Resenha de Hitler e os Alemães, de Eric Voegelin

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” a guerra é de todas as coisas o pai, e de todas as coisas o rei; de alguns ela faz deuses e de alguns, ainda,faz homens; alguns ela torna escravos e alguns, homens livres.” Heráclito- Fragmentos.

Existem muitos livros sobre a vida de Hitler, sendo que um eu recomendo especialmente, que é a biografia de Hitler de Joachim Fest; entretanto, nenhuma das biografias que eu li fazem uma análise filosófica sobre a personalidade de Hitler e  a população alemã da época, incluindo os filósofos e pensadores de destaque, e também o comportamento das igrejas evangélicas e católica no período antes,durante e posterior à guerra.

O filósofo alemão Eric Voegelin fugiu do nazismo por ter visto o abismo antes que ele se manifestasse com toda a força. Viveu durante anos nos Estados Unidos antes de voltar à Alemanha para fazer essa série de conferências sobre Hitler, que estão reunidas nesse livro.

O que eu percebi de diferente nessa análise de Voegelin foi a de um alemão que percebeu os problemas de seu país mais profundamente do que os historiadores, de forma que Voegelin descarta uma resposta fácil como a culpa coletiva que ,no fundo, seria uma forma de não culpar ninguém. Ele era um  grande defensor da responsabilidade individual.

Uma série de estudos feitos por Voegelin sobre alguns pensadores alemães que estudaram Hitler são o ponto principal de Hitler e os Alemães. Ernst Schramm, que foi professor de História medieval e estudou e escreveu sobre às conversas de mesa de Hitler, é muito citado e criticado por Voegelin por não ter percebido o perigo e a monstruosidade de Hitler, se apegando apenas a detalhes menores das falas do ditador alemão.

Utilizando sempre a filosofia como base de suas palestras, Voegelin acredita em alguns processos que aconteceram com o pensamento moderno que desdivinizaram o homem, que ele sustenta que também é uma forma de desumanização. Esses acontecimentos podem ser creditados à pseudociência de Darwin e Haeckel, à imbecilização da vida cotidiana e à decadência da filosofia e da teologia.

Um dos traços da personalidade de Hitler era a de que ele se encaixava na classificação de Hesíodo de homem inútil-o achreios, que era diferente do pan aristos, o qual é o homem que reflete e pensa por si mesmo, e do esthlos, que também é bom e sabe ouvir. A população alemã é classificada por Voegelin como sendo composta em grande parte de uma ralé, que perdeu a capacidade de refletir, ou também de iletrada, pois sabem ler e escrever, no entanto, não compreendem o que leem.

A ciência e a teologia de Hitler foram herdadas do monismo de Haeckel, que criou uma filosofia confusa como o inferno, pois para ele( Haeckel) toda a filosofia tinha que estar subordinada à zoologia e à antropologia. Hitler compreendeu de maneira totalmente errada a filosofia de Heráclito, como nesse fragmento citado no início da resenha. Hitler pode ser caracterizado como o iletrado como Voegelin  descreveu acima.

Voegelin diz que uma democracia em que a liberdade de consciência do cidadão e o que esse indivíduo deseja que os outros façam, não seria válida, pois estes desejos individuais nunca poderiam ser a norma vigente, de forma que a democracia é aquela em que existem outros bens a serem alcançados, muito além da vontade de uma única pessoa. A obsessão de um líder de atingir apenas um objetivo leva à reação das outras pessoas, que Aristóteles definiu como o problema da Stasis. Voegelin estudou essa questão no seu livro Platão e Aristóteles.

Talvez os capítulos mais interessantes do livro sejam os dedicados ao estudo do comportamento das igrejas evangélicas e da igreja católica durante o período em que o nazismo dominou. Para Voegelin, parte da igreja evangélica compreendeu mal a Bíblia, e a igreja católica desumanizou os que não estavam dentro do corpo da igreja.

Pelo menos no que eu consegui entender, a igreja evangélica teve a vantagem de ter tido uma rachadura nas opiniões dos que aderiram à causa nazista e os que se mantiveram fiel ao espírito do evangelho. Isso não aconteceu com a igreja católica, que manteve suas ações e pensamentos escondidos do público.

Voegelin estuda o pensamento dos representantes da igreja evangélica sobre a passagem de Romanos,13, em que o apóstolo São Paulo diz ” que todos devem sujeitar-se à autoridade”. Essa passagem foi utilizada tanto pelos evangélicos como pelos católicos para justificar a submissão do povo ao nazismo. Voegelin, no entanto, explica como ela foi mal interpretada.

No lado católico, a posição do cardeal Faulhaber em relação aos judeus foi lamentável, para não dizer criminosa. Voegelin denuncia o abandono por parte da igreja católica da doutrina do corpus mysticum, de São Tomás de Aquino, em que o que acontece com um não-membro da igreja é tão importante quanto o que acontece com os católicos. O filósofo alemão denuncia a encíclica Mystici Corporis, de Pio XII, como sendo aquela que mais limita o corpo da igreja, que foi reduzida, então, a uma simples reunião de católicos que recebem o sacramento. Voegelin rejeita essa encíclica por ela limitar a igreja aos sacramentos, porque ele demonstra que na história dos povos sempre houve sacramentos disponíveis.

A filosofia de Eric Voegelin é rica e complexa, e a recomendo para todos os que se interessam por filosofia, política e história. Esse é o meu livro favorito sobre Hitler e o nazismo ao lado, é claro, da biografia do ditador alemão feita por Joachim Fest.

Comments

  1. Sandro says:

    Excelente resenha. Ainda não li o livro.

    Juro que o comprei no lançamento. Eu me lembro até de sequer ter hesitado entre este e o “Reflexões Autobiográficas” – que, no entanto, mais tarde adquiri e li. Porém, não o encontro em meio à confusão dos livros do meu apartamento.

    Creio que terei de recomprá-lo. (Tão logo o faça, é quase certo que esbarrarei, casual e inadvertidamente, com o exemplar antigo …)

    Parabéns.

    Sandro

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