Resenha de Hitler, de Ian Kershaw

hitler ian kershaw

A biografia de Hitler, de Joachim Fest, é muito superior
O grande problema do livro é o fato de Ian Kershaw não ser um bom escritor. Seu estilo é chato e burocrático.Vou tentar fazer uma pequena comparação entre essa biografia e a de Joachim Fest.

A descrição da juventude de Hitler em Viena é diferente nos dois autores. Enquanto Kershaw se concentra muito na suposta origem do antissemitismo de Hitler em Viena, e fica muito dependente das memórias do Mein Kampf, Fest demonstra que o que marcava Hitler em sua juventude era seu caráter apolítico, e sua idolatria a Richard Wagner.

O compositor e Hitler tinham em comum o caráter extremado de suas reações e o estado permanente de exaltação, no qual depressões e euforia se alternavam. Sem a ópera e a arte demagógica de Wagner, o estilo representativo do III Reich é inconcebível.

Kershaw nada tem a dizer sobre as influências filosóficas sobre Hitler. Fest escreve sobre a influência do Darwinismo Social e, principalmente, Richard Wagner, com o seu misticismo da depuração de sangue em Parsifal.

Ian Kershaw escreveu um livro longo sem explicar como foi possível que Hitler chegasse ao poder na Alemanha. Joachim Fest explica longamente durante o livro o caráter apolítico do povo alemão. Havia o ressentimento estético-intelectual contra a política e o país estava tomado pelo pensamento mitológico.

Existia um romantismo e uma tentativa de redenção pela arte e fuga da realidade. Foi isso que Hitler ofereceu ao povo alemão: a tentativa de fuga da política através da teatralização da vida cotidiana.Como disse Walter Benjamin, o fascismo é a “estetização da política”.

A biografia escrita por Joachim Fest é muito melhor e mais bem escrita.

Recomendo também a obra Hitler’s Vienna, de Brigitte Hamann, que é muito detalhada e explica a origem de muitas das obsessões de Hitler em sua juventude.

Comments

  1. Fernanda says:

    Aparentemente, a obra de Kershaw não foi compreendida como pretendida pelo autor.
    O livro se trata da constituição do poder de Hitler e como, apesar de suas ideias “bem loucas”, ele se tornou líder político e ideológico de uma nação, levando em consideração a crise, a necessidade de um líder carismático e as habilidades de Hitler logo no primeiro capítulo do livro.

    “Ian Kershaw escreveu um livro longo sem explicar como foi possível que Hitler chegasse ao poder na Alemanha.”

    Como assim? Se não é disso que se trata o livro, então imagino que Hitler era bolchevique-vermelhinho e best de Trotsky!

  2. Sandro says:

    O Ian Kershaw é autor também de um pequeno livro de 200 páginas sobre Hitler: “Hitler – Um Perfil do Poder” (ed. Jorge Zahar), em que analisa a ascensão de Hitler sob o conceito de “dominação carismática”, do Max Weber.

    Nos comentários acerca da bibliografia usada para escrever esse livro, Kershaw diz que as 2 melhores biografias de Hitler são as escritas por Allan Bullock (“Hitler: a Study in Tyranny”), que, no entanto, sendo da década de 1950, está um pouco ultrapassada, e por Joachim Fest, cuja análise psicológica de Hitler e do hitlerismo é brilhante, mas que peca (“é fraco”, nas palavras de Kershaw) no que diz respeito às forças externas de sua personalidade.

    Ora, justamente o que Kershaw elogiou no livro do Fest foi o que você tanto prezou: a psicologia e a influência artística e filosófica de Hitler – e, de um ponto de vista mais amplo, da Alemanha do período.

    Penso que a biografia escrita pelo Ian Kershaw complementa o livro do Joachim Fest, focando nas “forças externas” da personalidade de Hitler, ao passo que o último focou, de forma tão magistral, nas forças internas, por assim dizer, que explicam a um só tempo a ascensão de Hitler e do Nazismo.

    Abraço.

    Sandro.

  3. Gostei de sua resenha, Felipe. Estou bastante tentada a comprar o “Hitler”, do Kershaw, aproveitando as promoções do Black Friday. E também achei interessante os comentários, principalmente o do Sandro, que faz um parâmetro interessante sobre as biografias escritas pelo Kershaw e pelo Joachim Fest. Achou que vou comprar os dois livros. Obrigada.

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