Resenha de A Nova Ciência da Política, de Eric Voegelin

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A Nova Ciência da Política, do filósofo alemão Eric Voegelin, toma como inspiração para seu título a obra de Giambattista Vico, Ciência Nova. Voegelin possuía um conhecimento monumental sobre a história do pensamento político não somente do Ocidente, mas também do Oriente. Admiro bastante este livro, mas não posso concordar com algumas conclusões às quais ele chega no final. Voegelin soube muito bem perceber todo o aspecto metafísico e cósmico das diferentes ideias políticas dos povos em todas as civilizações. Considero impressionante sua interpretação da simbologia e do impacto que tiveram, no Ocidente, das invasões mongóis e das campanhas de Tamerlão. Como ele mesmo viu, Weber soube detectar a influência do protestantismo no desenvolvimento do capitalismo, e o mesmo reuniu um enorme material sobre as diversas religiões do mundo; só que Weber não soube avançar para uma época fundamental da história do Ocidente, que foi a Idade Média, pois assim sua tese sobre o capitalismo seria refutada. Em minha opinião, Voegelin repetiu o erro, porém de forma diferente. Ele, ao invés de levar o argumento até às últimas consequências, introduz o tema do gnosticismo para desviar o foco do Cristianismo. A tese dele, que vai bem até certo momento, termina por descarrilar no fim.

Todas as civilizações do mundo Antigo e da Idade Média possuíam uma harmonia entre seu pensamento político e seus Deuses. Vejamos Grécia e Roma na Antiguidade, e o Império Mongol no período medieval. Voegelin vê que o mundo político dessas civilizações formava um cosmion, e que uma separação entre a política e os Deuses não podia ser feita sem que isso provocasse uma revolução. Há um exemplo magnífico oferecido por ele em uma carta de um papa do século XIII ao Khan mongol, na qual o papa oferece uma aliança contra os muçulmanos em troca da submissão do Khan à autoridade maior da Cristandade. A resposta do Khan ao papa é exemplar. Conforme a explicação de Voegelin, o Império Mongol julgava ser a ordem de Deus na Terra; eles, os mongóis, estavam fazendo a vontade de Deus ao conquistarem o mundo e derrotarem as trevas da ignorância das nações inimigas. Resistir ao Khan era resistir ao próprio Deus. O papa se viu confrontado com uma ideia rival à sua. Voegelin, em uma obra posterior, diz que o papado da Idade Média quis confinar aos muros do Vaticano o monopólio da Revelação; só que o nous platônico sopra aonde quer, e a razão humana, rebaixada a uma mera serva da teologia católica, voltou-se contra ela de maneira devastadora. Por que Deus só agiria em termos de Vaticano e Cristandade medieval? Os cristãos viram-se confrontados com um outro tipo de sabedoria, e qual resposta, então, deveria ter sido dada?

O Cristianismo introduziu no pensamento político uma novidade muito complicada e perturbadora para o mundo pagão. O Cristianismo possui um caráter internacionalista e de desprezo aberto aos Deuses dos povos. Voegelin concordou com a opinião profética do platônico Celso de que o Judaísmo e o Cristianismo são religiões revolucionárias (no sentido político), mas não levou o argumento até suas últimas consequências. Ambas as religiões foram a inspiração até os dias atuais para muitos movimentos políticos e revolucionários. Não dá para imaginar o comunismo e o marxismo sem Judaísmo e Cristianismo. Marx e a Teologia da Libertação não são frutos de gnosticismo algum; são resultados, sim, da obsessão cristã por História e por militância e propagação da “boa-nova”. Leiamos a obra principal de Santo Agostinho, que é sua Cidade de Deus. Ali Agostinho reclama das supostas perseguições pagãs aos cristãos, só que foi incapaz de ver a contradição de que, no mundo cristão que ele anuncia, a famosa proibição de fazer perguntas, que Voegelin vai atribuir futuramente aos revolucionários marxistas e ao gnosticismo, já está presente, assim como o clima de perseguição aos “hereges”. Não foram os gnósticos que possuíram um desejo de ativismo político nem de baixar o Céu até a Terra; o gnosticismo abomina ação política e muito menos se importa com o destino do mundo. Voegelin foi incapaz de analisar de uma maneira mais aprofundada o impacto do livro do Apocalipse em termos políticos. Não é pouca coisa um livro que vê com enorme fúria a punição dos maus, dos homossexuais, dos “heréticos”, lançados a um lago de fogo e enxofre, e no qual os únicos a serem salvos serão 144.000 homens (não mulheres) virgens. Teria sido bom que ele explicasse o “gnosticismo” deste livro oficial da Igreja. Fica muito frouxa a acusação de que o Nazismo e o Comunismo são frutos de gnosticismo. Creio que aqui ele não deu crédito devido à influência Bíblica e/ou cristã dos revolucionários.

