecado não há sexualidade, e sem sexualidade, nenhuma história. Com a queda, o pecado entrou no mundo, e ficou estabelecido o sexual.

Para ele, depois que o Cristianismo surgiu no mundo e foi posta a redenção, projetou-se sobre a sensualidade a luz de uma contradição que não ocorria no paganismo, e que reforça a ideia de que a sensualidade é pecaminosa e a angústia é o estado psicológico que antecede ao pecado.

Na parte de psicologia, Kierkegaard demonstra que o demoníaco é a angústia diante do bem e que é hermeticamente fechado. Temos o paciente desesperado, que se refugia no hermetismo, e não sabe que a liberdade é sempre comunicante e não quer se abrir falando. Ele vai dizer: ” Deixa-me em paz na miséria em que estou”. Ele tem que lutar contra duas vontades: uma subordinada, que quer a revelação, e outra mais poderosa, que quer o hermetismo.

Aí entra a psicologia, que ensina que a linguagem e a palavra é justamente o que salva o paciente. A palavra tem sempre um poder libertador. Kierkegaard fala do poder diabólico do silêncio, quando o paciente se fecha e acha que seu problema não tem solução. É preciso comunicar a angústia ao próximo,ou seja, ao psicólogo que quer te ajudar. Como diz o Eclesiastes, ” para quem está na companhia dos vivos há esperança”.

O psicólogo tem de ouvir o paciente em seu desespero dizer: “talvez eu pudesse ter sido salvo em outra oportunidade”. Kierkegaard nesse ponto é profundo, pois o desespero sempre faz a pessoa pensar que é tarde demais para poder ser ajudada pelo próximo, e o que resta é apenas o temor em relação ao futuro. Essa ideia de que talvez já seja tarde demais para se mudar é o que leva muitos ao suicídio. Sempre é tempo para se dar o primeiro passo e tentar ser feliz de alguma maneira.

Para muitos pacientes que sofrem de depressão e outros trantornos mentais, principalmente os mais jovens, o hermetismo é uma armadilha mortal, quando por exemplo, sente medo de ser ridicularizado por sua doença e, principalmente, sente medo em relação ao futuro. O primeiro passo para se livrar dessa angústia e desse temor é se abrir com algum parente ou com o psicólogo. O diabólico é permanecer sofrendo em silêncio e acabar se desesperando. Creio que para quem conhece pessoas nessa situação, ler esse livro é importante.

Kierkegaard lembra que para o psicólogo, a verdadeira simpatia pelo paciente só nasce quando se confessa que o que atinge um pode atingir a todos.

Esse livro é muito bom para quem além de gostar de filosofia, também se interessar por psicologia.É fácil se identificar com o pensamento de Kierkegaard.

Resenha de Hitler, de Ian Kershaw

hitler ian kershaw

A biografia de Hitler, de Joachim Fest, é muito superior
O grande problema do livro é o fato de Ian Kershaw não ser um bom escritor. Seu estilo é chato e burocrático.Vou tentar fazer uma pequena comparação entre essa biografia e a de Joachim Fest.

A descrição da juventude de Hitler em Viena é diferente nos dois autores. Enquanto Kershaw se concentra muito na suposta origem do antissemitismo de Hitler em Viena, e fica muito dependente das memórias do Mein Kampf, Fest demonstra que o que marcava Hitler em sua juventude era seu caráter apolítico, e sua idolatria a Richard Wagner.

O compositor e Hitler tinham em comum o caráter extremado de suas reações e o estado permanente de exaltação, no qual depressões e euforia se alternavam. Sem a ópera e a arte demagógica de Wagner, o estilo representativo do III Reich é inconcebível.

Kershaw nada tem a dizer sobre as influências filosóficas sobre Hitler. Fest escreve sobre a influência do Darwinismo Social e, principalmente, Richard Wagner, com o seu misticismo da depuração de sangue em Parsifal.

