Resenha da Ética a Nicômaco de Aristóteles

Etica a Nicomaco

Quando passei a me interessar por filosofia, esse foi um dos primeiros livros que li, junto com as confissões de Santo Agostinho. A Ética a Nicômaco é uma das bases da nossa civilização, e foi muito utilizada por São Tomás de Aquino na sua Suma Teológica.

Aristóteles tinha como objetivo ao elaborar a sua ética  formar o homem magnânimo, ou maduro ( Spoudaios). Esse homem que atingiu um nível em que permite que ele esteja acima das críticas e difamações do qual é alvo. O homem maduro é aquele que vive uma vida teórica, ou contemplativa ( Bios Theoretikos), da mesma forma que sabe usar seus bens para ajudar aos amigos, de maneira que seu dinheiro seja utilizado sem excesso, ao mesmo tempo em que evita-se a avareza.

O Estagirita não conhecia a virtude teologal da caridade, mas o ideal de seu homem magnânimo chegou perto disso. Outra virtude que esse homem precisa ter é a de possuir amigos, sem o qual é impossível ser feliz e que também torna muito difícil a prática da virtude. Amigos são necessários para que nossa inteligência funcione melhor, e também para que tenhamos um companheiro nos momentos de adversidade. A vida sem amigos torna nossos bens e conhecimento em algo estéril, porque o homem na concepção aristotélica é um animal político ( Zoon Politikon), e aquele que vive sozinho para o filósofo grego só pode ser um deus ou um animal.

Platão não elaborou uma ética como Aristóteles, portanto, o estagirita nos fornece um guia mais seguro de como devemos agir. E como devem ser nossas ações, segundo Aristóteles? A resposta é que o homem deve buscar o meio termo em sua vida prática. Por exemplo: a coragem é o meio-termo entre a covardia e a temeridade, pois que o verdadeiro homem deve naturalmente temer a desonra, a desgraça da mulher e dos filhos, assim como a prisão e os castigos corporais. Mas a covardia também é um erro grave, porque devemos estar preparados para enfrentar as adversidades da vida, e também utilizarmos nossas forças para defendermos nossa nação, família e amigos.

Aristóteles chegou perto da virtude cristã da esperança, porque diz que o homem deve suportar as inevitáveis desgraças que nos ocorrem. O suicídio é fortemente condenado pelo filósofo grego como um ato que vai contra a vida em comunidade, e um desprezo à cidade. Aristóteles diz que um homem naturalmente deseja o seu próprio bem, e não pode ser injusto consigo mesmo, portanto o suicídio é uma afronta aos outros homens da Pólis, pelo fato de que o desesperado em sua mente rejeita o auxílio que a comunidade poderia lhe oferecer. São Tomás de Aquino vai utilizar esse mesmo argumento contra o suicídio, apenas acrescentando que isso é um pecado contra Deus.

Nós então chegamos à grande questão: é possível o homem ser feliz nesse mundo, e qual é o tipo de vida que mais proporciona a felicidade aos homens? Aristóteles, sem conhecer a vida futura e o pecado original, diz que sim, podemos ser felizes nesse mundo, para isso devemos ter saúde, um mínimo de bens, já que o homem sem dinheiro não pode exercer a virtude com o próximo, e também amigos. A vida mais feliz para os homens é a vida contemplativa ( Bios Theoretikos), que Aristóteles considera como a mais desejada pelos deuses. A contemplação da verdade é o ponto máximo que o homem pode atingir nesse mundo. Sem conhecer à revelação cristã, Aristóteles foi o filósofo que mais se aproximou da ética do Cristianismo, e seu ideal de que a contemplação de Deus é aquilo que o homem mais pode desejar em sua curta existência.

São Tomás de Aquino-Comentário à Ética a Nicômaco

A Ética de Aristóteles, assim como outras das suas principais obras como a Política, a Metafísica etc, foram comentadas no final da vida de São Tomás. Lamentando que esse livro ainda não tenha uma tradução para a língua portuguesa, tive que lê-lo na versão inglesa da Aristotelian Commentary Series, da Dumb Ox Books. A Ética a Nicômaco fica ainda mais clara quando a estudamos com os comentários do maior teólogo da Igreja. Ninguém precisa temer que São Tomás misture teologia com filosofia nesse livro porque ele é muito fiel a Aristóteles durante todo o livro, só corrigindo o filósofo grego em algumas pequenas passagens. Em seus comentários, São Tomás ajuda a tornar mais claros os conceitos aristotélicos sobre diversos temas. Como já havia lido a Ética duas vezes antes dessa versão, achei surpreendente como o pensamento de Aristóteles ficou mais límpido e verdadeiro com a ajuda de São Tomás. Não há críticas às passagens originais do filósofo grego fazendo um contraponto a elas com elementos da Bíblia. A Ética a Nicômaco serviu desde então como a base da ética ocidental junto com a moral da Bíblia e dos Evangelhos.

