Resenha de O amor e o Ocidente, de Denis de Rougemont

O amor e o Ocidente

 

 

O conflito entre paixão e casamento
Nesse livro famoso, Denis de Rougemont estabelece a ligação entre a poesia dos trovadores e a heresia cátara. Para os cátaros Deus é bom, mas o mundo é mau, por conseguinte, Deus não poderia ser o autor do mundo.

O mundo material seria criação do Anjo revoltado, ou seja, Lúcifer. Os cátaros rejeitavam o dogma da Encarnação e os sacramentos, tinham repulsa pela mulher ( apesar da seita ter atraído milhares de mulheres), a gravidez e o casamento.

A doutrina cátara exigia que se terminasse a vida “não por fadiga, nem por medo ou dor, mas num estado de perfeito desprendimento da matéria”. Os cátaros pretendiam passar da noite para o dia sem nenhum intermediário. “Aquele que pretende chegar a Deus sem passar por Cristo vai ao encontro do Diabo” dizia Lutero. Quando se ignora o caminho, precipita-se na noite; isso acontece quando se tenta unir-se ao Transcendente quando o fim não é a Luz, nas belas palavras de Rougemont. Mas a acusação de excessos sexuais por parte dos cátaros não parece ser verdadeira.

Os trovadores ridicularizavam o casamento, desprezavam os clérigos e seus aliados feudais e se lançavam a dois pelas estradas como faziam os sacerdotes cátaros. Da necessidade dos trovadores de esconderem suas simpatias cátaras, nasce a escola do TROBAR CLUS, acessível apenas aos iniciados.

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A tese de Rougemont de que o culto à Virgem Maria, surgido com maior força no século XII, seria uma reação da Igreja contra o crescimento das doutrinas maniquéias é contestável. A veneração à Virgem já existia há séculos, e nem mesmo certas objeções feitas por São Bernardo e Santo Tomás de Aquino invalidaram a Veneração à Virgem.

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Para Rougemont, a crise atual do casamento tem origem no conflito entre o catolicismo e a heresia cátara. Segundo o autor, o problema é que o jovem é educado desde cedo para acreditar que a paixão é a experiência suprema que todo homem deve um dia conhecer, e que somente quem viveu a paixão experimentou a vida em sua plenitude, sem perceber que paixão(ideal dos trovadores cátaros) e casamento( ideal cristão) são por essência incompatíveis.

A tensão entre paixão e casamento nos lembra do problema da infidelidade. Rougemont lembra que a fidelidade é contrária aos valores do mundo moderno. O objetivo da fidelidade não é a felicidade e nem representa a obrigação da pessoa amada de reunir o maior número de qualidades possíveis. A fidelidade é antes de tudo uma obediência a uma verdade em que se acredita, e em segundo lugar a vontade de executar uma obra.

Rougemont declara que se a promessa de casamento é o tipo de ato sério, ela só será se for feita por toda a vida, pois só o irrevogável é sério.

A importância do mito nos fala da diferença entre Eros( pagão) e Ágape( Cristão); a diferença entre se apaixonar e amar, que é o primeiro mandamento do Decálogo. Foi o amor pagão de Eros que difundiu a crença da ascese idealista, o que Nietzsche critica injustamente no Cristianismo, segundo o autor.

Eros quer exaltar a vida através da paixão acima de nossa condição finita, enquanto Ágape sabe que o amor liberta e que a vida terrestre não merece ser adorada, mas ser aceita em obediência a Deus e ao eterno.

Os pagãos divinizavam o desejo, que é a grande tentação e o pior inimigo da vida.

O problema da paixão já havia sido analisado por Santo Tomás de Aquino, que dizia que a paixão é um movimento do apetite sensitivo. Santo Tomás diz que a paixão diminui o pecado na medida que diminui o voluntário; mas quanto à paixão que segue ao ato, ela não diminui o pecado, mas o aumenta. E o pecado é maior quanto mais prazer se sinta.

Aristóteles já havia dito que o silogismo daquele que não se domina tem duas proposições universais; Uma: não se deve cometer adultério; a outra: é preciso procurar o prazer. A paixão amarra a razão para que não se tire nenhuma conclusão da primeira e tire conclusão da segunda.

Esse culto do desejo que é tão comum em nossa sociedade, em que as pessoas muitas vezes desesperadas saem pelo mundo em busca de experiências, e que tornam os relacionamentos tão instáveis, faz nascer as filhas do desejo, que são a cegueira da mente, o amor de si, a irreflexão e a inconstância. E a inconstância é inimiga dos relacionamentos e, principalmente, do casamento.

Rougemont, em algumas palavras belíssimas, diz que só é possível superar a paixão, nascida de um desejo mortal de uma união mística através do encontro de um outro, pela aceitação de uma pessoa diferente de nós, mas que oferece uma aliança sem fim. Então deixamos de buscar a felicidade sensível, aceitamos a vida, e então o casamento se torna possível.

Conclusão

O mito que mantinha o casamento estável desapareceu junto com as coerções sagradas, sociais e religiosas. Por exemplo: na coerção religiosa o compromisso é feito para todo o sempre, sem levar em conta diferenças de temperamento, de caráter, de gostos e de fatores extremos. Ora, para o autor os casais modernos condicionaram sua felicidade justamente a esses fatores.

Rougemont faz uma extensa análise do mito de Tristão e Isolda, e diz que o mais importante no mito não é a divinização da mulher, mas o conflito entre duas místicas: A católica que conduz ao “casamento espiritual” de Deus com a alma, mas com uma distinção entre criatura e criador, e para quem o amor profano longe de ser negado, acaba sendo santificado através do casamento; e a cátara que espera a união e fusão total da alma depois da morte dos corpos e para quem não há redenção possível nesse mundo, e em consequência disso o amor profano seria a infelicidade absoluta.

Para um melhor entendimento da história dos cátaros recomendo a obra de René Nelli, e para o tema da Gnose a obra de Hans Jonas “The Gnostic Religion”. A questão da paixão, assim como os vícios capitais, foram tratados por Santo Tomás no Livro IV da Suma Teológica. O Silogismo de Aristóteles foi retirado do livro VII da Ética a Nicômaco.

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