O amor como a primeira das paixões segundo São Tomás de Aquino

A filosofia cristã reflete repetidas vezes sobre a concupiscência, que é o amor aos bens desse mundo especialmente aos amores sensuais. Santo Agostinho escreveu sobre isso e São Tomás, na Idade Média, frequentemente alude a esse tema. Existe uma parte da Suma Teológica que fala sobre a ordem das paixões. Está na questão XXV. É curioso ler São Tomás escrevendo sobre o amor sensual pois ele nunca teve qualquer tipo de experiência nessa área. Mencionando Santo Agostinho, que diz que ” o amor desejando ardentemente possuir o seu objeto, é desejo; quando porém já o possui e o goza é alegria”, diz  São Tomás que o bem vem antes do mal, e todas a paixões que visam o bem são anteriores àquelas que querem o mal. Para ele o amor precede o desejo e este o deleite. Segue-se a afirmação de que o prazer é o gozo do bem, e este é o fim. Dessa forma foi possível São Tomás afirmar que o amor é a primeira das paixões do concupiscível, pois quando o objeto amado já é possuído, ele se torna uma fonte de prazer; porém, quando ainda está distante, o sentimento que existe é o de desejo ou de concupiscência, e Santo Agostinho diz que ” sente-se mais o amor quando é produzido pela carência”.

 

Depois dessas palavras, São Tomás faz uma afirmação belíssima que vou reproduzir aqui: para o Aquinate, existem duas formas de união entre o amante e a pessoa amada: uma é a união real, que consiste na união com a coisa mesma. Dela se segue a alegria e o prazer; outra  mais bonita é a união afetiva, por aptidão ou proporção, essa sendo uma aptidão que o ser tem em relação ao outro, e também uma inclinação que resulta na participação do amante no amado de alguma forma. O amor então é um sentimento de complacência no bem que é o desejo da concupiscência.

 

O amor romântico surgiu na Europa décadas antes do nascimento de Santo Tomás, através dos trovadores. O nosso teólogo não trata desse assunto pois estava distante da sua realidade. O que podemos usar para uma reflexão sobre o amor como concebido por São Tomás é essa de que o amante participa de alguma forma no amado. Como pode isso acontecer? Seria como no poema de Camões ” Transforma-se o amador na cousa amada”?

Essa participação seria o desejo em comum do bem, ou seja o amor que é algo desejável e o mais belo dos sentimentos do homem. Poder-se-ia dizer que o amado e o amante estariam ligados por um laço espiritual, de maneira que na concepção católica, essa união consumar-se-ia no sacramento do matrimônio. O fruto dessa união resultaria nos filhos, que são uma prova de esperança do casal.

Essa união de duas almas que se amam só poderia dar frutos duradouros se houvesse um mínimo de equilíbrio entre as personalidades de cada um, além de um desejo de se sacrificar e suportar os defeitos e limitações do amado. É isso que diz Denis de Rougemont em O Amor e o Ocidente. A união por proporção é a mais admirada por São Tomás porque se trata do amor entre iguais. Não é como no poema onde o amado está feliz com uma união puramente espiritual, pois a concupiscência faz o casal unir-se também sexualmente.

Esse amor em que o desejo de proporção domina é o que produz melhor resultado, segundo o Denis de Rougemont. Era assim que pensava a Igreja Medieval. A paixão puramente sensual e emotiva é um sentimento que nunca poderia dominar uma relação, já que o sucesso de um casamento dificilmente se daria sob seu império. Recomendo a leitura do livro O amor e o Ocidente para uma melhor compreensão desse assunto.

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