A Tentativa de Imanentizar o Eschaton, por Eric Voegelin

Eschaton

O filósofo alemão Eric Voegelin criou essa expressão na sua obra Nova Ciência da Política (Editora Universidade de Brasília, 1982). Na edição brasileira da Universidade de Brasília, ela é mencionada na página 92, no capítulo “gnosticismo- a natureza da modernidade”. Voegelin escreve: “o homem e a humanidade agora têm sua realização, mas ela está além da natureza. Mais uma vez, nesse caso, não há um eidos da história, porque a sobrenatureza escatológica não é uma natureza no sentido filosófico e imanente. Portanto, o problema do eidos na história só se põe quando a realização transcendental cristã é imanentizada. Contudo, tal hipótese imanentista do eschaton é uma falácia teórica. As coisas não são coisas, nem possuem essência, em virtude de uma declaração arbitrária. O curso da história como um todo não é objeto da experiência; a história não possui um eidos, e isso porque seu curso se estende ao futuro desconhecido. Assim, o significado da história é uma ilusão; e esse eidos ilusório é criado ao se tratar um símbolo de fé como se fosse uma proposição relativa a um objeto da experiência imanente.”

O que significa “imanentizar o eschaton”?

 Seria a tentativa de antecipar o juízo final na Terra, controlando o fluxo da história para criar um reino terrestre onde os maus seriam punidos e os bons reinariam. O mundo seria renovado, e o juízo, que o Cristianismo reserva supostamente para outro mundo, seria trazido para o aqui e agora.

Voegelin vai atribuir ao gnosticismo, que ele diz ter sido reavivado especialmente na era moderna, em movimentos como o nazismo e o comunismo, esta ideia de antecipar o Juízo Final. Seria interessante tentarmos descobrir o significado do gnosticismo para Voegelin para compreendermos por que ele culpa os “gnósticos” pela origem de ideias tão devastadoras para a humanidade.

Quem já leu as interpretações sobre os gnósticos da Antiguidade, além dos seus textos originais, percebe que dificilmente conseguiria extrair deles alguma preocupação com política ou com a revolução mundial. Os gnósticos viam sim o mundo como uma prisão, mas não queriam de forma alguma “melhorá-lo” ou criar justiça social. Não estavam preocupados com a maneira que os outros povos adoravam seus deuses. Não existe a paranoia sobre um Juízo Final em seus escritos. O mundo é mau, e a única salvação possível é rejeitá-lo, e não o aperfeiçoar. Schopenhauer recuperou este sentido gnóstico antigo na filosofia. É a antítese de Hegel, por exemplo. Platão acreditava que o ser humano tinha como missão melhorar o mundo e levar ordem à desordem como o Demiurgo fez, no Timeu, em uma escala cósmica. Mas ele não tinha nenhuma preocupação com a História, assim como Aristóteles, pois os gregos possuíam uma noção cíclica da mesma. A obsessão com a História é típica do Judaísmo e do Cristianismo.

Existem dois livros excelentes para compararmos o espírito pagão (platônico) e gnóstico (maniqueu), com o do Cristianismo: Contra Celso, de Orígenes, e o Contra Fausto, de Santo Agostinho.

No caso de Santo Agostinho (e de Orígenes também), verificamos um sinal típico da teologia e sua maneira de argumentar: a emoção, que às vezes transforma-se em uma irritação pura. René Guénon já havia dito que a teologia, ao contrário da metafísica, era dominada em grande parte pela emoção. Santo Agostinho era bombástico por excelência. Em todas as suas respostas ao bispo maniqueu Fausto sua irritação é transparente. Na maioria das vezes, quando responde a Fausto, porque lhe convém, acusa o maniqueísmo de ser espiritual demais, e ignorar a carne. No entanto, quando Fausto, especialmente quando insiste nas contradições sobre genealogia do nascimento de Cristo, que os maniqueus rejeitavam, Agostinho acusa Fausto de apegar-se à carne e à matéria, e ignorar o sentido espiritual. É preciso que se decida se os gnósticos eram espirituais ou carnais em demasia. Da mesma maneira que Voegelin precisa decidir-se se gnosticismo vê o mundo como ruim e quer escapar dele ou fazer a revolução para ficar aqui.

