A Ideia do Bem e da Paideia no Pensamento de Platão

 

 

Creation of the Universe

 

A Ideia do Bem e da Paideia no Pensamento de Platão

Felipe Pimenta

 

Resumo

A filosofia de Platão é a mais bela e completa que existe. O presente trabalho demonstrará que desde a criação de um universo como cópia da Ideia, passando por um mundo material que foi criado por um ato de bondade do Bem, até chegarmos ao filósofo que fará o papel de intermediário na comunicação desta obra de perfeição do universo aos homens que ainda estão presos na caverna, a filosofia platônica une a ideia do Bem à educação. O Bem está no centro do ensinamento da Paideia de Platão. Sua filosofia é uma inversão do princípio dos Sofistas para quem o homem era a medida de todas as coisas. Platão fará sua filosofia criar uma teologia verdadeira para o homem. Nela Deus é a medida de todas as coisas. O desejo de criar um homem que contemple a ordem da criação e através da educação passe a ter domínio de si mesmo representa todo o esforço e a beleza da filosofia platônica.

Palavras-chave: Platão.  Sócrates.  Werner Jaeger.  Eric Voegelin.  Giovanni Reale.Proclo.Paideia. Timeu.

Abstract

The philosophy of Plato is the most complete and beautiful that exists. This present work will demonstrate that since the Creation of the Universe as an image of the Idea, passing through a material world that was created as an act of indulgence by The Good, until we come to the philosopher that will make the role as the intermediate in the communication of this work of perfection of the universe to the men that are tied at the cave, Plato’s philosophy unite the idea of the Good with the education of men . The Good is in the core of the teaching of Plato’s Paideia. His philosophy is an inversion of the principles of the Sophists for who the man was the measure of all things. Plato will make his philosophy create a true theology for man. On his theology, God is the measure of all things. The desire to create a man that contemplates the order of the universe and trough education pass to have control of oneself represents all the effort and the beauty of Plato’s philosophy.

Keywords: Plato. Socrates. Werner Jaeger. Giovanni Reale. Eric Voegelin. Proclus. Paideia. Timaeus.

 

Introdução

A filosofia de Platão possui dois temas que estão unidos: a noção de Bem e a Paideia. No pensamento platônico, conforme narrado em A República no mito da caverna, o filósofo é como o prisioneiro da caverna que conseguiu libertar-se e contemplou o mundo das Ideias. O Bem contemplado pelo filósofo também é visível no universo criado pelo deus-artífice- o Demiurgo-, que no diálogo Timeu fez um cosmos como cópia da Ideia, tendo com intermediários os Entes matemáticos e, por último, a realidade sensível. A criação é um Bem que o filósofo reconhece, só que esse mundo é um reflexo sem a perfeição do mundo das Ideias. A bondade da criação e a visão do noumenon é o que Platão pretende comunicar aos governantes e à população. Como foi dito acima, o Bem deve ser transmitido aos homens através de uma educação( Paideia) que tenha como objetivo formar uma alma bem ordenada. O tema está contido em alguns dos principais diálogos de Platão, porque esse filósofo sempre teve como missão estudar o mundo do phenomenon e do noumenon, ainda que ele pretenda que tenhamos mais atenção ao último, ele também vê no mundo físico uma ordenação criada por um ato de bondade do Demiurgo.

O filósofo é aquele vai ensinar aos homens o Bem visto no mundo das Ideias, e irá fazer com aqueles que ainda não contemplaram essa realidade passem a fixar, segundo Voegelin (Ordem e História, 2009, pág. 172),

“o olhar de sua alma no bem em si, e devem usá-lo como um paradigma para a ordenação reta da Pólis, dos cidadãos e de si mesmos para o resto de suas vidas.” A escolha deste tema é importante para um melhor entendimento de como a filosofia platônica pretendia fazer a alma e o corpo do homem serem bons como o universo é bom.  O Bem e a Paideia precisam ser estudados juntos para que a doutrina de Platão possa ser compreendida com maior profundidade. Como esse é um tema rico em possibilidades, um trabalho desse tipo pode ser de grande ajuda.

 

“ O pensar é para o Homem o passeio da alma”

Autor desconhecido

 

 

O Bem

1.O Bem como o modelo do Demiurgo: O Timeu

 

Platão criou uma narrativa da criação que explica as causas da natureza, a alma e a forma material. O Bem é anterior a todas as coisas do Universo. Depois vem o Paradigma Inteligível. Junto a ele está o Artífice, chamado por Platão de Demiurgo. Segundo Proclo (1997, pág13),

“Platão antes dessas coisas  investiga  as causas principais, ou seja, a causa produtora, o paradigma e a causa final.Ele também põe um intelecto demiúrgico sobre o universo, e uma causa inteligível na qual o universo subsiste primariamente, e o Bem, que é estabelecido de maneira anterior à causa produtora na ordem do desejável.”

