Resenha da Introdução às Artes do Belo, de Etienne Gilson

Introdução as artes do belo

 

A Arte e a Filosofia
O excelente filósofo tomista Étienne Gilson propõe o que é filosofar sobre a arte. O que é uma coisa bela? Uma condição obrigatória é de que o objeto seja inteiro, que não falte nele nenhuma parte, ou seja, que ele seja perfeito. Ele é perfeito na medida em que é em ato e não apenas em potência. Belo para Gilson é aquilo que Santo Agostinho denomina de Claritas( o brilho) que retêm o olhar e aumenta a percepção da beleza.

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Gilson escolhe dois nomes para simbolizar a concepção ocidental de mundo: Platão, o qual Gilson considera que vivemos em uma era de antes e depois da filosofia platônica, e Nietzsche, que iniciou uma revolução contra o universo na qual não há lugar mais para o homem. Nietzsche representa a revolta contra o mundo cristão e platônico, pois Nietzsche quer fazer do homem senão vontade, liberdade e poder. Para Gilson, Nietzsche quer se libertar do ÁNTHROPOS THEORETIKÓS, o homem contemplativo.

Depois de a pintura ter alcançado o auge no fim da idade média e no renascimento, com uma perfeita imitação da natureza, o que restou de tais conquistas, pergunta Gilson. O homem moderno revoltou-se contra essa concepção, e fez-se um Demiurgo, que contrário ao de Platão, não precisa de modelos inteligíveis e racionais para criar a sua arte.

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Gilson discutirá ainda a distância que existe entre a filosofia e a arte. Ele alerta que essa distância é perigosa pois um homem que se engana sobre si mesmo pode muito bem enganar-se sobre Deus.
O cristianismo irá influenciar muito a arte com a sua noção de criação. Para Platão, o Demiurgo não é um o mais importante na sua filosofia, mas a Ideia do bem que nada faz. O primeiro motor de Aristóteles também nada cria.

Durante séculos o cristianismo buscou conciliar a sua visão de criação com a filosofia grega. Só conseguiria isso no século XIII, com Santo Tomás de Aquino e sua filosofia, em que Deus exerce sua atividade criadora a todo momento.

Creio que faltou nessa obra de Gilson um aprofundamento maior sobre essa revolta da arte moderna contra a ideia cristã de criação e sua noção de uma arte que buscasse a transcendência. Faltou também um maior destaque à escolástica e sua estética. Santo Tomás de Aquino foi citado poucas vezes, o que me decepcionou um pouco. Mas Gilson foi um dos maiores divulgadores da filosofia Tomista e por isso vale a pena comprar esse livro.

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Os Sermões Alemães, de Mestre Eckhart

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A Mística Medieval
Na presente obra são apresentados 60 sermões do Mestre Eckhart. Eu achei seus sermões muito parecidos uns com os outros. Eckhart tem um grande conhecimento das escrituras, assim como dos grandes teólogos e filósofos como Aristóteles, Santo Tomás, Santo Agostinho, Avicena, Maimônides, entre outros. Destaco o sermão 30, onde Eckhart diz que o que Deus criou milênios atrás, continua criando ainda hoje. Deus cria no mais íntimo e no mais alto da alma.

Eckhart nos recomenda que amemos a Deus de boa vontade na pobreza e na riqueza, na doença e na saúde, na tentação e na sua ausência. Ele lembra-nos dos apóstolos que quanto mais sofriam mais facilmente suportavam o sofrimento.Poderíamos fazer uma comparação entre Eckhart e o padre Antônio Vieira. Eckhart é mais metafísico, enquanto Vieira é mais político. Mas na construção de imagens frases e citações de autoridades, assim como na riqueza do uso da língua, Vieira é muito superior.

Eckhart foi acusado em vida de ter sido um herético, mas nos seus sermões não dá para perceber nenhum desvio da ortodoxia. Recomendo esse livro para quem gosta da filosofia medieval, e que esteja interessado em conhecer um de seus maiores místicos.

Resenha de O Desaparecimento da Infância, de Neil Postman

Desaparecimento da infancia

 

O fim da mais bela das invenções do Renascimento: a infância
“Crianças são mensagens vivas que enviamos a um tempo que não veremos” Neil Postman

Esse livro profético, escrito originalmente em 1982, constatava já nessa época o fenômeno do surgimento da criança-adulto e do adulto-criança. Postman faz uma viagem na história, em um tempo em que,segundo ele, a infância não existia. Os gregos foram os que chegaram mais próximos do conceito de infância na antiguidade, pois eles eram apaixonados pelo tema da educação infantil, e personagens como Platão acreditavam que a virtude pudesse ser ensinada nas escolas. Os romanos, seus sucessores, também chegaram próximos à ideia de infância. Como observou Neil Postman, Quintiliano possuía uma das crenças fundamentais para que a infância possa existir, ou seja, ele acreditava na noção de vergonha, e que algumas informações e comportamentos deviam ser ocultados à criança.

No entanto, depois de haver chegado próximo a criação da infância no mundo Greco-romano, tudo isso desapareceu, segundo Postman, no início da civilização medieval. Essa tese do autor que vou apresentar agora merece algumas críticas. Vou fazê-las no final da resenha.

Postman observa que com o quase desaparecimento das escolas e da alfabetização, a criança no mundo medieval já era considerada adulta aos 7 anos. Segundo o autor, com a escassez dos livros nessa época, o conhecimento era obtido por meio da comunicação oral nas praças, locais esses em que adultos e crianças compartilhavam as mesmas notícias sobre mortes e guerras, assim como as mesmas músicas e contos de fadas.

Em um mundo em que a palavra impressa é rara, crianças e adultos compartilham as mesmas histórias e os mesmos segredos. É de se notar que um fato dessa época que acontecia em alguns casos era que as crianças eram expostas à sexualidade dos adultos, pois a noção de vergonha e pudor ainda não estava plenamente estabelecida na idade média.

Quando, portanto, a ideia de infância apareceu? A resposta , segundo Postman, é que a infância surge quando Gutenberg inventa a prensa móvel, porque é nesse momento em que os livros tornam-se acessíveis à população. A noção de individualidade e o acesso ao conhecimento aparecem com força. Os segredos da natureza, da ciência, da medicina e da teologia podiam a partir daquele momento entrar na residência de todos os que soubessem ler. Ao mesmo tempo, manuais de comportamento e de etiqueta surgem, criando definitivamente a noção de vergonha e pudor na população, especialmente nos jovens.

Mas o mais extraordinário é que o livro oculta dentro de suas páginas os segredos da vida adulta, especialmente o sexo. A partir desse momento, as crianças para terem acesso aos mistérios da vida adulta, precisarão ir para a escola para passarem pelo processo de alfabetização. O menino e a menina de escola então surgem, assim como a crença de que as crianças até os 17 anos devem ser separadas dos adultos, sendo criadas nos ambientes protegidos das escolas.

No século XVII surge uma verdadeira noção de infância. Aparecem nesse momento as roupas infantis e os escritores especializados em histórias para crianças. Um filósofo que ajudou muito a consolidar essa teoria sobre a infância foi John Locke. Como percebeu Neil Postman, Locke, assim como Freud mais tarde, estabeleceu a questão da repressão psíquica, e criou também o conceito de Tábula Rasa( folha em branco), e com isso jogou aos pais uma enorme responsabilidade pela criação dos filhos, fazendo com que os pais passassem a sentir um enorme sentimento de culpa pela sua educação.

Agora Postman explica o porquê do desaparecimento da infância. A sua tese aqui é mais convincente do que sua opinião sobre a história medieval. Ele argumenta que com o aparecimento da televisão, os assuntos mais delicados, que antes eram interditados às crianças, como o sexo e a violência, foram a partir daí lançados aos lares de todas as famílias, sem que elas nada pudessem fazer para oferecer resistência.

Postman vê na televisão e suas reportagens e programas que falam sobre todos os assuntos, uma volta à situação medieval, na qual as crianças eram expostas a todas as conversas dos adultos. Como naquela época, segundo Postman, uma criança de 12 anos que cresceu vendo televisão várias horas por dia já sabe tudo sobre violência, doenças, sexo e alguns outros temas que antes eram vetados às crianças, como a política. No mundo da tipografia, sem que houvesse a televisão, esses assuntos eram mantidos longe das crianças, pois estavam codificados nos livros e proibidos nas conversas das famílias.

Para que uma criança antigamente pudesse ter acesso ao mundo dos adultos, eram necessários vários anos na escola, de forma que os professores e os pais ensinavam sobre política e os segredos do sexo aos poucos, proporcionando à criança a ao jovem acesso aos livros sobre esses assuntos de acordo com a sua idade e progresso na escola.

Postman não fala sobre a internet em seu livro, porque ela ainda não havia sido inventada, mas em uma rápida análise que pode ser feita pelos pais atuais dessa geração da internet, observamos que com apenas alguns cliques e palavras, a criança e o jovem podem obter acesso rápido aos temas do mundo adulto, como o sexo, o adultério, a violência, a corrupção, assim como as aberrações que existem nesse mundo. O resultado disso é que as crianças e os adultos partilham da mesma realidade de sonhos e pesadelos, fazendo nascer a criança que se torna adulta precocemente, assim como o adulto que nunca cresce, tornado-se infantilizado por toda a vida.

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Apesar de algumas das observações de Postman serem verdadeiras, especialmente sobre a importância da invenção de Gutenberg, ele se equivocou sobre alguns pontos da história, e vale a pena alguns esclarecimentos.

Sobre a história antiga e sua relação com a infância, é de se perceber que Platão, Aristóteles e os romanos buscavam a educação de uma elite apenas. Jamais os gregos e os romanos buscaram educar o povo, pois a educação na antiguidade sempre teve um caráter iniciático. O sistema escolar e as universidades surgiram na tão denegrida idade média de Postman, época na qual a informação foi oferecida a todos, e que baniu o ensino de caráter iniciático da antiguidade.

Postman foi influenciado por um certo anticatolicismo, e isso faz com que ele não perceba certas contradições em seu livro. Seu conhecimento de história é superficial, porque é fato conhecido de todos que o infanticídio era amplamente praticado na antiguidade. Postman cita em seu livro que o infanticídio foi proibido no século IV, mas omite que essa lei foi feita por pressão da igreja católica. Foi a idade média que protegeu a infância criando os orfanatos, desconhecidos na antiguidade, da mesma forma como proibiu o aborto e o infanticídio. Gutenberg e os renascentistas são herdeiros da civilização medieval. A antiguidade e também o mundo moderno é que são hostis à ideia da infância, pois no momento em que a vida da criança perde seu caráter sagrado, com a prática do aborto e da morte e abandono dos bebês, é que a infância não pode mesmo existir.