O Sofrimento no Mundo Animal, por Arthur Schopenhauer

Leão e Javali

“Nós veremos mais tarde, a partir de um alto ponto de vista, que é possível justificar os sofrimentos da humanidade. Mas esta justificação não pode ser aplicada aos animais, cujos sofrimentos, que em grande medida são trazidos pelo ser humano, são frequentemente consideráveis mesmo à parte de seu agente. E assim nós somos forçados a perguntar, por que e para qual propósito todo este tormento e agonia existem? Não há nada aqui para dar à vontade uma pausa; não é livre para negar a si mesma e assim obter a redenção. Há apenas uma consideração que pode servir para explicar o sofrimento dos animais. É a seguinte: que a vontade de viver, que fundamenta todo o mundo fenomênico, deve, em seu caso,satisfazer seus desejos alimentando-se de si mesma. Isto forma uma gradação do fenômeno, no qual todos existem ao custo de outro.”

Arthur Schopenhauer- Do sofrimento do mundo.

Evolucionismo, Criacionismo e a Filosofia

Darwin

Para permanecer humano, o homem deve transformar-se em super-humano!

Seyyed Hossein Nasr, Knowledge and the Sacred

Há muito que existe um debate acirrado entre o evolucionismo, o criacionismo, a Filosofia e o ensino. Evolucionistas e criacionistas debatem incessantemente para que o adversário seja excluído do currículo escolar, assim como o status “científico” do criacionismo. Por conseguinte, há um receio do avanço do obscurantismo, da presença da religião na escola e na universidade, etc. [Read more…]

A Doutrina dos Transcendentais de São Tomás de Aquino

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São Tomás escreveu na Suma Teológica sobre o conhecimento de Deus a partir das criaturas: ” Nosso intelecto é levado ao conhecimento de Deus a partir das criaturas. É preciso, pois, que considere Deus segundo o modo que assume a partir das criaturas. Ora, quando consideramos uma criatura, quatro coisas nos ocorrem sucessivamente: primeiro, considera-se a coisa em si mesma, e absolutamente, como um certo ente. Depois ela é considerada como una. Em seguida, considera-se o seu poder de agir e de causar; finalmente, considera-se segundo a relação que tem com os seus efeitos.”1

Ente: o existir é a atualização de qualquer forma ou natureza. Segundo São Tomás, a bondade e a humanidade só podem ser entendidas como existindo. Existir é referido à essência, que é distinta dele. Em Deus não existe potência e Sua essência não é diferente da Sua existência. O ente é o que se afirma das substâncias e secundariamente dos acidentes.2

Coisa: São Tomás escreve: “De onde a semelhança da coisa (res) visível é a forma segundo a qual a vista vê, e a semelhança da coisa conhecida, a saber, a espécie inteligível, é a forma segundo a qual o intelecto conhece.Sed quia intellectus supra seipsum reflectitur, secundum eandem reflexionem intelligit et suum intelligere, et speciem qua intelligit. Et sic species intellectiva secundario est id quod intelligitur. Sed id quod intelligitur primo, est res cuius species intelligibilis est similitudo.”Mais adiante ele diz: “A humanidade conhecida existe só em tal ou tal homem. Mas que a humanidade seja apreendida sem as condições individuais, no que está a abstração, da qual resulta a ideia universal, isso lhe acontece enquanto é percebida pelo intelecto, no qual se encontra a semelhança da natureza específica, e não a dos princípios individuais.” A humanidade é apreendida pelo intelecto em segundo lugar, mas a realidade corporal do homem é a coisa primeira da “qual a espécie inteligível é a semelhança.”3

Uno: O ser de qualquer coisa significa a indivisão para São Tomás, e conservar o ser é manter a unidade. Na Suma Teológica ele escreve: ” assim, o ente se divide em uno e múltiplo, uno absolutamente, e no múltiplo sob certo aspecto. Pois a própria multiplicidade não poderia estar compreendida no ente se, de certo modo, não estivesse contida no uno. Eis por que Dionísio escreve: não há multiplicidade que não participe do uno. Mas o que é multiplo pelas partes é uno pela totalidade, o que é múltiplo pelos acidentes é uno pelo sujeito; o que é múltiplo numericamente, é uno pela espécie; o que é múltiplo pela espécie é uno pelo gênero, e o que é múltiplo pelas sucessões é uno pelo princípio.”4

O Bem: o ente tem prioridade sobre o bem, segundo São Tomás. Está escrito no livro das causas que ” o Ser é a primeira das coisas criadas.” O bem é difusivo segundo Dionísio. O ente é bom e torna-se perfeito, segundo Aristóteles, quando pode produzir outro ser semelhante a si. O bem também tem razão de causa final.Para São Tomás, o objeto próprio da vontade é o fim, e se dizemos que Deus é bom, estamos nos referindo à causa final.5

Verdade: o bem é convertível ao ente, assim é o verdadeiro, que se encontra principalmente no intelecto. A verdade é a adequação do intelecto ao objeto, segundo a definição de Avicena reproduzida por São Tomás. Deus é a verdade porque seu ser é conforme seu intelecto. O não-ente e as privações não têm a verdade por si mesmos, mas apenas pela apreensão do intelecto.6

A Beleza: A beleza tem relação com as propriedades do Filho, pois ela requer três coisas: integridade, harmonia e esplendor. O Filho é a imagem expressa do Pai, pois tem Sua natureza, por isso tem integridade. Tem harmonia, pois convém à propriedade do Filho, de maneira que uma coisa é bela quando representa perfeitamente a coisa. Possui esplendor, pois o Verbo é a luz do intelecto.7

1 Suma Teológica, Q 39, artigo 8.

2 Ente e Essência.

3 Suma Teológica, Q 85, artigo 2

4 Suma Teológica, Q 11, artigo 1.

5 Suma Teológica, Q 5.

6 Suma Teológica, Q 16.

7 Suma Teológica, Q 39, artigo 8.

A Filosofia, a ideia de liberdade e o problema do Mal

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“Porque não devemos dizer que a liberdade de vontade obteve o poder que possui no universo para a destruição, mas para a salvação de quem a possui.”

Proclo Lício, o Sucessor

Abordar o tema da liberdade em filosofia é algo que exige uma reflexão que parece nunca ter fim. O livre-arbítrio humano, se ele existe ou não, se somos um sistema fechado ou aberto, se podemos recriar-nos ou se somos determinados, sempre forneceu material para abordagens maravilhosas como para sofismas abomináveis. Temos além disso a liberdade política, liberdade de religião, liberdade sexual, etc. É impossível mencionar todos esses temas sem incluir Teologia e religião no meio. Liberdade é algo que todos falam, mas poucos querem exercê-la, ou mesmo sabem como fazer isso. É necessário responsabilidade individual e uma poderosa metafísica por detrás para que a liberdade apareça. [Read more…]

Um Olhar Filosófico sobre a Dignidade do Homem

Existe um clima de ódio na sociedade brasileira e surgem várias tentativas de culpar pessoas ou determinadas ideologias políticas pelos nossos problemas. Qual é o caminho que o filósofo deve buscar para solucionar ao menos parcialmente alguns dos nossos desafios? A primeira coisa a ser feita é afirmar a doutrina cristã que o  homem é uma Imagem de Deus. Na doutrina católica, temos o ensinamento de São Tomás de Aquino sobre o Corpo Místico de Cristo. Tudo o que acontece com qualquer ser humano importa aos membros do Corpo Místico, nas palavras de Eric Voegelin. Algumas pessoas são membros do Corpo Místico pela fé, porém a maior parte da humanidade não é cristã, mas faz parte do Corpo Místico pela potencialidade. Isto vai contra a encíclica Mystici Corporis Christi de Pio XII que reduz os membros do Corpo Místico apenas aos católicos que recebem sacramentos. Este entendimento infeliz resultou em uma incapacidade geral dos membros do clero de agirem em favor dos judeus na Segunda Guerra.

Seguindo o pensamento de São Tomás, devemos afirmar que todos os homens são objeto de nossa consideração independente da religião. No fim da Idade Média outro filósofo defendeu a dignidade do homem. Este na filosofia de Nicolau de Cusa é um microcosmo, um pequeno mundo. No livro De Ludo Globi, Nicolau escreve:” o mundo é triplo: um pequeno mundo que é o homem; um mundo máximo que é Deus e um mundo amplo que é chamado de Universo. O pequeno mundo é parecido com o mundo mais amplo e este último é parecido com Deus.” Nicolau diz que Deus criou este mundo com base no Arquétipo da mente Divina1. A afirmação e a defesa do livre-arbítrio contra toda forma de Determinismo seja religioso, sociológico ou biológico é de fundamental importância. O reino de cada homem é livre, assim como o reino do Universo também é livre.2  Deus possui o poder Criativo , mas o ser humano possui uma capacidade de criar com sua mente, e isso abrange todas as coisas pelo poder conceitual3 . O Ser é algo bom, nobre e precioso.4 Tudo o que existe tem algumvalor5.

Em filosofia, deve-se evitar brechas para que a opressão e a negação da humanidade do próximo apareçam. Todos os filósofos que escreveram sobre este tema erraram de alguma maneira. Ideologias que justificam a falta de liberdade e negam o livre-arbítrio ao ser humano são as mais perigosas. A doutrina cristã de São Tomás afirma que todo o ser humano tem o potencial de se salvar tornando-se membro da Igreja pelo poder de Cristo e pelo uso do livre-arbítrio. É verdade que São Tomás afirma que existem aqueles que fazem parte voluntariamente do corpo da prostituta. O que é preciso ser feito é afirmar que o homem é a imagem de Deus e não justificar perseguições, discriminações e difamações, nem muito menos lamentarmos o fato de que o poder do Estado não pode ser usado por nós para consertar o mundo e perseguir os ímpios. Não podemos desesperar da salvação de ninguém. Nenhuma solução virá a partir do Estado, que não pode ser nunca um instrumento de “reforma moral” do planeta. Apesar de sugerir que membros da esquerda reconheçam a existência de pessoas que são voluntariamente más, nunca podemos parar de acreditar que os humanos de qualquer parte do mundo são potencialmente membros do Corpo Místico de Cristo. Não podemos afirmar a priori que ninguém está salvo ou condenado.

Muitos no Brasil parecem mergulhados em um frenesi de acusações em que cada uma das partes não tem razão. Todos estão comprometidos  com a afirmação do poder do Estado, de partidos políticos, de grupos financeiros, assim como com a defesa do poder do dinheiro, de organizações obscuras ou com a tentativa de justificar a miséria alheia sem apelar à caridade cristã. Todos querem poder político para calar a voz adversária. A solução possível é manter a crença de que todos tem o potencial de serem salvos e que nenhuma ação estatal pode ser tentada para aprimorar o que está de fato ou aparentemente errado. Usar a espada para adaptar o mundo às nossas crenças só pode resultar em banho de sangue. Afirmar que o homem é uma Imago Dei e que tudo o que acontece a todos os seres humanos importa para Deus é ser verdadeiramente cristão. Concluindo com as palavras de Voegelin, “existem tempos em que a ordem divinamente desejada só é realizada humanamente pela fé de sofredores solitários.”6

1 De Ludo Globi

2 Ibid

3 Ibid

4 Ibid

5 Ibid

6 Israel e a Revelação