No diálogo Timeu, Platão elabora um mito a respeito da criação do Universo. Narrado pelo Pitagórico Timeu, o diálogo descreve como o Demiurgo criou o cosmos como uma imagem da Ideia. Timeu abre o seu discurso com estas palavras: “ tudo o que se gera necessariamente é gerado por algo: de fato, é impossível que algo se gere sem ter uma causa.”¹ O texto do Timeu diz assim mais adiante : Na minha opinião, em primeiro lugar é preciso distinguir as seguintes coisas: o que é aquilo que é sempre e não devém e o que é aquilo que devém, sem nunca ser? Um pode ser apreendido pelo pensamento com o auxílio da razão, pois é imutável. Ao invés, o segundo é objeto da opinião acompanhada da irracionalidade dos sentidos e, porque devém e se corrompe, não pode ser nunca. Ora , tudo aquilo que devém é inevitável que devenha por alguma causa, pois é impossível que alguma coisa devenha sem o contributo duma causa. Deste modo, o Demiurgo põe os olhos no que é imutável e que utiliza como arquétipo, quando dá a forma e as propriedades ao que cria. É inevitável que tudo aquilo que perfaz deste modo seja belo. Se, pelo contrário, pusesse os olhos naquilo que devém e tomasse como arquétipo algo deveniente, a sua obra não seria bela.”²  É sobre esta estrutura de cópia que se funda a possibilidade de saber algo realmente sobre esse mundo em devir.³  Proclo (1997,pág 283) fala do Demiurgo como um paradigma com essas palavras:

“ Platão, portanto, indicando essas coisas, e através delas afirmando que a posição do paradigma do Universo não está posicionado entre uma multiplicidade de naturezas eternas, mas é a mais eterna de todas elas e primeiramente eterna, chama o mundo o mais belo de fato, mas o Demiurgo o mais excelente.”

Mais adiante, Proclo (1997, pág 286) fala sobre o Paradigma:

“Platão, de fato, demonstrou que o Demiurgo olhou para um Paradigma, e esse sendo o mais excelente, o fez olhar para o mais divino deles, o qual ele disse que o Universo foi fabricado conforme o Inteligível. Mas que o universo é também vencido pela forma e verdadeiramente imita seu Paradigma é manifesto pelo que é dito agora. Porque se o mundo é uma imagem, o universo é assimilado ao Inteligível. Pois o que não é diferente mas similar, é uma imagem. Você tem então o universo sensível, a mais bela das imagens; o universo intelectual, a melhor das causas, e o universo Inteligível, o mais divino dos paradigmas.”

A ordem cósmica que revela-se aos sentidos, só pode ser reproduzida por uma História narrada. Um saber que vá além dessa história estaria em contraste com a nossa natureza humana.4 Passar do não-ser para o ser já é o primeiro ato de bondade de Deus. Esse mesmo Deus não é de forma alguma invejoso, pois quis que todas as coisas se tornassem ao máximo semelhantes a ele.5 O universo é belo, desprovido de toda imperfeição e semelhante ao Artífice. O Demiurgo então criou o corpo do Cosmos juntando elementos como a água, o ar, a terra e o fogo, e unindo estes elementos em uma proporção certa, tornou-o imune à velhice e às doenças. A figura que melhor se adequou a esse corpo foi a esférica, com uma revolução em torno de si mesmo e com rotação circular. Este mundo criado não tinha necessidade de nenhum outro órgão. Na sequência do diálogo, o Demiurgo cria a alma antes do corpo, pois o elemento mais velho não pode estar submetido ao mais novo. O Artífice viu que a sua criação era boa, uma vez que a alma era eterna, tentou adaptá-la ao mundo, porém, viu que era impossível. Fez, então, uma eternidade una e imóvel que é o tempo que progride segundo a lei dos números. Criando os planetas e um Sol que nos ilumina, Deus fez os seres humanos participarem do Número.6

1.2.A criação do mundo sensível.

 

Platão diz que no início havia elementos de água, ar, fogo e terra, porém sem qualquer equilíbrio. Elas se encontravam sem razão e sem medida. Quando o Demiurgo começou a organizar o universo, esses elementos já tinham forma própria, mas se achavam em uma condição em que era natural que estivessem porque Deus estava ausente. A tarefa do Demiurgo era, portanto, levar tal massa informe da desordem à ordem. Segundo Reale7 “ Deus os produz e os constitui, de modo belo e bom, operando por meio de formas números.” O mundo corporal nasce de uma combinação entre necessidade e de inteligência.8 De acordo com o texto de Reale, Platão criou as seguintes analogias para descrever a matéria:

Necessidade, causa errante, receptáculo que tudo gera, aquilo em que se gera o que se gera, potência que não se esgota ao receber várias coisas que recebe; natureza sempre idêntica a si mesma no seu fundamento; realidade amorfa; realidade participante de modo complexo do inteligível; realidade difícil de compreender, obscura e incompreensível; realidade em si invisível, mas visível nas suas várias manifestações; realidade comparável a uma nutriz, a uma mãe, ao material de impressão, ao ouro plasmável, ao material mole modelável de várias maneiras e a líquido inodoro que recebe os vários odores.9

Segundo Proclo (1997, pág 14), a natureza corpórea é produzida com Formas, e dividida por números divinos; a alma  é também produzida pelo Demiurgo e é preenchida com raciocínios harmônicos, e com símbolos divinos e demiúrgicos.”

O corpo também possui dignidade por causa da iluminação da alma. De acordo com Proclo (1997, pág 617),

“a alma subsiste com proporções harmônicas e o Todo da natureza corporal formada está em amizade com ela através da analogia, que é harmoniosamente composta. Nenhum laço pode ser mais belo, divino e perpétuo, pois apesar da alma ter sido gerada antes do corpo, Platão concedeu a este a essência, a harmonia, a figura, a potência e o movimento. O Demiurgo quando colocou o Intelecto na alma e a alma no corpo, criou o Universo.”

1.3.A Terra e seus elementos geométricos

O Demiurgo criou o mundo inspirado pelo modelo ideal eterno. Conforme foi estabelecido por Platão acima, aos elementos que formam o universo, como a água, o fogo, o ar e a terra, ele os associou a elementos geométricos como o tetraedro (fogo), o hexaedro (terra), o octaedro( ar), o dodecaedro ( modelo dos cosmos) e o icosaedro(água).10

Na República, Platão vai fazer o filósofo ensinar ao povo que deve-se estudar primeiro àquelas coisas que estão no alto. A geometria fará parte da Paideia que será ensinada na Pólis. Esta disciplina será ensinada junto com a astronomia e a estereometria. A ciência deve começar estudando o que está no céu. Sócrates diz que a geometria nos faz estudar as coisas celestes. Ela promove a contemplação e faz parte de um programa de estudos que têm como objetivo fazer a alma mirar o Ser e o invisível, sem o qual a educação não faz sentido.

