Resenha da Suma Teológica, Volume III, de São Tomás de Aquino

A Bem-Aventurança, os atos humanos e as paixões da alma

São Tomás de Aquino é uma das minhas referências na filosofia, mas em teologia ele é de longe o maior teólogo de todos os tempos. Na escolástica, a filosofia e a teologia andavam juntas, de maneira que não havia a separação entre as duas conforme Guilherme de Ockham estabeleceu décadas após São Tomás. O Aquinate tem como referências diversos teólogos da igreja, filósofos muçulmanos e, principalmente, Santo Agostinho e Aristóteles. Nesse volume III, São Tomás escreve sobre a bem-aventurança e o que é necessário para alcançá-la. Para São Tomás, a bem-aventurança pode ser alcançada pela visão da essência de Deus, mas não agora, já que nesse mundo o homem só pode conhecer que Deus existe, mas não conhecê-lo quanto à sua essência. Aristóteles havia escrito em sua Ética a Nicômaco que a felicidade é uma forma de contemplação, mas não conseguiu ir além disso e dizer que o fim último era Deus. A filosofia cristã vai definir essa mesma contemplação da verdade tendo em vista o Deus criador,sua existência e os efeitos que Ele permitiu que nós conhecêssemos. O mesmo Aristóteles disse que para alcançar à felicidade seriam necessários certos bens materiais e amigos. São Tomás diz que os bens não são necessários, mas acrescenta que são necessários algumas disposições como a retidão da vontade. Outro problema que é discutido nesse volume é se para a bem-aventurança e a contemplação da essência divina é necessário o corpo. A explicação é que nessa vida é necessário, obviamente, o corpo. A alma dos mortos podem contemplar à essência divina, mas ainda restará nelas o desejo de reassumir o corpo no dia da ressurreição, quando então sua felicidade crescerá em extensão. Essa união da alma e do corpo é uma crença fundamental da filosofia e teologia católica. Após disso, a Suma Teológica passa ao tema do amor, do prazer e da tristeza. Na filosofia tomista esse tema do amor é difícil de ser separado do amor por Deus, mas em uma questão podemos falar do amor por uma outra pessoa. Essa questão é sobre se oconhecimento é a causa do amor. Santo Agostinho dizia que ninguém pode amar algo desconhecido. São Tomás concorda e afirma que o amor requer uma apreensão do bem que se ama. Se amamos uma pessoa de maneira intensa, ainda que não possamos conhecê-la perfeitamente, ainda assim podemos dizer que a possuímos como o ser que nos ama ( como a uma ciência). O amor vem pelo sentido da visão, mas o amor mais belo é o amor espiritual quando contemplamos a bondade e a beleza do ser. Isso me faz recordar os versos de Alain de Lille citados por Umberto Eco no Nome da Rosa. Diz o teólogo francês:

” Todas as criaturas do mundo,

como se fossem livro ou pintura,

são para nós como um espelho.”

Todas as pessoas devem ser vistas assim conforme nos ensina a filosofia escolástica. Para esse amor espiritual que sentimos por quem nós amamos, devemos sempre olhá-las como um ser criado por Deus que reflete a glória divina e a bondade da criação. Mas do que um amor carnal, o amor ao próximo e à pessoa amada pela contemplação do bem das criaturas é o mais intenso.

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