Um livro como esse deveria ter uma tradução em nosso país e também seria tema obrigatório em aulas de filosofia tanto no ensino médio como na universidade. Aristóteles ensina ao homem como tornar-se um homem de verdade, ou seja, aquele que controla os extremos de seus impulsos e age buscando o meio-termo. Apesar de reconhecer que os homens já venham com características de justiça e de bondade formados desde a sua infância, Aristóteles crê que a virtude possa e deva ser ensinada aos jovens para que cresçam no caminho da verdade. Com a ajuda do estudo da filosofia e da ciência política, um homem adulto saudável pode ser formado. Dessa maneira, o homem adulto busca a felicidade, mas na maioria das vezes a confunde com a acumulação de riquezas e poder, isso quando não cai em enormes vícios, pois identifica a felicidade com prazeres do corpo. A filosofia de Aristóteles define desde o princípio que a felicidade é adquirida pelo homem não como um bem que venha diretamente de Deus, ” mas que vem até o homem pela virtude e exercício, mesmo assim teria que ser julgada como algo divina. Porque a recompensa e o fim da virtude é aparentemente a mais excelente, divina e abençoada”(1099b14-18). Um homem só pode ser feliz com um mínimo de bens materiais ( não precisa ser rico, mas também não deve ser pobre), daí que Aristóteles diga em sua Política que o objetivo do governante ao criar uma cidade feliz seja a de ter uma maioria da população na classe-média. O homem também precisa ter amigos na justa medida, uma vez que somente aduladores são amigos de todos, no entanto não pode viver solitário, pois essa é uma vida considerada bestial pelo filósofo grego. Ter saúde física e não possuir nenhum filho, parente ou amigo caído em desgraça também é um requisito para a felicidade. Para o homem que governa, o estudo da alma humana é necessário, porque “nós chamamos virtude àquilo que é próprio não do corpo mas da alma. Dessa forma, nós dizemos que a felicidade é uma atividade da alma”. Aristóteles acredita que o governante precisa saber ciência política- que é mais importante que a medicina- para estudar e curar a alma da população(1102a13-23). A virtude moral é causada pelo hábito e deve ser colocada em prática. Uma filosofia moral puramente teórica produz homens com almas doentias(1105b12-18). Toda a Ética de Aristóteles busca formar o homem magnânimo ( SPOUDAIOS), que é aquele que se julga merecedor dos maiores bens. Diz Aristóteles: ” Mas o homem magnânimo digno dos maiores bens seria o melhor. Desde que a melhor pessoa é digna de grandes coisas, a melhor de todas  será digna do que há de melhor. Dessa forma, a pessoa magnânima deverá ser verdadeiramente boa”. O homem que deverá no final do livro viver uma vida verdadeiramente feliz, que é a vida teórica, também deverá possuir virtudes intelectuais como a prudência e a sabedoria. O homem sábio, diz Aristóteles, ” deve saber não apenas as conclusões tiradas dos princípios, mas deve declarar a verdade a respeito dos princípios. Então a sabedoria será uma combinação de entendimento e ciência”( 1141a16-19). Diz São Tomás em seu comentário que esse homem deve agir como um filósofo que sabe “que como as noções comuns são conhecidas, os princípios das demonstrações são claros. Então a preocupação desse homem é de argumentar contra aqueles que negam os princípios, como é evidente no quarto livro da Metafísica”. O homem que possui todas essas qualidades enumeradas por Aristóteles pode alcançar o verdadeiro estado de felicidade nessa vida que é a de viver uma vida teórica ( BIOS THEORETIKOS). Como diz São Tomás em seu comentário, a vida do intelecto é a melhor. Uma vida de prazeres corporais é indigna do homem, pois o corpo não pode alcançar a compreensão das coisas divinas, uma vez que isso só pode ser feito pelo intelecto. Aristóteles acreditava que o intelecto não é divino em si mesmo, mas que é a coisa mais divina no ser humano. A contemplação, diz Aristóteles, não é afetada pela fadiga do corpo da mesma forma que uma vida ativa, portanto o homem pode perseverar mais na atividade contemplativa mais do em qualquer outra. São Tomás diz : “na contemplação da verdade a filosofia oferece prazeres maravilhosos tanto em pureza quanto em permanência. A pureza desses prazeres são percebidas nisso: eles lidam com objetos imateriais; sua permanência naqueles objetos não são passíveis de mudança.” Para terminar essa resenha, cito mais um comentário de São Tomás a respeito da felicidade que o homem pode alcançar em vida através da contemplação da verdade. Segue o comentário:” mas é evidente que somente na contemplação da verdade( que o homem pode alcançar a felicidade), que é amada em si mesma e não por outra coisa. De fato, a contemplação da verdade não adiciona nada ao homem fora a si mesmo, mas a atividade externa assegura ao homem maiores ou menores benefícios além da ação como , por exemplo, honra ou os favores de outros; isso não é adquirido pelo filósofo através de sua contemplação, exceto incidentalmente, contanto que ele comunique a outros a verdade contemplada- algo que é agora uma parte de atividade externa. Dessa maneira é óbvio que a felicidade consiste na contemplação acima de tudo.”

