Resenha do Ensaio sobre o Entendimento Humano, de John Locke

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O empirismo britânico tem na obra de Locke, Ensaio sobre o Entendimento Humano, uma de suas principais bases. Os iluministas franceses do século XVIII iriam idolatrar profundamente este livro do filósofo britânico. Os franceses durante muito tempo ficariam sob a influência do sensualismo de Locke e seu realismo herdeiro da Escolástica medieval. Precisamos levar em consideração que Locke e Bacon, apesar de suas declarações contra os escolásticos e Aristóteles, ambos jamais viriam a libertar-se dessas duas sombras que os perseguem.

O livro é um tanto enfadonho por causa do ponto de partida sensualista de Locke. Louve-se sua clareza de linguagem, mas notadamente ele pouco conhece da história da filosofia, assim como Descartes, por exemplo. Locke está convencido de um predomínio tão grande dos sentidos no entendimento humano, que nele há pouco espaço para algum tipo de espiritualidade ou transcendência. Ele é conhecido por ter herdado a crença aristotélica de que a mente humana é uma folha em branco e a recusa em admitir que o homem tenha ideias inatas. Este pensamento de Locke tem ainda em nossos dias impactos na educação e na sociedade como um todo. Todos os valores humanos para ele são frutos de uma experiência sensível, e ele usa exemplos pouco felizes para demonstrar isso. Ele pode estar certo de que a ideia de Deus não é inata, se tomarmos como Deus o da Bíblia. Mas uma ideia de transcendência sempre existiu em todos os povos. Quando ele diz que a moralidade não é inata, pois alguns povos praticam certos atos como canibalismo ou infanticídio, isto não prova que o sentimento de moral não seja inato nos homens e mulheres. Tenho a impressão de que, para Locke, Deus criou a humanidade não se sabe exatamente para quê. Todos os seres humanos carregam dentro de si ideias inatas do bem e do mal, do amor ao próximo, da bondade, entre outras. Locke abusa muito da palavra ideia, mas em sua filosofia ela não tem o significado transcendente que possui em Platão. Como alguns povos possuem uma “verdade” mais adiantada ou pura do que outros, seja por algum progresso local ou pela revelação divina, como os povos que têm acesso à Bíblia, fica impossível não ver como o colonialismo ou a propaganda da “verdade” não surja daí. Se outros povos estão entregues à miséria intelectual, e não possuem os meios técnicos nem a Bíblia para fornecer-lhes a luz, então cabe aos povos “adiantados” emprestarem tecnologias ou palavras que lhes despertem os sentidos. Se admitirmos a filosofia de Locke, Deus fez o homem pouco mais que um animal que tateia como se fosse uma toupeira, catando aqui e ali impressões dos sentidos para criar algum tipo de mapa provável. Só que o nosso mundo por si só não nos dá qualquer ideia de moralidade ou ciência. Não consigo compreender o porquê, se não há ideia de Divindade e nem de moral, Locke parece incomodar-se tanto com os ateus. Talvez seja porque quem captou a revelação ou o entendimento correto pelos sentidos veja o ateu como uma criança cega, ao menos é o que me parece. E Locke é um dos pais do Liberalismo…

De uma maneira estranha, Locke, na mais pura tradição aristotélica-escolástica, repete a todo o momento que ideias inatas são impossíveis porque as crianças não nascem sabendo o adágio da lógica de Aristóteles de que uma coisa não pode ser o seu oposto ao mesmo tempo (princípio da não-contradição). Esta falácia de Locke não faz sentido algum para o que ele quer provar. O princípio da não-contradição pode ter seu lugar na lógica, mas nunca no reino da natureza e nem na metafísica. Se formos pensar como teólogos, como utilizar a não-contradição para explicar a Trindade? Como solucionar a contradição de sermos mortais/imortais? Da mesma maneira, Locke só pode desdenhar da Transubstanciação católica porque, é claro, nosso sentidos não captam o Mistério. Para um psicólogo, utilizar a lógica de Aristóteles pode ser fatal, pois como alguém poderia gostar, ao mesmo tempo, de homens e mulheres? A partir daí, pode-se muito bem negar a humanidade a essa pessoa. Na pedagogia, a crença de uma mente como tabula rasa tem o efeito de produzir alunos que apenas repetem os conteúdos do professor, aquilo que Paulo Freire chamava de “educação bancária”. Fora que mentes passivas e que estão sujeitas de maneira tão radical a impressões externas podem dar margem a propagandas massivas de um governo ditatorial que vise uma doutrinação ampla. No caso de um aluno com qualquer necessidade especial, tanto Locke como Aristóteles diriam que seu aprendizado já está seriamente comprometido, haja vista a importância que eles dão aos sentidos.

