A União da Alma e do Corpo segundo São Tomás de Aquino

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Um erro que sempre foi combatido pela a igreja é a doutrina Platônica, que foi defendida por Plotino e Orígenes ( e pelos espíritas em nossa época), da preexistência da alma. Platão sustentava que a alma existia antes de vir a esse mundo, e depois aprisionadas na matéria( que é má), em corpos mais ou menos nobres segundo os méritos e pecados da existência da vida anterior.

A doutrina da igreja católica é de que Deus individualmente multiplica as almas no mesmo número de corpos nos quais elas são infundidas.

Qual é a razão que São Tomás dá para a afirmação de São Bernardo de que a alma quando é criada, é infundida, e que quando é infundida, é criada? O argumento é o seguinte:

São Tomás afirma que aquilo que é preternatural não deve existir antes do que é natural, porque o que Deus produz por si mesmo é sempre em seu estado normal. Na filosofia Tomista, o estado de separação da alma e do corpo não é o estado normal, pois a alma é a forma do corpo. O estado de união da alma e do corpo é que é o natural. Portanto, se a alma pode existir depois da morte do corpo, é impossível que ela exista antes da união com o corpo.

Agora, o momento da união: nesse ponto está um erro fatal da filosofia Tomista, pois São Tomás foi fiel demais à filosofia antiga, principalmente à de Aristóteles. ( É de se notar que o padre Édouard Hugon não nos alerta sobre esse erro de São Tomás). Tomás e os antigos acreditavam que Deus primeiro criaria uma alma vegetativa no embrião, seguida por uma alma sensitiva, que depois prepararia o caminho para a alma humana. A doutrina da igreja não estava estabelecida sobre o momento em que o feto recebe a alma até o início do século XX. Não é preciso ser cego como alguns “tradicionalistas”, que não percebem os erros de São Tomás de Aquino sobre a alma que causaram danos à teologia da igreja.

Bibliografia: Édouard Hugon, Os princípios da Filosofia de São Tomás de Aquino, Edipucrs, 1998.

Comments

  1. André says:

    Olá Felipe. Pode indicar mais bibliografia sobre o assunto? Estou escrevendo sobre o problema do corpo em Descartes e seu impacto na Psicologia científica moderna e estou em busca de contrapontos.

    • Olá, André! Posso indicar o Discurso do Método com comentários de Étienne Gilson. Existem algumas passagens que falam sobre a alma e o corpo, mas suponho que você já tenha lido. Em Santo Agostinho podemos pegar algumas passagens sobre esse tema em A Trindade. Na Introdução ao Estudo de Santo Agostinho, de Étienne Gilson, o autor fala sobre a alma e o corpo na filosofia de Santo Agostinho. Desse mesmo autor temos a tradução inglesa de seu livro Le Thomisme (original em francês), chamado The Christian Philosophy of Saint Thomas Aquinas. Ainda de Étienne Gilson é importante ler O Espírito da Filosofia Medieval ( creio que esse livro é o mais acessível e prático para entender esse problema). De Platão leia o Fedro; de Aristóteles leia o De Anima. As obras de Santo Tomás de Aquino Compêndio de Teologia e a Suma Contra os Gentios possuem passagens sobre esse tema. Espero que eu possa te ajudar.

      Fedro de Platão https://felipepimenta.com/2013/05/16/resenha-de-fedro-de-platao/#more-2202

      Passagem do livro The Christian Philosophy of Saint Thomas Aquinas https://felipepimenta.com/2013/03/01/o-otimismo-da-filosofia-tomista/

  2. Sérgio Freitas says:

    Caro Felipe, gostaria de levantar um estudo acerca dos pontos de convergência e divergências sobre a alma entre Aristóteles e São Tomás de Aquino! Podes me indicar algo?

    • Oi, Sérgio! Indico as 24 teses tomistas de Edouard Hugon e o livro de Étienne Gilson sobre o Tomismo. Tenho a versão inglesa ” The Christian philosophy os Saint Thomas Aquinas.

  3. João Caldeira says:

    ” Tomás e os antigos acreditavam que Deus primeiro criaria uma alma vegetativa no embrião, seguida por uma alma sensitiva, que depois prepararia o caminho para a alma humana.”

    Caro, poderia dizer quem foi o filósofo/teólogo que pode dar uma solução para esse conflito?

    • A Igreja tende a seguir nos dias de hoje a visão platônica de Leibniz de que a alma surge desde o início, já no embrião. A Igreja, até meados do século XX ainda seguia essa opinião aristotélica que você citou.

  4. Olá, Felipe. Gostaria que você falasse mais sobre os danos teológico acerca do “erro” de Santo Tomás sobre a animação sucessiva (“Não é preciso ser cego como alguns “tradicionalistas”, que não percebem os erros de São Tomás de Aquino sobre a alma que [b]causaram danos à teologia da igreja[/b]””.
    Parabéns pelo site.

    • Obrigado. Pela opinião de São Tomás, fica claro que ele não acreditava, como Aristóteles, que o feto nas primeiras semanas possuísse uma alma humana. A Igreja acreditava nisso até a metade do século XX. Também por esta causa, o tema do aborto não teve tanta importância para a Igreja nos séculos passados. Hoje ela tende a seguir a opinião platônica de Leibniz de uma alma desde o início da fecundação.

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