É uma ingenuidade dos conservadores atuais de creditar à “civilização judaico-cristã” um espírito conservador. Os maiores movimentos de revolução da história são fruto dessa civilização, e o pagão Celso viu bem como os cristãos, com sua militância e sua obsessão por um só pastor e uma só fé, abriram as portas para a obra de destruição das culturas do mundo. O princípio platônico da unidade na multiplicidade e da harmonia dos contrários é incompreensível para os cristãos e revolucionários. Todos querem o pensamento único. O mundo tem de ser cristão ou comunista e, a partir disso, a História acaba. Só que o Comunismo quer realizar o reino na Terra, mas não é verdade de que os cristãos pensem exclusivamente num pós vida. O apocalipse imaginado por João é bem terreno, e a quantidade de sangue que vai ser jorrado futuramente torna o Comunismo e o Nazismo, em aparência, bem menos assassinos.

Se a ideia de Voegelin que, se algum político, em determinado tempo, declarar-se enviado de História, então o Supremo deve dar o golpe de Estado e impedir seu governo ou sua posse, for posta em prática, então fica difícil imaginar como uma democracia atual, como a brasileira, possa funcionar. Existem tantos políticos cristãos (e não gnósticos) perigosos, especialmente para que não professa sua fé ou para os homossexuais, que a tentação de bani-los, como defendia Rousseau não é pouca. Pessoas verdadeiramente gnósticas não se interessam por política. Quem quer limpar o mundo dos “impuros” são aqueles que seguem o esquema histórico/apocalíptico. Voegelin tem de ser criticado por ter substituído a palavra “História” por gnóstico. Se Nietzsche pôde declarar a morte de Deus é porque estava preso à mentalidade Ocidental obcecada por História, para quem a presença de Deus tem de estar nos acontecimentos e no curso do tempo, só que isso é bem arriscado. Para o Oriente, nada disso faz sentido. Nietzsche apenas declarou o que todos já sabiam: que o Ocidente foi por um caminho bem arriscado e, se no passado, quem tomava a dianteira das ações eram papas e bispos, do século XIX em diante a ação passou a ser em sua maioria obra de materialistas ateus. Não adianta reclamar que o mundo foi dessacralizado e Deus banido da ciência. Foram os cristãos que começaram com o processo, e não foi por falta de aviso que o resultado não deixaria de ser trágico, bastando recorrer a Celso. Se os Deuses podem ser varridos do mundo físico, por que o Deus bíblico não poderia ser varrido dos céus? Os cristãos zombavam dos pagãos perguntando: onde estão seus Deuses agora? Os materialistas fizeram o mesmo com os cristãos. O gnóstico não quer melhorar o mundo. Quer sim ir embora daqui. As religiões revolucionárias querem sim criar um mundo com um só líder e uma única religião. Apesar, então, da erudição de Voegelin, ele deu um nome enganador a uma suposta culpado pelas desgraças da política de alguns séculos para cá. E nem podemos creditar isso a um espírito cristão de Voegelin, pois em outras obras não percebi nele uma simpatia nem por Jesus nem pelo ascetismo medieval. Outro motivo deve ser buscado.

 

 

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