Resenha da Introdução às Artes do Belo, de Etienne Gilson

Introdução as artes do belo

 

A Arte e a Filosofia
O excelente filósofo tomista Étienne Gilson propõe o que é filosofar sobre a arte. O que é uma coisa bela? Uma condição obrigatória é de que o objeto seja inteiro, que não falte nele nenhuma parte, ou seja, que ele seja perfeito. Ele é perfeito na medida em que é em ato e não apenas em potência. Belo para Gilson é aquilo que Santo Agostinho denomina de Claritas( o brilho) que retêm o olhar e aumenta a percepção da beleza.

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Gilson escolhe dois nomes para simbolizar a concepção ocidental de mundo: Platão, o qual Gilson considera que vivemos em uma era de antes e depois da filosofia platônica, e Nietzsche, que iniciou uma revolução contra o universo na qual não há lugar mais para o homem. Nietzsche representa a revolta contra o mundo cristão e platônico, pois Nietzsche quer fazer do homem senão vontade, liberdade e poder. Para Gilson, Nietzsche quer se libertar do ÁNTHROPOS THEORETIKÓS, o homem contemplativo.

Depois de a pintura ter alcançado o auge no fim da idade média e no renascimento, com uma perfeita imitação da natureza, o que restou de tais conquistas, pergunta Gilson. O homem moderno revoltou-se contra essa concepção, e fez-se um Demiurgo, que contrário ao de Platão, não precisa de modelos inteligíveis e racionais para criar a sua arte.

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Gilson discutirá ainda a distância que existe entre a filosofia e a arte. Ele alerta que essa distância é perigosa pois um homem que se engana sobre si mesmo pode muito bem enganar-se sobre Deus.
O cristianismo irá influenciar muito a arte com a sua noção de criação. Para Platão, o Demiurgo não é um o mais importante na sua filosofia, mas a Ideia do bem que nada faz. O primeiro motor de Aristóteles também nada cria.

Durante séculos o cristianismo buscou conciliar a sua visão de criação com a filosofia grega. Só conseguiria isso no século XIII, com Santo Tomás de Aquino e sua filosofia, em que Deus exerce sua atividade criadora a todo momento.

Creio que faltou nessa obra de Gilson um aprofundamento maior sobre essa revolta da arte moderna contra a ideia cristã de criação e sua noção de uma arte que buscasse a transcendência. Faltou também um maior destaque à escolástica e sua estética. Santo Tomás de Aquino foi citado poucas vezes, o que me decepcionou um pouco. Mas Gilson foi um dos maiores divulgadores da filosofia Tomista e por isso vale a pena comprar esse livro.

Os Sermões Alemães, de Mestre Eckhart

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A Mística Medieval
Na presente obra são apresentados 60 sermões do Mestre Eckhart. Eu achei seus sermões muito parecidos uns com os outros. Eckhart tem um grande conhecimento das escrituras, assim como dos grandes teólogos e filósofos como Aristóteles, Santo Tomás, Santo Agostinho, Avicena, Maimônides, entre outros. Destaco o sermão 30, onde Eckhart diz que o que Deus criou milênios atrás, continua criando ainda hoje. Deus cria no mais íntimo e no mais alto da alma.

Eckhart nos recomenda que amemos a Deus de boa vontade na pobreza e na riqueza, na doença e na saúde, na tentação e na sua ausência. Ele lembra-nos dos apóstolos que quanto mais sofriam mais facilmente suportavam o sofrimento.Poderíamos fazer uma comparação entre Eckhart e o padre Antônio Vieira. Eckhart é mais metafísico, enquanto Vieira é mais político. Mas na construção de imagens frases e citações de autoridades, assim como na riqueza do uso da língua, Vieira é muito superior.

Eckhart foi acusado em vida de ter sido um herético, mas nos seus sermões não dá para perceber nenhum desvio da ortodoxia. Recomendo esse livro para quem gosta da filosofia medieval, e que esteja interessado em conhecer um de seus maiores místicos.

Resenha de O Desaparecimento da Infância, de Neil Postman

Desaparecimento da infancia

 

O fim da mais bela das invenções do Renascimento: a infância
“Crianças são mensagens vivas que enviamos a um tempo que não veremos” Neil Postman

Esse livro profético, escrito originalmente em 1982, constatava já nessa época o fenômeno do surgimento da criança-adulto e do adulto-criança. Postman faz uma viagem na história, em um tempo em que,segundo ele, a infância não existia. Os gregos foram os que chegaram mais próximos do conceito de infância na antiguidade, pois eles eram apaixonados pelo tema da educação infantil, e personagens como Platão acreditavam que a virtude pudesse ser ensinada nas escolas. Os romanos, seus sucessores, também chegaram próximos à ideia de infância. Como observou Neil Postman, Quintiliano possuía uma das crenças fundamentais para que a infância possa existir, ou seja, ele acreditava na noção de vergonha, e que algumas informações e comportamentos deviam ser ocultados à criança.

No entanto, depois de haver chegado próximo a criação da infância no mundo Greco-romano, tudo isso desapareceu, segundo Postman, no início da civilização medieval. Essa tese do autor que vou apresentar agora merece algumas críticas. Vou fazê-las no final da resenha.

Postman observa que com o quase desaparecimento das escolas e da alfabetização, a criança no mundo medieval já era considerada adulta aos 7 anos. Segundo o autor, com a escassez dos livros nessa época, o conhecimento era obtido por meio da comunicação oral nas praças, locais esses em que adultos e crianças compartilhavam as mesmas notícias sobre mortes e guerras, assim como as mesmas músicas e contos de fadas.

Em um mundo em que a palavra impressa é rara, crianças e adultos compartilham as mesmas histórias e os mesmos segredos. É de se notar que um fato dessa época que acontecia em alguns casos era que as crianças eram expostas à sexualidade dos adultos, pois a noção de vergonha e pudor ainda não estava plenamente estabelecida na idade média.

Quando, portanto, a ideia de infância apareceu? A resposta , segundo Postman, é que a infância surge quando Gutenberg inventa a prensa móvel, porque é nesse momento em que os livros tornam-se acessíveis à população. A noção de individualidade e o acesso ao conhecimento aparecem com força. Os segredos da natureza, da ciência, da medicina e da teologia podiam a partir daquele momento entrar na residência de todos os que soubessem ler. Ao mesmo tempo, manuais de comportamento e de etiqueta surgem, criando definitivamente a noção de vergonha e pudor na população, especialmente nos jovens.

Mas o mais extraordinário é que o livro oculta dentro de suas páginas os segredos da vida adulta, especialmente o sexo. A partir desse momento, as crianças para terem acesso aos mistérios da vida adulta, precisarão ir para a escola para passarem pelo processo de alfabetização. O menino e a menina de escola então surgem, assim como a crença de que as crianças até os 17 anos devem ser separadas dos adultos, sendo criadas nos ambientes protegidos das escolas.

No século XVII surge uma verdadeira noção de infância. Aparecem nesse momento as roupas infantis e os escritores especializados em histórias para crianças. Um filósofo que ajudou muito a consolidar essa teoria sobre a infância foi John Locke. Como percebeu Neil Postman, Locke, assim como Freud mais tarde, estabeleceu a questão da repressão psíquica, e criou também o conceito de Tábula Rasa( folha em branco), e com isso jogou aos pais uma enorme responsabilidade pela criação dos filhos, fazendo com que os pais passassem a sentir um enorme sentimento de culpa pela sua educação.

Agora Postman explica o porquê do desaparecimento da infância. A sua tese aqui é mais convincente do que sua opinião sobre a história medieval. Ele argumenta que com o aparecimento da televisão, os assuntos mais delicados, que antes eram interditados às crianças, como o sexo e a violência, foram a partir daí lançados aos lares de todas as famílias, sem que elas nada pudessem fazer para oferecer resistência.

Postman vê na televisão e suas reportagens e programas que falam sobre todos os assuntos, uma volta à situação medieval, na qual as crianças eram expostas a todas as conversas dos adultos. Como naquela época, segundo Postman, uma criança de 12 anos que cresceu vendo televisão várias horas por dia já sabe tudo sobre violência, doenças, sexo e alguns outros temas que antes eram vetados às crianças, como a política. No mundo da tipografia, sem que houvesse a televisão, esses assuntos eram mantidos longe das crianças, pois estavam codificados nos livros e proibidos nas conversas das famílias.

Para que uma criança antigamente pudesse ter acesso ao mundo dos adultos, eram necessários vários anos na escola, de forma que os professores e os pais ensinavam sobre política e os segredos do sexo aos poucos, proporcionando à criança a ao jovem acesso aos livros sobre esses assuntos de acordo com a sua idade e progresso na escola.

Postman não fala sobre a internet em seu livro, porque ela ainda não havia sido inventada, mas em uma rápida análise que pode ser feita pelos pais atuais dessa geração da internet, observamos que com apenas alguns cliques e palavras, a criança e o jovem podem obter acesso rápido aos temas do mundo adulto, como o sexo, o adultério, a violência, a corrupção, assim como as aberrações que existem nesse mundo. O resultado disso é que as crianças e os adultos partilham da mesma realidade de sonhos e pesadelos, fazendo nascer a criança que se torna adulta precocemente, assim como o adulto que nunca cresce, tornado-se infantilizado por toda a vida.

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Apesar de algumas das observações de Postman serem verdadeiras, especialmente sobre a importância da invenção de Gutenberg, ele se equivocou sobre alguns pontos da história, e vale a pena alguns esclarecimentos.

Sobre a história antiga e sua relação com a infância, é de se perceber que Platão, Aristóteles e os romanos buscavam a educação de uma elite apenas. Jamais os gregos e os romanos buscaram educar o povo, pois a educação na antiguidade sempre teve um caráter iniciático. O sistema escolar e as universidades surgiram na tão denegrida idade média de Postman, época na qual a informação foi oferecida a todos, e que baniu o ensino de caráter iniciático da antiguidade.

Postman foi influenciado por um certo anticatolicismo, e isso faz com que ele não perceba certas contradições em seu livro. Seu conhecimento de história é superficial, porque é fato conhecido de todos que o infanticídio era amplamente praticado na antiguidade. Postman cita em seu livro que o infanticídio foi proibido no século IV, mas omite que essa lei foi feita por pressão da igreja católica. Foi a idade média que protegeu a infância criando os orfanatos, desconhecidos na antiguidade, da mesma forma como proibiu o aborto e o infanticídio. Gutenberg e os renascentistas são herdeiros da civilização medieval. A antiguidade e também o mundo moderno é que são hostis à ideia da infância, pois no momento em que a vida da criança perde seu caráter sagrado, com a prática do aborto e da morte e abandono dos bebês, é que a infância não pode mesmo existir.

Resenha do Proslogion, de Santo Anselmo

Proslogion

 

O argumento de Santo Anselmo
Segundo Santo Anselmo, Deus é algo maior do que o qual nada pode ser pensado. Ora, o insensato diz em seu coração: não há Deus, mas ao ouvir que algo maior do que o qual nada pode ser pensado, entende o que ouve e o que entende está no seu intelecto, ainda que não entenda que isso exista.

Santo Anselmo diz que uma coisa é algo estar no intelecto, outra é entender que esse algo existe. Ele nos oferece o exemplo do pintor que concebe o que vai fazer no seu intelecto, mas ainda não entende que exista o que não fez. Ora, aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado não pode existir apenas no intelecto. Anselmo completa: se está apenas no intelecto pode pensar-se que existe na realidade, sendo assim maior. Portanto existe algo maior do que o qual não é possível pensar-se não apenas no intelecto ,mas também na realidade. Não podemos pensar que Deus não exista, pois não é possível pensar em um ser acima do criador
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Tudo o que existe além de Deus, segundo Santo Anselmo, pode ser pensado como não existente, pois tem menos ser. Esse pensamento de Santo Anselmo iria encontrar um adversário em Gaunilo, que argumenta que toda uma série de proposições e entidades poderiam no nosso intelecto serem considerados como maior do que o qual não pode ser pensado. Gaunilo diz que o argumento do pintor não se adapta a este pensamento, pois aquela pintura antes de ser executada encontra-se na própria capacidade artística do pintor.

Ele conta a história a respeito de uma ilha que existiria em algum lugar do oceano, que ele até admitiria a sua existência, mas nega que a partir disso possamos dizer que todas as outras ilhas lhes sejam inferiores, e que aquela ilha existente não apenas em seu intelecto como também na realidade seja a mais valiosa, a qual nenhuma outra possa se comparar.

Outro argumento de Gaunilo: não podemos pensar que não existimos, quando temos certeza de que nossa existência é certa; mas se posso pensar que minha própria existência é incerta, por que não imaginar que o próprio Deus não exista?

A resposta de Santo Anselmo viria rapidamente. Anselmo refuta o argumento da ilha, pois dela poderá se dizer que teve início e terá um fim. O Santo também afirma que se algo maior do que o qual não pode pensar-se não se segue que tal esteja no intelecto, nem que se está no intelecto haja de existir na realidade. Para ele podemos afirmar sem hesitação: se isso ao menos pode ser pensado como existente, é necessário que exista.

Santo Anselmo argumenta que tudo aquilo que pensamos e não existe, se existisse, poderia não existir nem na realidade nem no intelecto; mas algo maior do que o qual não pode pensar-se não pode deixar de existir, se ao menos possa ser pensado.Não é possível ser pensado como não existente algo maior do que o qual não possa pensar-se.

Santo Anselmo diz que podemos sim pensar que não existimos enquanto sabemos que existimos. Explicando melhor: nada pode ser pensado não existir enquanto se sabe que existe e tudo aquilo que existe, exceto Deus, pode pensar-se que não existe mesmo quando se sabe que existe.

A argumentação de Santo Anselmo é sofisticada e difícil de se refutar. Santo Tomás e Kant tentaram descontruí-la, e Descartes e Hegel defenderam-na.É algo que ainda hoje nos faz pensar.

Sistema Nacional de Economia Política, de Friedrich List

List

 

List estava certo
O grande economista alemão Friedrich List era um apaixonado defensor do protecionismo e do nacionalismo econômico. Ele demonstra através do exemplo de diversas nações como a Inglaterra, os Estados Unidos, a França e a Alemanha como se deu a industrialização nesses países, e a razão do fracasso da indústria manufatureira em outros, como a Espanha e Portugal.

A Inglaterra e os Estados Unidos são o exemplo de como o protecionismo comercial no início da industrialização leva ao sucesso de todo o processo, e de como a abertura em estágios iniciais feita por Portugal e Espanha levam ao desastre e a miséria.

A Inglaterra é tida por List como o grande exemplo de sucesso do governo que protege a indústria manufatureira. Os ingleses eram mestres do protecionismo e da arte de fraudar as alfândegas de diversos países.

Os ingleses deram um grande salto na sua industrialização através do tratado de Methuen que, ao contrário do que acreditava Adam Smith, foi um desastre para Portugal, pois inundou o país de bens manufaturados na Inglaterra, ao mesmo tempo em que os ingleses ficavam com todo o ouro e prata do Brasil, sendo que eles utilizavam esses metais para comprar bens manufaturados na Índia, os quais eram vendidos com um preço baixo para o continente europeu, destruindo assim as indústrias da Alemanha e França, por exemplo.

Esse tratado destruiu a indústria portuguesa e deu um grande impulso à indústria e riqueza da Inglaterra. List também considera que a liberdade religiosa e de pensamento são fundamentais para a industrialização. Essas virtudes a Inglaterra possuía, mas era desconhecida em Portugal e na Espanha por causa da Inquisição.

Se olharmos para a história recente, veremos que países como a China, o Japão, a Coréia e mesmo a Alemanha, no início de sua industrialização, fizeram o que List pregava: a importação de matérias -primas e a exportação de manufaturados, isso aliado a um câmbio desvalorizado e competitivo.

Resenha: A Cidade de Deus, de Santo Agostinho

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Santo Agostinho sempre foi considerado um teólogo de inspiração platônica mas, quando lemos sua obra principal, A Cidade de Deus, e a comparamos com a sobriedade das metafísicas de Plotino, Proclo, Jâmblico e Damáscio, vemos que o seu platonismo fica já obscurecido pela teologia bíblica. Agostinho dá um tom excessivamente bombástico e emocional ao seu texto, talvez porque misture a uma tentativa de filosofar teologia e história. Este caráter histórico de seu texto é um dos grandes pontos fracos do Cristianismo, e mesmo filósofos muçulmanos criticam este aspecto da religião cristã. Quando a filosofia é diminuída para dar espaço a uma religião que pretende ser histórica, e que vê seus antecessores como meros pretextos para seu aparecimento, a razão cede lugar para o emocional. [Read more…]

Resenha de Quando Nietzsche Chorou, de Irvin Yalom

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Nietzsche e a psicanálise
Nesse livro, Yalom narra o nascimento fictício da psicanálise. O Doutor Josef Breuer é chamado por Lou Salomé para tratar de seu amigo atormentado Friedrich Nietzsche. Conseguindo se aproximar do filósofo, que já tentara vários médicos, Breuer vai aos poucos tentando ganhar sua confiança; mas não é bem sucedido.

Então em uma atitude desesperada, propõe a Nietzsche que os papéis sejam invertidos; ele será o paciente e Nietzsche o médico. O resultado é surpreendente.

Breuer tentará encontrar na filosofia de Nietzsche a solução para conseguir se livrar da fixação sexual por uma paciente. O Doutor Breuer é um paciente desesperado que busca a solução para sua falta de crenças e, aflito, diz a Nietzsche que não sabe como e por que viver.

O filósofo não dará a resposta que Breuer precisa, e ele terá que em um processo de introspecção que Yalom narra com maestria, buscar seu processo de cura.

Esse seria o futuro da psicanálise: o próprio paciente expressando seus sentimentos através da fala encontra a salvação- pois o filósofo existencialista Kierkegaard já havia dito que a palavra é o que salva. Assim se livrando da angústia que mantinha em silêncio, o paciente encontra ele mesmo a solução para os seus problemas.

Nietzsche confronta Breuer com sua doutrina do eterno retorno. Cada ação não realizada volta à sua consciência por toda a eternidade. Essa é uma questão que atormenta muitos pacientes. Será que minha vida poderia ter sido melhor ou diferente? Nietzsche já havia dado a resposta em “Assim falou Zaratustra”: ” O que importa que você não tenha sido feliz? Quantas coisas são possíveis ainda!”

Então quais são as opções para Breuer? Viver a paixão com sua paciente violando assim a ética médica, ou permanecer com o amor de sua mulher e filhos? Com a ajuda da psicanálise, Breuer encontrará a resposta.

Yalom escreveu um livro convincente e que faz o leitor refletir.

Resenha de A Ditadura Envergonhada, de Elio Gaspari

Ditadura envergonhada

 

Os militares e o golpe de 1964
“Ignorar aquilo que aconteceu antes de você nascer, é permanecer para sempre uma criança” (Marco Túlio Cícero)

Para pessoas como eu, que só viveu um pequeno período da ditadura, esse pensamento de Cícero serve de alerta para que não voltemos a cometer o mesmo erro, e que valorizemos o valor da liberdade e da democracia.

Gaspari fez uma ampla pesquisa no Brasil e nos EUA para publicar um livro que, inicialmente, resumiria-se a história de Geisel e Golbery; no entanto, quando ele se deu conta, o livro já contava histórias de personagens diversos que participaram do golpe de 64 e dos governos militares que se seguiram. Em a ditadura envergonhada, Gaspari relata os últimos momentos do governo João Goulart e os bastidores do exército preparando-se para o golpe. O objetivo do autor é escrever um livro sobre como Geisel e Golbery ajudaram a derrubar Jango, ao mesmo tempo que iniciaram o processo de abertura do governo militar entre os anos de 1974 e 1979. Agora tentarei fazer uma análise dos acontecimentos do primeiro livro da série.

O primeiro capítulo, “o exército dormiu janguista”, narra os últimos acontecimentos do governo João Goulart na presidência. Goulart governava com um frágil equilíbrio de forças e com poder de ação limitado. Gaspari considera-o como uma personalidade fraca. O grande motivo de sua queda foi a reação de alguns setores mais conservadores da sociedade, como o exército e a igreja , às suas propostas de reformas de base. Esse capítulo, porém, exibe uma maior preocupação com os líderes militares e suas ações e reações ao discurso da central do Brasil, assim como as primeiras manobras que viriam resultar na revolução.

O capítulo seguinte ,“ o exército acordou revolucionário” ,é concentrado em algumas figuras como Castello Branco e Costa e Silva, assim como em alguns outros comandantes do exército de algumas regiões do país. Gaspari aproveita o acesso que teve aos arquivos norte americanos para contar a participação do governo Kennedy no golpe militar de 1964. Um personagem que surge com força é o embaixador americano Lincoln Gordon, que deu todo apoio ao golpe e ainda ofereceu ajuda militar, em uma operação conhecida como Brother Sam.

Gaspari dedica dois capítulos para contar a história de como Golbery criou o SNI, inspirado na CIA, e de como Fidel Castro ajudou diversos revolucionários de esquerda, principalmente a Brizola. Uma parte muito boa do livro é aquela em que o autor nos narra os diversos acontecimentos políticos e culturais que estavam acontecendo no Brasil e no mundo nos anos 1960. Tirando o fato de que vivíamos uma ditadura, essa época parece ter sido muito boa para se viver.

O livro também nos faz rir em alguns momentos quando, por exemplo, lemos os ridiculamente reacionários editoriais do jornal O Estado de São Paulo.

A questão da tortura e da espionagem parecem ser uma herança que o governo militar herdou do governo Vargas. Gaspari atribui à direita o início do processo de radicalização da política brasileira no início dos anos 1960. A corrida armamentista produzida pelos revolucionários de esquerda foi consequência da reação da direita.

O livro em alguns momentos é um pouco confuso, faltando a Gaspari a sobriedade e beleza da tradição dos historiadores ingleses aos quais estou acostumado a ler. Em vários momentos o leitor precisa absorver uma enxurrada de nomes e acontecimentos, o que dificulta um pouco a leitura, mas esse período da história do Brasil é muito importante, por isso eu creio que o leitor pode deixar passar essas pequenas falhas do autor.

Para quem pensa em ler um livro que conte como foi o governo João Goulart e um estudo sobre sua personalidade e ideias, esse livro não é recomendado. Trata-se de uma obra que esclarece os bastidores do exército e suas hierarquias, com ótimas passagens que esclarecem a participação americana no golpe, assim como a introdução da tortura e a promulgação do AI-5.

As Limitações da Escolástica

duns Scot

 

As Limitações da Escolástica
Faço a resenha da coleção os pensadores em que só possui a obra de Duns Scot e Guilherme de Ockham. Como me interesso muito pela história e filosofia da idade média, adquiri esse livro. Já estou acostumado com alguns métodos da escolástica pela leitura de Santo Tomás de Aquino e de Santo Anselmo. Portanto tento entender a maneira como esses dois teólogos escrevem. A linguagem que os dois utilizam pode irritar um pouco com as frequentes citações de Aristóteles ( a idade média desconhecia Platão, somente sua obra Timeu), que Santo Tomás cita ainda mais, mas isso está desculpado porque a idade média jamais buscou o rompimento com a filosofia antiga, veja o exemplo de Bernardo de Chartres e seus anões em ombros de gigantes. Foi o gigante Aristóteles quem permitiu que os Filósofos da idade média enxergassem mais longe. Foi Descartes quem primeiro propôs a Tabula rasa em filosofia. Na obra há frequentes repetições das palavras Sócrates, brancura, calor, fogo, etc. Isso me incomodou um pouco.

A idade média cristã acabou por ficar muito dependente dos filósofos árabes e das obras de Aristóteles, mas pelo menos souberam reconhecer os erros do filósofo grego e de Averróis. Na obra de Duns Scot ele tenta provar a unicidade de Deus e o conhecimento natural do homem. É um filósofo um pouco difícil, mas não provocou tanto o rompimento com o pensamento de São Tomás quanto foi com Ockham . Esse último fica mais preocupado em negar os universais e ressaltar a importância do particular. Esse filósofo iria por fim a escolástica medieval, por isso ele é mais bem visto pelos olhos modernos, dado a sua influência para a separação entre fé e razão e filosofia e teologia.

Vamos ao exemplo de Ockham: para ele a afirmação que Deus é uno e trino não pode ser provada por nenhuma ciência, mas apenas pela teologia e a fé. A bondade de Deus também só pode ser provada pela fé. Ockham diz que em vida não conhecemos a Deus nem intuitivamente nem abstrativamente. Esse filósofo e sua negação de que através da razão e da observação de todas as criaturas, da natureza e do universo possamos chegar à conclusão de que existe um criador faz a pessoa cair no extremo do fideísmo. Creio porque creio e nada mais. Isso vai obviamente influenciar Lutero e Kant, mas o desenvolvimento posterior do protestantismo, por exemplo, entre os calvinistas e puritanos, a observação da obra da natureza e seu estudo pela ciência foram vistas como um meio de se glorificar a Deus. Isso pode ser lido na obra de Max Weber- A ética protestante e o espírito da capitalismo