Resenha: A Era Ecumênica, de Eric Voegelin

Voegelin Era Ecumênica

 

A Era Ecumênica é o volume mais difícil de ser compreendido de toda a série Ordem e História. O filósofo Eric Voegelin teve que rever a sequência da história da Ordem na Antiguidade pois novos temas se apresentaram. Como nos três primeiros livros da série havia um estudo de Israel e do mundo grego, em a Era Ecumênica, Voegelin apresenta-nos às civilizações do ecúmeno, que viriam a suceder às civilizações cosmológicas do Egito e da Babilônia. Os novos impérios ecumênicos da Pérsia, de Alexandre e de Roma vão fundar um novo tipo de império mundial que vai incluir novas religiões, conhecimentos geográficos e trazer um desafio aos filósofos e fundadores de religiões que, a partir desse momento, vão esforçar-se por incluir em seus sistemas toda a humanidade. São citados como exemplos dessa mentalidade ecumênica os profetas Mani e Maomé. Ambos tinham a visão de que o que vinha anteriormente a eles era válido, porém estava destinado a apenas uma parte da humanidade. Mani e Maomé viriam, portanto, como mensageiros destinados a levar sua mensagem a todo globo, seja por meio de incansáveis viagens, como no caso de Mani, seja por meio da expansão violenta, como foi no caso de Maomé. A base do pensamento de Voegelin nesse livro é o conceito do Apeiron (ἄπειρον) de Anaximandro, que o filósofo alemão vê refletido na obra de Heródoto já na Antiguidade. Heródoto escreve em sua História que Creso deu um conselho a Ciro, imperador persa, ” que existe no mundo uma roda dos assuntos humanos que, girando, não permite que o mesmo homem prospere para sempre”. O ἄπειρον , nas palavras de Voegelin, promove a tensão da vida e da morte. . Platão escreve nas Leis que o mundo atual é resultado de catástrofes cósmicas nas quais apenas uns poucos sobreviveram. O filósofo grego rejeita nesse diálogo a proposta de Protágoras de que o homem é a medida de todas as coisas, e escreve em seu lugar que “Deus é o verdadeiro governante dos seres humanos que possuem nous“. O nous ( inteligência) é muito citado por Voegelin em todas as suas obras, porque ele foi considerado  um filósofo da consciência O nous e o Apeiron são vistos como um modo de equilibrar-se a imortalidade e a mortalidade. Nas palavras de Voegelin ” o ser humano somente pode imortalizar-se quando aceita o fardo apeirôntico da mortalidade”. Quando Platão colocou o centro da realidade na revelação do nous, terminou por aproximar-se do Logos cristão. Essa é a verdadeira vida da razão, segundo Eric Voegelin.  Em a Era Ecumênica, Eric Voegelin não deixa de fazer suas recorrentes e importantes críticas a Comte, Hegel e Marx. O motivo é que todos esses três pensadores acreditavam que a história tinha o seu fim no tempo deles. Hegel, principalmente, acreditava que era o único homem e que a história acabava nele. Todos eles eram imanentizadores e inimigos da transcendência. Marx queria pegar a história em suas mãos e transformá-la, mesmo sabendo que isso teria um custo enorme de sangue humano. Como demonstrou Voegelin, o fim do mundo (Eschaton) sempre foi uma tentação ao longo do pensamento cristão, que atormentou pessoas como São Paulo e Joaquim de Fiore. O que podemos entender desse livro extremamente difícil, é que todos os impérios cosmológicos ou ecumênicos estão destinados à destruição. Toda a tentativa de deter a história e o ἄπειρον terminarão em fracasso- isso quando não produzirem extermínio em massa. Voegelin não fala sobre isso no livro, mas com a passagem dos séculos e dos impérios, o que permanece é o nous, a revelação e o mistério da Encarnação de Cristo.

 

Resenha: O Fundamento da Moral, de Arthur Schopenhauer

-Arthur_Schopenhauer_1815

 

O fundamento da moral foi a primeira obra que eu li de Schopenhauer e, desde então, esse filósofo alemão tornou-se uma das minhas referências na filosofia. Partindo de uma crítica à filosofia moral de Kant, Schopenhauer demonstra como esse cometeu uma espécie de “monstruosidade filosófica” ao identificar o ato de caridade e de amor ao próximo com o agir racionalmente. Nunca antes de Kant, diz Schopenhauer, isso havia sequer sido imaginado. O que esse livro maravilhoso e muito humano tenta estabelecer é um tipo de moralidade que não dependa da Bíblia e nem de Deus, uma vez que o comando da ética Kantiana “tu deves” só tem valor e poder partindo de uma ordem divina. Outro tipo de moral completamente rejeitada por Schopenhauer é aquela que parte do Estado ( desejo de Hegel e de todo esquerdista), pois conceder a essa instituição o poder de tirar dos homens a liberdade individual é, no fundo, pavimentar o caminho para uma nova inquisição, guerras religiosas e outros tipos de perseguição ( a história dos século XX provou esse fato). Rejeitada a moral vinda de uma ética religiosa, de um comando do tipo “tu deves” e a moral estatal, Schopenhauer propõe uma ética baseada na compaixão por todos os seres vivos. Segundo ele, essa é a única maneira de evitarmos o egoísmo no momento de ajudar ao próximo, porque já não pensamos que ao fazer isso estamos agindo racionalmente ou evitando futuras penas do inferno. O filósofo cita essa passagem de Calderon para provar o que prega:

“que entre el ver

Padecer y el padecer

Ninguna distancia habia.”

As dores do próximo fazem você se identificar com o sofrimento alheio, e com isso o sentimento de compaixão é despertado. O mais surpreendente na ética de Schopenhauer é a sua preocupação com os animais. Não que isso seja totalmente novo, pois as civilizações asiáticas não estabeleciam uma grande separação entre os homens e os outros seres vivos. Na Grécia antiga a escola de Pitágoras via os animais com muito respeito. No ocidente isso foi perdido, de acordo com Schopenhauer, por causa da influência judaica no Cristianismo. Essa opinião de que os animais não possuem alma e que estão nesse mundo exclusivamente para servir ao homem pode ser vista, infelizmente, nas obras de São Tomás de Aquino. A filosofia moderna vai repetir esse pensamento com Descartes. Na prática o tratamento dado aos animais no Cristianismo sempre foi superior ao judaísmo, no entanto a igreja continua negando que os animais possuam alma, o que é algo incompreensível pela simples observação do quanto muitos animais podem agir com bondade. Na filosofia de Schopenhauer os homens e os animais são vistos como uma manifestação de Vontade. Esses últimos são nossos companheiros de sofrimento nesse mundo, e o agir com compaixão em relação às mazelas dessa vida vale tanto para a ajuda aos homens como para os animais. A ética de Schopenhauer é baseada no testemunho dos antigos gregos e Hindus; não é bíblica e nem depende de Deus. Como Schopenhauer é o maior dos escritores em filosofia ao lado de Platão, seus livros não necessitam da explicação de professores universitários para serem entendidos. Não partindo nem de Deus nem da razão, o pensamento de Schopenhauer estava destinado a ser condenado tanto pelas universidades quanto pelos religiosos. O reconhecimento do valor de sua filosofia veio pelas artes, pela literatura e, especialmente, pela psicologia.

 

Resenha: O Mundo da Pólis, de Eric Voegelin

O Mundo da Pólis

A série Ordem e História de Eric Voegelin é bastante desafiadora para quem a lê. Depois de haver analisado Israel em seu primeiro volume, Voegelin faz um estudo sobre alguns personagens que ajudaram a definir a mentalidade grega. Ele primeiro escreve sobre os poetas Homero e Hesíodo, que representam uma primeira fase do pensamento grego, que é o mítico. Eu particularmente achei o estudo sobre Hesíodo mais interessante. A parte sobre Homero pode ser complementada com a opinião de Giambattista Vico em sua Ciência Nova. Sobre o poeta grego, Voegelin escreve em detalhes a respeito da personalidade de Aquiles como definida por Homero. A parte seguinte fala sobre o amor entre Páris e Helena, visto pelo filósofo alemão como o início da desordem. Páris está cego pelo domínio em sua alma do Eros, sendo essa uma das metáforas utilizadas por Homero para demonstrar a presença do mal. Isso vai fazer com que Homero passe a ensinar aos gregos que o mal está no homem, e não nos deuses. Como define Voegelin: ” é o homem, e não os deuses, o responsável pelo mal. Na prática, esse hábito é perigoso para a ordem social. Os delitos serão mais facilmente cometidos caso se possa transferir a responsabilidade aos deuses. Historicamente, uma ordem civilizacional está em declínio e irá perecer se esse hábito obtiver aceitação geral.”

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Resenha: São Tomás de Aquino-Comentário à Ética a Nicômaco

Commentary on Aristotle Nicomachean Ethics

A Ética de Aristóteles, assim como outras das suas principais obras como a Política, a Metafísica etc, foram comentadas no final da vida de São Tomás. Lamentando que esse livro ainda não tenha uma tradução para a língua portuguesa, tive que lê-lo na versão inglesa da Aristotelian Commentary Series, da Dumb Ox Books. A Ética a Nicômaco fica ainda mais clara quando a estudamos com os comentários do maior teólogo da Igreja. Ninguém precisa temer que São Tomás misture teologia com filosofia nesse livro porque ele é muito fiel a Aristóteles durante todo o livro, só corrigindo o filósofo grego em algumas pequenas passagens. Em seus comentários, São Tomás ajuda a tornar mais claros os conceitos aristotélicos sobre diversos temas. Como já havia lido a Ética duas vezes antes dessa versão, achei surpreendente como o pensamento de Aristóteles ficou mais límpido e verdadeiro com a ajuda de São Tomás. Não há críticas às passagens originais do filósofo grego fazendo um contraponto a elas com elementos da Bíblia. A Ética a Nicômaco serviu desde então como a base da ética ocidental junto com a moral da Bíblia e dos Evangelhos.

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