Resenha: Prometeu Acorrentado, de Ésquilo

tiziano-prometeu-acorrentado

” Quanto mais estou comigo mesmo e sozinho, mais tenho chegado a amar mitos”

Aristóteles

Prometeu Acorrentado faz parte de uma sequência de três peças escritas por Ésquilo, e os estudiosos não sabem dizer em qual ordem ela está entre essas três, o que torna ainda mais difícil a análise dessa peça que muito influenciou poetas e pensadores nos séculos posteriores. A história é sobre os deuses, sendo que Prometeu está, desde o início, preso a uma rocha e condenado a sofrer um terrível suplício por ordem de Zeus. Esse último foi convencido por Prometeu a não aniquilar a raça dos homens em sua fúria. Zeus recusou aos homens os seus dons, da mesma forma que pensou em enviá-los ao Hades. Graças à piedade de Prometeu, a raça humana pôde sobreviver. Entre os dons que Prometeu deu aos homens estava o de não desejarem mais a morte. Porém, o grande benefício que Prometeu concedeu aos seres humanos foi o fogo divino que Zeus havia proibido de lhes ser concedido. Por esse motivo Prometeu sabia que iria ser punido, mas não com tamanho rigor por parte de Zeus.

Eric Voegelin escreveu sobre essa peça na sua obra O Mundo da Pólis. Ele não acha que possamos definir Prometeu Acorrentado como uma revolta do homem contra Deus. Voegelin define Prometeu como um sophistes. Hermes dirige-se a ele com essas palavras: ” Tu, o sophistes, amargo acima de toda a amargura.” Prometeu é um sofista por ter levado a ciência aos homens, especialmente a matemática ( sophismata). O problema, esclarece Voegelin, é que Prometeu cometeu uma artimanha, e reclama de não ter sophisma para livrar-se da sua punição. Falta a Prometeu sabedoria, que se expressa em sua authadia, que Voegelin traduz como autossatisfação escancarada. A authadia é também uma desobediência à ordem dos deuses. Prometeu ajudou aos homens, mas isso o levou a ter o orgulho da inventividade segundo Voegelin. A peça prossegue como um estudo da alma de Prometeu, em que os personagens tentam oferecer consolo e um meio para que ele se arrependa. Prometeu, no entanto, sofre de enfermidade sagrada, e proclama sua revolta em algumas palavras que séculos mais tarde viriam a ser o grito de guerra de Marx e os comunistas contra a religião: ” Em uma só palavra, odeio todos os deuses.” Voegelin explica que essa authadia só pode ser curada “pela submissão por meio do autodomínio”. De acordo com Hermes, sem essa submissão, o pecado de Prometeu só pode ser resgatado por meio da descida de um deus ao reino sombrio do Hades. Prometeu amava aos homens, mas não a Deus, de acordo com Ésquilo. A tragédia fala sobre o arrependimento e será melhor compreendida com o auxílio da Poética de Aristóteles. Recomendo a todos a leitura da obra de Eric Voegelin, O Mundo da Pólis ,para uma melhor compreensão da mentalidade grega  de Ésquilo, que possibilitou que essa peça fosse escrita.

Comments

  1. Muito obrigada pela postagem, esclareceu-me muitos pontos para minha análise. =)

  2. Leonarda Silva Flores says:

    Achei que a história não fosse tão sucinta. Muito obrigada pelas informações!

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