O Contra Celso é mais emblemático para nós porque Voegelin o cita em sua Nova Ciência da Política. Um dos grandes erros de nosso tempo é a crença de que o Judaísmo e o Cristianismo são religiões “conservadoras”. Ninguém precisa apelar a Nietzsche para ver o espírito da revolução nas duas religiões. O filósofo platônico (e não epicureu, como achava Orígenes) Celso foi perspicaz e profético ao ver no Cristianismo o germe da revolução. Curiosamente, na página 79, Voegelin cita as observações feitas por Celso que são “refutadas) por Orígenes em sua obra. Ali, Orígenes expõe o seu plano de um governo mundial que deixaria qualquer “conservador” de nossos dias de cabelo em pé. O Cristianismo dessacralizou de tal maneira o mundo que as portas para o materialismo futuro foram abertas. Celso foi bastante enfático quando disse que quem pretende que o mundo tenha uma só fé e um só pensamento, não entendeu absolutamente nada (p.80). Orígenes, meio que diabólico, afirma que é isso mesmo que vai acontecer. Portanto, para Celso, o Cristianismo era uma religião política e de sedição, uma verdadeira ameaça ao paganismo e à ordem antiga. Voegelin mesmo acredita que os cristãos tenham sido perseguidos, por uma boa razão, graças a esse motivo. O desejo de servir a um só Senhor é cristão, e não seria aceitável aos pagãos.

A pergunta que não quer calar é esta: por qual razão Voegelin atribui a um “gnosticismo” e tentativa de baixar o céu na Terra? Porque não basta ele dizer que o Reino cristão era de outro mundo, pois temos aí o livro do Apocalipse para relembrar-nos do famoso “reino” cristão. Como bem viu Jung em seu Resposta a Jó, o Jesus do Apocalipse nada tem a ver com o dos Evangelhos, e o sangue que espirra para fora da Terra em determinado momento do Apocalipse não tem nada de simbólico. A suposta “transcendência” cristã é bastante falaciosa, se analisarmos os fatos.

Se Voegelin viu as implicações das observações de Celso, por que não as seguiu. Viu também as da aceitação (p.86) do Apocalipse no cânone das Escrituras, então por que não afirma que foi o Cristianismo e sua inacreditável obsessão histórica que, ao longo dos séculos, promoveu e sofreu com movimentos messiânicos, com revoluções etc.? Os filósofos gregos estavam bem pouco interessados em História, basta vermos que Aristóteles, na Poética, ensina a superioridade da poesia sobre a História. Hegel, neste sentido, é fruto da idolatria por História do Cristianismo e do Judaísmo, e Schopenhauer zombava dele muito por causa disso. A Ideia nunca muda, e é uma ilusão o filósofo preocupar-se com fatos históricos. Schopenhauer, por este motivo, teve que sofrer com a fúria de um Oswald Spengler e de um Joachim Fest (biógrafo de Hitler).

Voegelin (p.96) afirma que a heresia gnóstica acompanha o Cristianismo desde o início. Um grande estudioso do gnosticismo do princípio do Cristianismo que foi L. Gordon Rylands (The Beginnings of Gnostic Christianity), demonstrou que o a imanentização do Logos de Fílon Judeu foi progressiva na Igreja da Antiguidade. Nem o apóstolo Paulo nem o autor do Apocalipse conheceram um Jesus histórico, de carne e osso. Ali está demonstrado que o gnosticismo foi anterior ao surgimento do Cristianismo, e não o contrário.

Diz que deveríamos estudar Santo Irineu para compreendermos o mundo moderno. Considero isso bastante contraditório. Dever-se-ia estudar o Contra Celso para entender a vontade cristã de varrer do mundo as diferenças entre os povos. Não é possível substituir o conceito “obsessão por História” por “gnosticismo” para contornar o problema das devastações da humanidade. No Contra Celso vemos claramente o modo de argumentar perigoso do historicismo cristão: o Judaísmo é verdadeiro em relação à filosofia grega porque é anterior a ela, por isso Platão deve ter roubado dos judeus algumas de suas ideias (O Timeu), mas o Cristianismo tem que ser verdadeiro porque é mais novo tanto que o Judaísmo como que a filosofia grega. No esquema histórico, a verdade é questão de datas. Toda a revolução parte do princípio que tem algo de mais novo a apresentar, e precisa varrer os resquícios arcaicos do mundo. Trata-se do esquema apocalíptico cristão, nunca de “gnosticismo”.

Para concluir, acredito que Eric Voegelin errou ao atribuir a um suposto “gnosticismo” para aquilo que é algo tipicamente judaico-cristão. Ele viu que Celso havia alertado sobre o espírito revolucionário dos cristãos, mas resolveu contornar o problema inventando um novo termo. O resultado ficou absolutamente insatisfatório, ao menos para mim.

 

 

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