Locke aborda o problema da liberdade de ação e o confunde com liberdade de ação. Se nossa mente é um grande receptáculo de motivos diversos cabe a nosso juízo deliberar sobre como agir. Nem passa pela cabeça de Locke um mundo noumênico como o de Kant ou Schopenhauer. Neste último, a vontade é que dá os motivos para o intelecto entrar em ação; em Locke é o contrário. Por isso Schopenhauer é o pai da psicologia moderna, pois a vontade do homem e da mulher é, muitas vezes, cega e irracional. Difícil para ele é tentar compreender a ideia de infinito de um ponto de vista sensualista e de matéria. Aqui, onde deveria entrar a metafísica e a intuição, ambas lhes faltam. Sua epistemologia não pode aceitar os conceitos universais porque ele admite somente a indução. Na mais pura tradição do nominalismo, Locke não lhes concede utilidade. Temos que lidar com coisas particulares. Ele mostra-se muito confuso ao aventurar-se contra a metempsicose de Pitágoras e Platão, domínio no qual ele tem pouco ou nenhum conhecimento, e confunde alma com intelecto. Mais uma vez seria necessário esperar Kant e Schopenhauer para que os erros de Locke ficassem evidentes. Se a ciência e a mente humana tornam-se um amontoado de dados isolados recolhidos pelos sentidos, como não caírmos em uma confusão infernal? Locke, como Tomás de Aquino, vai socorrer-se na abstração que nos fornece o universal, num processo perpétuo de indução. O Ocidente até hoje sofre com as consequências deste método científico.

Com tanta confiança nos sentidos, era natural que Locke acreditasse que as fontes de nossos erros seriam as más definições das palavras. Este desejo de definições mostra como Locke é herdeiro de Aristóteles e da filosofia medieval. Até mesmo a moralidade fica parecida com sua concepção de bem é o que dá prazer e mal o que causa dor. Obviamente que o bem e o mal em nível metafísico é inconcebível. Se partirmos, como Schopenhauer, que o nosso noumenon é a Vontade, e com o plantonista britânico Thomas Taylor, de que nossa alma já possui, de maneira inata, o conhecimento essencial e eterno, então os problemas levantados pelo sensualismo de Locke podem ser solucionados. Locke, ao menos, reconhece que nós não podemos deixar de ter vontade, mas não aprofunda o porquê disto. Taylor possui um pensamento que lembra o de Schopenhauer, que viveu após ele, que é o seguinte: contra Locke, ele diz que só podemos compreender aquilo que já sabemos. Parece paradoxal, mas ele completa escrevendo que, se não tivéssemos dentro de nós este conhecimento, todo o universo nos apareceria como um emaranhado de coisas sem sentido e bizarras. Seria como se estivéssemos eternamente ouvindo uma língua desconhecida que não pudéssemos decifrar. Estas ideias inatas também ajudam o ser humano no inevitável princípio do mal que é a individuação espaço-tempo, pois a metempsicose pitagórica-platônica envolve o processo do “esquecimento” porque nosso intelecto se perde, mas não nosso núcleo noumênico. Portanto, as formas encontram-se em estado latente dentro de nós. Tanto em Locke como em Tomás de Aquino, a mente humana é passiva e recebe as impressões sensíveis; somos como um computador sem um sistema operacional instalado, portanto, ficamos à mercê de nossos pais, do Estado, da Igreja, etc, para recebermos as informações certas; mas nos neoplatônicos, como Proclo, a nossa mente é ativa e geradora das formas  e razões matemáticas; e em Nicolau de Cusa, o espírito humano é comparado à harpa do profeta que lança as doces melodias em direção do universo e recebe de volta os sons harmônicos que estão no cosmo e na natureza.

 

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Comments

  1. Douglas Fernandes Dos Santos says:

    Meu Deus! , teus artigos valem ouro, viajando aqui sobre tuas criticas e resenhas e vejo o gozo da riqueza em detalhes, conhecimento e brilhantismo em cada frase e linha, escreva um livro, serei um dos primeiros a comprar meu caro professor!.

    • Priscila says:

      Fantástico! Interpretação brilhante,parabéns ficou perfeito o post.És um verdadeiro escritor.

  2. Maria Ilza de Oliveira. says:

    Os teus artigos são de primeira qualidade, viajei nas ondas dos teus conhecimentos, e encontrei brilhantismo em cada detalhe e especificidade em cada frase e linha por ti escrita e criticada!.

  3. achei otimos os comentários mas senti falta das referencias bibliograficas para poder citar sua fonte.tipo referencias bibliográficas e numeração das paginas onde fundamentou seus comentarios.uma pena…

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