A Política de Aristóteles e a Natureza da Pólis

Polis grega

Da mesma forma que seu mestre Platão, Aristóteles também escreveu sobre a melhor forma de governo da Pólis grega e qual seria a constituição que melhor garantiria aos seus cidadãos a tranquilidade para se buscar a felicidade. Se na República de Platão tínhamos que passar por cima das afirmações em defesa da eugenia, na Política de Aristóteles precisamos ignorar a defesa que ele faz do aborto e da inferioridade da mulher e do escravo. Todos os filósofos desde então possuíram algum tipo de crença errônea ou inaceitável para nós, da mesma forma que nós um dia seremos julgados por nossos descendentes por muitas barbaridades que acontecem em nosso tempo mas poucos percebem.

Aristóteles já joga por terra toda a afirmação e defesa de Rousseau a respeito do homem em estado de natureza. O filósofo grego define o homem como um animal político ( ZOON POLITIKON), e não admite uma forma de vida que não esteja associada à vida em sociedade, porque o homem em estado de natureza e isolado só pode ser um deus ou um animal. Depois dessa advertência, Aristóteles também rejeita a tese liberal de que o indivíduo é mais importante do que a família ou a sociedade. A cidade vem antes do indivíduo porque o homem tem uma tendência natural a se associar a outros homens e o todo é mais importante do que a parte. Outro pensamento de Aristóteles que é impossível de ser reconciliado com o liberalismo econômico é a sua definição da ciência econômica não como a arte de multiplicar bens ao infinito, pois o que se deve querer é viver bem e não simplesmente viver, e deve haver um limite para a acumulação de bens e dinheiro.

A natureza da Pólis

A rejeição da comunidade de bens e de mulheres ( comunismo) como foi defendida por Sócrates na República é a primeira coisa que Aristóteles faz no momento em que define como deve ser essa pólis. A cidade deve ter alguma coisa que seja partilhada por todos os cidadãos, mas que tudo possa ser tido como comum por todos os cidadãos é impossível. Na pólis aristotélica é a natureza diferente de cada homem que a torna poderosa, e não a quantidade de seus habitantes.

A propriedade particular é de importância fundamental para que uma cidade possa prosperar, porque o homem cuida melhor do que é seu do que aquilo que pertence a todos; isso não significa que Aristóteles não deseje que os bens particulares não possam estar disponíveis ao próximo, pois o homem não deve ser avaro, e sim, liberal. Também deve praticar a temperança não desejando a mulher do próximo.

A Pólis ideal é aquela que possa garantir não só o cumprimento das leis, mas também a felicidade dos seus cidadãos e famílias. O governo preferido por Aristóteles é a  aristocracia  . A melhor constituição é a que permita que a Pólis seja composta em sua maioria de cidadãos de classe média. Ela deve ser baseada em ideais aristocráticos.O meio-termo é sempre o melhor caminho para o filósofo estagirita. Tanto o muito rico como o pobre acabam se degradando: um pelo excesso, o outro pela excassez.

A felicidade do cidadão contribui para o bem e a preservação da Pólis

O livro VII da Política trata da prática da virtude por parte dos habitantes da Pólis. O caráter do cidadão e a prática da virtude contribuem para a produção de riqueza e não o contrário. Uma pessoa com quantidade moderada de bens e que cultiva a razão é melhor do que um rico que despreza o bem. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles já havia definido o homem ideal que habitará na Pólis como magnânimo ( SPOUDAIOS). O filósofo, no entanto, não identifica o bem com o bom cidadão, pois é possível ser um canalha ao mesmo tempo em que se é um bom cidadão. Aristóteles não cometeu o mesmo erro que Kant, que achava que agir e fazer o bem é algo racional, por isso devemos viver assim. Aristóteles separava as virtudes cívicas das virtudes morais. É muito provável que as maiores monstruosidades da história tenham sido cometidas por princípios altamente racionais.

Comments

  1. Professor, boa tarde. Gostaria de lhe dar os parabéns pelo blog, manter viva uma página assim é difícil e agradecer por partilhar de forma tão rica parte dos seus conhecimentos.

  2. Mária Tania Rodrigues says:

    achei muito interessante o conteudo,muito rico e me ajudou bastante para entender melhor minha prova.Ao ver os filosofos dos quais voce tem mais afinidade , em politica vi que voce colocou que gosta de Hannah Arendt por coincidencia ou nao,essa é a autora do grupo de estudo do qual faço parte :filosofia politica,talvez se interesse em saber que estaremos promovendo o primeiro encontro Hannah Arendt na universidade onde estudo.(nome da universidade ,universidade estadual vale do Acaraú-UEVA) se de alguma maneira dispertou interesse entre em contato comigo.

  3. Oi Felipe, esse homem, Aristotéles, realmente estava a frente de sua época, tanto que graças a sua resenha pude interpretar a política dele como uma grande analogia com o teatro, por exemplo: roteiro = constituição, cidadãos = atores, governos = atos, bastidores = governantes. Seria essa uma abordagem válida? A propósito, é possível conciliar os pontos de vista de Maquiavel e Aristotéles, mesmo com algumas possíveis divergências? Pois, na minha opinião, a melhor política parece ser uma síntese entre as duas — conciliar a virtude moral com os melhores resultados.

    • Interessante essa abordagem. Creio que ela é válida sim. Quanto ao Maquiavel, a política que ele propõe não tem mais aquele lado moral que a Idade Média e Platão ensinavam. Eu pessoalmente gosto dele e acho que a abordagem dele é válida, assim como a sua proposta. Nenhum político vai ser sempre moral. Em algum momento certas ” maldades” precisam ser feitas.

  4. Campos Berovich says:

    Congratulations, Teacher PIMENTA. Your work is excellent.
    Best regards,
    BEROVICH

  5. Muito importante o assunto. Me auxiliou na disciplina acadêmica. Obrigado…

  6. NATHIELLY LIMA says:

    Nossa que legal seu resumo!! Eu li isso tudo no livro e vc traduziu muito bem!! Parabéns

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