Ian Kershaw escreveu um livro longo sem explicar como foi possível que Hitler chegasse ao poder na Alemanha. Joachim Fest explica longamente durante o livro o caráter apolítico do povo alemão. Havia o ressentimento estético-intelectual contra a política e o país estava tomado pelo pensamento mitológico.

Existia um romantismo e uma tentativa de redenção pela arte e fuga da realidade. Foi isso que Hitler ofereceu ao povo alemão: a tentativa de fuga da política através da teatralização da vida cotidiana.Como disse Walter Benjamin, o fascismo é a “estetização da política”.

A biografia escrita por Joachim Fest é muito melhor e mais bem escrita.

Recomendo também a obra Hitler’s Vienna, de Brigitte Hamann, que é muito detalhada e explica a origem de muitas das obsessões de Hitler em sua juventude.

A Guerra da Crimeia, por Orlando Figes

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A última cruzada
No início do século XIX, os russos formavam a maioria dos peregrinos que iam todos os anos a Jerusalém. Esse costume havia perdido muito de sua importância no ocidente, mas entre os russos ainda havia essa fé e crença de que Jerusalém de certa forma fazia parte do território da sua nação. Figes escreve sobre a crescente expansão do império russo iniciada com Pedro, o grande, no início do século XVIII, e a grande fragilidade exibida pelo império otomano. A Rússia cada vez mais inspirada pela ideia de ser a grande protetora dos cristãos ortodoxos nos Bálcãs e na palestina deixou os países do ocidente alarmados, especialmente a Inglaterra, que ainda exibia uma paranoia de achar que os russos queriam expandir seu império até a Índia. Havia uma crescente russofobia entre os políticos da França e da Inglaterra.

Figes atribui a guerra ao imperador russo Nicolau e aos intelectuais eslavófilos, que consideravam a Rússia como a grande mãe protetora dos cristãos e com o dever de recuperar Constantinopla dos Turcos. Ainda existia o fato do imperador francês Napoleão ser um grande reacionário, que via na guerra santa para recuperar o controle de Jerusalém como um meio de conseguir apoio entre os católicos em seu país. A Inglaterra e sua ganância por controlar todo o comércio de todo o mundo também estava interessada em se livrar dos russos e sua concorrência no Mediterrâneo e no Oriente. Em uma aliança improvável, os ingleses uniram-se aos franceses, e esses dois países cristãos uniram-se por sua vez aos turcos muçulmanos.

O livro narra em detalhes o cerco a Sevastopol e também exibe o ponto de vista do escritor russo Tolstoi, que lutou nessa guerra. No fim, a guerra da Criméia acabou sendo a última cruzada, uma guerra com fundo religioso entre governos conservadores e reacionários.

Resenha de A Arte da Política, de Fernando Henrique Cardoso

Arte da Politica

 

Para quem gosta de política
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso relembra no início do livro o começo de sua vida política, passando pelos últimos anos do governo militar, as greves do ABC e pela sua fracassada disputa pela prefeitura de São Paulo . A elaboração da constituinte de 88 também é discutida, assim como a formação do PSDB. Mas o grande destaque do livro do ex-presidente é mesmo o plano real, um fator que mudaria o país.

No governo Itamar, vários ministros da fazenda já haviam sido demitidos, até que o presidente convocou para o cargo o ex-senador e ministro Fernando Henrique Cardoso. Ele logo chamou para apoiá-lo os economistas da PUC-Rio, tendo como objetivo acabar com a inflação.
Foi uma luta árdua. O Brasil estava fora do mercado desde a moratória em 1987, e o futuro ministro da fazenda de FHC, Pedro Malan renegociava a dívida. No Brasil , os desafios eram imensos. Não se sabia o quanto os estados deviam à união; o orçamento público era uma peça de ficção e as estatais eram deficitárias. O Brasil ainda era um país extremamente estatizado.

A inflação gerava lucros para os bancos e os grandes empresários, mas a população pobre e de classe média sofria. O plano real acabaria sendo um sucesso. FHC continua suas memórias falando como se mudou para Brasília, a importância que ele dava à imprensa e o início de formação de seu governo, quando ele precisava escolher nomes para os diversos cargos e ministérios de seu governo. Ele menciona a importância de se costurar alianças, especialmente com o antigo PFL e com o PMDB. É inegável o talento do ex-presidente nessa arte da negociação política.

FHC escreve sobre o projeto de reeleição, que tinha grande apoio popular, e sobre a suposta compra de votos por parte de seu governo para a aprovação do projeto. Nada foi provado, mas nesse episódio fica claro como o PT de então reagia com histeria às denúncias de corrupção no governo por parte da imprensa, essa mesma imprensa que hoje alguns petistas chamam de PIG. Ou seja, contra FHC as denúncias da Veja, da Folha e do Globo valiam, mas contra o PT não valem. FHC teve que enfrentar diversas denúncias de corrupção no seu governo, mas nunca atacou a liberdade de imprensa. Teve que agir rápido quando o senador Antônio Carlos Magalhães abusou de sua confiança.

Creio que o grande motivo de desgaste do governo Fernando Henrique foi a sua insistência na âncora cambial. Isso iria gerar grandes déficits em conta corrente e na balança comercial ao longo de seu primeiro mandato. Mas, pensando bem, o que FHC poderia fazer? Naqueles anos de 1995, 1996 e 1997 o investimento e o consumo explodiram ( devemos lembrar que as vendas de automóveis de 97 só foram superadas quase 10 anos depois), assim como o poder de compra dos trabalhadores. Milhares de pessoas saíram da miséria causada pela inflação e foram lançadas ao mercado de consumo.

Havia no governo o debate entre José Serra e Gustavo Franco a respeito do câmbio. Serra a favor de uma desvalorização cambial e Gustavo Franco defendendo a âncora cambial. Esse debate teria fim em janeiro de 1999 quando o real passou a flutuar. O grande azar de FHC e do Brasil seria que naquela época ainda não havia a China e nem um aumento expressivo do valor das commodities para socorrer nosso país como aconteceu no governo Lula.

O governo FHC teve a seu favor a modernização do estado, a implantação de programas sociais e ,principalmente, uma ampla discussão sobre a importância da educação. Seu governo universalizou a educação básica, criou o provão e o Enem, e fez milhares de pessoas voltarem aos bancos escolares. Creio que o saldo de seu governo, apesar do racionamento de energia e do erro na questão cambial, foi positivo. A partir do ano 2000 com o câmbio flutuante o Brasil passaria a gerar grandes superávits comercias. Pena que FHC só pode aproveitar isso por pouco tempo.

Recomendo o livro para pessoas que como eu adoram política e sabem reconhecer os méritos de nosso ex-presidente.

Resenha de A Saga Brasileira, de Miriam Leitão

Saga Brasileira

 

A conquista da estabilidade pelo Brasil
O Brasil do século XX sofreu intensamente com a inflação. Foram diversos governos, como o de Getúlio, de Juscelino e os militares que ajudaram sim o país a crescer, mas também gastaram mais do que arrecadaram e alimentaram irresponsavelmente a inflação.

O livro da jornalista Miriam Leitão nos fala sobre essa doença que o Brasil sofreu durante décadas sem que uma solução fosse encontrada. Miriam escreve mais sobre o plano cruzado, o plano Collor e o real. O governo Sarney havia herdado do governo militar contas públicas confusas, inflação alta, gastos excessivos, poucas reservas e estatizado no mesmo nível que países comunistas.

Durante o governo Sarney havia o choque de dois grupos de economistas: os da Unicamp, que defendiam investimentos públicos com alguma inflação, e os da Puc-Rio, que julgavam que o corte de gastos e a inflação controlada eram os melhores caminhos. No governo Sarney, os economistas da Unicamp ganharam.

Para aqueles que viveram ( como eu) aqueles dias de inflação alta e falta de produtos nas prateleiras e vendo os fiscais do Sarney , isso pode hoje até parecer engraçado e gerar uma certa nostalgia pela nossa infância. Para os que não viveram , histórias como a operação de caça ao boi no pasto será lida como algo ridículo, mas foi tudo, infelizmente, verdade.

O Brasil herdou uma pesada e perigosa herança do governo militar, como, por exemplo, a conta movimento entre o Banco do Brasil e o Banco Central. Como nos diz Miriam Leitão, um verdadeiro absurdo.
A história do plano cruzado e do plano Collor é contada em detalhes. Miriam intercala sua narrativa com depoimentos de pessoas comuns que viveram aqueles anos dramáticos. O resultado é excelente, pois Miriam escreve bem e transmite segurança em suas palavras.

Miriam narra a chegada ao ministério da fazenda de Fernando Henrique Cardoso e como ele reuniu os economistas da Puc-Rio para lançar a ideia do real. O governo Itamar continuaria o processo de privatização iniciada no governo Collor que ajudaria a modernizar a nossa indústria e a diminuir a inflação.

O plano real acabaria sendo um sucesso, pois a população entendeu o plano e percebeu os benefícios de viver em um país sem inflação. Na época o candidato Lula da silva não percebeu a força do plano e acabou perdendo as eleições no primeiro turno para Fernando Henrique.

Miriam nos conta como Fernando Henrique Cardoso teve um imenso trabalho para estabilizar o país, privatizar a Vale e a Telebras, e desarmar uma verdadeira bomba que eram os bancos estaduais. O PROER seria considerado polêmico, mas ajudou o Brasil a ter um sistema bancário seguro, moderno e eficiente.

Considero que o governo Fernando Henrique foi injustiçado nas suas estatísticas sobre o crescimento do PIB. Nos três primeiros anos de seu governo o consumo explodiu ( a venda de veículos, por exemplo, de 1997 só seria superada quase 10 anos depois), milhares de pessoas alcançaram a classe média e saíram da miséria, e mesmo assim as taxas de crescimento do PIB são ridículas. Acho que o Brasil perdeu muito com isso em termos de investimento externo.

A parte mais interessante do livro para mim é a que narra a crise econômica de 1997 e o dilema do governo sobre se deveria ou não desvalorizar o real. A moeda acabaria sendo desvalorizada, e as previsões de que a inflação voltaria e que o Brasil sofreria uma catástrofe não se confirmaram. Mais uma vez o Brasil foi mais forte.
Miriam Leitão não esconde sua admiração por Fernando Henrique, e nos faz perceber o quanto seu governo foi importante para a modernização do país. É preciso que se diga a verdade: o país não começou em 2003 com Lula nem em 1995 com Fernando Henrique. Na verdade o projeto de estabilização da economia brasileira começou no governo Sarney e continuou com Collor de Melo. Todos contribuíram.

Creio que esse livro é importante para que recordemos todo o esforço feito desde a redemocratização para que o país estivesse atualmente em condições favoráveis na sua economia, e com um futuro que poderá ser brilhante, se mantivermos a disciplina e a vigilância.

Resenha de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

Grande Sertão Veredas

Uma tese sobre o romance de Rosa
“Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado…Você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras vão sempre fluindo…É na mudança que as coisas acham repouso…” Heráclito- Fragmentos

“ O senhor mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.” Riobaldo- Grande Sertão:Veredas

Após um começo com as lembranças confusas do personagem Riobaldo, de repente, na página 116, ele atravessa o rio ainda adolescente, e encontra um misterioso menino de sua idade, pelo qual se sente atraído. Ao narrar a travessia do rio, sua mente passa a organizar melhor as lembranças, e começa, como em um ritual iniciático, a sua vida. Riobaldo é um homem dotado de grande imaginação e de espírito poético. Por longas páginas, Guimarães Rosa narra as aventuras do personagem principal e seu grupo de jagunços pelo interior de Minas, Bahia e Goiás. O sertão descrito pelo autor é um local mágico, habitado por bois, araras, papagaios, pássaros diversos e com os buritis enfeitando a paisagem. A linguagem utilizada por Rosa não tem precedentes em nossa literatura. O autor foi buscar palavras que, às vezes, têm origem no próprio início da língua portuguesa, com diversos arcaísmos.

Riobaldo possui crenças que são um reflexo das crenças do próprio Guimarães Rosa. Como o personagem Riobaldo mesmo diz, ele bebe água de diversos rios. É supostamente católico, mas também aceita ensinamentos do protestantismo e do espiritismo, através de seu compadre Quelemém, que é espírita. É ao mesmo tempo o retrato da fé do homem do sertão, onde o catolicismo quase não penetrou, misturado com crenças diversas, e uma mentalidade gnóstica, onde busca-se o conhecimento acima de tudo.

O romance é uma verdadeira viagem pelo sertão , com o autor descrevendo minuciosamente as paisagens e localidades. Árvores, plantas, pássaros e diversos bichos que povoam o sertão são testemunhas das aventuras dos personagens. Quanto às características do personagem Riobaldo, ele possui uma grande inteligência, assim como senso de lealdade, e como na citação de Heráclito, Riobaldo está sempre se transformando, exibindo um vir-a-ser em sua personalidade e crenças. Acredita em diversas religiões, e está sempre experimentando paixões e desejos sexuais diversos por alguns personagens.

Riobaldo necessita do sexo sem compromisso com algumas prostitutas e também com mulheres casadas, onde a paixão não existe. Mas Riobaldo também é capaz de um amor romântico, como aquele que sente pela personagem Otacília e, claro, aquele amor impossível e proibido que sente por Reinaldo/Diadorim, em que o possível desejo homossexual é narrado com grande delicadeza por Rosa.

O mundo sertanejo é quase medieval em sua religiosidade, na noção de honra pelos jagunços, e nas suas misérias e pestilências. Rosa descreve as doenças como a lepra e a varíola que assolam as cidades do interior, cenas que ele provavelmente presenciou enquanto era médico no interior de Minas.

Percorrendo o sertão, Riobaldo fica sabendo da traição de Hermógenes, e daí em diante busca a vingança. Riobaldo torna-se líder do grupo e vê crescer sua autoridade. A questão do mal e da existência ou não do Demônio é algo que os leitores de Grande Sertão:Veredas mais se questionam. O único personagem do grupo que não se contamina moralmente é Diadorim, como podemos ler na passagem em que os jagunços matam José dos Alves, que foi confundido com um macaco, e cuja carne os jagunços, com exceção de Diadorim, vão provar em um ato de canibalismo. Diadorim também não irá deitar-se com nenhum homem ou mulher durante a história, ao contrário de Riobaldo.

O caso de Riobaldo chama a atenção. Ele parece não ver pecado em ter relações sexuais com diversos personagens, inclusive com uma mulher casada. Parece ser que é nas diversas mudanças de paixões que Riobaldo vive que ele encontra energia para viver. Grande Sertão não parece ser um romance cristão. Quase no final do romance, acontece o suposto pacto com o Diabo feito por Riobaldo. O personagem chama pelo Demônio, mas não ouve resposta. Hermógenes também teria feito esse pacto, mas isso não impede que ele seja morto.

No fim, Riobaldo pergunta a Quelemém se ele teria de fato vendido sua alma para o Diabo, e Quelemém diz que comprar ou vender é um fato da vida. Como espírita, Quelemém não acredita no Demônio, assim como Riobaldo, que então passa a acreditar que o Demônio não existe, mas somente a travessia, o vir-a-ser, a transformação, pois o Diabo nunca é, de fato.

Em uma história cristã, o personagem pode redimir-se,e a existência do Maligno é certa, mas em Grande Sertão: Veredas o personagem está sempre fluindo, em um constante vir-a-ser. Considero esse livro nosso maior romance,mas não creio que possamos caracterizá-lo como um romance cristão, mas sim uma obra gnóstica, onde nada parece ser o que é.

Resenha de A Viena de Hitler ( Hitler’s Vienna ), de Brigitte Hamann

Hitler´s Vienna

A juventude de Hitler em Viena
O período em que Hitler viveu em Viena é o mais misterioso e mal explicado de sua vida.Brigitte Hamann fala sobre o impacto que o fracasso no exame para se tornar artista teve sobre o jovem Hitler, mostra como ele tinha dinheiro, já que havia recebido uma herança;o desprezo que tinha pela educação, trabalho e dos trabalhadores, uma vez que gastava seu tempo em museus e teatros. Há uma detalhada descrição da multiétnica Viena, com sua população de judeus, tchecos e ciganos e da política da época.

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Resenha da Política de Aristóteles

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A Política é a obra clássica para os conservadores, como é, no geral, a filosofia de Aristóteles. Mesmo que não acredite que suas ideias políticas foram criadas, como as de Platão, para que fossem colocadas em prática, nelas podemos vislumbrar muito do conservadorismo de Aristóteles. Como é comum em sua filosofia, ele sempre começa criticando as ideias dos outros para, a partir de aí, fazer uma tabula rasa e oferecer suas próprias ideias “superiores”. A polêmica principal é com Sócrates e a República de Platão. Aristóteles é anti-igualitário por excelência, e como ele toma Sócrates ao pé da letra, fica mais confortável para ele “refutar” suas ideias. Aristóteles parece muito incomodado com a igualdade entre homens e mulheres que permeia a filosofia de Platão. Se na República a escravidão desaparece, e volta (amenizada) nas Leis, Aristóteles a endossa com paixão. Todas essas opiniões, mesmo que não possam ser exageradas, revelam por detrás seu método indutivo. As impressões dos sentidos, as tradições e o senso comum, desprezados pela epistemologia platônica, têm muita força em Aristóteles. Para ele, como historicamente as mulheres forma declaradas inferiores, os escravos sempre existiram, e a relação entre os sexos parece assemelhar-se à dos animais, logo, portanto, cabe ao filósofo aceitar tudo isso. A Política de Aristóteles é, na verdade, um contraponto à República platônica inclusive com seu programa de educação colocado no final, que na verdade é muito inferior e bem menos detalhado que o de Platão.

Se o filósofo ateniense dizia que a cidade ideal deveria preocupar-se menos com o número de seus habitantes do que com uma limitação da propriedade privada, Aristóteles toma o caminho inverso, o que tem um sentido mais liberal/conservador moderno. A propriedade não deve ser limitada, mas a população, sim. Aristóteles afirma que o aborto deve existir para garantir uma população sadia e estabilizada. Suas ideias políticas são explicitamente hostis à mulher e aos escravos. Nada que seja diferente do que diz um Paulo, na Bíblia, mas é flagrantemente ultrapassado creio que até para os ouvidos dos platônicos de seu tempo, quiçá agora. Entretanto, como toma como base o senso comum, é bem parecido com a visão católica medieval de que alguns já nasceram para a servidão, enquanto outros para a oração. O feudalismo encontrou em Aristóteles um grande aliado, e ele, junto à redescoberta do Direito Romano, foram os responsáveis pela degradação dos direitos da mulher a partir do século XIII em diante. A historiadora francesa Régine Pernoud percebeu isso muito bem.

Aristóteles coloca como base de seu pensamento político e econômico sua busca pelo meio-termo tal como em sua Ética. A cidade deve buscar que a classe média floresça, porque a pobreza é fonte do mal e da revolução. A cidade deve ter um tamanho limitado e permitir que a vida teórica surja, pois, como sabemos, em sua Ética, Aristóteles afirma que a contemplação é fim último do ser humano. Aristóteles é hostil à Ideia de Bem como existe em Platão, por isso, como ele não acredita na igualdade entre os seres humanos, também não pode aceitar um Bem transcendental. Em sua cidade, cada homem deve buscar aquilo que lhe agrada e, em termos políticos, cada qual é como um bloco de pequenas ideais e motivações que, colocadas lado a lado, ajudam a formar o pensamento político da cidade. Isto é reflexo de sua teoria do conhecimento que vê na ciência a capacidade do homem de ajuntar blocos de informações que a natureza fornece. Obviamente, Aristóteles não crê que a exista um Bem que esteja acima de tudo. Em uma passagem traduzida por nós a partir do original em grego, esta opinião aristotélica pode ser aplicada à política:

πάντες άνθροποι τοΰ είδέναι όρέγονται φΰσει ερειδή ή γνώσις τελειότης έστί τής ψνχεης, κάϑολου της άπλως γιγνωσκύσης, μαλλον δέ της λογικες, καί τάυτης έστι μαλλον ης θεωρία τό θέλος, πασα δέ τέλειοτης εκαστου το εκάστου άγαθόν έν δέ τώ αγαϑω εκαστον έχει το είναί τε σώζεσϑαι, δία τουτο καϑολου επηγαγεν οτι παητες ανθροποι του ειδεναι όρέγονται φύσει.

“Todos os homens por natureza desejam saber” Aristóteles

Ou porque a perfeição está na alma, ou nada vem a ser conhecido, e isso provavelmente não é lógico, pois esta é a teoria extrema, uma vez que o bem de cada coisa está identificada em cada uma delas, e não pode ter tolhido do homem a busca do que sua natureza cobiça.

Alexandre de Afrodísias, Comentário à Metafísica de Aristóteles

Por isso também nosso filósofo devota tanto tempo em discussões sobre a arte de ganhar dinheiro e sobre o comércio. Quem já leu o Capital, de Karl Marx, sabe como o filósofo alemão viu em Aristóteles seu precurssor. Aristóteles, porém, dificilmente pode ser tomado como um antecessor de Marx não somente por seu conservadorismo, como também por sua epistemologia que vê na potência a fonte do mal. Por isso sua cidade, assim como sua epistemologia, não se preocupa com uma adequação para gerar ciência, mas para conservar, acumular dados e garantir uma ociosidade contemplativa. É um objetivo bem totalmente antiplatônico. Além do mais, a preocupação com o privado gerou uma atomização da sociedade em níveis alarmantes. Hoje, em nossa civilização, mesmo com incríveis misérias e uma grande urgência em debatermos sobre o bem comum, pessoas fazem filas para comprar os produtos mais estúpidos que se possa imaginar, enquanto ao lado alguém passa necessidades. No tempo de Platão, quando este tentou ensinar sobre o Bem fora de sua Academia, a população, no mais puro espírito filisteu de que somente o que é útil é bom, desprezou abertamente a aula de Platão porque esta versava sobre os bens transcendentais, e não sobre dinheiro ou prazeres.

Aristóteles jamais conseguiu compreender as conquistas de Alexandre. A cidade por ele imaginada é fechada em si mesma e hostil às influências estrangeiras. Trata-se de uma cidade que busca fornecer meios para que alguns obtenham um ócio contemplativo. Platão, pelo contrário, sabia que a História seguiria sua marcha. Seu modelo tal como explicado em seu diálogo Parmênides, da busca da unidade na multiplicidade, que foi colocado em prática pelas conquistas macedônias, e deu origem à cidade de Alexandria, para onde afluíram gregos, persas, judeus e muitos outros. É o império mundial de vários povos. Para concluir, podemos ver como até mesmo o princípio de não-contradição de Aristóteles influenciou sua política. Ele não pode admitir, pois trata-se de uma contradição, que uma coisa possa ser boa, ao mesmo tempo ruim. Para Platão, a democracia era a pior forma de governo entre as melhores; entretanto, entre as formas degeneradas de governo, a democracia era a que oferecia menos perigo. Aristóteles não consegue compreender isso.

Sobre a visão da cidade no Islamismo veja https://felipepimenta.com/2013/08/12/as-caracteristicas-da-polis-madina-no-isla-a-visao-de-al-farabi/

 

 

 

Resenha de A Burguesia, de Régine Pernoud

A Burguesia

 

O surgimento da burguesia
Desde o aparecimento da palavra Burguês no longínquo ano de 1007, historiadores, economistas e filósofos se perguntam: o que é um burguês?

