Resenha do Espírito da Filosofia Medieval, de Etienne Gilson

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A filosofia já havia atingido o seu ponto máximo com a doutrina aristotélica, e o que o filósofo Tomista Étienne Gilson pretende nos apresentar nesse livro, é o que a filosofia cristã ou árabe trouxe de novo para o pensamento do homem ocidental.

Gilson analisa a teologia cristã desde o início da patrística até a filosofia de Guilherme de Ockham. A primeira questão a ser respondida é: Aristóteles e Platão tiveram a noção de um Deus único e se aproximaram do Cristianismo de alguma forma? De certa forma eles chegaram, sim, a ter uma ideia da revelação cristã, mesmo que de forma imperfeita. Platão com o seu mundo das ideias muito influenciou Santo Agostinho, mas sua filosofia tinha uma concepção errônea da matéria ( mundo sensível), o que levava a um pessimismo e desconfiança do corpo humano e dos trabalhos manuais. Isso se refletiu na filosofia de Plotino, por exemplo. Já Aristóteles com sua filosofia realista, que foi praticamente ignorada na antiguidade, pois mesmo Santo Agostinho a conhece pouco, teve muita influência no islã e no cristianismo da escolástica. A noção aristotélica do primeiro motor foi à que mais se aproximou do Deus único do cristianismo e do islã. Os cristãos perceberam, no entanto, que Aristóteles, apesar de não considerar à matéria como má, tinha a opinião de que nela havia alguma potência de causar a desordem.

O cristianismo teve que lutar logo no início contra a heresia dos gnósticos, que tinham como base muita influência da filosofia dos neoplatônicos. Os filósofos cristãos combateram o pessimismo gnóstico com um otimismo de um Deus que não está exposto à nenhuma causa intermediária. Quem mais contribuiu para afirmar a dignidade da matéria foi Santo Agostinho, que afirmava que a matéria não é a causa do mal, pois o mundo como Deus criou é excelente, e teria continuado a ser, se uma falta nascida no reino do espírito e não no da matéria, não houvesse introduzido a desordem até na matéria. Para a filosofia católica, toda a natureza é boa e não nega o mal, mas mostra seu caráter negativo e acidental.

O cristianismo é um avanço em relação à filosofia da antiguidade pela novidade das virtudes teologais, assim como a noção de humildade, desconhecida dos antigos. Outra contribuição da filosofia cristã é a afirmação que Deus criou tudo a partir do nada, que os filósofos antigos, especialmente Aristóteles, não puderam compreender.

A filosofia cristã atingiu o seu auge com São Tomás de Aquino, com suas provas racionais da existência de Deus a partir dos efeitos por nós conhecidos, e da sua doutrina da afirmação da união do corpo e da alma, afastando o perigo do espiritualismo exagerado dos platônicos.

É claro que a Escolástica teve muita influência de Avicena e Averróis, por causa de que os filósofos do islã tiveram acesso primeiro à filosofia aristotélica. Avicena, em especial, dará a São Tomás de Aquino a definição célebre de que a verdade é a adequação do intelecto ao objeto. Entretanto, mesmo Avicena teve os seus erros e imperfeições detectados pela escolástica.

O grande problema foi que a filosofia de São Tomás de Aquino foi desde o início combatida por Duns Scot e Guilherme de Ockham, que introduziram no Ocidente a noção de dúvida muito antes de Descartes. Nasce então a crença de que fé e razão estavam separadas; que o conhecimento geral e teórico era inútil, pois só a experiência aplicada aos particulares seria válido. Com o surgimento do fideísmo, a fé passa a ser sentimental e particular, abrindo caminho para Lutero.

A filosofia católica já tinha as respostas para as incertezas trazidas pelo Renascimento. Por exemplo,Lutero e Calvino nos dão a imagem de um universo cristão cuja natureza é corrompida pelo pecado; mas a teologia católica de Santo Agostinho faz verdadeiros elogios à natureza decaída.Ele deplora o que perdemos, mas nunca pensa em desprezar o que nos resta.Para Gilson, a Renascença marca o início da era em que o homem se declara satisfeito com o estado de natureza decaída.

Foi a filosofia cristã da patrística e da escolástica que declararam o trabalho manual como digno, e o ser humano como o centro da criação divina, concedendo à espécie humana uma enorme dignidade. O espírito da filosofia medieval foi a busca de uma fé racional, que possibilitasse ao homem reconhecer à sua natureza de pecador pelo pecado de Adão, mas que pela Graça divina pudesse saber que Deus caminha sempre ao seu lado na história, e que ele não está abandonado em um mundo com muitas adversidades, mas que o cristão sabe que é o que Deus poderia ter feito de melhor. O resultado foi um grande otimismo que impulsionava o homem medieval, que via no mundo e no universo a imagem do Deus criador. Sabemos que tudo isso viria a ser destruído depois pela filosofia moderna, que transformou o homem em um híbrido de macaco com ser racional, e que vê o mundo, da mesma forma como os gnósticos do início da nossa era, como sendo essencialmente mau pela própria existência do homem, no qual acreditam que seria melhor que não existisse.

 

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