Resenha do Ensaio sobre o Entendimento Humano, de John Locke

ensaio_entendimento_humano

Nesse ensaio, no livro I, John Locke pretendeu -e na minha opinião conseguiu-refutar a teoria de que o homem nasce com ideias inatas. Essas ideias não são tomadas por Locke no sentido platônico. O que ele quer no primeiro livro é demonstrar que coisas que aparentemente são inatas no homem podem nos levar a pensar que uma multidão de outros conceitos sejam caracterizados como inatos. Locke demonstra que a principal de todas as ideias supostamente inatas, como a de Deus por exemplo, não podem ser admitidas dada as incríveis variações que a ideia de Deus possui na mente dos povos. Uns a admitem como no Judaísmo; a maioria crê em deuses com paixões e vícios que o homem cristão rejeitaria. Existem povos que não concebem nem a Deus nem a divindades menores. Ora, se a ideia de Deus fosse inata, nada disso poderia existir.Logo todas as outras ideias inatas que a criança teria ao nascer não passam de uma discussão ociosa.

Locke foi um grande defensor da educação, e nesse livro I é possível ver como ele rejeitava toda a noção de inferioridade de outros povos, uma vez que ele crê que um indígena da América poderia muito bem se tornar um teólogo ou matemático, se a ele fosse dada a condição de ter uma educação idêntica à de um inglês. Nenhuma criança nasce com um pensamento pronto sobre o que tem gosto amargo ou doce, ou sobre questões matemáticas e morais. Exemplo dado por Locke: nenhuma criança nasce amando ou respeitando os pais.Tudo isso é adquirido na nossa infância através da educação, e não por alguma ideia inata. No capítulo IV do livro I, Locke escreve:” Poderia alguém pensar ou dizer que impossibilidade e identidade são ideias inatas? Seriam elas tais que todos os homens as teriam e trariam ao mundo consigo? Seriam elas as primeiras em crianças, antecedentes a todas as ideias adquiridas? Assim seria, fossem elas inatas. Mas teria uma criança ideias de impossibilidade e identidade antes de ter ideias de branco e preto, de doce e amargo? Seria partindo desses princípios que o bebê conclui que a chupeta molhada de absinto não tem o mesmo gosto a que estava acostumado? Seria o conhecimento efetivo de impossibile est idem esse, et non esse o que permite que a criança distinga sua mãe de um estranho, que goste daquela e não deste? Regularia a mente a si mesma e a seu assentimento, por ideias que nunca teve? Concluiria o entendimento a partir de princípios que não conhece e não entende? Mas os nomes impossibilidade e identidade representam duas ideias que, longe de serem inatas ou de terem nascido conosco, requerem, para se formarem corretamente em nosso entendimento, muito cuidado e atenção: não as trouxemos ao mundo conosco, não estão no pensamento de crianças e , como mostra o exame, faltam em muitos homens crescidos.”

O filósofo inglês acredita na bondade de Deus que tudo criou para que o homem desenvolvesse sua inteligência por meios adequados. Não foram as ideias inatas que fizeram o homem descobrir coisas que facilitaram sua vida na Terra. Isso seria injusto, já que muitos povos não se desenvolveram como o homem ocidental. Na antiguidade, grandes invenções eram atribuídas à intervenção dos deuses, como a descoberta do fogo por uma ação de Prometeu. Na filosofia de Locke, o homem cria e inventa por ação da sua própria inteligência e esse patrimônio é passado através das gerações pela educação. Isso varia muito entre as diversas nações, e mesmo a capacidade de estudar, de se esforçar e trabalhar difere muito entre habitantes do mesmo país; no entanto, não podemos acusar a Deus de ter lançado o homem no mundo sem que as condições não o ajudassem. É pela educação e o trabalho que as noções de bem e de mal, de certo e errado, são infundidos no espírito humano.

No livro II, Locke escorrega,  como em geral fazem todos os filósofos protestantes no problema da liberdade da vontade. Tendo essa sido uma das grandes contribuições da filosofia escolática à filosofia e teologia do Ocidente, Locke não reconhece esse legado e cai no mesmo erro de Hobbes. Locke escreve: “é evidente então que, proposta uma ação imediata, o homem não pode deixar de querer, não é livre para querer ou não querer, e que, sendo assim, a liberdade é o poder de agir ou de evitar a ação.”