1.4.O Poder do Demiurgo

Segundo esta passagem do Timeu, “o Demiurgo produz o bem ao ordenar o caos dos elementos originais, quando realiza o Bem e o melhor e produz o que é belíssimo.” 11  Platão define isso no diálogo que querer fazer o bem é tornar as coisas ordenadas. Ainda no Timeu, o filósofo grego diz que a ciência e a potência de Deus consiste em misturar  os muitos em um. O Deus-Artífice platônico construiu um universo a partir de uma desordem e de sua ação produziu-se o Bem. Em uma passagem do mesmo diálogo, Platão diz que “Deus possui de maneira adequada a ciência e, ao mesmo tempo, a potência para misturar muitas coisas na unidade e de novo dissolvê-las da unidade em muitas coisas. Mas não há nenhum dos homens que saiba fazer nem uma coisa nem outra, nem haverá no futuro.”11 O homem pode contemplar a Criação e tentar, segundo Reale( 2009, pág 530), “imitar nesse mundo imagens da Ideia através da técnica e da arte” . O homem que primeiro vai fazer essa contemplação do Mundo das Ideias e transmiti-las aos outros homens é o filósofo. Isso se dará no diálogo A República.

2.O Filósofo contempla o Bem: A República

Sócrates torna-se a figura central que vai expor a doutrina platônica da contemplação do Bem e da Ideia. Em um determinado momento do diálogo, Glauco, ansioso, pergunta a Sócrates sobre como ele crê que o homem possa conhecer o Bem12. Sócrates, então, esclarece que existem coisas do mundo visível que são múltiplas, enquanto a cada uma delas corresponde uma ideia que é única, que chamamos a sua essência. As primeiras diremos que são visíveis, mas não inteligíveis, e de outra forma diremos que as Ideias são inteligíveis, porém, não visíveis.13

Sócrates então pergunta por que meio vemos aquilo que é visível, e ouve como resposta que é por meio da visão. Ora, o homem percebe os objetos pela visão por causa da luz, e essa luz tem como causa o fato dela ser gerada por um deus do céu. Esse deus é o Sol. Ele é o filho do Bem na ordem da criação platônica. O homem, segundo Damáscio ( apud Proclo, pág 326), ao  “aproximar-se do imenso princípio deve contemplá-lo em um silêncio místico.”

O diálogo prossegue. Sócrates explica que quando nossos olhos são iluminados pela luz do Sol, nossa alma passa a ser iluminada pela verdade do Ser ela compreende e conhece. Entretanto, se ela se fixa em objetos na qual se misturam as trevas da noite, ela passa a ter meras opiniões sobre aquilo que nasce e morre.14 A visão e a luz não podem ser igualadas ao Sol, da mesma forma que a ciência e a verdade ainda que se assemelhem ao bem, elas não são o Bem em si mesmo. Segundo Eric Voegelin (2009, pág 173),“essas são as proposições referentes ao sol que servem como analogon para tornar inteligível o papel do Agathon no domínio noético (noetos topos).”Prossegue Voegelin dizendo que “ o Agathon não é nem intelecto (nous), nem seu objeto (nooumenon), mas aquilo que dá aos objetos do conhecimento a sua verdade  e ao conhecedor o poder de conhecer.”

No Timeu, Platão já havia falado sobre a visão com essas palavras:

“em  meu entender, a visão foi gerada como causa de maior utilidade para nós, visto que nenhum dos discursos que temos vindo a fazer sobre o universo poderia de algum modo ser proferido sem termos visto os astros, o Sol e o céu. Foi o fato de vermos o dia e a noite, os meses, os circuitos dos anos, os equinócios e os solstícios que deu origem aos números que nos proporcionaram a noção de tempo e a investigação sobre a natureza do universo. A partir deles foi-nos aberto o caminho da filosofia, um bem maior do que qualquer outro que veio ou possa vir alguma vez para a espécie mortal, oferecido pelos deuses. Por que razão havemos de celebrar os outros que são inferiores a estes, pelos quais só um não-filósofo choraria, se ficasse cego, com lamentos em vão?”15

Começa agora o Mito da Caverna. Sócrates quer que imaginemos um grupo de prisioneiros algemados pelas pernas e pescoço.Eles só podem olhar para a parede da caverna e nunca para a sua entrada. Na parede da caverna são refletidas imagens de homens e animais. Essas não passam de sombras de objetos reais de fora da caverna, mas aqueles prisioneiros não sabem disto. Imaginemos então que um dos prisioneiros conseguisse sair da caverna. A primeira coisa que lhe aconteceria é que seus olhos não estariam acostumados à luz do sol. O que ele teria que fazer seria primeiro olhar para as sombras dos objetos, depois para os homens e animais e, por último, para as estrelas e a lua no céu. Depois que ele conseguisse fazer isto, a contemplação do Sol seria possível.16

2.1.O Filósofo desce à caverna

Após ter contemplado o Mundo das Ideias, o prisioneiro que se libertou ( que é a imagem do filósofo), tem vontade de ficar fora da caverna para sempre, já que a realidade da mesma não mais o atrai. Porém, este homem deve descer novamente à caverna e ensinar aos que ainda não contemplaram a verdade o que ele viu. Não é uma tarefa simples, pois envolve o risco dele ser mal interpretado. Mas ele tem que começar a ensinar aos seus companheiros o seu programa da Paideia. A caverna é uma imagem da Pólis, e esta na concepção de Platão “tem o direito de exigir o sacrifício do filósofo porque ela lhe proporcionou educação que deve habilitá-los a unir a Pólis.”17 O filósofo viu o Agathon, e a “Pólis sob seu comando será governada com uma mente desperta (hypar) em vez de ser conduzida, como a maioria das Pólis de hoje, obscuramente como num sonho (onar).”18

3.O Eros como o amor pelo Bem: O Banquete

Este divertido diálogo tem como o tema principal uma discussão sobre o Eros. Vários são os participantes do banquete, mas o que nos interessa é o discurso do Sócrates. Vamos a ele. Sócrates define primeiramente Eros como o desejo indefinido daquilo que nos falta. Sócrates faz o outro participante do diálogo, Agaton, lembrar-se do que havia dito em seu discurso de que Eros é carente do belo.19 Questionado por Sócrates, Agaton confirma que Eros é carente do belo e que o belo é o bem. Neste momento do diálogo, Sócrates interrompe a conversa com Agaton para relembrar-se de um diálogo que teve com a sacerdotisa Diotima. Essa lhe fez perguntas na ocasião sobre Eros, e Sócrates a responde que Eros era belo e que pendia ao bem. Diotima diz, contrariamente a Sócrates, que Eros não é belo nem bom. Ora, o não-belo não quer dizer que Eros é feio, esclarece Diotima.20 Mais adiante, Diotima faz Sócrates reconhecer que Eros deseja o bem e o belo, que são coisas que lhe faltam. Eros está entre o mortal e o imortal. Ele é um daimon, que é um intérprete e mensageiro. Ele leva aos deuses os assuntos humanos e aos humanos ele traz mensagens divinas. Leva preces e sacrifícios e traz respostas aos sacrifícios. Diotima diz que Deus e o homem não se misturam, mas que é através de Eros que este contato é possível. Mais adiante, Diotima conta a mitologia de Eros, que é filho de Penúria e Caminho. Ele é carente de beleza, mas herdou do pai o pendor por coisas belas e boas. Ele ocupa o meio termo entre o saber e a ignorância. Deus não filosofa ,pois já sabe de tudo. Os ignorantes não filosofam nem desejam ser sábios. Os ignorantes não filosofam uma vez que não sentem que lhe falta alguma coisa. Sócrates então questiona Diotima sobre quem filosofa. Ela o responde: quem se encontra no meio entre o saber e a ignorância.21 Eros é um deles. Eros é a posse perpétua do bem. Segundo Jaeger (1995,pág 740), “ o Eros socrático é o anseio de quem se sabe imperfeito por se formar espiritualmente a si próprio, com os olhos sempre fitos na Ideia. É, em rigor, o que Platão entende por filosofia: a aspiração de conseguir modelar dentro do homem o verdadeiro Homem.” Agora surge, por fim, o papel do educador. Para terminar esse capítulo, uma citação de Voegelin faz-se necessária:

“ Apontamos antes que permanece um mistério o modo como o homem, na dimensão temporal do ser (thnetos de Platão), pode experimentar o eterno. Há, então, a necessidade de um mediador que interprete e diga aos deuses o que está acontecendo entre os homens, a aos homens o que está acontecendo entre os deuses. O papel de mediador é atribuído por Platão a um  espírito muito poderoso, pois todo o reino do espiritual ( pan to daimonion) jaz entre (metaxo) Deus e o homem. Este espírito (daimon) deve misturar, pela força de sua posição de intermediário, o que não se mistura, à medida que está em confronto objetivo, e os dois polos ele há de fundir num grande todo. O simbolismo discretamente aponta para o cerne da matéria: é o homem que não é simplesmente thnetos, mas experimenta em si mesmo a tensão para o ser divino e, então, está entre o humano e o divino. Quem quer que tenha esta experiência se eleva acima do mortal e se torna um homem espiritual, o daimonios aner.”22

A Paideia

4.A educação como um ato de anamnese: o Menon e o Fédon

Menon pergunta a Sócrates: e de que modo procurarás, Sócrates, aquilo que não sabes exatamente o que é? Pois procurarás propondo-te que tipo de coisa, entre as coisas que não conheces? Ou ainda que, no melhor dos casos, a encontres, como saberás que isso é aquilo que não conhecias?23 Sócrates responde com o argumento de que a alma já renasceu diversas vezes e que quando passou pelo Hades aprendeu muitas coisas, e que quando a alma renasce é possível que ela se lembre daquilo que já viu. Procurar e aprender, para Sócrates, são a mesma coisa, ou seja, uma rememoração.Sócrates, então, propõe demonstrar a sua tese com o auxílio de um escravo de Menon. Com o auxílio da matemática, que faz parte do programa da Paideia, Sócrates faz o escravo traçar desenhos geométricos no chão, e como no papel de professor, ele vai aos poucos trazendo à mente do escravo conceitos que esse último parecia ignorar. Com a sequência do ensinamento, Sócrates leva o escravo à aporia. O Filósofo lembra a Menon sobre a ironia que este fez a ele dizendo que ele parecia com um peixe-elétrico que entorpecia quem se aproximava. O fato do escravo estar entorpecido por experimentar a aporia como faria o peixe-elétrico não quer dizer que tenhamos causado algum dano a ele.24 Logo após este aparente impasse, o escravo “rememora” a solução do problema matemático que Sócrates o propôs. Possuir ciência, para Sócrates, é relembrar-se do que já sabíamos de vidas passadas.

No Fédon, Sócrates ensina que o saber é uma reminiscência. Ele dá um exemplo: a lira traz à mente das pessoas a imagem do amor, dessa maneira quando o apaixonado vê um destes instrumentos, ele se lembra da pessoa amada.25 E isso é uma forma de anamnese. A alma cada vez que renasce esquece temporariamente o que sabia, e é por isso que a Paideia vai fazer o homem instruir-se pelo método da recordação.

5.Paideia sofística ou Paideia socrática?26: Protágoras

Sócrates é surpreendido um dia com o chamado de seu amigo Hipócrates. Esse o avisa que na cidade encontra-se o famoso sofista Protágoras. Sócrates percebe a excitação de seu amigo com o fato, mas tenta fazê-lo se acalmar com algumas perguntas. Entre elas é saber no quê o ensinamento de Protágoras melhora ou transforma a pessoa? Hipócrates o responde dizendo que Protágoras transforma seus alunos em sofistas. Isso não agrada a Sócrates. Hipócrates acrescenta que os sofistas ensinam a seus alunos como tornarem-se excelentes oradores, mas Sócrates o faz ver que tornar-se orador para defender algo indefinido não será de muita utilidade, e o adverte que a aula de Protágoras pode colocar sua alma em risco27. Os sofistas não são pessoas em que se possa confiar.

É a vez de Protágoras apresentar-se e expor sua doutrina. Ele vê os sofistas como pessoas que vestem a roupagem da poesia, da música e do atletismo. Estas atividades faziam parte da Paideia dos sofistas e isso lhes causava grande orgulho. O objetivo do sofista é tornar a pessoa melhor, diz Protágoras. Enquanto outros sofistas ensinam aos seus alunos a arte do quadrivium, Protágoras se preocupa mais com aulas sobre política e assuntos do Estado.

Sócrates por sua vez acha impossível que Protágoras possa ensinar a arte da política a alguém porque os assuntos de Estado podem ser dominados por pessoas de qualquer profissão, e ele prossegue dizendo que é muito difícil que o talento político do pai possa ser transmitido ao filho, e dá como exemplos os filhos de Péricles presentes no diálogo. Protágoras responde à observação de Sócrates com um mito. No início, quando os deuses criaram a raça humana, dois Titãs, Prometeu e Epimeteu ficaram responsáveis por distribuírem habilidades aos humanos. Epimeteu ficou com esta responsabilidade e dotou humanos e animais com algumas características. Porém, o estado do ser humano foi considerado lamentável por parte de Prometeu. Em um gesto desesperado, ele roubou o fogo divino aos deuses e o deu aos seres humanos. No entanto a arte política era desconhecida do homem. Prometeu, então, roubou o fogo de Hefaístos e a arte de Atena e novamente deu aos humanos. Nasceu, assim,  a religião. O homem, mesmo assim, continuou a viver em grupos espalhados sendo destruídos por animais selvagens. Faltava-lhes a arte da política. Zeus então enviou Hermes para distribuir justiça a todos sem exceção. Todo o ser humano compartilha deste quinhão da Justiça, caso contrário não seriam humanos.28

Protágoras insiste no valor da educação e na possibilidade do ensino da virtude dando como exemplo o fato dos pais  preocuparem-se tanto com a educação dos filhos, inclusive pagando a professores para essa tarefa. Ele questiona o porquê de Sócrates se espantar com tudo isto. Sócrates, por sua vez, apenas direciona o diálogo para o problema do saber e do conhecimento. Ele se preocupa com o fato de muitos possuírem o saber mas acabarem sendo arrastados e vencidos pelo prazer. A Paideia socrática acredita que um homem com um conhecimento verdadeiro sobre o mal jamais agirá injustamente. Protágoras concorda com a opinião de Sócrates de que a sabedoria e o conhecimento são as coisas mais poderosas. Sócrates o faz ver que mesmo que isso seja algo que a maioria concorda, isso não faz necessariamente com que vivam desta maneira. A pessoa que recusa o bem é aquela que escolhe o mal maior em detrimento do bem menor.29 Ser vencido pelo prazer é uma ignorância, e só age dessa forma quem não tem o conhecimento. Ninguém busca voluntariamente o mal. A Paideia socrática pretende fazer do conhecimento do verdadeiro e do Bem uma maneira de evitar a ignorância de uma vida vivida pela busca de prazeres.

6.A Paideia como formação do verdadeiro político: Górgias

No Górgias uma batalha é travada entre dois políticos com formações diferentes: Sócrates e Cálicles. O começo do diálogo é um confronto dialético entre Sócrates e dois sofistas, Górgias e Polo. Sócrates consegue vencer os dois com relativa facilidade. Presente na cena está o experiente político Cálicles, que logo pergunta a Querofonte se Sócrates não está brincando.30 Ele percebe que o que Sócrates ensina pode virar o mundo de cabeça para baixo. Sócrates o responde dizendo que ele e Cálicles estão apaixonados por duas coisas diferentes: ele pela filosofia, e Cálicles pelo povo.31 A fúria de Cálicles deve-se ao fato de Sócrates ter dito anteriormente que cometer injustiça é pior do que sofrê-la. Para Cálicles, nenhum homem desejaria sofrer injustiça a não ser um escravo. Como uma espécie de Nietzsche avant la lettre, ele julga que este tipo de convenção foi feita pelos fracos para dominarem os mais fortes. A lei da natureza é implacável e supõe o domínio dos mais fortes sobre os mais fracos. O homem forte rompe com os grilhões da lei e da moral. Cálicles julga que Sócrates está com o espírito amolecido por causa da filosofia, pois essa é tida por ele como sendo adequada apenas à juventude, e nunca ao homem amadurecido.32

Segundo Jaeger(1995, pág 668),

“este esboço de uma doutrina da sociedade baseada na teoria da luta pela sobrevivência deixa à educação um papel inferior. Sócrates opunha a filosofia da educação à filosofia da força. Era a Paideia que era para ele o critério da felicidade humana, contida na kalokagathia do justo”

Cálicles possui uma alma tirânica e faz uma espécie de advertência a Sócrates. Se Sócrates fosse acusado injustamente por causa de seus ensinamentos filosóficos, mesmo que o acusador fosse um patife, Sócrates só conseguiria balbuciar palavras desconexas em sua defesa, e se fosse condenado à morte, teria necessariamente que morrer. Cálicles crê que Sócrates seria um daqueles que poderia levar uma bofetada impunemente.