A excelente historiadora Régine Pernoud define o burguês da Idade Média como um homem da cidade, que é sobretudo um comerciante e que idolatra o direito romano. A influência do direito romano na Idade Média foi enorme e se fez sentir no direito canônico da Igreja, no Romance da Rosa e nas universidades.

Nos séculos XVII e XVIII a burguesia fará triunfar duas mentalidades: o livre comércio e o liberalismo econômico. Surge então a prática do açambarcamento e do monopólio, que haviam sido condenadas na Idade Média.

O filósofo que dá a base à burguesia é Descartes, ele próprio um burguês, que rejeitava o passado e a filosofia escolástica. Diz Régine Pernoud: ” Descartes ensinava uma filosofia estritamente racional; ele desconfiava instintivamente de tudo o que não se podia contar ou formular de maneira evidente”. Tal como Descartes, a burguesia deixa a Metafísica fora de suas investigações.

Já o burguês do século XIX pode ser definido como um capitalista, uma pessoa especialmente preocupada com a propriedade e que gosta de aplicar seu dinheiro em bens imobiliários. Seu credo é a declaração de direitos do homem, especialmente a parte que diz que a propriedade é ” um direito inviolável sagrado”.

O burguês é um homem que despreza as províncias, que paga imposto, sendo, portanto, um eleitor. É um homem culto, que baseia sua educação na cultura clássica. Sua mulher tem qualidades de dona de casa e recebeu uma educação religiosa, que é importante para as mulheres. Tem somente um filho e sua mulher suporta que tenha uma amante. O burguês do século XIX se escandaliza por a Igreja ter renovado sua condenação dos juros.

Marx estava certo sobre o papel revolucionário da burguesia na história, e Lenin, que era um burguês, está aí para comprovar a tese.

Resenha do Livro da Alma, de Avicena

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Um ótimo exemplo da filosofia islâmica
O filósofo Ibn Sina, conhecido no ocidente pelo nome latinizado de Avicena, influenciou muitos teólogos cristãos como Santo Tomás de Aquino e Duns Scot. Nesse livro da Alma, Avicena descreve sua doutrina sobre a existência da alma e sua constituição. Para ele a alma é uma agregadora das faculdades da percepção, sendo uma para suas faculdades. A alma também é definida como aperfeiçoadora do corpo no qual ela habita, sendo também sua organizadora. Avicena escreve um exemplo das faculdades de percepção e a distinção entre a percepção da forma e a percepção da intenção. O exemplo é o da ovelha e do lobo, no qual a percepção que a ovelha tem do lobo, ou seja, de sua forma, percebem primeiro os seus sentidos externos antes do interno. A ovelha possui a percepção da intenção da adversidade do lobo e que é necessário fugir dele, sem que o sentido externo perceba isso. Assim, segundo Avicena, primeiramente o sentido externo percebe o lobo, e em seguida o sentido interno, caracterizando assim o nome de forma.É aquilo que as faculdades internas percebem sem os sentidos( externos), sendo por isso designado o nome de intenção.

Avicena também possui uma avançada ciência a respeito da luz e das cores, percebendo claramente que a luz das estrelas durante o dia não podem manifestar-se pela maior luminosidade do sol, sendo necessário que haja escuridão para que a luz das estrelas possam brilhar.Sua opinião sobre a natureza do raio, da luz e das cores vão influenciar os escolásticos Robert Grosseteste e Roger Bacon. Sobre a alma humana, Avicena estabelece cinco graus que são: a inteligência material, a inteligência possível, a inteligência em ato, a inteligência adquirida e, por fim, uma faculdade intuitiva, que Avicena chamará de intelecto sagrado. Essas inteligências existem em potência e para passarem para o ato, necessitam de um intelecto agente, que está separado e faz parte do mundo celeste.

É recomendável antes de ler esse livro da alma de Avicena, ler uma introdução à sua filosofia, como por exemplo, “A filosofia na idade média”, de Etienne Gilson, para poder compreender melhor a filosofia de Avicena, porque quem não está acostumado com a linguagem da filosofia medieval pode achar o livro muito difícil de entender.