Resenha de São Bernardo, de Graciliano Ramos

São Bernardo

” A culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste”.

O pensamento acima, do protagonista Paulo Honório, resume a personalidade de um personagem que narra a sua ascensão e queda em suas memórias de sua vida. Em termos morais, Paulo Honório não muda ao longo da história, uma vez que o seu caráter rude e desprovido de grande emoção é o mesmo do início ao fim. Graciliano Ramos desenvolve o protagonista desde o começo como sendo um homem com grande talento para os negócios, que sabe se defender e é um tanto diferenciado dos outros homens do sertão, por ter uma ética de trabalho e conseguir se manter distante das mazelas daquela região.

Considero que São Bernardo realmente muda de uma história comum para um romance com mais densidade quando a personagem Madalena, futura esposa de Paulo Honório, entra na história. Honório, um homem com pouca educação, se sente atraído pela culta professora de ideias avançadas. Não chegam a se apaixonar. O casamento mais parece um negócio favorável a ambos. Ele precisa de uma professora em sua fazenda, e ela talvez queira segurança financeira. Passam-se dois anos sem que haja qualquer conflito entre os dois; depois desse prazo, o ciúme e o sentimento de inferioridade que Paulo Honório sente em relação à sua mulher, afloram.

Muito já foi escrito sobre o fato de Honório representar o capitalismo e Madalena o socialismo. Talvez seja um pouco disso, mas também podemos identificar a história com o conceito católico de pecado capital ( avareza), como também podemos ver uma influência da Ética a Nicômaco, de Aristóteles, nessa narrativa.

Na minha concepção, a história fica mais universal e menos restrita a um conceito de capitalismo X socialismo. Honório é dominado pela avareza, um pecado capital que cresce em sua alma ao longo do romance. Madalena representa a magnanimidade aristotélica, ou seja, é uma mulher liberal, madura e estável, exatamente a antítese de Honório.

São Gregório já havia definido como filhas da avareza a violência e a dureza de coração.É exatamente isso que domina a alma de Paulo Honório. Podemos ser avaros em relação ao dinheiro e também em relação às pessoas. Honório é dominado por um apego excessivo tanto ao dinheiro quanto à sua mulher. Acaba sendo destruído por isso.

Madalena é o oposto. Magnânima e generosa, se preocupa com os pobres e com aqueles que estão em uma posição inferior à sua. Tem uma personalidade estável-
pelo menos até sua alma ser destruída pela influência maligna de Honório.

O romance de Graciliano narra a destruição do espírito humano pela avareza- o amor excessivo ao dinheiro-, o que leva ao desespero de todos os que estão próximos a Honório. Talvez a magnanimidade de Madalena fosse melhor ressaltada se não fosse identificada com o espírito do socialismo, que não é uma doutrina magnânima de forma alguma.

Lendo por essa perspectiva, o romance é mais acessível a todos e menos restrito a aspectos políticos que, apesar de presentes na obra e na vida do autor, deixam o romance reduzido a uma questão de doutrina econômica.

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