Resenha de Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt

Origens do Totalitarismo

“If you have lost possession of a world,

Be not distressed, for it is nought;

And have you gained possession of a world,

Be not o’erjoyed, for it is nought.

Our pains, our gains all pass away;

Get beyond the world, for it is nought.”

Anwari Soheili

Adoro os livros de Hannah Arendt pelo seu jeito de escrever, suas análises filosóficas e a profundidade de seu pensamento. Origens do Totalitarismo é uma de suas obras mais conhecidas. Como eu já li sua obra Eichmann em Jerusalém, percebi que Arendt domina como poucos o tema do antissemitismo. É justamente por essa questão que ela começa o livro. Não esperem que ela vá descrever toda a história da perseguição aos judeus desde a Antiguidade, pois ela não faz isso. O antissemitismo religioso que vigorou até o começo do século XIX foi substituído a partir da segunda metade daquele século por um antissemitismo político. Arendt se concentra em alguns países como a França, a Inglaterra, a Alemanha e a Áustria para demonstrar a evolução do sentimento antijudaico.

O judaísmo desde o fim do século XVIII vivia um tempo de relativa paz e estabilidade na Europa. O livro explica a influência dos banqueiros judeus nas cortes europeias e como eles ajudavam a financiar as campanhas militares das diferentes nações pouco se importando com o regime sob o qual viviam. A família Rothschild, de origem alemã, era o símbolo do judaísmo internacional que buscava a aceitação no círculo de poder do continente. Na verdade, Arendt acredita que esse judaísmo com o poder do início do século XIX era respeitado e permitia os judeus viverem com segurança; mas isso mudou no final daquele século, pois o crescimento do Estado-nação fragilizou o poder dos banqueiros judeus, uma vez que os líderes desses Estados buscaram novas fontes de financiamento, e a população cristã passou a hostilizar essa massa judaica que tinha dinheiro mas não o poder. Arendt crê que havia uma discriminação até entre os judeus, pois aqueles que já estavam assimilados, em especial na Prússia, não queriam dividir os benefícios de cidadania e educação que algumas regiões da Europa forneciam com os judeus vindos da Polônia e outras nações atrasadas.

O caso Dreyfus, na França merece uma explicação mais longa no livro. É um caso simples e complexo ao mesmo tempo. Simples porque desde o início ficou clara a inocência do oficial judeu; complexo porque demonstrou uma sinistra aliança da direita com o exército e o clero, na tentativa de conseguir maior influência na República com o objetivo de destruí-la. Arendt culpa os jesuítas pela insistência em se tentar condenar Dreyfus mesmo quando foi declarada a sua inocência, e os jornais católicos pela onda de antissemitismo que se espalhou por vários países por causa desse acontecimento. Dreyfus foi inocentado entre outros motivos pela atuação do escritor Émile Zola, e pelo oportunismo político do governo Francês que não queria ver a exposição universal de Paris em 1900 boicotada por vários países.

Hannah Arendt passa agora a fazer uma reflexão sobre o imperialismo, que ela imediatamente associa ao desejo capitalista por novos mercados, ao racismo e ao que ela considera como ” o último estágio da burguesia”. Quanto à busca do lucro, isso fica mais claro quando estudamos o caso inglês na Índia e na África, da mesma forma que os Bôeres, sendo que esses últimos eram uma espécie de parasitas da sociedade negra africana.

Hobbes é identificado por ela como o filósofo da burguesia e que foi aquele que baniu a moralidade da vida pública, restando à sociedade ser governada por um tirano que mistura a todo o momento questões públicas e privadas. A filosofia de Hobbes justifica a busca do governante por mais poderes com um movimento incessante de expansão às custas de outros Estados. Como diz Arendt, o filósofo inglês foi o verdadeiro defensor da burguesia, pois justicava a acumulação de riqueza por parte dessa última com a justificação de um rei absoluto que garantiria a propriedade e a expansão de capital e bens mesmo que em prejuízo de outras pessoas. Com essa filosofia absurda, todos aqueles que perseguiam à guerra como meio de expansão territorial e para acúmulo de riquezas tinham a partir de agora a desculpa de que isso representava a destruição de estruturas velhas e a chegada da , nas palavras de Arendt, ” última guerra que dê a todos os homens a vitória ou a morte.”

