Resenha de Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche

Zaratustra

Assim Falou Zaratustra resume a filosofia de Nietzsche: confusa, irracional e destinada a poucos escolhidos. O livro pretende ser poético, mas creio que é de uma poesia que raramente funciona. A filosofia de Nietzsche atrai muitos que nunca estudaram seriamente questões mais profundas da filosofia antiga e medieval. O que ele sugere nesse livro? Anuncia a morte de Deus, porque a filosofia moderna de Kant tornou a metafísica improvável, e o que resta ao povo é somente o culto da ciência, da democracia e o apego a doutrinas falsas, como o socialismo. Critica a filosofia de Sócrates, Platão, Kant e Schopenhauer, pois Zaratustra anuncia o Além-do-Homem, que é aquele que transcendeu a moral cristã e todas as doutrinas que tentavam dominar o homem lhe impondo leis e restrições contra à sua vontade.

A moral de Nietzsche é destinada ao homem de exceção, e para sustentá-lo são necessários vários escravos, homens fracos e os desgraçados da sociedade. Esses seres inferiores são aqueles que ainda estão dominados pela moral cristã e pela compaixão com os rejeitados da sociedade.

Zaratustra prega contra o conceito do bem e do mal: o homem não deve nada; se tu queres, tu podes, exclama o profeta. Nada podemos saber sobre o que é bom e o que é mau. O que é necessário para a sociedade é que existam nobres que quebrem às antigas tábuas da lei, e que vivam em um mundo em que não há Deus, mas apenas deuses. No mundo há muita lama, diz Zaratustra, mas é preciso superar o asco e criarmos asas para superarmos essa realidade.

O homem cristão rejeita o mundo por um futuro hipotético no além; Zaratustra afirma a vontade de viver e o amor à Terra. Para o homem cansado da vida no nosso mundo, todas as fontes estão envenenadas, diz o Profeta. Esse é o homem cristão que coloca sua esperança em um outro mundo.

O que Zaratustra quer é a rejeição da moral socrática e cristã, e a afirmação da nossa própria moral e vontade de viver. Esse mundo é terrível, pois o homem é senhor de si e não existe mais Deus para julgá-lo; aquele que é o mais nobre e forte deve dominar sobre a ralé, ou seja, a multidão de fracos, doentes e escravizados pela filosofia grega de Sócrates e Platão. Zaratustra rejeita o céu cristão, mas deseja a eternidade.

O Além-do-Homem de Nietzsche é intuitivo e uma tentativa de especulação do filósofo alemão. Como afirmou o filósofo alemão Eric Voegelin, a tentativa de se criar um super-homem é também a causa da morte do homem. Todo o gnóstico especulativo que mata a Deus vai inspirar os revolucionários que matam o homem.

A característica gnóstica-especulativa de Assim Falou Zaratustra pode ser demonstrada pela tentativa de Nietzsche de criar um homem novo, que supere e transforme a realidade do mundo. Espera-se, então, o profeta que irá nos salvar da maldade do mundo e nos indicar o caminho.

Nietzsche faz uma interpretação da história parecida com à de Marx: Se para esse último a história é uma demonstração de luta de classes, Nietzsche a interpreta como uma forma  de superação dos mais fortes e capazes contra a moral cristã. É a luta dos superiores contra a mesquinharia.

É realmente muito difícil compreender a filosofia de Nietzsche. Ele escreve em forma de aforismos, em que alguns funcionam, e outros não sabemos qual é o seu verdadeiro significado, se é que significam alguma coisa.

 

Comments

  1. Francisco Roberto says:

    Cara, gostei muito do seu blog, que tem um texto conciso e simples. Parabéns!

    No mais, evite livros da Martin Claret, pois a edição e a tradução costumam ser, na melhor das hipóteses, duvidosas. E se quiser ler o Zaratustra que vale, leia o que saiu pela editora Vozes com tradução e interpretação do grande – e desconhecido – filósofo brasileiro Mario Ferreira dos Santos.

    Abs,

    • Eu detestei a traducao que ele usou para Ubermensch, Alem-homem. Super-homem ou Novo-homem teriam sido melhores.

      • Suzana Sampaio says:

        Concordo plenamente com você Thomas, a melhor tradução é a da Companhia das Letras do Paulo César de Souza, no ponto de vista dos livros mais econômicos.

  2. Alexandre says:

    É de extrema importância, ao estabelecermos um diálogo aberto relativamente a questões da filosofia, a clareza e, independente de quem estejamos prontos a dissertar sobre, antes de mais nada a capacidade de adentramos um mundo que não é nosso, iniciando assim, a interpretação deixando de lado mesquinharias, pois cada pensador tem a sua participação ao longo da história e é preciso encontrá-lo e entendê-lo como um rebento do mundo que o cerca e de seu contexto.

    Um bom profissional seguiria a rigor esse tipo de postura, mas já de início observamos que você rapaz, fugiu a todo o decoro, uma vez que demonstra reações afetadas ao invés de uma argumentação e se refugia em meio a uma “tradição” que entende por profunda, cegando-te e impedindo de acordar e observar que o mundo aqui fora é outro. A leitura do primeiro parágrafo nos permite antever que jamais se dedicou a um estudo profundo da obra de Nietzsche e, sendo assim, é realmente de todo impossível que consiga criticá-lo. Mesmo quando sou confrontado e me pedem para dizer o que penso de trabalhos de pessoas como Ayn Rand, tento adentrar a certa profundidade para não falar levianamente, embora saibamos que o trabalho dessa autora não careça de reflexão para ser descartado. Mas um cuidade dez vezes maior tem de ser tomado no que tange a Nietzsche, visto ser o autor mais influente dos últimos quase 200 anos. A modernidade é um fruto serôdio da obra de Nietzsche. Desse modo, acho que tenho algumas coisas a te ensinar.

    Primeiro de tudo, os assuntos se interligam e é por isso que não pretendo também ser muito sistemático. Mas a que vem a crítica de Nietzsche ao racionalismo, levando a que seja tão insidiosamente rotulado de “irracional”?

    Bom, Nietzsche meu caro, é o filósofo da psicologia; quando se busca entender seu pensamento, tão abrangente, em termos políticos ou metafísicos, comete-se um atroz engano; e ao mergulhar em seu estudo, o que fez foi tentar entender a natureza do homem, seus instintos – indo, aliás, dar início a um processo de análise que seria concretizado e popularizado depois, por Sigmund Freud, Jung e Lacan – todos influenciados por Nietzsche.

    A conclusão que chegou é de que o sujeito “Eu”, isto é o “eu” que pensa, o originador de toda a racionalidade e que seria a causa do predicado “penso”, na verdade seria um preconceito. Ao estabelecer a distinção entre a consciência e o corpo, tradição que remonta a Platão, e que posteriormente se volatizou em Descartes e Schopenhauer, a filosofia estava adentrando um terreno da falsidade, posto que, o homem seria na verdade governado por instintos e impulsos inconscientes. E é aqui que a filosofia de Nietzsche adquire a sua complexidade, que pouco é falada.

    Oras, ele estabelece os instintos como forças lutando umas contra as outras no interior de nossa inconsciência e, na medida em que eles se aprofundam nesse desconhecido, mais eles se agregam e reúnem em torno de um único princípio (a vontade de poder, que, espero que entenda o que significa…) e, contrariamente, conforme se evadem desse centro, se desdobram em outras forças e ao se externarem tomam a forma do juízo e da ação. Assim, não faz sentido, segundo ele, criticar ou refutar a filosofia em si própria, mas investigar seu autor; e isso ainda seria superficialidade. Nietzsche busca estados fisiológicos que seriam universais, mas que se externariam de formas diversas: embora determinado comportamento seja irmão de outro, na aparência nos chegam quase como antípodas (é o caso do Cristianismo em sua raiz e do Comunismo ainda hoje).

    Essa é, inclusive, a razão de por que em certas circunstâncias ele se exprime a respeito de algumas ideias como transcendentes e alheias a toda a vontade humana. É desse modo que a “objetividade” de quem quer que seja não tem valor algum, posto que, na verdade, nada é impessoal; a filosofia de um autor expressa seu interesse. Kant, ao formular o “imperativo categórico” não ousou ir longe o suficiente, como Hobbes e Maquiavel, a ponto de enxergar a natureza humana – era presa de um preconceito. A “vontade de ilusão” é que seria o verdadeiro imperativo inconsciente do ser humano e Kant foi um deles.

    Nietzsche nos põe como “veículos” portadores de idéias que guiam nossos modos sem que nos demos conta. Isso pode soar místico, mas na verdade é apenas a reação de nós enquanto homens, frente a situações corriqueiras.

    A moralidade, uma vez criada e ensinada desde cedo, quase sempre se opõe aos instintos, condena-lhes e é de tal modo remota que torna-se semi-inconsciente; o Ego humano tem de lutar e quase sempre termina doente. A saída é criação de valores, idéias grandes que possam santificar certos aspectos de nosso ser e demonizar outros. Tudo isso feito de forma a legitimar nosso agir e nosso pensar. A razão é então um instrumento de nossas inclinações pessoais inconscientes: embora existam pessoas que tentem me convencer de que Jesus não existiu, eu não vejo assim. Seria minha razão que me diz isso, ou sou eu que vejo o que quero ver?

    Nós inventamos nosso mundo. Não são os sentidos que corrompem o conhecimento; seu testemunho é perfeito, já que são “feitos” precisamente para isso. É a razão que os modifica e transmite à consciência uma imagem ou som distorcido. Freud, a partir daí, formulou a primeira e a segunda instâncias da mente humana. Segundo ele, todo pensamento, antes de ser efetivado num conteúdo manifesto do sonho, tem seu conteúdo latente averiguado, censurado e distorcido, muitas vezes como um instinto de defesa. Se você lembrar, Nietzsche disse que a mentira sempre condicionou mais a vida do que a verdade. Nós preferimos as mentiras, porque isso nos convém.

    O “ressentimento” seria a raiz do cristianismo; a vingança do povo de Israel, outrora poderoso, sobre Roma; mas o próprio Nietzsche aponta o fato de que Jesus e todos os seus discípulos não tinham noção disso. “Moral dos senhores”, “Moral dos escravos”, tudo isso são conceitos para estudo psicológicos e não antropológicos. Ludwig von Mises, por exemplo, entendendo que o Socialismo em si era fraco, apostou em textos que tentavam expressar a mentalidade que leva o homem a crer nessas doutrinas. A impotência, incapacidade e a vingança sobre os invejados é típica do homem; mas esconde-se isso sob a égide da “luta pela igualdade…”

    O seu texto é a própria prova de que os juízos imparciais não existem.

    A “morte de Deus” é um conceito expresso sob termos emocionantes. É pouco provável que já tenha lido “A Gaia ciência” onde essa idéia é vinculada pela primeira vez, como um acontecimento moderno e terrível, por que entendo que esteja ocupado demais lendo sobre o “Uno” e o “múltiplo”, o “Ser” ou “Não-ser”, ou o Argumento do Terceiro Homem, que são mais importantes para você, mais “profundos”…

    De qualquer forma, posso falar um pouco sobre isso.

    Nietzsche, ao escrever no século XIX, assistiu a uma série de transformações no pensamento. Dentre as mais significativas estava a Teoria da Evolução proposta por Darwin. Desde então, houve um crescente de cientificismo que já vinha se insinuando, mas que agora não era mais impedido. Entendendo tudo o que o cercava, Dostoievski mudou radicalmente seu estilo e é dessa lavra que temos seus mais belos romances. Nietzsche, posterior e independentemente, também compreendeu isso.

    Não foi Nietzsche quem “matou” Deus; foi a ciência, mesmo não entendendo o que havia feito. Como ateu, por que acha que ele colocou que Deus havia sido morto e não que Ele não existe? Aqui, ele estava brincando com nossa mente e nossas emoções… Aquele ser que aprendemos a amar e sobre o qual criamos mil histórias e mesmo uma imagem inteligível, de repente se vai. É esse choque que ele capta e quer transmitir.

    Deus não era mais uma força a ser considerada pela ciência na origem do homem. Os filósofos iluministas atacaram simplesmente com as ferramentas lógicas a providência divina e depois a doutrina auto-contraditória e surreal do livre-arbítrio. O espírito verdadeiramente religioso principiava a decair e sua consequência era inevitável: oras, era a ascensão do niilismo.

    Se o maior dos ideais humanos perdeu sua credibilidade, ainda que se conservasse a confissão de uma fé, esta seria mero simulacro, o resultado do ócio e do trabalho maquinal e da total ausência de reflexão profunda. Como consequência, a moral também decairia e o homem se veria num culto de si, no hedonismo, na barbárie ou do pessimismo. Dostoievski e Nietzsche se veem como os salvadores do homem, mesmo que por caminhos diferentes.

    O primeiro busca uma reaproximação com Deus, pois entendia que sem o amor cristão o homem não amaria aos outros. Nietzsche afirmava exatamente isso, mas entendia que não havia escolhas. O acontecimento da morte de Deus não era algo que se poderia regredir. Embora você creia nele, basta olhar a sua volta e ver que ele estava certo. Mario Ferreira, de quem você diz ser discípulo, vislumbrou isso e nos disse:

    “Não se pode deixar de reconhecer que Nietzsche foi o grande profeta do Séc. XIX. A sua antevisão do Séc. XX está confirmada, pois a ascensão do nihilismo, em sentido filosófico, conhece um novo avatar.”

    O próprio Mario disse em seu livro sobre Nietzsche que sempre que socializava dava-se conta de que sim, Deus está morto.

    Mas os sistemas morais, para Nietzsche, não são algo a ser destruídos e sim repensados. Ao invés de “moralizar” inutilmente o homem, ele viu ali a possibilidade de que uma nova moral poderia ser criada. Mas esta só seria possível após passar a limpo todas as morais da humanidade, despir-se de preconceitos e entender que tudo é humano, demasiado humano.

    Essa nova moral teria de ser compatível com os impulsos do homem e, ao invés de suprimi-los gerando doenças psicológicas, deveriam ser “espiritualizados”. O casamento, segundo ele, seria uma espiritualização dos instintos sexuais, permitindo que sejam postos sob controle.
    Agora, o mais importante: e o instinto sádico? Bom, o “remédio” para isso, seria a guerra (intelectual) e a tragédia.

    Enfim, seriam necessários vários livros para se ir mais fundo sobre o pensamento dele. Aqui quis apenas passar a limpo certos aspectos que lhe passaram desapercebidos.

    Mas quero te ensinar um outro valor Nietzscheano: a filosofia a golpes de martelo. Isso lhe falta de todo pelo que percebi.

    É impossível, meu caro, ser, ao fim e ao cabo, tomado de deslumbramento e idolatria perante nomes do passado, pois assim, teu próprio pensamento será comprometido. Se se usasse como cobáia de uma análise psicológica, veria que você sacralizou ídolos como Platão, Aristóteles e São Tomás, o que torna tudo o que você tem a dizer sobre eles – sem valor.

    É preciso ser duro, destruir, absorver e transformar – essa é a vontade de poder. Não precisamos negar Platão, Heráclito, Demócrito ou Santo Anselmo. Mas é preciso o cuidado para não nos tornamos discípulos enraivecidos e sem pensamento próprio. Desculpe, mas é isso que vejo em você. Aristóteles me provoca insights, assim como a Crítica da razão prática de Kant, mas jamais me atreveria a simplesmente reafirmar o que já disseram, pois o mundo muda; a metafísica se torna um exercício proveitoso, mas ao mesmo tempo obscurantista e fútil se enveredarmos por esse caminho. É preciso compreender o mundo moderno e lhe garanto que o “ente a essência” não servem para isso senão como meio.

    Não só a psicanálise é hoje aceita com méritos, mas também a neurociência faz progressos fascinantes. Não faz mais sentido a dicotomia corpo-alma, como Nietzsche previra. Estados fisiológicos e psicológicos estão intimamente ligados e são correspondentes.

    Reveja seu modo. Você ainda não é um filósofo e jamais será se continuar a ter essa postura. Se quer falar sobre Nietzsche, certo, leia e releia suas obras mais importantes: Genealogia da Moral, O Anticristo, Alem do Bem e do Mal, O Crepúsculo dos Ídolos, Ecce Homo e A Gaia Ciência.
    Tome as devidas precauções para não se perder em termos abstratos como “raça”, “judeu”, “cristão” e etc. Busque também Freud, Antonio Damásio e outros avaliadores do homem. Só então podermos conceituar o Ser.

    Um Abraço.

    • porra, que escroto esse Alexandre!
      deve ter orelhas compridas e vistas curtas;

    • Alexandre, muito esclarecedor seu comentário!