Sócrates mantém a calma e faz uma pergunta ao político Cálicles: é a mesma pessoa que ele chama de melhor e superior? É o múltiplo superior ao Uno? Cálicles responde que sim. Ele acredita que o superior deve ter a cota maior, mas não de coisas como alimentos, bebidas e sapatos como Sócrates ironicamente disse, mas sim do poder político. Mas e o problema do governo de si mesmo, questiona Sócrates. Os melhores teriam mais do que si mesmos. Cálicles explode. Nas palavras de Voegelin (Ordem e História, 2009,pág 96),”um homem não deve governar a si próprio. Ao contrário, o bem e a justiça consistem na satisfação dos desejos. Luxo, licenciosidade e liberdade ( tryphe, akolasia, eleutheria), se tiverem meios para se manter, são virtude e felicidade.”

Desta Paideia distorcida pelo político Cálicles, Sócrates irá propor a sua antítese, que é a Paideia que tem junto a ela a noção de Bem.  A satisfação de nossos desejos só é permitida quando algo nos falta quando estamos com saúde33. Quando estamos doentes nunca podemos satisfazer nossos desejos das coisas.. A mesma regra, diz Sócrates, aplica-se à alma. Quando ela não possui inteligência, é indisciplinada, injusta e ímpia, torna-se necessário que refreemos seus instintos para que ela melhore.34 Porque o mal que está na ação procede do falso que está no conhecimento, como diz Proclo (1997, pág 926).Cálicles não quer ser disciplinado pela Paideia.O prazeroso e o Bem não andam juntos, conforme Sócrates explica, e Cálicles vê-se obrigado a concordar. O verdadeiro político educado pela Paideia respeitará a Deus e aos homens. Essa educação que o político ensinará ao povo produzirá homens melhores.

7.O Programa da Paideia: A República e As Leis

Em A República, Platão através de Sócrates vai definir a Paideia de seu Estado ideal. Sabemos que a poesia era muito valorizada pelos Sofistas, principalmente Homero. É a partir de uma noção de uma verdadeira teologia que Platão fará sua crítica da poesia de seu tempo. Homero será criticado por suas descrições “caluniosas” do Hades.35 Palavras como as que os poetas usam para descrever este local podem ser bonitas, mas não devem ser ouvidas por homens livres. Nomes terríveis que designam o além-túmulo, além de reproduções de gemidos e lamentos devem ser eliminados.36 Da mesma forma, o riso de homens e deuses não podem ser reproduzidos. Platão, cujo pensamento coincide com os dramaturgos  Ésquilo e Sófocles, quer que seja ensinada através da poesia a bondade dos deuses. Ele reprova Homero por atribuir diversos vícios aos deuses. É impossível que o mal venha deles.37 Uma crítica também será feita à imitação. No Estado ideal de Platão, aqueles que forem os guardiões devem se ocupar de garantir a liberdade do Estado, portanto não devem imitar outra coisa a não ser a coragem, a pureza, a liberdade e etc. Tudo aquilo que é baixo não pode ser imitado. Isto inclui a imitação de escravos, de gemidos, das dores da maternidade, profissões como ferreiros, o relinchar dos cavalos, o murmúrio dos rios, etc.38

As profissões devem ser especializadas, evitando que um profissional exerça mais de uma atividade.39 Platão ensina que a música tem uma importância fundamental na sua Pólis. Todo tipo de música sem harmonia ou que produza uma cidade efeminada são proibidas. A música deve ser harmoniosa para que a criança cresça com uma alma sadia e amando o Bem. O mal seria odiado desde cedo por causa da sua fealdade. 40 A música na Pólis platônica deve reproduzir o som da música das esferas celestes41. A harmonia do céu criado pelo Demiurgo é a inspiração para a criação de sons que unam a música à astronomia. Este é o programa pitagórico. Depois da música, o jovem deve aplicar-se à ginástica, mas a educação musical não deve ser excluída. Alguém que só escutasse música e não exercitasse o corpo ficaria frouxo; aquele que só praticasse exercícios físicos mas não desse atenção à alma ficaria embrutecido. Segundo Jaeger(1995, pág 810)

“ a sinfonia da alma é o resultado de uma combinação acertada de dois elementos: a música e a ginástica. Esta cultura coloca o espírito em tensão e o alimenta de belos pensamentos e conhecimentos afrouxando as rédeas da parte corajosa por meio de exortações contínuas e educando-a pela harmonia e o ritmo.”

A educação das mulheres assemelha-se à dos homens. As mulheres devem estudar música, ginástica e a arte da guerra.42 Platão reconhece que homens e mulheres têm naturezas distintas. A solução que ele oferece para a divisão do trabalho é que cada profissão será destinada a determinado sexo de acordo com as aptidões de cada um dos dois; porém, se ambos os sexos forem competentes naquele ofício, o fato da mulher dar à luz e do homem procriar será indiferente.

Nas Leis, Platão propõe a sua pedagogia para a infância.43 As mães devem desde quando estiverem com seus filhos recém-nascidos, começarem a balançá-los para que se acalmem e adormeçam. Esse balanço produziria na alma da criança um frenesi semelhante ao de Baco. Platão preocupa-se com isto porque ele quer eliminar da alma da criança qualquer noção de medo. Mais tarde, a criança, tanto meninos quanto meninas receberão um treinamento sobre o manejo de armas.44

7.1.A Filosofia supera a Poesia como modelo de educação

No livro X da República, Platão faz um ataque ao modelo de Paideia feita pela poesia, modelo esse que era muito utilizado pela sofística. A principal crítica é feita à arte da mimese dos poetas. Na mente de Platão, o Artífice é aquele que cria as coisas que estão no céu e na terra; aquele que criou os deuses e o Hades e o que existe embaixo da terra. Os objetos criados pelo Artífice foram criados à imagem da Ideia. Ora, o marceneiro em sua profissão também é um Artífice, porque também cria um objeto. Porém, um pintor jamais pode ser chamado de Artífice, porquanto é apenas um imitador da obra do Artífice. O mesmo se dá com o poeta para Platão, que também não passa de um produtor de imitações. Criar é ser paradigmático como o Demiurgo. Imitar é apenas “energizar”. Não é a mesma coisa criar pela existência, e “energizar” pelo conhecimento, diz Proclo (1997,pág 287). Segundo o filósofo de Constantinopla, “a alma produz vida pela existência, mas produz vida artificialmente pelo conhecimento. Criar é obra do Demiurgo, porque a geração é a primavera do Ser.”45

Platão pela boca de Sócrates questiona: qual cidade tornou-se melhor pela poesia de Homero? Era ele um educador de Homens? Não, segundo Platão. Jaeger (1995, pág 982) nos ensina sobre este ponto:

“o repúdio da poesia não significa tanto o seu afastamento violento da vida do homem, como uma delimitação nítida da sua influência espiritual para quantos aderirem às conclusões de Platão. A poesia estraga o espírito dos que a ouvem, se eles não possuírem o remédio do conhecimento da verdade. Isto quer dizer que se deve fazer descer a poesia para um degrau mais baixo. Continuará a ser matéria de gozo artístico, mas não lhe será acessível a dignidade suprema: a de se converter em educadora do homem. O problema de seu valor aborda-se no ponto que necessariamente tinha de ser o decisivo para Platão, o da relação entre a poesia e a realidade, entre a poesia e o verdadeiro Ser.”

A filosofia tornar-se-á a base da educação. O filósofo é aquele que saber tornar os homens melhores e conhece o tema sobre o qual está falando.

8.Deus como a medida de todas as coisas: As Leis

Fazendo um contraponto a Protágoras para quem “o homem era a medida de todas as coisas”, Platão faz de Deus o centro de sua Paideia. Jaeger escreve: (1995,pág 876)  “ na República, a ideia do Bem é a norma absoluta que serve de base à noção da filosofia como suprema arte da medida, a qual aparece muito cedo no pensamento platônico e nele se mantém até o final.”

No final do diálogo As Leis, Platão conclui que a astronomia, que é a ciência abençoada, é um meio de contemplação da divindade. Segundo suas palavras :

“ supondo que todas essas coisas são como dissemos, qual a finalidade de aprendê-las? Para dar conta desta questão é preciso nos referirmos ao elemento divino presente no mundo gerado, que consiste da espécie mais excelente e mais divina de coisas visíveis que a Divindade permitiu aos seres humanos observar”. Ele prossegue:“precisamos inclusive, deter um conhecimento apurado da exatidão do tempo, captar como ele cumpre com precisão todos os fenômenos celestes. Se o fizermos, então todos os que creem na verdade de nosso raciocínio segundo o qual a alma é a uma vez mais velha e mais divina que o corpo deverão reconhecer que o adágio tudo está repleto de deuses é cabalmente correto e suficiente e, ademais que nunca somos negligenciados devido ao esquecimento ou incúria dos seres que nos são superiores”.46

9. A Filosofia Platônica e o ensino da beleza do universo através da educação

Platão nos ensina que o universo foi criado pelo Bem, que também criou o princípio material. O Demiurgo é um deus que molda a matéria. No cosmos platônico, o mundo é bom, pois foi moldado pelo Demiurgo com base no Paradigma Inteligível. Na criação do homem, a beleza também está presente. Isso foi muito enfatizado por Proclo, que não deixa de nos recordar isto, mas sempre mantendo-se fiel à concepção do seu mestre Platão de que o corpo não tem a mesma dignidade da alma, o que não quer dizer que haja nele algum elemento de maldade como os gnósticos da era cristã pregavam. O platonismo não é um sistema pessimista como o gnosticismo. É curioso como a filosofia de Platão foi acusada por alguns filósofos cristãos de criar uma noção errônea da matéria. O que vimos foi que a união da alma e do corpo é algo desejada na ordem de sua filosofia, semelhante ao hilemorfismo aristotélico. A coleção de citações sobre como o bem está presente na matéria citadas por Reale acima demonstram como Platão a tinha em grande estima. “A realidade da matéria é invisível ao mesmo tempo em que a vemos em suas várias manifestações”, diz o filósofo grego. Platão é muito científico, porque mesmo a ciência moderna ainda busca a essência da matéria. A concepção da matéria em Platão é muito importante de se ter em mente contra aqueles que quiserem fazer da filosofia de Platão uma antecipação do gnosticismo da era cristã. Depois de haver descrito essa ordem de maneira tão bela, Platão enfatiza que o noumenon deve ser a base do conhecimento para o homem. Platão queria uma ciência não do mundo físico, mas sim do mundo eterno das Ideias. O que primeiro deve ser feito é a libertação do mundo das aparências do mundo físico. O homem sem a contemplação da Ideia é semelhante a um prisioneiro da caverna que só enxerga as sombras. Quem fará a descoberta do mundo das Ideias e as comunicará aos homens que ainda estão presos às aparências é o filósofo. No mito de Eric Voegelin, o filósofo é como o daimonios aner, ou seja, o homem espiritual. É esta a função do filósofo em A República, pois ele  é quem faz a intermediação do mundo divino com o mundo dos homens. Este homem espiritual, entretanto, segundo Voegelin, não poderá ser apolítico e viver preso à contemplação da Ideia, pois a cidade precisa dele.

