Resenha: São Tomás de Aquino-Comentário à Ética a Nicômaco

Commentary on Aristotle Nicomachean Ethics

A Ética de Aristóteles, assim como outras das suas principais obras como a Política, a Metafísica etc, foram comentadas no final da vida de São Tomás. Lamentando que esse livro ainda não tenha uma tradução para a língua portuguesa, tive que lê-lo na versão inglesa da Aristotelian Commentary Series, da Dumb Ox Books. A Ética a Nicômaco fica ainda mais clara quando a estudamos com os comentários do maior teólogo da Igreja. Ninguém precisa temer que São Tomás misture teologia com filosofia nesse livro porque ele é muito fiel a Aristóteles durante todo o livro, só corrigindo o filósofo grego em algumas pequenas passagens. Em seus comentários, São Tomás ajuda a tornar mais claros os conceitos aristotélicos sobre diversos temas. Como já havia lido a Ética duas vezes antes dessa versão, achei surpreendente como o pensamento de Aristóteles ficou mais límpido e verdadeiro com a ajuda de São Tomás. Não há críticas às passagens originais do filósofo grego fazendo um contraponto a elas com elementos da Bíblia. A Ética a Nicômaco serviu desde então como a base da ética ocidental junto com a moral da Bíblia e dos Evangelhos.

Um livro como esse deveria ter uma tradução em nosso país e também seria tema obrigatório em aulas de filosofia tanto no ensino médio como na universidade. Aristóteles ensina ao homem como tornar-se um homem de verdade, ou seja, aquele que controla os extremos de seus impulsos e age buscando o meio-termo. Apesar de reconhecer que os homens já venham com características de justiça e de bondade formados desde a sua infância, Aristóteles crê que a virtude possa e deva ser ensinada aos jovens para que cresçam no caminho da verdade. Com a ajuda do estudo da filosofia e da ciência política, um homem adulto saudável pode ser formado. Dessa maneira, o homem adulto busca a felicidade, mas na maioria das vezes a confunde com a acumulação de riquezas e poder, isso quando não cai em enormes vícios, pois identifica a felicidade com prazeres do corpo. A filosofia de Aristóteles define desde o princípio que a felicidade é adquirida pelo homem não como um bem que venha diretamente de Deus, ” mas que vem até o homem pela virtude e exercício, mesmo assim teria que ser julgada como algo divina. Porque a recompensa e o fim da virtude é aparentemente a mais excelente, divina e abençoada”(1099b14-18). Um homem só pode ser feliz com um mínimo de bens materiais ( não precisa ser rico, mas também não deve ser pobre), daí que Aristóteles diga em sua Política que o objetivo do governante ao criar uma cidade feliz seja a de ter uma maioria da população na classe-média. O homem também precisa ter amigos na justa medida, uma vez que somente aduladores são amigos de todos, no entanto não pode viver solitário, pois essa é uma vida considerada bestial pelo filósofo grego. Ter saúde física e não possuir nenhum filho, parente ou amigo caído em desgraça também é um requisito para a felicidade. Para o homem que governa, o estudo da alma humana é necessário, porque “nós chamamos virtude àquilo que é próprio não do corpo mas da alma. Dessa forma, nós dizemos que a felicidade é uma atividade da alma”. Aristóteles acredita que o governante precisa saber ciência política- que é mais importante que a medicina- para estudar e curar a alma da população(1102a13-23). A virtude moral é causada pelo hábito e deve ser colocada em prática. Uma filosofia moral puramente teórica produz homens com almas doentias(1105b12-18). Toda a Ética de Aristóteles busca formar o homem magnânimo ( SPOUDAIOS), que é aquele que se julga merecedor dos maiores bens. Diz Aristóteles: ” Mas o homem magnânimo digno dos maiores bens seria o melhor. Desde que a melhor pessoa é digna de grandes coisas, a melhor de todas  será digna do que há de melhor. Dessa forma, a pessoa magnânima deverá ser verdadeiramente boa”. O homem que deverá no final do livro viver uma vida verdadeiramente feliz, que é a vida teórica, também deverá possuir virtudes intelectuais como a prudência e a sabedoria. O homem sábio, diz Aristóteles, ” deve saber não apenas as conclusões tiradas dos princípios, mas deve declarar a verdade a respeito dos princípios. Então a sabedoria será uma combinação de entendimento e ciência”( 1141a16-19). Diz São Tomás em seu comentário que esse homem deve agir como um filósofo que sabe “que como as noções comuns são conhecidas, os princípios das demonstrações são claros. Então a preocupação desse homem é de argumentar contra aqueles que negam os princípios, como é evidente no quarto livro da Metafísica”. O homem que possui todas essas qualidades enumeradas por Aristóteles pode alcançar o verdadeiro estado de felicidade nessa vida que é a de viver uma vida teórica ( BIOS THEORETIKOS). Como diz São Tomás em seu comentário, a vida do intelecto é a melhor. Uma vida de prazeres corporais é indigna do homem, pois o corpo não pode alcançar a compreensão das coisas divinas, uma vez que isso só pode ser feito pelo intelecto. Aristóteles acreditava que o intelecto não é divino em si mesmo, mas que é a coisa mais divina no ser humano. A contemplação, diz Aristóteles, não é afetada pela fadiga do corpo da mesma forma que uma vida ativa, portanto o homem pode perseverar mais na atividade contemplativa mais do em qualquer outra. São Tomás diz : “na contemplação da verdade a filosofia oferece prazeres maravilhosos tanto em pureza quanto em permanência. A pureza desses prazeres são percebidas nisso: eles lidam com objetos imateriais; sua permanência naqueles objetos não são passíveis de mudança.” Para terminar essa resenha, cito mais um comentário de São Tomás a respeito da felicidade que o homem pode alcançar em vida através da contemplação da verdade. Segue o comentário:” mas é evidente que somente na contemplação da verdade( que o homem pode alcançar a felicidade), que é amada em si mesma e não por outra coisa. De fato, a contemplação da verdade não adiciona nada ao homem fora a si mesmo, mas a atividade externa assegura ao homem maiores ou menores benefícios além da ação como , por exemplo, honra ou os favores de outros; isso não é adquirido pelo filósofo através de sua contemplação, exceto incidentalmente, contanto que ele comunique a outros a verdade contemplada- algo que é agora uma parte de atividade externa. Dessa maneira é óbvio que a felicidade consiste na contemplação acima de tudo.”

Comments

  1. Felipe Lima says:

    Muito interessante, professor! Me chamou muito a atenção, mas tenho que lamentar o meu inglês paupérrimo que me impossibilita a leitura desse livro. Bem, pelo menos estou com a Ética do Aristóteles em mãos. Parabéns pela excelente resenha, como de costume. Espero um dia chegar a esse nível, rs.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: