Resenha de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

Grande Sertão Veredas

Uma tese sobre o romance de Rosa
“Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado…Você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras vão sempre fluindo…É na mudança que as coisas acham repouso…” Heráclito- Fragmentos

“ O senhor mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.” Riobaldo- Grande Sertão:Veredas

Após um começo com as lembranças confusas do personagem Riobaldo, de repente, na página 116, ele atravessa o rio ainda adolescente, e encontra um misterioso menino de sua idade, pelo qual se sente atraído. Ao narrar a travessia do rio, sua mente passa a organizar melhor as lembranças, e começa, como em um ritual iniciático, a sua vida. Riobaldo é um homem dotado de grande imaginação e de espírito poético. Por longas páginas, Guimarães Rosa narra as aventuras do personagem principal e seu grupo de jagunços pelo interior de Minas, Bahia e Goiás. O sertão descrito pelo autor é um local mágico, habitado por bois, araras, papagaios, pássaros diversos e com os buritis enfeitando a paisagem. A linguagem utilizada por Rosa não tem precedentes em nossa literatura. O autor foi buscar palavras que, às vezes, têm origem no próprio início da língua portuguesa, com diversos arcaísmos.

Riobaldo possui crenças que são um reflexo das crenças do próprio Guimarães Rosa. Como o personagem Riobaldo mesmo diz, ele bebe água de diversos rios. É supostamente católico, mas também aceita ensinamentos do protestantismo e do espiritismo, através de seu compadre Quelemém, que é espírita. É ao mesmo tempo o retrato da fé do homem do sertão, onde o catolicismo quase não penetrou, misturado com crenças diversas, e uma mentalidade gnóstica, onde busca-se o conhecimento acima de tudo.

O romance é uma verdadeira viagem pelo sertão , com o autor descrevendo minuciosamente as paisagens e localidades. Árvores, plantas, pássaros e diversos bichos que povoam o sertão são testemunhas das aventuras dos personagens. Quanto às características do personagem Riobaldo, ele possui uma grande inteligência, assim como senso de lealdade, e como na citação de Heráclito, Riobaldo está sempre se transformando, exibindo um vir-a-ser em sua personalidade e crenças. Acredita em diversas religiões, e está sempre experimentando paixões e desejos sexuais diversos por alguns personagens.

Riobaldo necessita do sexo sem compromisso com algumas prostitutas e também com mulheres casadas, onde a paixão não existe. Mas Riobaldo também é capaz de um amor romântico, como aquele que sente pela personagem Otacília e, claro, aquele amor impossível e proibido que sente por Reinaldo/Diadorim, em que o possível desejo homossexual é narrado com grande delicadeza por Rosa.

O mundo sertanejo é quase medieval em sua religiosidade, na noção de honra pelos jagunços, e nas suas misérias e pestilências. Rosa descreve as doenças como a lepra e a varíola que assolam as cidades do interior, cenas que ele provavelmente presenciou enquanto era médico no interior de Minas.

Percorrendo o sertão, Riobaldo fica sabendo da traição de Hermógenes, e daí em diante busca a vingança. Riobaldo torna-se líder do grupo e vê crescer sua autoridade. A questão do mal e da existência ou não do Demônio é algo que os leitores de Grande Sertão:Veredas mais se questionam. O único personagem do grupo que não se contamina moralmente é Diadorim, como podemos ler na passagem em que os jagunços matam José dos Alves, que foi confundido com um macaco, e cuja carne os jagunços, com exceção de Diadorim, vão provar em um ato de canibalismo. Diadorim também não irá deitar-se com nenhum homem ou mulher durante a história, ao contrário de Riobaldo.

O caso de Riobaldo chama a atenção. Ele parece não ver pecado em ter relações sexuais com diversos personagens, inclusive com uma mulher casada. Parece ser que é nas diversas mudanças de paixões que Riobaldo vive que ele encontra energia para viver. Grande Sertão não parece ser um romance cristão. Quase no final do romance, acontece o suposto pacto com o Diabo feito por Riobaldo. O personagem chama pelo Demônio, mas não ouve resposta. Hermógenes também teria feito esse pacto, mas isso não impede que ele seja morto.

No fim, Riobaldo pergunta a Quelemém se ele teria de fato vendido sua alma para o Diabo, e Quelemém diz que comprar ou vender é um fato da vida. Como espírita, Quelemém não acredita no Demônio, assim como Riobaldo, que então passa a acreditar que o Demônio não existe, mas somente a travessia, o vir-a-ser, a transformação, pois o Diabo nunca é, de fato.

Em uma história cristã, o personagem pode redimir-se,e a existência do Maligno é certa, mas em Grande Sertão: Veredas o personagem está sempre fluindo, em um constante vir-a-ser. Considero esse livro nosso maior romance,mas não creio que possamos caracterizá-lo como um romance cristão, mas sim uma obra gnóstica, onde nada parece ser o que é.

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