A polis platônica necessita de cidadãos educados, principalmente para o surgimento de governantes com a alma ordenada. Platão, portanto, criou um método de educação que visa a ensinar aos homens o Bem contemplado antes dessa vida, pois seu pensamento exige uma preexistência da alma. Caindo no mundo físico, a alma esquece do que já havia aprendido. Com a Paideia, a alma pode recordar-se do que já sabia através do método da anmenese. Este método é ensinado no diálogo Menon. O método de relembrar-se leva o estudante à aporia, que é um impasse. Cabe ao professor ensinar ao aluno como sair desta situação, e através da resposta, este último encontrará uma solução de que nada mais é do que uma recordação de algo que ele já sabe desde uma vida passada no mito platônico.

A filosofia e a Paideia de Platão são majestosas, pois conseguem unir o espiritual ao mundo físico sem cair nos problemas que Aristóteles enfrentou, pois este tinha muita dificuldade de imaginar uma sobrevivência da alma sem o corpo. Platão quer que os homens através da educação tenham uma alma sadia da mesma forma que o corpo, pois ambos nos recordam da bondade de Deus. O universo é bom, a alma unida ao corpo é algo desejável e a harmonia da ordem divina está presente em tudo o que vemos.

 

 

Conclusão

A criação do universo como cópia da Ideia foi algo bom e belo. Platão apresentou-nos uma teologia em que os deuses são bons.No Timeu, Deus é considerado bom (agathos)47, livre de inveja ( Peri oudenos oudepote phthonos)48, melhor das causas(o d`aristos tôn aitiôn)49 e produz o mais belo( to kalliston)50. O homem foi definido como o mais belo dos Inteligíveis.51 Sua Paideia cria um homem que desde criança aprende a experimentar o Bem. O trabalho concluiu que o papel do filósofo como educador é o de transmitir a beleza da Ideia e do Cosmos àqueles que ainda são prisioneiros do mundo dos sentidos. A Paideia começa pela contemplação através do sentido da visão da Ideia eterna. O papel do educador é o de ensinar aos alunos os objetos do intelecto (nooumena) e começar o ensino através do processo da anamnese. O trabalho atingiu o seu objetivo de explicar esta ligação entre o Bem e a Paideia. O filósofo, tal como lemos no diálogo O Banquete, é aquele que está sempre apaixonado e com os olhos sempre mirando na Ideia. Ele deseja que os membros da Pólis tenham em mente o Bem do mundo eterno. A Paideia atinge seu objetivo quando faz do homem, que é imperfeito, um ser que deseja aprimorar-se espiritualmente. Este trabalho  representou uma grande realização intelectual para mim. A filosofia de Platão é a mais perfeita que existe e ele é a grande inspiração para que eu possa exercer o papel de filósofo.

______________________

¹ Timeu, 28b

² Ibid

³ Reale, pág 445

4 Ibid

5 Timeu, 29e

6 Timeu, 38d

7 Reale, pág 474

8Timeu, 47e

9 Reale, pág 4

10Timeu, 54a

11 Timeu, 68d

12 República, 506a-e

13República,507a-e

14República,508a-e

15 Timeu, 47b

16 República, 514a-516a-e

17 Ordem e História, pág 176

18 Ibid

19Banquete, 201b

20 Banquete,201e

21Banquete, 204b

22 Anamnese, pág 406

23Menon, 80d

24Menon, 84b

25Fédon, pág 41

26 Jaeger, pág 620

27 Protágoras,313ª

28Protágoras,321b-322d

29Protágoras, 355e

30Górgias, 481b

31 Górgias, 481d

32Górgias, 484d

33Górgias, 505a

34Górgias, 505b

35República, 387a-e

36Ibid

37 República, 391a-e

38República, 395-396a-e

39República, 397a-e

40República, 401a-e

41Timeu, 80a

42República, 452

43 Leis, pág 278

44Leis, pág 283

45Proclo, pág 326

46Leis, pág 537

47 Timeu, pág 38

48Ibid

49Ibid

50Ibid

51 Proclo, pág 654

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Bibliografia

JAEGER, Werner. Paideia: A formação do homem grego. 3. Ed.São Paulo: Martins Fontes,1995.

PLATÃO. O Banquete. Porto Alegre: L&PM, 2011.

Fédon. 3.Ed.São Paulo: Martin Claret,2011.

Górgias. 1.Ed. São Paulo: Edipro,2007.

                  As Leis. 1.Ed. São Paulo: Edipro, 1999.

Menon. 1Ed.Rio de Janeiro: Editora Puc Rio, 2001

Protágoras.1.Ed. São Paulo: Edipro, 2013.

A República. São Paulo: Martin Claret, 2003.

Timeu.1Ed. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2011.

PROCLO. The Commentaries of Proclus on the Timaeus of Plato. Kessinger Pub, 1997.

REALE, Giovanni. Para uma nova interpretação de Platão. 2.Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

VOEGELIN, Eric. Anamnese. 1.Ed. São Paulo: É Realizações, 2009.

Ordem e História: Platão e Aristóteles.1.Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

 

 

 

 

 

 

 

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