    • celia oliveira says:

      Gostei Alexandre,a filosofia de Nietzsche são poucos que o entende na essência.

    • Era a resposta que eu queria ler sobre a postagem do autor. muito bom.

    • Pedro Alcântara says:

      Parabéns pelo seu comentário.

      A postagem do autor é um sentimentalismo ofendido com o fato de que Nietzsche critica a negação da concupiscência presente em Platão e orientadora do estoicismo e da religião que emanou do platonismo com o mito cristão.

      É uma reação de apego ao signo. Fatalmente se verifica pela declaração do autor que ele idolatra a tradição platônica como herdeira da Verdade, por ser apegada à Apolo (Razão) e negadora de Dionísio (termo poético para “prazeres da carne”), mecanicismo responsável pelo século XX, o que notadamente o autor não sabe. Deve acreditar que o século XX é culpa do ateísmo e da “confusão” de Nietzsche, como ele deixou sub-entendido.

      • Fernando Rodrigues says:

        Meu caro amigo, a religião de forma alguma emanou do platonismo. Antes já se via alguma forma de religiosidade em diversos povos… Além disso, Cristianismo com platonismo não tem qualquer relação. É um antagonismo.

    • alberto says:

      Respeito todas as opiniões dadas sobre Nietzsche e o seu livro Assim Falou Zaratustra.
      Na verdade o que ele quis dizer poderia ser simplificado no seguinte:
      Se Deus é todo bondade, tem todo o conhecimento e todo o poder, porque ele criou
      um mundo de sofrimento de desgraça de guerras de fome de angustia, jogando nós seres humanos neste inferno que é a nossa terra e ameaçando-nos com o um segundo inferno se não formos bonzinhos e comportados?
      A resposta pode estar no BUDISMO, ele dizem QUE TUDO É UM, o Absoluto, o Demiurgo, o Criador, o Arquétipo, o Espírito, o Arquiteto, dê o nome que você quiser, (FEZ EVOLUCIONAR O UNIVERSO COM A CLARA ESPERANÇA DE TER PLENA CONSCIÊNCIA DE SI MESMO, EM OUTRAS PALAVRAS DE SE TORNAR HOMEM). O filósofo Hegel escreveu estas palavras, só acrescentei outros substantivos para a palavra DEUS.
      Em fim DEUS É UM BRINCALHÃO, mas, deu-nos a inteligência para entendê-lo.
      Alberto.

    • Márcia says:

      Nossa, que comentário eloquente para os que admiram Nietzsche. Me lembrou muito o professor Clóvis de Barros, quando fala de Nietzsche, sempre assisto seus videos no YouTube e são enriquecedores.

    • Amei a explicação eloquente, comecei a gostar de filosofia assistindo os videos do prof. Clóvis de Barros no Youtube e são enriquecedores.

    • Tomás Coelho says:

      Apesar de pouco amistoso, seu comentário me parece mais racional do que o escrito pelo autor do blog. Também senti no primeiro parágrafo uma certa superficialidade. Mas ambos estão de parabéns pois apesar da imaturidade filosófica (comum a quase todos) escrevem bem. Espero alcançá-los em breve, pois estou interessado nos livros do Nietzsche.

    • Helaine says:

      Alexandre, que aula incrível! Obrigada.

  3. E isso ai!! Para tentarmos entender um pouco as obras filosóficas temos que “despir- nos de preconceitos”

  4. Cláudio says:

    Parabéns Alexandre, não se precisa dizer mais nada.

  5. Raul lourenco says:

    muito interessante,obrigado

  6. a filosofia de nischt é muito dificil de compreender kkk

  7. Mauri Tavares says:

    Interessante, Alexandre, mas despir-se dos conceitos que se tornam preconceitos é, simplesmente, impossível. Você tem os seus, que se adequam aos pensamentos de Nietzsche e Freud, com base nos quais você é capaz de aproveitar um pouco de kant, a parte que lhe interessa de Dostoyevski e de outros. E mais: se, para compreender uma obra, fosse preciso ler não somente a ‘obra’ e relê-la, para digeri-la bem, mas se fizesse necessário conhecer todos os escritos do autor da tal obra, esta seria mera parte de um livro grande, dividido em vários tomos. O que não é verdade no caso dos escritos de Nietzsche. Não estou defendendo o pensamento do resenhista, mas procurando chamar você à razão. O resenhista não estava analisando o Autor, mas uma de suas obras. E esta obra, confusa sim, só é ‘compreendida’ por quem deseja que ela o seja e faz tornar-se verdadeira sua própria interpretação. Aliás, não foi a outro caminho que Nietzsche conduziu a Filosofia, passando por Wittgenstein e Foucault, isto é, desfaz-se da verdade, tornando-a mera convicção pessoal, levando-a ao extremo do subjetivismo e relativismo.

  8. Alexandre Rodrigues says:

    Um estudo até mesmo simplório da obra de Nietzsche nos apontará para um de seus mais claros objetivos: demonstrar o quanto nós somos tomados de assalto por ideias advindas do meio em que vivemos ou, mais profundamente, por aquelas que refletem diretamente certas tendências psicológicas que nos dispõem a agir assim e não de outra forma; ou seja, não existe qualquer objetivismo em filosofia, já que cada pensador traz consigo seus pressupostos, como você disse.

    O detalhe é que Nietzsche percebeu claramente que esses impulsos não se tornam conscientes, mas passam pelo crivo de uma racionalização na segunda instância de nossa psique, que os justifica e eterniza num discurso auto-ilusório que possui por finalidade última o nos enganar (a “vontade de mentira”); isto, por sua vez, leva a filosofia a ser nada mais que a exposição da saúde mental – a nível existencial – de seus nomes mais célebres. Quer dizer, o ruim não é ter pressupostos subjetivos mediante os quais alguém julgará algo, mas sim quando esses pressupostos se cristalizam num preconceito cego, que não é rastreado pela própria pessoa que os possui.

    E não se trata da verdade como convicção pessoal, mas na manipulação inconsciente da realidade por parte de nossos mecanismos de defesa psicológicos. Nietzsche propõe que o homem saiba quem é, ou se torne o que é, para deixar de lado os juízos feitos segundo os “impulsos da decadência” ou do vigor verdadeiro. Quando ele formula que muitas vezes a mentira foi uma circunstância essencial para o florescimento da vida, não estava agindo de modo pragmático, mas simplesmente fazendo uma constatação: para uma pessoa depressiva – na linguagem de Nietzsche, um “fraco” ou “sofredor” -, que julga a vida segundo uma valoração de baixo para cima, a verdade da não existência de Deus, por exemplo, ou pelo menos a observação de que esse ser parece não se dar a conhecer – o Deus Absconditus de que falava Lutero – seria simplesmente uma condenação; a mentira da existência desse ser sobrenatural é o que condiciona a sua existência e o faz querer seguir adiante. O que foi feito da obra de Nietzsche não coube a ele, e sim à pouca inteligência dos intérpretes que se seguiram.

    E quanto ao relativismo, compreenda: Nietzsche entendeu o niilismo do ponto de vista ontológico, isto é, nas coisas em si mesmas não existe qualquer valor, como uma realidade objetiva; contudo, formulou o perspectivismo como saída parcial para o problema. O homem, na medida em que julga algo, cede-lhe valor; mas isso vai depender de seu ponto de vista – que é psicologicamente determinado. Então, o Universal, para Nietzsche, é a própria constituição psicológica do ser humano, que sempre levará a juízos acerca do real cujos traços podem remeter a uma ligação fundamental comum. Daí a criação dos arquétipos, que levam à incompreensão, por parte dos estudantes rasos de filosofia, dos escritos nietzscheanos: “cristão” não se refere a um ente concreto, mas apenas a um ente de razão, um conceito abstrato idealmente construído sobre um agente real amputado de um determinado período estático, mas que carrega consigo a essência de um impulso que remonta a tempos imemoriais e se repetirá infinitamente na história (lembre-se que para Nietzsche o Platonismo e o Cristianismo sofriam do mesmo mal: “a milenar opressão clerical”, que apresenta mais um modelo tipológico correspondendo a ambos os sistemas como seu fundador – o do “sacerdote”.)

    E é aqui que vamos rastrear o quanto o autor da resenha antes de sequer ler a obra de Nietzsche, mas conhecendo-a parcialmente do que ouviu falar, imediatamente já a taxou segundo todos os clichês vigentes, simplesmente por, na superfície, agredir sua fé. Não apenas um filósofo, mas um intelectual de verdade jamais poderia fazer isso. Que alguém expresse uma opinião com base em suas crenças próprias é algo natural; mas isso deve ser feito após um estudo acurado e com base em razões que possam ser logicamente inferidas e não com meras acusações simplórias ou de cunho emocional. Mas não vemos um só argumento durante toda a resenha.

    . “O livro pretende ser poético, mas creio que é de uma poesia que raramente funciona.”

    Será que ele ignora que Nietzsche é considerado um dos maiores estilistas da língua alemã? Que Zaratustra é um dos livros mais discutidos entre os críticos literários devido a seu estilo original e cujo espírito único acabou por se transformar na fantástica sinfonia de Strauss?

    Se assim não for, tudo bem; mas onde estão os motivos filológicos e estéticos que o levam a afirmar isso? – Em lugar algum. E se digo que Shakespeare, na minha opinião, era um lixo e não apresento – contra inúmeros ensaios e estudos em contrário – qualquer argumento sólido que sirva para fundamentar esse pensamento, qual o valor do meu juízo? – Eu respondo: o mesmo que nada.

    Só preciso citar o grande gênio Carpeaux (que todo suposto influenciado por Olavo de Carvalho deveria conhecer):

    “Nietzsche não é um autor difícil. É o estilista mais latino e mais claro da língua alemã. A sua prosa é a do grande poeta que era. Expri­me com igual mestria o lirismo modesto e profundo dos alemães, a claridade irônica dos latinos, o grande pathos da Bíblia; a sua língua soa como os aforismos densos dos filósofos pré-socráticos, como as canções, ébrias de luz, dos provençais, e, às vezes, como versículos mágicos das escrituras sagradas do Oriente.”

    E sobre sua posição dos tomos, me desculpe, mas isso é uma tolice sem sentido algum. Platão jamais tentou escrever apenas um livro dividido em vários volumes, mas sua filosofia tem por característica fundamental o fato de que um diálogo lido isoladamente traz mais confusão do que esclarecimento. A Teoria das Formas é melhor exposta em A República e passa por uma crítica no Parmênides; um estudante que tomasse apenas este último, não só não entenderia o conteúdo, como aprenderia uma matéria transitória, que Platão posteriormente acabaria por encerrar no Sofista. Eu poderia muito bem tomar um desses trabalhos intermediários e dizer que “refutei” Platão tão somente repetindo o seu conteúdo; mas isso seria desonesto.

    No caso de Nietzsche, como entenderíamos o conceito da Morte de Deus do Zaratustra, se aqui o conceito já é exposto em sua forma pronta, como um fato dado e sem explicação de seus porquês?… Isso seria simplesmente impossível. É em A Gaia Ciência que a Morte de Deus é bem conceituada. E que diremos da crítica de Nietzsche à “compaixão pelos sofredores” em O Anticristo? Quem não leu o livro do ano anterior, Genealogia da Moral, passará a ver Nietzsche como um darwinista social. Etc., etc., etc.

    Além disso, contrariamente ao que você sugeriu, eu discordo de vários pontos com Nietzsche e Freud; e nem chego a ser um grande apreciador da obra de Dostoiévski. Só que como sou alguém preso ao objetivismo científico – do rigor da lógica e da impessoalidade na medida do possível – eu, como o próprio Nietzsche, louvo quando alguém merece, naquilo que merece, e deixo de lado o que vejo como desagradável.

  9. Lucas Varão says:

    Como leitor recente do Zaratrusta, estou muito feliz com a lucidez da discussão. Já li pouco sobre filosofia, mais sobre psicologia… e agora estou caminhando com o Zaratrusta.
    Zaratrusta é o cara mais conhecedor do comportamento e da psique humana… e fala na lata, sem rodeios…. Quem não aceita o exposto ou pelo menos não reflete sobre os pensamentos com certeza está de agarrando em algum auto-engano.
    Até hoje o livro que mais me impactou foi “O Futuro de uma ilusão” Freud…. eu quase pirei…. Acho que se tivesse lido Nietzsche primeiro eu teria pirado…
    O mais legal é que nestas piradas agente encontra uma nova maneira de encarar este mundão doido!

  10. Gostei do texto, muito esclarecedor,ainda sou um pesquisador, mas serei um verdadeiro filosófo com Nietzsche.

  11. Neusa Faria says:

    Sr. Alexandre Rodrigues, o que me diz deste livro ter sido usado pelo PT, Ministério da Cultura, em um curta chamado ” Meu amigo Nietzsche”, que promove o comunismo, com direito ao hino da Internacional e referencia a Marx?

    • Sandro Oliveira says:

      Nossa sra Neusa! Nietzsche e seus estudos, por acaso, tem algo com as decisões políticas de hoje e suas “tristes” interpretações!?Espirito livre minha senhora. Não distorça ou desvie a tão exemplar discussão(…)

    • Alexandre Rodrigues says:

      Neusa Faria, assisti a um trecho desse filme há uns meses atrás, não me recordo bem onde – talvez fosse só um trailer. O caso é que tornar Nietzsche um comunista – na verdade, um adepto a qualquer das doutrinas ditas de “esquerda” – é o equivalente a dizer que São Tomás era um filósofo islâmico ou que Marx era um grande defensor do liberalismo econômico.

      Se lido corretamente, o pensamento de Nietzsche aparece, na raiz, como uma filosofia do tipo mais reacionário possível: Nietzsche defendia os antigos valores aristocráticos, que na Europa Ocidental já não existiam, mas ainda eram fortes na Rússia. Lukacs, um grande intelectual comunista, percebeu isso, e chegou a dizer que todos os ataques de Nietzsche ao Cristianismo nada mais eram que embustes, pois Nietzsche na verdade estava atacando os valores de igualdade que, em tese, são tão caros ao marxismo.

      Um dos pontos que me fazem ter certeza de que os estudantes de filosofia das universidades nunca leram Nietzsche é precisamente o fato deles gostarem dele: a universidade é dominada pelo pensamento esquerdista, e Nietzsche, um reacionário, nunca seria ensinado ali caso o público soubesse disso. Os poucos que sabem, tentam mascarar a coisa. Mas sabe de onde isso vem?… – Eu digo: o livro mais lido de Nietzsche, infelizmente, é justamente o Zaratustra; por ser poético, esse texto pode causar inúmeras confusões e qualquer um pode manobrá-lo de modo a que diga o que você quer que diga.

      • Hugo Pereira says:

        Alexandre Rodrigues

        Até este comentário (infeliz) a sua explanação sobre Nietzche foi lucida e imparcial o bastante para alguém que deseje saber um pouco mais acerca deste que foi O melhor filosofo «re-evolucionário» do mundo moderno. E afirmo até este momento pois acabou por cair na soberba de catalogar “supostas” tendências partidárias e ou ideais políticos num autor que acentua precisamente a sua tese filosófica no combate a pré-definição moral do Ser como óbice da sua decadência.

        Os valores de igualdade não são premissa única e exclusiva do marxismo mas sim de um todo conceito democracia porquanto o Alexandre ainda não se tenha dado conta e, assim sendo, eu, um leigo em filosofia, muito embora ávido leitor de Nietzche, acredito que na sua auto-biografia o próprio Nietzche em Ecce Homo lhe explica a melhor maneira para o caracterizar.

        Contudo, o meu bem haja por tão bem elucidar o autor do blogue (e quejandos) acerca da visão enviesada e preconceituosa da obra de Nietzche.

        (falando de visões enviesadas, não se amofine com leituras e compreensão verticais da obra pois até Hitler teve a infeliz mui sui generis interpretação do super-homem de Nietzche para alicerçar a sua tese da supremacia ariana num pretenso mundo novo, esse sim perigosamente reacionário nacional-fascista.

        Cumprimentos

  12. Cezar Prado says:

    Felipe Pimenta – Graduado de merda – Religioso alienado

    • Cezar Prado says:

      desculpe a ofensa cara, só acho que você deveria ser mais imparcial.. a interferência da religião é um caos para a sociedade, um abismo que leva o homem a decadência, a ideia de fé assusta !!

      • Cezar Prado says:

        aquele que não entende, simplesmente não entende, o engraçado é que o mesmo se acha dono da razão e diz: “se é que isso tem algum significado” – tratando com um desdém absurdo o que ele mesmo nem entendeu.

  13. Eu que nunca estudei filosofia, acho que entendi o livro melhor do que voce. Nietzsche nao tenta criar um novo homem, de um onde voce tirou esse absurdo? O que ele parece relatar eh a mera observacao de que estamos em um estagio intermediario da vida humana em que o homem ainda eh um elo entre o macaco e o super-homem, por isso ele diz que ainda temos muito de macaco em nos, assim como os macacos tem de vermes ou plantas (nao me lembro das exatas palavras que ele usou.)
    Eu tambem nao acho que ele nega completamente o divino, ele o menciona o tempo todo no livro, ele apenas parece nao concordar com o monoteismo cristao. Depois, ele critica a mania do homem de se apegar a um ideal de vida no alem que nao eh garantido existir, em detrimento da vida na terra. Por cansaco e falta de vontade do homem em lidar com os problemas da vida terrena, ele escolhe esperar pela vida celestial. Ele prega que o mundo que devemos escolher eh a terrestre, pois eh essa vida a que temos certeza existir.

  14. Lucas Varão says:

    Acho que entendi de forma mais clara a crítica do Alexandre Rodrigues.
    Parece que o autor da resenha visualiza Nietzche como ameaça a seus valores cristãos. Sim, é uma ameaça sim, também contra qualquer ilusão criada pelo homem a fim de artificialmente acalmar suas aflições.
    Se significa alguma coisa? Sim, significa. A cada ano que todo no assunto entendo um pouquinho mais. No primeiro contato, a mais de 8 anos atrás, não entendi nada, como o Felipe.
    Hoje pra mim esta leitura significa a explicação mais pura, mais básica do comportamento humano na terra, sem rodeios ou esteriótipo.
    Prezado Felipe, sem ressentimentos, se viesse a se manifestar seria de grande valor. Todos estamos em constante mudança e desenvolvimento.

    • Caro Lucas, não acho que Nietzsche seja uma ameaça ao Cristianismo de forma alguma. Apenas considero esse filósofo um irracionalista perigoso. Veja que o próprio Platão já havia enfrentado o “Nietzsche” de seu tempo na figura de Cálicles no diálogo Górgias. Cálicles é o típico personagem que valoriza a força e faz uma separação entre os valores dos poderosos e o do povo. Bryan Magee, excelente filósofo britânico, escreveu isso sobre Nietzsche em sua obra sobre Schopenhauer: “Nietzsche considerava seu repúdio da negação da Vontade de Schopenhauer como o ponto de partida de sua própria contribuição distinta para a filosofia e sugeriu que ele devia estar certo em fazer isso. Ele asseverava a Vontade e advogava sua irrestrita afirmação. Até o fim da sua vida criativa ele reteve o senso que sua filosofia foi desenvolvida contra a de Schopenhauer. Esta primeira parte foi planejada como nada menos como a apoteose de seu trabalho de toda a vida e o título do livro tinha o objetivo de enfatizar o que Schopenhauer negava, mas também afirmava justamente aquilo que Schopenhauer pronunciou como sendo o mais monstruoso erro possível para a mente humana. Na sua obra Parerga e Paralipomena, Schopenhauer escreveu: “ Que o mundo só tenha um significado físico e não um significado moral é um erro fundamental, que é também o maior e mais grave, ou seja, uma real perversão da mente. No fundo é aquilo que a fé personificou como sendo o Anticristo.”

      Nesse vídeo aqui https://www.youtube.com/watch?v=tu-16Wz347g, vemos um debate entre Bryan Magee e um especialista em Nietzsche. Se você acompanhar todas as partes, vai ouvir de Stern que Nietzsche não pode ser inocentado totalmente dos crimes dos nazistas. Portanto, creio que Nietzsche é, antes de tudo, um perigo para o intelecto.

      • Alexandre Rodrigues says:

        Intérpretes de Nietzsche se dividem em dois grupos: conservadores e progressistas. Os conservadores, como bem sabemos, têm, como um de seus princípios, a valorização da alta cultura – que inclui, evidentemente, a Filosofia Clássica (de Platão a Hegel). Em geral, são cristãos, olhando com desprezo para Marx, Darwin, Nietzsche e Freud, dedicando pouco tempo ao estudo da obra destes. Os “progressistas”, em contrapartida, desprezam tudo o que esteja relacionado à “idade das trevas” (uma invenção dos iluministas que ainda convence muitos), valorizando apenas um seleto grupo de pensadores que, superficialmente ao menos, se alinham com seu modo de ver o mundo. Por conta disso, leem muito livros sobre livros que comentam livros a respeito de Marx, Darwin, Nietzsche e Freud – informação de quarta ou quinta mão, se muito; se tentam ler os autores diretamente só buscam seus trabalhos menos significativos: Manifesto Comunista, Zaratustra, Totem e Tabu, etc. Na maior parte das vezes, não fazem ideia do que eles estão falando, pois não conhecem os nomes citados e tampouco história.

        Nietzsche, meu caro, sendo um típico homem educado do século XIX, possuía todo esse conhecimento; a influência de Heráclito, Platão, Aristóteles, dos estoicos e de Leibniz é evidente para quem os conhece. Quem nunca leu, além destes, John Locke, David Hume (filósofos que, para Nietzsche, seriam niilistas), Rousseau, Diderot, e principalmente Kant, Fichte, Schelling e Hegel, jamais saberá do que Nietzsche está falando: a realização da “vontade” do “eu” não por meios externos, materiais, mas puramente internos, subjetivos (Fichte); a fusão da “realidade do ideal e idealidade da realidade”, tendo a força como estruturante, numa espécie mais interessante de panteísmo (Schelling da juventude); a descrição do “Eu” que é “negação-negadora” frente ao mundo e que destrói o mundo exterior e o absorve para construir uma subjetividade (Hegel), etc. Sem isso aqui, isto é, uma absorção completa do Idealismo Alemão, Nietzsche se torna um cara falando um monte de coisas sem sentido.