A psicologia

Locke escreveu sobre a psicologia da dor e do trauma. Diz ele: ” essa combinação, uma vez consolidada e enquanto dure, torna inútil o socorro e o alívio da razão. As ideias operam em nossa mente segundo sua natureza e suas circunstâncias; por isso, o tempo cura certas afecções que a razão, por mais correta que seja, não pode dominar quando deixa de prevalecer junto àqueles que, de outra maneira, ouviriam sua voz. A morte da criança, que enchia de prazer os olhos da mãe, e de alegria sua alma, priva o coração de todo o conforto e ocasiona todo o tormento imaginável; não adianta tentar aliviar, com considerações racionais, a dor física infligida ao torturado. Antes que o tempo separe na memória, por obsolescência, de um lado, o senso do desfrute e de sua perda, de outro, a ideia da criança, todo o argumento, por mais razoável que seja, é vão.”

Locke segue a tradição inglesa do nominalismo de Ockham. Só crê no valor do conhecimento do particular e na separação entre fé e razão.É sensualista, uma vez que crê que todos os conhecimentos nos vêm pelas sensações. Ele mistura um pouco da filosofia de Bacon e de Descartes, já que muitas vezes recorre ao valor da experimentação e do conhecimento matemático.  Entretanto, Locke é um religioso sincero, e seu Ensaio sobre o Entendimento Humano está cheio de referências a Deus e à Sua bondade. Leiamos o que Locke escreveu:” As faculdades de entendimento sendo dadas ao homem não somente para a especulação mas também para a condução de sua vida, seria o homem desnorteado se o direcionasse apenas o certo e verdadeiro conhecimento. Sendo este, como vimos, muito curto e escasso, ele se perderia na escuridão; e, na maioria de suas decisões, permaneceria imóvel, não fosse algo a guiá-lo na ausência de claro e certo conhecimento. O homem que só come aquilo que se demonstra nutritivo, que só se mexe quando sabe, infalivelmente, o resultado de sua ação, está condenado a uma imobilidade fatal. Mas se Deus pôs coisas à luz do dia e deu-nos conhecimento certo, ainda que limitado à comparação entre elas, foi provavelmente para dar um gosto do que são capazes as criaturas intelectuais, para excitar em nós o desejo de um estado melhor e o empenho por ele. Por isso, da maior parte do que nos concerne permitiu apenas, por assim dizer, um vislumbre de probabilidade, conveniente, eu presumo, ao estado de mediocridade e privação que aprouve o criador nos destinar. Para evitar o  excesso de confiança e de presunção, a experiência cotidiana sensibiliza-nos de nossa miopia e de nossa suscetibilidade ao erro; sentido esse que pode nos servir como constante admonição para usarmos os dias dessa peregrinação com diligência e prudência trilhando o caminho que pode nos levar a um estado mais perfeito. É razoável pensar, mesmo diante do silêncio da revelação,que, se os homens usassem os talentos que Deus lhes deu, receberão, ao fim do dia, quando se põe o sol e a noite encerra o trabalho, consoante recompensa”.

A filosofia inglesa é relativamente fácil de se entender por causa da clareza da linguagem. Não existem conceitos obscuros e mal-formulados em Locke. O livro é muito bom para quem se interessa por psicologia.

Comments

  1. Douglas Fernandes Dos Santos says:

    Meu Deus! , teus artigos valem ouro, viajando aqui sobre tuas criticas e resenhas e vejo o gozo da riqueza em detalhes, conhecimento e brilhantismo em cada frase e linha, escreva um livro, serei um dos primeiros a comprar meu caro professor!.

  2. Maria Ilza de Oliveira. says:

    Os teus artigos são de primeira qualidade, viajei nas ondas dos teus conhecimentos, e encontrei brilhantismo em cada detalhe e especificidade em cada frase e linha por ti escrita e criticada!.

  3. achei otimos os comentários mas senti falta das referencias bibliograficas para poder citar sua fonte.tipo referencias bibliográficas e numeração das paginas onde fundamentou seus comentarios.uma pena…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: