Resenha: Ciência Nova, de Giambattista Vico

New Science

A Ciência Nova é um livro fantástico e otimista, no entanto é muito difícil de ler sem ter um grande conhecimento sobre filosofia, história e os mitos da Antiguidade. Resenhas sobre esse livro são poucas, portanto, creio que eu tenha uma relativa responsabilidade ao anunciar aos leitores desse artigo minhas impressões sobre o que li, e fazer ao mesmo tempo um breve resumo dessa obra.

Vico começa nos advertindo que devemos proceder ao olhar para a escuridão dos primeiros tempos como se não houvessem livros. Ele demonstra que todas as nações e civilizações, mesmo as mais bárbaras, possuem uma religião, sepultam seus mortos e celebram casamentos, todos esses ritos sendo encenados de forma solene. Partindo desses fatos, Vico pretende encontrar em todo o mundo “princípios universais e eternos”que “possibilitem o estudo de todas as nações que se conservam”. O homem, para Vico, é livre e sua vontade também é livre, e acrescente-se a isso o fato de que Deus espalhou Sua luz sobre os homens desde o início dos tempos. O objetivo declarado do autor é fazer dessa Ciência uma teologia civil refletida da providência divina. Pelo que podemos inferir dessa Ciência Nova de Vico, pelo menos no princípio, é que ele vê refletida na história dos povos a manifestação da bondade de Deus, de maneira que ao estudarmos as origens das línguas e das religiões dos povos possamos ter uma noção da HISTÓRIA IDEAL ETERNA ( expressão de Vico).

Vico crê que todas as nações tiveram um início fabuloso, e que seus primeiros sábios foram os poetas-teólogos. Esses criaram a sabedoria pela Musa, que é definida por Homero como a “ciência do bem e do mal”. Essa sabedoria era expressada em poemas. Como Vico afirma, a inspiração desses primeiros poetas-teólogos veio da contemplação das ideias divinas feitas com os olhos do corpo. Isso confirma a afirmação de Aristóteles no De Anima que ” a mente humana não compreende coisa alguma que não tenha passado pelos sentidos”. Mais adiante no livro, Vico propõe sua tese sobre a origem das línguas, a primeira inventada pelos Egípcios, e que era dividida em três fases: a dos deuses, a dos heróis e, por última, a dos homens. A primeira escrita tinha que ser feita naturalmente por hieróglifos, segundo o autor. Os hieróglifos (escrita sagrada dos egípcios) foram estabelecidos no Egito  e também acabaram sendo adotados mais tarde pelos gregos e latinos. O segundo falar foi a língua dos heróis, que era feita por símbolos. O terceiro falar é a língua dos homens, que espalhou-se por todos os cantos da Terra através da língua vulgar. Vico, citando Clemente de Alexandria, atribui a língua alfabética aos fenícios, sendo que esses últimos as ensinaram aos gregos.Os caracteres e as letras nasceram pela contemplação do céu, que todos os povos associavam ao divino, explica Vico.

A Política

Vico escreve um capítulo em que afirma que Deus é a força ordenadora das repúblicas e do direito natural dos povos. A religião é, para ele, a base das repúblicas. Os deuses ensinaram aos primeiros homens como estabelecer uma cidade. Primeiro estabelecendo uma religião; em segundo escolheram os locais onde existiam montes e brotava água em abundância; em terceiro fizeram os homens unirem-se às mulheres para formarem famílias, que para Vico são os seminários das repúblicas. Após esses fatos,os homens criaram leis- e a primeira delas foi a lei agrária. Uns comandariam ( os heróis) e os outros ( a plebe) obedeceria. Segue-se a isso o nascimento da ciência política. As primeiras repúblicas seriam aristocráticas e teriam suas fronteiras fechadas, impedindo que o homem que nascesse dentro dela se acostumasse novamente à vida bestial, segundo Vico. Os três governos são os Teocráticos, ou dos deuses; o segundo o aristocrático, ou dos heróis, e o terceiro foi o governo humano.

Alguns capítulos mais adiante, Vico dedica-se a estudar Homero, o primeiro dos escritores. Considero esse um dos melhores capítulos do livro. O filósofo italiano é a grande inspiração do também maravilhoso filósofo alemão Eric Voegelin. Quem já leu esse último não irá se surpreender muito com Vico. A Ciência Nova é um livro extremamente ambicioso. Ele começa com uma explicação para a origem das línguas e da religião, passa pelo estabelecimento das primeiras teologias escritas pelos poetas. Vico prossegue com uma teoria sobre o estabelecimento dos primeiros governos sob inspiração dos deuses e dos heróis. Os homens estabelecem a lei agrária, os primeiros feudos e as propriedades. Vico fala muito sobre a importância do direito romano e suas origens na Lei das XII Tábuas. Poesia, história e mito formam esse livro de fundamental importância para todo o homem que pretenda ser culto. Como eu disse no início, o livro é otimista, pois Vico sempre vê nas origens das nações e de suas mitologias uma prova da ação de Deus. Os deuses nos dão as línguas e os caracteres, como Hermes Trismegisto. Depois da contemplação de Deus através da observação do céu, os poetas nos descrevem uma teogonia e uma teologia. Não bastasse isso tudo, os deuses ainda nos oferecem sua ajuda quando nos dão o fogo ( Prometeu) e nos ensinam como fundar uma civilização. Os deuses então estabelecem que uma verdadeira civilização está baseada na religião, na família ( casamento) e na lei, que no início da civilização é sempre a agrária. Vico dá grande importância à poesia. Se Homero é o grande fundador da civilização grega e ocidental,depois que esses mesmos gregos experimentaram um período de barbárie anterior, Dante é o fundador da nova civilização ocidental, passados quase um milênio do período que Vico chama de “barbárie regressada”( Idade Média). Vico demonstra que mesmo nos períodos da barbárie, a providência divina nunca nos abandona. Recomendo a todos esse livro.

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Comments

  1. Felipe, quais são as influências dele para pensar ciência? Ele deriva a teoria do conhecimento dele dos medievais, por exemplo? Se não me engano ele está um pouco à parte do cartesianismo, mas, sendo esse o caso, não sei se entendo bem o que ele entendia por uma ciência nova e em que aspecto ela rompia com o velho.

    • Vico : Rompia com o velho na medida que ele unifica o que o cartesianismo separou (no campo da filosofia) e que a ciencia politica tambem separou a partir de Hobbes e Maquiavel (separaçao entre moral, politica e direito). Vico tem o mérito de assumir a complexidade do processo histórico vendo-o holisticamente ( a view from nowhere) colocando luz no andar da historia in concreto.

  2. Prezado amigo, Vico não está vinculado ao cartesianismo. Ele cita como influências em sua obra Santo Agostinho, Platão, Isidoro de Sevilha, Tácito , Bodin e alguns outros, mas esses que citei são os principais. Sua filosofia é uma reação aos filósofos Maquiavel, Hobbes e Spinoza. A ciência nova une o estudo da História com a filologia, que era uma das ocupações de Vico. O que ele pretendia demonstrar na Ciência Nova? Seguindo o exemplo de Agostinho, Vico acreditava na ação de Deus nos eventos do nosso passado. Deus age em todos os pontos da Terra e quem primeiro comunica isso ao povo é o poeta-teólogo. Ele, claro, diz que primeiro Deus nos ofereceu o conhecimento das línguas e da escrita ( mito de Hermes Trismegisto) na era dos deuses. Os poetas possuem a tarefa de comunicar aos outros seres humanos os atos dos deuses e dos heróis. Em que ele se baseia para produzir toda uma teoria da História? Em Homero principalmente, que funda a civilização grega; nas leis das XII tábuas, que ele comenta em detalhes, e, por último nos historiadores e políticos romanos. Vico concebe a Idade Média como uma volta da “barbárie” dos tempos pré-homéricos. Quando Dante escreve sua obra no século XIV e comunica todo o saber divino em forma de poema, uma nova civilização tem início.

    A diferença de Vico para outros filósofos como Maquiavel e Hobbes ( esses dois, aliás, que ele cita no final da obra como sendo aqueles a quem superou), é que ele acreditava em uma providência divina, exatamente da mesma forma como Santo Agostinho. Se em Maquiavel e Hobbes existe o homem lutando contra um ambiente hostil, em Vico esse mesmo homem constrói a sociedade tendo sempre em seu auxílio a ação direta da providência divina. O filósofo italiano dava muita importância à poesia ( de maneira que ele resgatou Dante para dentro da filosofia e da História) e ao mito. Ele rompe com a filosofia moderna e resgata “o velho”, ou seja, Santo Agostinho e Platão. Espero ter te ajudado. Abraços.

    • Poxa, muito obrigado, Felipe. Eu conheço muito melhor o seguimento ligado ao Descartes e aos desdobramentos da filosofia dele, além disso, o Vico é bem pouco divulgado também. Parece ser bem interessante o pensamento dele. Muito obrigado!

  3. Odelio says:

    Olá, boa noite Felipe…
    Estou lendo Vico, e sou teologo, portanto gostaira que vc me fafasse onde é citado CN, a relação da Influencia de Vico com Santo Agostinho.

    ATT,

    Odelio

  4. leticia says:

    adorei!

  5. rizia dos reis says:

    curiosidades sobre Vico ?

  6. adrielle says:

    felipe, há alguma semelhança entre Giambattista Vico e wittgenstein?

    • Há sim. Vico acreditava que nossa mente se adequava aos paradigmas ou protótipos que herdamos de eras imemoriais. Da mesma forma, Wittgenstein afirmava que nossa linguagem deve situar- se em um contexto que signifique algo para a outra pessoa. Ambos afirmam a influência da localidade para a articulação da linguagem, e também a dinâmica das mudanças da sociedade que, junto com a história, determinam o uso de nossa fala.

  7. Marco Alcântara says:

    Prezado Felipe, gostaria de saber qual foi a edição da Ciência Nova que você leu?

    Abraços,

    Marco.

  8. Marcia Adriana Rodrigues chaves says:

    Boa noite, Felipe!
    Gostaria de entender melhor a concepção de vico e também de Wittgenstein. Elas se comparam?

    • Boa noite, Marcia! Creio que ambos enfatizavam a herança que cada um de nós absorve da linguagem que teve origem em tempos imemoriais. Nascemos em um tempo que já carrega em si uma infinidade de palavras, seus significados, e nos adequamos a elas.

  9. Estou estudando em “os pensadores XX, princípios de uma ciência nova – acerca da natureza comum das nações”, 1ª edição – outubro 1974, seleção, tradução e notas do Prof. Antonio Lázaro de Almeida Prado. Buscando melhor entendimento acerca da obra de Giambattista Vico, como você mesmo afirma, é de difícil compreensão à primeira vista, todavia, ao ler o teu trabalho, ora em vista, foi de muito proveito para mim, no que o parabenizo. Gostaria, pois da tua impressão sobre a filosofia de Arthur Schopenhauer, se possível, da obra maior: “O mundo como vontade e como representação”..

  10. Celina Manso says:

    Felipe, gostaria de poder contar com sua colaboração e considerações se possível for.

    Até encontrar sua Resenha: Ciência Nova, de Giambattista Vico, não tinha conhecimento sobre o referido livro. Estou trabalhando uma biografia profissional a partir de textos escritos pelo biografado no inicio do século XX.

    Em um dos seus textos analisados, como numa retrospectiva histórica, o biografado buscou mostrar “através das idades”, a dependência que as cidades/aglomerações urbanas/vilas/tribos têm das vias de comunicação que para elas convergiam. Chamou minha atenção uma das referências citadas por ele: VICO (citado de forma tímida uma unica vez), no momento em que discutia que sobre as grandes cidades que só surgiram com a expansão do comercio depois que um número elevado de tribos atingiu a vida sedentária e se deu o culto dos mortos, “que, segundo VICO, é o principal traço característico da nossa espécie, por se não notar tal manifestação nas demais.”

    Tudo leva a crê que o meu biografado foi um leitor de VICO atento ao capitulo que trata sobre “a politica”, pois dedicou-se ao estudo das cidades e os seus problemas, num contexto de transformações significativas na passagem do século XIX para o século XX. O pensamento urbanístico do biografado se constrói entre a relação cidade e campo, entre o dilema do novo e o velho, ou entre o antigo e moderno. Vc acha possível uma aproximação dos escritos (livro) de VICO com (os texto) do meu biografado?

    • Celina, na imagem acima, que é a mesma com a qual Vico ilustra sua obra, há uma urna onde está escrito D.M. Trata-se de uma urna funerária que, segundo Vico, representa o consentimento de todo o gênero humano (sobre a vida após a morte). Existem três princípios que a Ciência de Vico trata: Providência Divina, os matrimônios e a imortalidade da alma, que começou com as sepulturas. Na imagem, você também pode ver um arado, e Vico afirma que as terras aradas foram os primeiros altares da humanidade. Ali foram fixadas as primeiras famílias que, por sua vez, criaram as primeiras cidades, feitas para que ficassem protegidos dos horrores dos bosques religiosos. A humanidade que ainda estava retida nesses bosques vivia ainda em um período primitivo, de uma pré-civilização.

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