        Com esse preâmbulo eu quero dizer apenas isto: os únicos capacitados para compreender realmente o pensamento de Nietzsche são aqueles que de cara já o odeiam: os cristãos conservadores. Dedicando seu tempo ao estudo da obra de pensadores mais complexos, como Kant, a grande maioria deles acredita ser perda de tempo parar um pouco para prestar atenção em Nietzsche. E quando você fala em “especialista em Nietzsche”, tenho a certeza de que esse tal especialista está incluído no grupo dos progressistas, e não dos conservadores. E como sei isso? – Todos os livros sobre Nietzsche que já li até hoje, como o de Deleuze e as conferências de Heidegger, passam longe do verdadeiro pensamento de Nietzsche.

        Daí essa espúria análise política da filosofia de Nietzsche – como os livros de Foucault -, que raramente descrevia processos fora da consciência humana. Em Vontade de Poder ele é claro em dizer que não se reportava a realidades sociais, muito menos a “classes”, mas a valores que transcendiam o meio externo em que eram expressos – não sendo, portanto, um defensores dos “valores dos poderosos”. E a crítica da Vontade em Schopenhauer decorreu de sua crítica ao Eu auto-determinante: quando dizemos “eu quero”, supomos que nossa vontade é soberana, ignorando toda a cadeia causal de pensamentos que se sucedem no nosso inconsciente, sem nossa escolha, bem como as próprias determinações externas, que influem em nosso gosto e etc.

        A crítica de Nietzsche à razão era, em certo sentido, a mesma que nosso Mário Ferreira dos Santos fará: a razão é necessariamente homogeneizadora, fugindo ao heterogêneo, na medida em que busca sempre o geral, prescindindo do singular, do qual se vale apenas como material para subsumir numa noção por meio do conceito; dá mais valor ao estático que ao transitório e assim por diante. Por conta disso, se ausenta, quer queira ou não, do mundo real, abstraindo toda a vida e o movimento presentes nele, e tornando tudo frio, monótono sem sabor e aniquilando o indivíduo. O racionalismo pecava por isto, desprezando a intuição. Nietzsche propõe o casamento entre as duas – a fusão estética perfeita do apolíneo e do dionisíaco – naquela ideia que eu já referi: a santificação (legitimação formal, apolínea) dos instintos (impulsos dionisíacos), como o casamento, a tragédia e etc.

  15. Larissa says:

    O livro em si é sensacional, porém bem confuso para principiantes como eu.. a resenha me ajudou muito! Excelente trabalho.

  16. Cristiano says:

    Alexandre Rodrigues = Olavo de Carvalho

    Imbatível em qualquer debate sobre Filosofia.
    Pimenta, seu blog é muito bom.
    Receber uma crítica pedagógica do Olavo de Carvalho faz parte…rs

  17. alberto says:

    Respeito os comentários feitos sobre a filosofia de Nietzsche, mas, o que ele quis dizer é de uma simplicidade tão grande que ele poderia ter resumido no seguinte:
    DEUS TEM TODA BONDADE,TODO CONHECIMENTO E TODO PODER.
    Por que ele criaria um mundo de miséria, de guerras, de fome de doenças de maldades,de angústia, e de sofrimento e por fim a morte?
    A resposta está no BUDISMO, eles dizem que tudo é UM. O absoluto, o criador, o demiurgo, o arquétipo, o espírito, dê o nome que você quiser, fez evolucionar o Universo com a clara esperança de ter plena consciência de si mesmo, em outras palavras de tornar homem. (HEGEL).
    Alberto d`Almenery

    • vilmar n sousa says:

      meu caro Alberto, não cometa tamanho erro. resumir a filosofia de Nietzsche dessa forma é, no minimo, um desrespeito ao filosofo além de demonstrar um total desconhecimento de sua obra.

  18. daniel Dourado says:

    Muito boa a resenha! gostei muito do blog.

  19. Antonio Lima says:

    Se você está procurando uma filosofia objetivista, que põe a ciência e o conhecimento como a força motora do homem e da humanidade, não deixe de ler A nascente e A Revolta de Atlas, da autora Russa-Americana Ayn Rand.
    Depois que você ler A Revolta de Atlas e , A nascente, você se descobrirá uma outra pessoa; mais determinada, mais responsável, mais ética, mais justa e mais digna.
    A Revolta de Atlas é considerada a obra literária de maior influência na sociedade americana, pelos pesquisadores da Biblioteca do Congresso.

  20. Antonio Lima says:

    Caro Alberto, não force a barra do teísmo, tentando forçar palavras que Nietzsche não pronunciou ou acreditava.
    Nietzsche era ateu.

  21. Penso que deveriam buscar, na vida uma razao real e concreta e que nao vale apena debater filisofias humanas penso que ao super valoriza um filosofo, ou seila quem seja estamos diminuindo a nos mesmo penso que deveriamos a cada dia mais e mais buscar a Deus sempre buscando manter a integridade que se tivermos o termordeDeu

  22. Acho que deveriam buscar um prazer mais bem como a sensaca o que e viver a vida dada pelo nosso bom Deus e procurar nao super valorizar os outros como filososo ou que quer seja por que quando valirizamos os outros nos diminuimos a nos mesmo sei que e dificil se rebaixar por assim dizer para sastifazer os desejos dos outros mais e assim que devemos fazer e esta e a vedade descule…

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