Resenha: Israel e a Revelação, de Eric Voegelin

Israel e a Revelação

Primeiro livro da série Ordem e História, Israel e a Revelação faz uma avaliação das civilizações do Oriente próximo e do Egito através de seus símbolos cosmológicos. Todos esses povos possuíam uma elaborada mitologia que garantia a ordem de sua sociedade na figura de seu governante, seja na Assíria ou no Egito.

Os deuses da Mesopotâmia ou do Egito criavam uma ordem cosmológica sempre através do mito de que criavam o mundo e depois o concediam a determinado governante. As inscrições revelam a criação e a consequente subjugação das nações pelo governante escolhido. Voegelin cita uma inscrição da época de Lugal-zage-si ( Lugalzaggisi), último governante da Suméria antes da conquista dessa que foi a primeira civilização do mundo pelo império Acadiano. Está escrito dessa maneira:

Quando Enlil, rei de todos os países (kurkur),

dera o governo da Terra ( kalama) para Lugalzaggizi;

Quando Enlil voltara os olhos da Terra (kalama) para ele

e pusera todos os países (kurkur) aos seus pés;

Enlil conquistara para ele do nascer do sol até o seu poente

e abrira as estradas para ele do mar inferior no Tigre

e Eufrates até o mar superior. ( pág, 71)

Voegelin explica que isso permite que o governante, depois de investido de poder pelo deus, estenda o seu poder por toda a terra conhecida e estabeleça o domínio cósmico da divindade suprema da Suméria. No caso do Egito isso também é válido, porque da mesma forma que nos impérios Mesopotâmicos, estar perto do rei é estar perto da ordem; fora dos domínios do império e do deus é o reino do caos, que caso o império queira estabelecer uma ordem nessa área, uma guerra de expansão será necessária.

No estudo da civilização israelita, Voegelin faz dos recentes estudos bíblicos de sua época o ponto de apoio de suas teses. O estabelecimento da monarquia de maneira relutante por parte de Deus sempre foi um objeto de discussão entre os povos cristãos, e isso também está no livro. O reinado de Davi, a autoria do Pentateuco a autores diferentes e o estudo dos profetas são alguns dos temas que Voegelin estuda. Não deixa de ser original em alguns pontos, mas no fundo não passa de uma análise de um agnóstico sobre  temas bíblicos. Não sei o quanto a opinião de Voegelin a respeito da Bíblia é de fato relevante para quem a lê pelos olhos da fé. Esse é o lado fraco do livro.

Na parte final de Israel e a Revelação, o autor realmente possui uma visão filosófica sobre um problema que sempre afetou os judeus dos tempos dos profetas e que hoje tornou-se uma fonte de alguns dramas por parte dos católicos. Apesar de Voegelin não afirmar isso, é um fato muito óbvio que o judaísmo da antiguidade e o catolicismo desde a sua fundação sempre viveram em crise. No livro, Voegelin percebe que alguns filósofos da modernidade, como Hegel e Nietzsche, impressionaram-se com os acontecimentos de sua época, o que para um profeta bíblico teria sido inconcebível( pág,519). O que Voegelin diz em seguida é de extrema importância, pois um judeu daquele tempo ou um católico do século XXI não poderiam agir de maneira a se entregar a “sonhos metastáticos, em que o opus fosse realizado por atos humanos de revolução”. Não vou falar do caso judaico de nosso tempo, mas para todo católico que lê essas páginas, como não pensar no concílio do Vaticano II? Não teria sido esse um caso de desespero e de forte impressão por parte do clero das maravilhas e das monstruosidades do século XX? O desejo de realizar uma mudança para a adaptação da igreja a um universo hostil não foi uma tentativa de ir, observa Voegelin ( ele pensa nos profetas), “além da revelação, substituindo a constituição do ser por um substituto feito pelo homem”? Eu pessoalmente acredito que o concílio foi uma maneira trágica de se adaptar à história, e um desespero da mensagem dos profetas e, principalmente, dos evangelhos. Concluindo com as palavras de Voegelin, que servem muito bem a esses tempos de crise do catolicismo ( sempre houve desde a sua fundação, mas hoje o caso é mais grave), de apostasia, crimes e blasfêmias em massa, que ” existem tempos em que a ordem divinamente desejada só é realizada humanamente na fé de sofredores solitários”.

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