O imperialismo teve um aliado que muitos já haviam reconhecido antes de Arendt que é o racismo. O livro trata do racismo inglês, alemão e francês. O que é curioso é que o menos racista desses povos foi aquele que iniciou de certa forma todo esse conjunto de teorias falsas, no caso foi a França. Arendt lembra dessa situação paradoxal, ou seja, a nação que nos deu a declaração dos direitos do homem foi a que gerou o conde Gobineau. Esse talvez tenha sido o mais articulado dos teóricos do racismo, mas ele só foi ter influência real já no século XX. A França porém acreditava que poderia levar a civilization a todos os povos negros, o que não era o caso da Inglaterra. O século XVIII francês acreditava, segundo Tocqueville, “na variedade das raças, mas na unidade da espécie humana”. O racismo inglês e alemão podem mais facilmente ser associado a Charles Darwin e sua teoria evolucionista. Arendt menciona o pensamento racista e imperialista dos ingleses numa citação de Benjamim Disraeli: ” o grande homem é a personificação da raça, o seu exemplar seleto.” Outro racista e imperialista inglês declarou: ” o inglês é o Homem superior, e a história da Inglaterra é a história da sua evolução”.

No caso alemão, Arendt faz uma oposição entre o imperialismo ultramarino inglês e o imperialismo terrestre e continental alemão.O racismo e o imperialismo alemão têm mais em comum com a gnose marcionita, como demonstrou Alain Besançon, e que não é discutido pela teórica política alemã. Tanto o movimento político alemão quanto o eslavófilo possuíam em comum a profunda inveja que sentiam dos judeus como povo escolhido. Os alemães misturavam esse marcionismo redivivo com a noção da pureza da raça germânica; já os russos assumiam que sua nação era a escolhida por Deus para redimir uma Europa corrompida e secularizada. Ambos os casos tinham no antissemitismo um de seus motores.

A última parte do livro é sobre o totalitarismo, e foi nessa parte que eu achei que a autora cometeu um grande erro. Por exemplo: Arendt identifica o totalitarismo com as personalidades de Hitler e Stalin, opinião essa a qual eu não concordo. Ela ainda nega que a China de Mao seja totalitária ( e ela escreveu essa parte do livro em meados dos anos 1960, quando o totalitarismo chinês estava em seu auge), o que é inadmissível. O comunismo e o socialismo onde quer que sejam estabelecidos são totalitários, mas a autora, não sabemos por qual razão, não mencionou isso. Concordo, entretanto, com a atribuição da paternidade dos regimes nazista e comunista a Darwin e Marx. O primeiro achava que tinha encontrado o segredo da natureza; o segundo o segredo da história. Darwin atribuía o movimento à luta entre as espécies ( ou raças); Marx acreditava que o que movia à história era a luta de classes. Dessa luta tanto Darwin quanto Marx acreditavam que o melhor( raça ou classe) seria produzido. Arendt está certa quanto a classificar essas duas ideologias como ideologias do movimento. O líder precisa sempre estar em busca de inimigos tanto para exterminar( no nível interno) quanto para guerrear( no nível externo).

O livro é extenso e é essencial para todos os que querem compreender o fenômeno dos movimentos totalitários do século XX.

Comments

  1. Tayna says:

    Muito boa a sua resenha, infelizmente só li o capítulo “Declinio do Estado-nacao e fim dos direitos do homem”, mas deu para ter uma visão mais abrangente do livro. Se pudesse gostaria de entender mais esse capítulo que li, como ela faz a relacão entre politica e direitos humanos.

  2. Cristiano says:

    Pimenta, comprei a coleção do Leon Poliakov, A História do Antissemitismo. Sobre esse tema vc tem alguma indicação de outros autores, ou essa coleção dá uma boa ideia sobre o assunto?

    • Olha, tem também o livro O Antissemitismo nas Américas, que também tem um conteúdo bem amplo. De John Luckacs tem O Hitler da História que aborda algumas teses bem interessantes sobre a origem do antissemitismo em Hitler.

  3. Fellipe says:

    Olá, cara! Estou estudando para uma seleção e venho sentindo algumas dificuldades justamente com essa obra e com uma outra que me parece que faz parte tbm dos seus interesses em Filosofia Política. Terias como me passar um e-mail para explicitar melhor algumas questões que encontram-se meio que nebulosas para mim? Grato!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: