Resenha: Antígona, de Sófocles

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Antígona é uma peça escrita pelo dramaturgo grego Sófocles que aborda alguns dos temas que sempre estarão presentes em qualquer sociedade humana, que são: a consciência individual; o poder do Estado; a obrigação ou não de aceitarmos todas as leis; e a própria existência de uma Lei natural que transcende à dos homens.

Antígona fica sabendo que um dos seus irmãos mortos teve o direito à sepultura negado. Ambos haviam lutado durante a guerra civil pelo trono de Tebas. Creonte, que tomou o poder, decide que Polinices terá seu cadáver exposto às aves de rapina. Antígona revolta-se contra o decreto de Creonte e decide oferecer um sepultamento digno à seu irmão. Isto acontece porque sua consciência individual elevada traz para a tragédia a questão da Lei Natural, que terá tanta importância futura no Cristianismo. A Lei dos Deuses permite que ela desobedeça às ordens de Creonte porque são superiores e estão além de qualquer governo de qualquer época. Historicamente, a Lei Natural foi facilmente colocada de lado por governantes e instituições em várias ocasiões. O eterno conflito entre a consciência de cada um e as leis estabelecidas por Estados e governantes poderosos deu origem a muitas situações dramáticas. Creonte rapidamente condena Antígona à morte. Foi fácil para ele fazer isso.

Aqui podemos colocar o tema do Dasein de Heidegger. Este filósofo odiava o pensamento de Schopenhauer por alguns motivos que iremos abordar. O Dasein é a existência lançada em um determinado local e tempo e precisa emergir no mundo que o circunda. Em Schopenhauer, as condições do espaço e do tempo são a fonte do mal e é preciso transcendê-las. Para isto temos as Ideias platônicas que são imutáveis. Jung adotou este ponto de vista de Schopenhauer e enfatizava a importância, por exemplo, do Sacrifício da Missa católica. Esta é importante porque transcende o princípio de individuação. Em termos históricos temos por exemplo os casos da Inquisição e do Nazismo que o próprio Heidegger, fiel ao seu Dasein, teve de aceitar. Matar seres humanos seja em nome do Estado (não falo aqui da pena de morte em si, mas do ato de tirania) ou em nome de Deus é crime em qualquer tempo.

Vejamos que a Lei Natural foi entendida por Schopenhauer como transcendendo o mundo físico, e nem em um plano espiritual poderia ser destruída. Forneço uma passagem sobre isto:

Schopenhauer fez a seguinte crítica a Dante:

“O título da obra de Dante é muito original e notável, e existem poucas dúvidas de que seja irônico. Uma comédia, de fato! Verdadeiramente o mundo seria assim, uma comédia para um Deus cujo insaciável desejo de vingança e crueldade calculada no último ato, com o deleitamento diante de uma tortura interminável e sem propósito de seres os quais Ele frivolamente e inutilmente chamou à existência, justamente porque eles não viveram a vida de acordo com Sua intenção, e durante suas breves existências acreditaram em algo diferente do que Ele queria.

Ademais, comparado com Sua sem igual crueldade, todos os crimes punidos no Inferno não seriam dignos de serem mencionados. De fato, Ele seria muito pior do que os demônios que encontramos no Inferno, porque naturalmente esses estão agindo apenas a partir de Suas instruções e pela virtude de Sua autoridade.

[…] a natureza de uma servidão de tipo russa de Virgílio, Dante e qualquer outro a Seus comandos, e a obediência temerosa que Suas ukazes (éditos do Czar) são recebidas, são positivamente revoltantes. A natureza servil da mentalidade de Dante é levada adiante no canto XXXIII (onde Dante quebra uma promessa e recusa-se a ajudar um condenado, observação nossa. Ver imagem).

[…] incidentalmente, fica claro como é difícil toda moral que não tenha base a não ser na vontade de Deus, pois o bem pode tornar-se mal e o mal tornar-se bem tão rapidamente como os polos invertidos de um eletromagneto.

Todo o inferno de Dante é uma apoteose da crueldade, e no último Canto, a falta de honra e de consciência é glorificada como foi dito.”

“O que é verdade em qualquer lugar

Eu falo com uma expressão sem medo e corajosa.”

Goethe

Arthur Schopenhauer, Parerga e Paralipomena- Metafísica do Belo (tradução nossa a partir da versão em inglês)

Jung nos alertava para o problema de despertamos nossa consciência, pois o tempo está maduro. Em todos as eras temos de nos confrontar com situações que requerem nossa decisão imediata. Toda a espécie de crime, preconceito, ódios, massacres, insuflados por governos ou turbas apresentam-se diante de nós. Se você resolver mergulhar no espírito de seu tempo, ao menos assuma sua responsabilidade e não apele para a inconsciência ou ignorância. Jung enfatizava muito a necessidade de termos consciência de nossos atos. Nosso “self”, dizia ele, não pode ser equiparado nem com a moralidade coletiva, nem com o instinto natural.

Jung demonstra que devemos integrar rapidamente o inconsciente no consciente, pois diante do tribunal da Natureza e do Destino, a desculpa de que “não tive consciência” é inadmissível. Por isso ele cita a passagem apócrifa de Cristo: “Homem, se tu verdadeiramente sabes o que fazes, tu és um abençoado; mas se tu não sabes, então és um amaldiçoado e transgressor da Lei.”

Na peça, Creonte acredita estar certo porque é ele quem manda. No Górgias, de Platão, o personagem de Cálicles quer a submissão de Sócrates pela força e pelo medo; a verdade é posta de lado. Outro problema que surge na peça é o dever de obediência aos pais. O filho de Creonte, Hêmon, que iria casar-se com Antígona, no primeiro momento submete-se ao pai. A questão é: o dever para com nossos pais é superior ao enfrentamento de uma flagrante injustiça? Na psicologia de Jung existe o alerta de que o herói deve sempre superar a barreira familiar de sua cidade ou tribo para poder completar sua missão. O próprio Jesus era tido em pouca consideração por sua família, e se dependesse dela jamais teria sido o que foi. A advertência de Jung, que aplicamos ao caso da peça, é a de que os deveres para com a família sempre terão um limite, sob pena do surgimento de uma psicose ou esquizofrenia. A religião em si cumpre a tarefa de mostrar ao homem que existe algo superior à seu pai e mãe.

No final, o desastre desaba sobre Creonte, mesmo após ele ter voltado atrás em sua decisão de matar Antígona, após Tirésias ter dito que os Deuses estavam enfurecidos. A inconsciência de Creonte, desafiando os Deuses, produziu um arrependimento tardio. Para nós é imperativo termos consciência de nossos atos para que depois que a tragédia apareça não possamos apelar para um “é tarde demais”. Depois de iniciado o processo do desastre fica difícil controlar os acontecimentos, por isso fica parecendo que Creonte sofreu um castigo dos Deuses, mas se observarmos, tudo foi devido à irresponsabilidade inicial do personagem. A peça de Sófocles é atemporal e deve ser tema de reflexão para todos.

 

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